Estudos sobre a histeria
















VOLUME II
(1893-1895)















Josef Breuer e Sigmund Freud
         NOTA DO EDITOR INGLS
         (James Strachey)
         
         (A)        BER DEN PSYCHISCHEN MECHANISMUS HYSTERISCHER PHNOMENE (VORLUFIGE MITTEILUNG)
         
         (a) EDIES ALEMES:
         
         1893        Neurol. Centralbl., 12 (1), 4-10 (Sees I-II), e 12 (2), 43-7 (Sees III-V). (1 e 15 de janeiro.)
         1893        Wien. med. Bltter, 16 (3), 33-5 (Sees I-II), e 16 (4), 49-51 (Sees III-V). (19 e 26 de janeiro.)
         1895, etc. Em Studien ber Hysterie. (Ver adiante.)
         1906        S.K.S.N., I, 14-29. (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)

           (b)          TRADUES INGLESAS:
         "The Psychic Mechanism of Hysterical Phenomena
         (Preliminary Communication)"

         1909        S.P.H., 1-13. (Trad. A. A. Brill.) (1912, 2. ed., 1920, 3 ed.)
         1936        Em Studies in Hysteria. (Ver adiante.)
         "On the Psychical Mechanism of Hysterical Phenomena"
         1924        C.P., 1, 24-41. (Trad. J. Rickman.)

         (B) STUDIEN BER HYSTERIE

         (a)        EDIES ALEMS:

         1895        Leipzig e Viena: Deuticke. Pgs. v + 269.
         1909        2 ed. Mesmos editores. (Sem modificaes, mas com novo prefcio.)        Pgs. vii + 269.
         1916        3 ed. Mesmos editores. (Sem modificaes.) Pgs. vii + 269
         1922        4 ed. Mesmos editores. (Sem modificaes.) Pgs. vii + 269.
         1925        G.S., 1, 3-238. (Com omisso das contribuies de Breuer; com notas        de rodap adicionais de Freud.)
         1952        G.W., 1, 77-312. (Reimpresso de 1925.)

         (b)        TRADUES INGLESAS:
         Studies in Hysteria
         
         1909        S.P.H., 1-120. (1912, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.) (Trad. A. A. Brill.) (Somente em parte: com omisso dos casos         clnicos da 
Srta. Anna O., Sra. Emmy von N. e Katharina, bem         como do captulo terico de Breuer.)
         1936        New York: Nervous and Mental Disease Publishing. Co. (Monograph Series n 61.) Pgs. ix + 241. (Trad. A. A. Brill.)
         (Completo, salvo quanto  omisso das notas de rodap         adicionais de Freud, de 1925.)
         
         A traduo inglesa, inteiramente nova e completa, de James e Alix Strachey, inclui as contribuies de Breuer, mas quanto ao resto baseia-se na edio alem 
de 1925, contendo as notas de rodap adicionais de Freud. A omisso das contribuies de Breuer das duas coletneas alems (G.S. e G.W.) acarretou algumas modificaes 
necessrias e notas de rodap adicionais, onde Freud tinha feito referncia, na edio original, s partes omitidas. Nessas edies completas, tambm a numerao 
dos casos clnicos foi alterada, em vista da ausncia do caso clnico de Anna O. Todas essas alteraes foram abandonadas na presente traduo. - Os extratos da 
"Comunicao Preliminar" e do volume principal tinham sido includos por Freud em sua primeira coletnea de extratos de seus prprios trabalhos (1897b, ns XXIV 
e XXXI).
         
         (1)
         ALGUMAS NOTAS HISTRICAS SOBRE OS ESTUDOS
         
         Conhecemos a histria da redao deste livro com algum detalhe.
         O tratamento da Srta. Anna O. por Breuer, no qual se baseou toda a obra, ocorreu entre 1880 e 1882. Naquela ocasio, Josef Breuer (1842-1925) j gozava 
de alta reputao em Viena, tanto como mdico com grande clnica, como por realizaes cientficas, enquanto Sigmund Freud (1856-1939) apenas acabara de formar-se 
em medicina. Os dois, contudo, j eram amigos h vrios anos. O tratamento terminou no incio de junho de 1882, e em novembro Breuer relatou a notvel histria a 
Freud, que (embora, naquela poca, tivesse seus principais interesses concentrados na anatomia do sistema nervoso) ficou muito impressionado com ela. Tanto assim 
que quando, cerca de trs anos depois, estava estudando em Paris sob a orientao de Charcot, deu-lhe conhecimento do caso. "Mas o grande homem no mostrou nenhum 
interesse por meu primeiro esboo do assunto, de modo que jamais voltei ao tema e deixei que sasse de minha mente." (Um Estudo Autobiogrfico - 1925d, Captulo 
II.)
         Os estudos de Freud sob a orientao de Charcot tinham-se concentrado, em grande parte, na histeria, e quando Freud voltou a Viena em 1886 e ali se fixou 
para estabelecer uma clnica de doenas nervosas, a histeria forneceu uma grande proporo de sua clientela. De incio, ele se baseou nos mtodos de tratamento ento 
correntemente recomendados, como a hidroterapia, a eletroterapia, massagens e a cura pelo repouso, de Weir Mitchell. Mas quando esses mtodos se revelaram insatisfatrios, 
seus pensamentos se voltaram para outra rea. "Nessas ltimas semanas", escreve ele a seu amigo Fliess em 28 de dezembro de 1887, "atirei-me  hipnose e logrei toda 
espcie de sucessos pequeninos, mas dignos de nota" (Freud, 1950a, Carta 2). E nos deu uma descrio pormenorizada de um desses tratamentos bem-sucedidos (1892-3b). 
Mas o caso de Anna O. ainda estava em sua mente, e "desde o incio", conta-nos ele (1925d), "vali-me da hipnose de outra maneira, independentemente da sugesto hipntica". 
Essa "outra maneira" foi o mtodo catrtico, que constitui o tema do presente volume.
         O caso da Sra. Emmy von N. foi o primeiro, como sabemos por Freud (ver em. [1] e [2]), que ele tratou pelo mtodo catrtico. Numa nota de rodap acrescentada 
ao livro em 1925, ele explica melhor essa observao e diz que esse foi o primeiro caso em que utilizou esse mtodo "extensivamente" (ver em [1]); e  verdade que, 
nessa fase inicial, ele vinha constantemente empregando a hipnose na forma convencional - para dar sugestes teraputicas diretas. Mais ou menos na mesma poca, 
de fato, seu interesse pela sugesto hipntica era acentuado o bastante para lev-lo a traduzir um dos livros de Bernheim em 1888 e outro em 1892, bem como a fazer 
uma visita de algumas semanas s clnicas de Libeault e Bernheim em Nancy, no vero de 1889. A intensidade com que ele estava utilizando a sugesto teraputica 
no caso da Sra. Emmy  indicada de maneira bem ntida no seu relato cotidiano das duas ou trs primeiras semanas do tratamento, reproduzido por ele a partir das 
"anotaes que fiz todas as noites" (ver em [1]). No podemos, infelizmente, ter certeza de quando ele iniciou esse caso (ver Apndice A, em [1]); foi em maio de 
1888 ou 1889 - isto , cerca de quatro ou cerca de dezesseis meses depois de ele haver pela primeira vez "adotado a hipnotismo". O tratamento terminou um ano depois, 
no vero de 1889 ou 1890. Numa ou noutra alternativa, h um considervel hiato antes da data do caso clnico seguinte (em ordem cronolgica, embora no em ordem 
de apresentao). Esse foi o caso da Srta. Elisabeth von R., que teve incio no outono de 1892 (ver em. [1]) e que Freud descreve como sua "primeira anlise integral 
de uma histeria" ( ver em [1]). Foi logo seguido pelo de Miss Lucy R., que comeou no fim do mesmo ano (ver em [1]). No se atribui nenhuma data ao caso restante, 
o de Katharina (ver.em [1]). Mas, no intervalo entre 1889 e 1892, Freud por certo teve experincia com outros casos. Em particular, houve o da Srta. Ccilie M., 
a quem ele "veio a conhecer de forma muito mais completa do que qualquer das outras pacientes mencionadas nestes estudos" (ver em [1]), mas cujo caso no pde ser 
descrito em detalhes em virtude de "consideraes pessoais". Contudo, ela  freqentemente mencionada por Freud, bem como por Breuer, no decorrer do volume, e sabemos 
(ver em [1]) por Freud que "foi o estudo desse caso notvel, feito em conjunto com Breuer, que levou diretamente  publicao de nossa 'Comunicao Preliminar'". 
[1]
         
         O rascunho daquele memorvel artigo (que compe a primeira seo do presente volume) se iniciara em junho de 1892. Uma carta a Fliess, de 28 de junho (Freud, 
1950a, Carta 9), anuncia que "Breuer concordou em que a teoria da ab-reao e os outros resultados sobre a histeria a que chegamos em conjunto tambm sejam apresentados 
conjuntamente numa publicao pormenorizada". "Uma parte dela", prossegue, "que, a princpio, eu queria escrever sozinho, est concluda". Evidentemente, a essa 
parte "concluda" do artigo faz nova referncia numa carta a Breuer escrita no dia seguinte, 29 de junho de 1892 (Freud, 1941a): "A inocente satisfao que senti 
quando lhe entreguei aquelas poucas pginas minhas deu margem a (...) inquietao." Essa carta prossegue fornecendo um resumo muito condensado do contedo proposto 
do artigo. A seguir, temos uma nota de rodap acrescentada por Freud a sua traduo de um volume das Leons du Mardi, de Charcot (Freud, 1892-94, 107), que apresenta, 
em trs curtos pargrafos, um resumo da tese da "Comunicao Preliminar" e se refere a ele como estando "comeado". Alm disso, dois rascunhos bem mais elaborados 
chegaram at ns. O primeiro (Freud, 1940d) deles (escrito com a caligrafia de Freud, embora se afirme ter sido escrito em conjunto com Breuer) est datado de "Final 
de novembro de 1892". Versa sobre ataques histricos e a maior parte de seu contedo foi includa, embora com palavras diferentes, na Seo IV da "Comunicao Preliminar" 
(ver em [1]). Entretanto, um importante pargrafo relacionado com o "princpio da constncia" foi inexplicavelmente omitido, e nesse volume o tema  tratado apenas 
por Breuer, na parte final da obra (ver em [1] e [2].). Por fim, h um memorando (Freud, 1941b) com o ttulo "III", que no tem data. Examina os "estados hipnides" 
e a dissociao histrica, estando estreitamente relacionado com a Seo III do artigo publicado (ver em [1]).
         Em 18 de dezembro de 1892, Freud escreveu a Fliess (1950a, Carta11): "Apraz-me poder dizer-lhe que nossa teoria sobre a histeria (reminiscncia, ab-reao, 
etc.) vai aparecer no Neurologisches Centralblatt no dia 1 de janeiro de 1893, sob a forma de uma comunicao preliminar pormenorizada. Custou-me longa batalha 
com meu colaborador." O artigo, datado de "dezembro de 1892", foi na realidade publicado em dois nmeros do peridico: as duas primeiras sees em 1 de janeiro, 
e as trs restantes em 15 de janeiro. O Neurologisches Centralblatt (que saa quinzenalmente) era publicado em Berlim; e a "Comunicao Preliminar" foi quase imediatamente 
reimpressa na ntegra em Viena, nas Wiener medizinische Bltter (em 19 e 26 de janeiro). Em 11 de janeiro, quando apenas metade do artigo fora publicada, Freud pronunciou 
uma conferncia sobre o tema no Wiener medizinischer Club. A transcrio taquigrfica completa da conferncia, "revista pelo conferencista", apareceu no Wiener medizinische 
Presse em 22 e 29 de janeiro (34, 122-6 e 165-7). A conferncia (Freud, 1893h) abrangia aproximadamente o mesmo tema que o artigo, mas tratava o material de forma 
bem diferente e de maneira muito menos formal.
         A publicao do artigo parece ter surtido pouco efeito visvel em Viena ou na Alemanha. Na Frana, por outro lado, como relata Freud a Fliess numa carta 
de 10 de julho de 1893 (1950a, Carta 13), o trabalho foi favoravelmente notado por Janet, cuja resistncia s idias de Freud s surgiria mais tarde. Janet incluiu 
uma nota longa e altamente elogiosa sobre a "Comunicao Preliminar" num artigo sobre "Algumas Definies Recentes da Histeria", publicado nos Archives de Neurologie 
em junho e julho de 1893. Utilizou esse artigo como captulo final de seu livro L'tat Mental des Hystriques, publicado em 1894. Mais inesperado, talvez,  o fato 
de que em abril de 1893 - apenas trs meses aps a publicao da "Comunicao Preliminar" - um relato razoavelmente completo da mesma foi apresentado por F. W. H. 
Myers numa reunio geral da Society for Psychical Research, em Londres, tendo sido impresso em sua Ata (Proceedings) no ms de junho seguinte. A "Comunicao Preliminar" 
tambm foi totalmente resumida e examinada por Michell Clarke em Brain (1894, 125). A reao mais surpreendente e inexplicvel, porm, foi a publicao, em fevereiro 
e maro de 1893, de uma traduo completa da "Comunicao Preliminar" para o espanhol, na Gazeta Mdica de Granada (11, 105-11 e 129-35).
         
         A tarefa seguinte dos autores foi a preparao do material dos casos clnicos e, j em 7 de fevereiro de 1894, Freud referiu-se ao livro como"semi-acabado: 
o que resta a fazer  apenas uma pequena parte dos casos clnicos e dois captulos gerais". Num trecho no publicado da carta de 21 de maio, ele menciona que est 
justamente escrevendo o ltimo caso clnico, e em 22 de junho (1950a, Carta 19) apresenta uma lista do que o "livro com Breuer" ir conter: "cinco casos clnicos, 
um ensaio da autoria dele, com o qual no tenho absolutamente nada a ver, sobre as teorias da histeria (resumo e crtica), e um meu sobre terapia, que ainda no 
comecei". Depois disso,  bvio que houve uma paralisao, pois s em 4 de maro de 1895 (ibid., Carta 22)  que ele escreve dizendo estar "trabalhando apressadamente 
no ensaio sobre a terapia da histeria", concludo em 13 de maro (carta no publicada). Em outra carta no publicada, de 10 de abril, Freud envia a Fliess a segunda 
metade das provas tipogrficas do livro, e no dia seguinte lhe diz que este sair em trs semanas.
         Os Estudos sobre a Histeria parecem ter sido publicados, como se esperava, em maio de 1895, embora a data exata no seja indicada. O livro foi recebido 
desfavoravelmente nos crculos mdicos alemes; recebeu, por exemplo, forte crtica de Adolf von Strmpell, o conhecido neurologista (Deutsch. Z. Nervenheilk., 1896, 
159). Por outro lado, um escritor no-mdico, Alfred von Berger, mais tarde diretor do Burgtheater de Viena, sobre ele se expressou com apreo no Neue Freie Presse 
(2 de fevereiro de 1896). Na Inglaterra, o livro foi alvo de longa e favorvel nota de Mitchell Clarke em Brain (1896, 401) e mais uma vez Myers mostrou seu interesse 
pela obra numa palestra de considervel extenso, originariamente proferida em maro de 1897, que acabou sendo includa em seu Human Personality (1903).
         Decorreram mais de dez anos antes que houvesse um pedido de segunda edio do livro, e j nessa poca os caminhos de seus dois autores se haviam separado. 
Em maio de 1906 Breuer escreveu a Freud concordando com uma reimpresso, mas houve certa discusso para determinar se seria desejvel um novo prefcio em conjunto. 
Seguiram-se outras delongas e, no final, como se ver mais adiante, foram escritos dois prefcios separados. Estes trazem a data de julho de 1908, embora a segunda 
edio s fosse realmente publicada em 1909. O texto continuou inalterado nessa e nas edies posteriores do livro. Mas, em 1924, Freud escreveu algumas notas de 
rodap adicionais para o volume de suas obras completas que continha sua parte dos Estudos (publicado em 1925) e fez uma ou duas pequenas modificaes no texto.
         
         (2)
         
          A RELAO DOS ESTUDOS COM A PSICANLISE
         
         Os Estudos sobre a Histeria costumam ser considerados como o ponto de partida da psicanlise. Vale a pena considerar brevemente se essa afirmao  verdadeira, 
e em que sentido. Para os objetivos dessa discusso, a questo das parcelas do trabalho atribuveis aos dois autores ser posta de lado, para considerao posterior, 
e o livro ser tratado como um todo. A investigao sobre a relao dos Estudos com o desenvolvimento subseqente da psicanlise pode ser dividida, por convenincia, 
em duas partes, embora tal separao seja necessariamente artificial. At que ponto e de que maneira os procedimentos tcnicos descritos nos Estudos e as descobertas 
clnicas a que conduziram prepararam o terreno para a prtica da psicanlise? Em que medida os pontos de vista tericos aqui propostos foram aceitos nas doutrinas 
posteriores de Freud?
         Raras vezes se aprecia suficientemente o fato de que a mais importante das realizaes de Freud talvez tenha sido sua inveno do primeiro instrumento para 
o exame cientfico da mente humana. Um dos principais atrativos do presente volume  que ele nos permite rastrear os primeiros passos do desenvolvimento desse instrumento. 
O que ele nos relata no  simplesmente a histria da superao de uma srie de obstculos;  a histria da descoberta de uma srie de obstculos a serem superados. 
A prpria paciente de Breuer, Anna O., demonstrou e superou o primeiro desses obstculos - a amnsia caracterstica dos pacientes histricos. Quando a existncia 
dessa amnsia foi trazida  luz, seguiu-se de imediato a compreenso de que a mente manifesta do paciente no  a mente em sua totalidade, havendo por trs uma mente 
inconsciente (ver em [1]). Tornou-se assim patente, desde o incio, que o problema no era meramente a investigao dos processos mentais conscientes, para a qual 
bastariam os mtodos corriqueiros de indagao empregados na vida cotidiana. Se havia tambm processos mentais inconscientes, era claramente necessrio algum instrumento 
especial. O instrumento bvio para esse fim era a sugesto hipntica - a sugesto hipntica utilizada no para finalidades diretamente teraputicas, mas para persuadir 
o paciente a produzir material proveniente da regio inconsciente da mente. Com Anna O. apenas um ligeiro uso desse instrumento se afigurou necessrio. Ela produzia 
torrentes de material vindo de seu "inconsciente", e tudo o que Breuer tinha de fazer era ficar sentado e ouvi-las sem interromp-la. Mas isso no era to fcil 
como parece, e o caso clnico da Sra. Emmy revela em muitos pontos como foi difcil para Freud adaptar-se a esse novo uso da sugesto hipntica e ouvir tudo o que 
a paciente tinha a dizer, sem qualquer tentativa de interferir ou de lev-la a encurtar o relato (por exemplo em [1] e [2]). Nem todos os pacientes histricos alm 
disso eram to dceis quanto Anna O.; a hipnose profunda em que ela caa, aparentemente por sua prpria vontade, no era to prontamente alcanada com qualquer um. 
E aqui surgia outro obstculo: conta-nos Freud que ele estava longe de ser adepto do hipnotismo. Neste livro (por exemplo em [1]), ele nos fornece vrios relatos 
de como contornava essa dificuldade, de como pouco a pouco foi abandonando suas tentativas de provocar a hipnose e se contentava em levar os pacientes a um estado 
de "concentrao", com o uso ocasional da presso na testa. Mas foi o abandono do hipnotismo que ampliou ainda mais sua compreenso dos processos mentais. Esse abandono 
revelou a presena de mais um obstculo - a "resistncia" dos pacientes ao tratamento (ver em [1] e [2]), sua relutncia em cooperarem na prpria cura. Como se deveria 
lidar com essa relutncia? Deveria ser suprimida com gritos ou afastada pela sugesto? Ou deveria, como outros fenmenos mentais, ser simplesmente investigada? A 
opo de Freud por esse segundo caminho levou-o diretamente ao mundo desconhecido que iria passar a vida inteira explorando.
         Nos anos que se seguiram aos Estudos, Freud abandonou cada vez mais a tcnica da sugesto deliberada | ver em [1]| e passou cada vez mais a confiar no fluxo 
de "associaes livres" do paciente. Estava aberto o caminho para a anlise dos sonhos. Essa anlise permitiu-lhe, em primeiro lugar, obter uma compreenso do funcionamento 
do "processo primrio" na mente e das formas pelas quais ele influenciava os produtos de nossos pensamentos mais acessveis, e assim Freud adquiriu um novo recurso 
tcnico - o da "interpretao". Mas a anlise dos sonhos possibilitou, em segundo lugar, sua prpria auto-anlise e suas conseqentes descobertas da sexualidade 
infantil e do complexo de dipo. Todas essas questes, porm, salvo por alguns leves indcios, ainda estavam por surgir. No entanto, nas ltimas pginas deste volume, 
Freud j se havia defrontado com outro obstculo no caminho do pesquisador - a "transferncia" (ver em [1]). J tivera um vislumbre de sua impressionante natureza, 
e talvez j tivesse comeando a reconhecer que ela iria revelar-se no s um obstculo como tambm mais um instrumento fundamental da tcnica psicanaltica.
          primeira vista, a principal posio terica adotada pelos autores da "Comunicao Preliminar" parece simples. Eles sustentam que, no curso normal das 
coisas, se uma experincia for acompanhada de uma grande dose de "afeto", esse afeto  "descarregado" numa variedade de atos reflexos conscientes, ou ento vai-se 
desgastando gradativamente pela associao com outros materiais mentais conscientes. No caso dos pacientes histricos, por outro lado (por motivos que logo mencionaremos), 
nenhuma dessas coisas acontece. O afeto permanece num estado "estrangulado", e a lembrana da experincia a que est ligado  isolada da conscincia. A partir da, 
a lembrana afetiva se manifesta em sintomas histricos, que podem ser considerados como "smbolos mnmicos" - vale dizer, como smbolos da lembrana suprimida (ver 
em [1]-[2]). Sugerem-se duas razes principais para explicar a ocorrncia desse resultado patolgico. Uma delas  que a experincia original ocorreu enquanto o indivduo 
se encontrava num particular estado de dissociao mental, descrito como "hipnide"; a outra  que o "ego" do indivduo considerou essa experincia como sendo "incompatvel" 
com ele prprio e, portanto, ela teve de ser "rechaada". Em ambos os casos, a eficcia teraputica do mtodo "catrtico"  explicada com base nos mesmos fundamentos: 
se a experincia original, juntamente com seu afeto, puder ser introduzida na conscincia, o afeto  por si mesmo descarregado ou "ab-reagido", a fora que at ento 
manteve o sintoma deixa de atuar, e o prprio sintoma desaparece.
         Tudo isso parece muito claro, mas uma pequena reflexo mostra que restam ainda muitas coisas por explicar. Por que um afeto precisa ser "descarregado"? 
E por que so to terrveis as conseqncias de ele no ser descarregado? Esses problemas subjacentes no so considerados de modo algum na "Comunicao Preliminar", 
embora a eles se fizesse uma breve aluso em dois dos rascunhos postumamente publicados (1941a e 1940d) e j existisse uma hiptese para explic-los. Curiosamente, 
na verdade essa hiptese foi formulada por Freud em sua conferncia de 11 de janeiro de 1893 (veja em [1]), apesar de ter sido omitida na prpria "Comunicao Preliminar". 
Ele aludiu de novo a essa hiptese nos dois ltimos pargrafos do seu primeiro artigo sobre "As Neuropsicoses de Defesa" (1894a), onde declara especificamente que 
ela fundamentava a teoria da ab-reao na "Comunicao Preliminar" de um ano antes. Mas essa hiptese bsica foi formalmente enunciada e designada pela primeira 
vez em 1895, na segunda parte da contribuio de Breuer ao presente volume (ver em [1]).  curioso que esta, a mais fundamental das teorias de Freud, tenha sido 
integralmente examinada, pela primeira vez, por Breuer (se bem que, de fato, atribuda por ele a Freud), e que o prprio Freud, embora retornasse vez por outra a 
seu tema (como nas primeiras pginas de seu artigo sobre "As Pulses e suas Vicissitudes", 1915c), no a mencionasse explicitamente at escrever Alm do Princpio 
do Prazer (1920g). Freud, como sabemos agora, referiu-se a essa hiptese pelo nome numa comunicao de data incerta a Fliess, possivelmente 1894 (Rascunho D, 1950a), 
e examinou-a na ntegra, embora sob outro nome (veja adiante, ver em [1]), no "Projeto para uma Psicologia Cientfica", que escreveu alguns meses aps a publicao 
dos Estudos. Mas s cinqenta e cinco anos depois (1950a)  que o Rascunho D e o "Projeto" foram publicados.
         O "princpio da constncia" (pois esta foi a denominao dada  hiptese) pode ser definido nos termos empregados pelo prprio Freud em Alm do Princpio 
do Prazer: "O aparelho mental esfora-se por manter a quantidade de excitao nele presente em um nvel to baixo quanto possvel, ou pelo menos por mant-la constante" 
(Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, em [1], 1 edio, Imago). Breuer o enuncia mais adiante, neste livro (ver em [1]), em termos muito semelhantes, mas com 
uma inclinao neurolgica, como "uma tendncia a manter constante a excitao intracerebral". Em sua discusso em [1] e segs., argumenta ele que os afetos devem 
sua importncia na etiologia da histeria ao fato de serem acompanhados pela produo de grandes quantidades de excitao, e de estas, por sua vez, exigirem uma descarga, 
de acordo com o princpio da constncia. De modo semelhante, tambm as experincias traumticas devem sua fora patognica ao fato de produzirem quantidades de excitao 
grandes demais para serem tratadas da maneira normal. Assim, a posio terica essencial subjacente aos Estudos  que a necessidade clnica da ab-reao do afeto 
e os resultados patognicos que surgem quando ele fica estrangulado so explicados pela tendncia muito mais geral (expressa no princpio da constncia) a manter 
constante a quantidade de excitao.
         Tem-se pensado com freqncia que os autores dos Estudos atribuam os fenmenos da histeria apenas aos traumas e s lembranas inextirpveis deles, e que 
s mais tarde  que Freud, depois de deslocar a nfase dos traumas infantis para as fantasias infantis, chegou a sua momentosa concepo "dinmica" dos processos 
da mente. Ver-se-, contudo, pelo que acaba de ser dito, que uma hiptese dinmica sob a forma do princpio da constncia j estava subjacente  teoria do trauma 
e da ab-reao. E quando chegou o momento de ampliar os horizontes e atribuir uma importncia muito maior s pulses, em contraste com a experincia, no houve necessidade 
de modificar a hiptese bsica. Na realidade, Breuer j ressalta o papel desempenhado pelas "principais necessidades e pulses fisiolgicas do organismo" na gnese 
dos aumentos de excitao que exigem descarga (ver em [1]), e frisa a importncia da "pulso sexual" como "a fonte mais poderosa dos acmulos sistemticos de excitao 
(e, conseqentemente, de neuroses)" (ver em [1]). Alm disso, toda a noo de conflito e do recalcamento das idias incompatveis  explicitamente baseada no ocorrncia 
dos aumentos desagradveis de excitao. Isso conduz  considerao adicional de que, como salienta Freud em Alm do Princpio do Prazer (Edio Standard Brasileira, 
1 edio, Vol. XVIII, ver em [1]), o prprio "princpio do prazer" est estreitamente vinculado ao princpio da constncia. Ele chega mesmo a ir mais adiante e 
declarar (ibid., 83) que o princpio do prazer " uma tendncia que atua a servio de uma funo cuja tarefa  libertar inteiramente da excitao o aparelho mental, 
ou manter constncia o nvel de excitao dentro dele, ou mant-lo to baixo quanto possvel". O carter "conservador" que Freud atribui s pulses em seus trabalhos 
posteriores, assim como a "compulso  repetio", tambm so vistos no mesmo trecho como manifestaes do princpio da constncia; e fica claro que a hiptese em 
que se basearam esses primeiros Estudos sobre a Histeria ainda continuava a ser considerada fundamental por Freud em suas ltimas especulaes.
         
         
         
         
         
         (3)
         AS DIVERGNCIAS ENTRE OS DOIS AUTORES
         
         No estamos interessados aqui nas relaes pessoais entre Breuer e Freud, descritas com detalhes no primeiro volume da biografia escrita por Ernest Jones, 
mas  interessante examinarmos brevemente suas divergncias cientficas. A existncia de tais divergncias foi abertamente mencionada no prefcio  primeira edio 
e muitas vezes falou-se nelas com exagero nas publicaes posteriores de Freud. Mas no prprio livro, por estranho que parea, elas esto longe de ganhar preeminncia 
e, muito embora a "Comunicao Preliminar" seja a nica parte do livro de autoria explicitamente conjunta, no  fcil determinar com certeza de quem  a responsabilidade 
pela origem dos vrios elementos componentes do trabalho como um todo.
         Sem dvida, podemos com segurana atribuir a Freud os desenvolvimentos tcnicos posteriores, bem como os conceitos tericos vitais de resistncia, defesa 
e recalcamento que decorreram deles.  fcil ver pelo relato apresentado em [1] como esses conceitos decorreram da substituio da hipnose pela tcnica da "presso". 
O prprio Freud, em sua "Histria do Movimento Psicanaltico" (1914d), declara que "a teoria do recalcamento  a pedra angular em que repousa toda a estrutura da 
psicanlise", e d a mesma explicao aqui apresentada sobre a maneira como se chegou a ela. Afirma tambm sua crena de ter chegado de forma independente a essa 
teoria, e a histria da descoberta confirma amplamente essa crena. No mesmo trecho, Freud observa que uma sugesto da idia do recalcamento encontra-se em Schopenhauer 
(1844), cujas obras, contudo, ele s veio a ler em idade avanada; e h pouco tempo se ressaltou que a palavra "Verdrngung" ("recalcamento") ocorre nos escritos 
do psiclogo Herbart (1824), do incio do sculo XIX, cujas idias tiveram grande influncia sobre numerosas pessoas que faziam parte do crculo de Freud, em particular 
seu professor imediato de psiquiatria, Meynert. Mas nenhuma dessas sugestes diminui de modo significativo a originalidade da teoria de Freud, com sua base emprica, 
que encontrou sua primeira expresso na "Comunicao Preliminar" (ver em [1]-[2]).
         Em contraposio a isso, no h nenhuma dvida de que Breuer deu origem  noo dos "estados hipnides", ponto a que voltaremos dentro em breve, e parece 
possvel que tenha sido responsvel pelos termos "catarse" e "ab-reao".
         Todavia, muitas das concluses tericas dos Estudos devem ter sido produto de discusses entre os dois autores durante seus anos de colaborao, e o prprio 
Breuer comenta (ver em [1]-[2]) sobre a dificuldade de determinar a prioridade em tais casos. Afora a influncia de Charcot, sobre a qual Freud jamais deixou de 
insistir, deve-se tambm recordar que tanto Breuer como Freud eram basicamente fiis  escola de Helmholz, da qual um professor deles, Ernst Brcke, foi membro preeminente. 
Grande parte da teoria subjacente aos Estudos sobre a Histeria deriva da doutrina daquela escola, teoria que diz serem todos os fenmenos naturais, em ltima anlise, 
explicveis em funo de foras fsicas e qumicas.
         
         J vimos (em [1]) que, embora Breuer fosse o primeiro a mencionar o "princpio da constncia" pelo nome, ele atribuiu essa hiptese a Freud. De modo semelhante, 
ele ligou o nome de Freud ao termo "converso", mas (como ser explicado mais adiante, em [1]), o prprio Freud declarou que isso se aplicava apenas  palavra e 
que se chegou em conjunto ao conceito.
         
         Por outro lado, h um grande nmero de conceitos muito importantes que parecem ser corretamente atribuveis a Breuer: a idia de a alucinao ser uma "retrogresso" 
das imagens mentais para a percepo (ver em [1]), a tese de que as funes da percepo e da memria no podem ser realizadas pelo mesmo aparelho (ver em [1]), 
e, finalmente, causando grande surpresa, a distino entre a energia psquica ligada (tnica) e a no-ligada (mvel) e a distino correlata entre os processos psquicos 
primrio e secundrio (ver em [1]).
         O emprego do termo "Besetzung" ("catexia"), que aparece pela primeira vez em [1]-[2] com o sentido que iria tornar-se to familiar na teoria psicanaltica, 
provavelmente deve ser atribudo a Freud. Como  natural, a idia de todo o aparelho mental, ou parte dele, transportar uma carga de energia  pressuposta pelo princpio 
da constncia. E embora o termo real que iria transformar-se no padro fosse empregado pela primeira vez neste volume, a idia fora antes expressa por Freud sob 
outras formas. Assim, encontramo-lo utilizando expresses tais como "mit Energie ausgestattet" ("suprido de energia") (1895b), "mit einer Erregungssumme behaftet 
("carregado de uma soma de excitao") (1894a), "munie d'une valeur affective" ("provido de uma cota de afeto") (1893c), "Verschiebungen von Erregungs summen" ("deslocamentos 
de somas de excitao") (1941a |1892|) e, j no prefcio a sua primeira traduo de Bernheim (1888-9) "Verschiebungen von Erregbarkeit im Nervensystem" (deslocamentos 
de excitabilidade no sistema nervoso").
         Esta ltima citao, porm, constitui um lembrete de algo de grande importncia que pode muito facilmente ser desprezado. No h dvida alguma de que, na 
poca da publicao dos Estudos, Freud considerava o termo "catexia" como puramente fisiolgico. Isso  comprovado pela definio do termo dada por ele na Parte 
I, Seo 2, de seu "Projeto para uma Psicologia Cientfica", com o qual sua mente j estava ocupada (como se verifica nas cartas a Fliess) e que foi escrito apenas 
alguns meses depois. Ali, aps fornecer uma explicao sobre uma entidade neurolgica recm-descoberta, o "neurnio", prossegue ele: "Se combinarmos esta descrio 
dos neurnios com uma abordagem nos moldes da teoria da quantidade, chegaremos  idia de uma neurnio 'catexizado', cheio de certa quantidade, embora em outras 
ocasies possa estar vazio." A propenso neurolgica das teorias de Freud nesse perodo  indicada ainda pela forma como o princpio da constncia  enunciado no 
mesmo trecho do "Projeto". Recebe a designao de "o princpio da inrcia neuronal" e  definido como indicativo de "que os neurnios tendem a desembaraar-se da 
quantidade". Revela-se assim um notvel paradoxo. Breuer, como veremos adiante (ver em [1]), declara sua inteno de tratar o assunto da histeria em moldes puramente 
psicolgicos: "No que se segue, pouca meno ser feita ao crebro e absolutamente nenhuma s molculas. Os processos psquicos sero tratados na linguagem da psicologia." 
Na verdade, porm, seu captulo terico versa basicamente sobre as "excitaes intracerebrais" e sobre paralelos entre o sistema nervoso e as instalaes eltricas. 
Por outro lado, Freud dedicava todas as suas energias a explicar os fenmenos mentais em termos fisiolgicos e qumicos. No obstante, como ele prprio confessa 
com pesar (ver em [1]), seus casos clnicos tm a forma de contos e suas anlises so psicolgicas.
         A verdade  que, em 1895, Freud encontrava-se a meio caminho no processo de passar das explicaes fisiolgicas dos estados psicopatolgicos para as explicaes 
psicolgicas. Por um lado, propunha o que era, em linhas gerais, uma explicao qumica das neuroses "atuais" - neurastenia e neurose de angstia - (em seus dois 
artigos sobre neurose de angstia, 1895b e 1895f), e, por outro, propunha uma explicao essencialmente psicolgica - em termos de "defesa" e "recalcamento" - para 
a histeria e as obsesses (em seus dois artigos sobre "As Neuropsicoses de Defesa", 1894a e 1896b). Sua formao anterior e sua carreira como neurologista levavam-no 
a resistir  aceitao das explicaes psicolgicas como definitivas; e ele estava empenhado em elaborar uma estrutura complexa de hipteses destinadas a possibilitar 
a descrio dos eventos mentais em termos puramente neurolgicos. Essa tentativa culminou no "Projeto" e foi abandonada no muito depois. At o fim da vida, porm, 
Freud continuou adepto da etiologia qumica das neuroses "atuais" e a acreditar que se acabaria encontrando uma base fsica para todos os fenmenos mentais. Entrementes, 
ele chegou pouco a pouco ao ponto de vista expresso por Breuer de que os processos psquicos s podem ser tratados na linguagem da psicologia.  Foi s em 1905 (em 
seu livro sobre o chiste, Captulo V) que ele pela primeira vez repudiou de forma explcita qualquer inteno de empregar o termo "catexia" em algum sentido que 
no fosse o psicolgico e abandonou todas as tentativas de relacionar os tratos nervosos ou os neurnios com as vias de associao mental.
         
         Quais eram, porm, as divergncias cientficas essenciais entre Breuer e Freud? Em seu Estudo Autobiogrfico (1925d) Freud afirma que a primeira delas relacionava-se 
com a etiologia da histeria e poderia ser descrita como "os estados hipnides versus as neuroses de defesa". Mais uma vez, no entanto, aqui mesmo neste volume, o 
problema  menos ntido. Na "Comunicao Preliminar" elaborada em conjunto, ambas as etiologias so aceitas (ver em [1]). Breuer, em seu captulo terico, evidentemente 
d maior nfase aos estados hipnides (ver em [1]), mas tambm acentua a importncia da "defesa" (ver em [1] e [2]), embora de modo pouco entusistico. Freud parece 
aceitar a noo dos "estados hipnides" no caso clnico de "Katharina" (ver em [1]) e, de modo menos definitivo, no da Sra. Elisabeth (ver em [1]).  s no captulo 
final que seu ceticismo comea a tornar-se evidente (ver em [1]). Num artigo sobre "A Etiologia da Histeria", publicado no ano seguinte (1896c), esse ceticismo  
expresso de forma ainda mais franca e, numa nota de rodap ao caso de "Dora" (1905e), Freud declara que a expresso "estados hipnides"  "desnecessria e confusa" 
e que a hiptese "decorreu inteiramente da iniciativa de Breuer" (Edio Standard Brasileira, 1 edio, Vol. VII, pg. 25n).
         Mas a principal diferena de opinio entre os dois autores, na qual Freud posteriormente insistiu, dizia respeito ao papel desempenhado pelos impulsos sexuais 
na causao da histeria. Tambm aqui, contudo, verificaremos que a divergncia expressa aparece de uma forma menos clara do que seria de se esperar. A crena de 
Freud na origem sexual da histeria pode ser inferida com bastante clareza a partir da discusso em seu captulo sobre a psicoterapia (ver em. [1]), mas em nenhum 
ponto ele chega a afirmar, como faria mais tarde, que uma etiologia sexual se mostra invariavelmente presente nos casos de histeria. Por outro lado, Breuer fala 
em vrios pontos, e usando os termos mais incisivos, sobre a importncia do papel desempenhado pela sexualidade nas neuroses, e o faz em especial no longo trecho 
em [1] e segs. Diz ele, por exemplo (como j se observou, em [1]), que "a pulso sexual  sem dvida a fonte mais poderosa dos aumentos persistentes de excitao 
(e, conseqentemente, das neuroses)" (ver em [1]), e declara (ver em [1]) que "a grande maioria das neuroses graves nas mulheres tem sua origem no leito conjugal".
         Parece que, para encontrarmos uma explicao satisfatria para a dissoluo dessa parceria cientfica, deveramos olhar o que est atrs da palavra impressa. 
As cartas de Freud a Fliess mostram Breuer como um homem cheio de dvidas e reservas, sempre inseguro em suas concluses. H um exemplo extremo disso numa carta 
de 8 de novembro de 1895 (1950a, Carta 35), cerca de seis meses aps a publicao dos Estudos: "No faz muito tempo, no Colgio de Medicina, Breuer fez um longo 
discurso falando de mim, no qual anunciou sua converso  crena na etiologia sexual |das neuroses|. Quando o chamei de lado para agradecer-lhe, ele estragou meu 
prazer, dizendo: 'Ainda assim no creio nisso.' Voc consegue entender isso? Eu, no." Algo dessa natureza pode ser lido nas entrelinhas das contribuies de Breuer 
aos Estudos, onde temos o quadro de um homem meio temeroso de suas prprias descobertas notveis. Era inevitvel que ele ficasse ainda mais desconcertado pelo pressentimento 
das descobertas ainda mais inquietantes que estavam por vir; e era inevitvel que Freud, por sua vez, se sentisse prejudicado e irritado com as incmodas hesitaes 
de seu companheiro de trabalho.
         Seria enfadonho enumerar os muitos trechos, nas obras posteriores de Freud, nos quais ele se refere aos Estudos sobre a Histeria e a Breuer; porm, algumas 
citaes ilustraro a variao da nfase em sua atitude para com eles.
         Nos numerosos relatos abreviados de seus mtodos teraputicos e das teorias psicolgicas que publicou durante os anos logo aps o lanamento dos Estudos, 
Freud se esforou por ressaltar as diferenas entre a "psicanlise" e o mtodo catrtico - as inovaes tcnicas, a extenso de seu processo quanto s outras neuroses 
que no a histeria, o estabelecimento da motivao da "defesa", a insistncia numa etiologia sexual e, como j vimos, a rejeio final dos "estados hipnides". Ao 
chegarmos  primeira srie das obras principais de Freud - os volumes sobre sonhos (1900a), parapraxias (1901b), chistes (1905c) e sexualidade (1905d) - naturalmente 
h pouco ou nenhum material retrospectivo; e  somente nas cinco conferncias proferidas na Universidade de Clark (1910a) que vamos encontrar um levantamento histrico 
extenso. Nessas conferncias, Freud parecia ansioso por estabelecer a continuidade entre sua obra e a de Breuer. Toda a primeira conferncia e grande parte da segunda 
so dedicadas a um resumo dos Estudos, e a impresso da era a de que no Freud, e sim Breuer era o verdadeiro fundador da psicanlise.
         O longo levantamento retrospectivo seguinte, na "Histria do Movimento Psicanaltico" (1914d), teve um tom muito diferente. Todo o artigo, naturalmente, 
teve uma inteno polmica, e no  de surpreender que, ao esboar a histria inicial da psicanlise, Freud frisasse mais suas divergncias com Breuer do que sua 
dvida para com ele, e que revogasse explicitamente sua viso de Breuer como o fundador da psicanlise. Tambm nesse artigo Freud discorreu largamente sobre a incapacidade 
de Breuer para enfrentar a transferncia sexual e revelou o "lastimvel evento" que encerrou a anlise de Anna O (ver em [1]).
         A seguir veio o que parece ser quase uma amende- j mencionada na ver em [1]: a inesperada atribuio a Breuer da distino entre a energia psquica ligada 
e a no-ligada e entre os processos primrio e secundrio. No tinha havido nenhuma sugesto dessa atribuio quando essas hipteses foram originalmente introduzidas 
por Freud (em A Interpretao dos Sonhos); ela foi feita pela primeira vez numa nota de rodap  Seo V do artigo metapsicolgico sobre "O Inconsciente" (1915e) 
e repetida em Alm do Princpio do Prazer (1920g); (Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, em [1] e [2]). No muito tempo depois houve algumas frases de louvor 
num artigo preparado por Freud para o Handwrterbuch de Marcuse (1923a; Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, em [1]): "Numa seo terica dos Estudos, Breuer 
props algumas idias especulativas sobre os processos de excitao da mente. Essas idias determinaram a direo das futuras linhas de pensamento..." Mais ou menos 
na mesma orientao, Freud escreveu, um pouco depois, numa contribuio para uma publicao norte-americana (1924f): "O mtodo catrtico foi o precursor imediato 
da psicanlise e, apesar de toda amplitude da experincia e de todas as modificaes de teoria, ainda se acha contido nela como seu ncleo."
         O longo levantamento histrico de Freud que se seguiu, Um Estudo Autobiogrfico (1925d), pareceu mais uma vez afastar-se da obra conjunta: "Se o relato 
que fiz at agora", escreveu, "levou o leitor a esperar que os Estudos sobre a Histeria, em todos os pontos essenciais de seu contedo, tenham sido um produto da 
mente de Breuer, isso  precisamente o que eu mesmo sempre sustentei... No tocante  teoria formulada no livro, fui parcialmente responsvel, mas numa medida que 
hoje no  mais possvel determinar. Aquela teoria, de qualquer modo, era despretensiosa e mal foi alm da descrio direta das observaes." E acrescentou que "teria 
sido difcil adivinhar, pelos Estudos sobre a Histeria, a importncia que tem a sexualidade na etiologia das neuroses", passando mais uma vez a descrever a relutncia 
de Breuer em reconhecer esse fator.
         Logo depois disso Breuer faleceu, e talvez seja apropriado encerrar esta introduo  obra conjunta com uma citao do necrolgio feito por Freud sobre 
seu colaborador (1925g). Depois de comentar a relutncia de Breuer em publicar os Estudos e de declarar que o principal mrito dele prprio em relao a essa obra 
fora o de haver persuadido Breuer a concordar com seu lanamento, prosseguiu: "Na poca em que ele aceitou minha influncia e estava elaborando os Estudos para publicao, 
seu julgamento do significado da obra pareceu confirmar-se. 'Creio', disse-me ele, 'que esta  a coisa mais importante que ns dois temos a dar ao mundo'. Alm do 
caso clnico de sua primeira paciente, Breuer redigiu um artigo terico para os Estudos. Esse texto est muito longe de ser desatualizado; pelo contrrio, oculta 
pensamentos e sugestes que no foram suficientemente levados em conta. Qualquer um que se aprofunde nesse ensaio especulativo formar uma verdadeira impresso da 
estatura mental desse homem cujos interesses cientficos, infelizmente, s foram orientados na direo de nossa psicopatologia por um curto episdio de sua longa 
vida."
         
         PREFCIO  PRIMEIRA EDIO
         
         Em 1893 publicamos a "Comunicao Preliminar" sobre um novo mtodo de examinar e tratar os fenmenos histricos. A ela acrescentamos, de forma to concisa 
quanto possvel, as concluses tericas a que havamos chegado. Estamos aqui reimprimindo essa "Comunicao Preliminar" para servir como a tese que temos por finalidade 
ilustrar e provar.
         Anexamos a ela uma srie de casos clnicos cuja seleo, infelizmente, no pde ser determinada em bases puramente cientficas. Nossa experincia provm 
da clnica particular numa classe social culta e letrada, e o assunto com que lidamos muitas vezes aborda a vida e a histria mais ntimas de nossos pacientes. Constituiria 
grave quebra de confiana publicar material dessa espcie, com o risco de os pacientes serem identificados e seus conhecidos ficarem a par de fatos confiados apenas 
ao mdico. Foi-nos portanto impossvel fazer uso de algumas das nossas observaes mais instrutivas e convincentes. Isso naturalmente se aplica de forma especial 
a todos os casos em que as relaes sexuais e maritais desempenham um importante papel etiolgico. Assim, ocorre que s conseguimos apresentar provas muito incompletas 
em favor de nosso ponto de vista de que a sexualidade parece desempenhar um papel fundamental na patognese da histeria, como fonte de traumas psquicos e como motivao 
para a "defesa" - isto , para que as idias sejam recalcadas da conscincia. Foram precisamente as observaes de natureza marcadamente sexual que nos vimos obrigados 
a no publicar.
         Os casos clnicos so seguidos de diversas consideraes tericas e, num captulo final sobre terapia, prope-se a tcnica do "mtodo catrtico" tal como 
se desenvolveu nas mos do neurologista.
         Se em algumas ocasies se expressam opinies divergentes e at mesmo contraditrias, isso no deve ser considerado como prova de qualquer vacilao em nossos 
pontos de vista. Decorre das divergncias naturais e justificveis entre as opinies dos dois observadores que esto de acordo quanto aos fatos e  leitura bsica 
dos mesmos, mas que nem sempre concordam invariavelmente em suas interpretaes e conjeturas.
         
         J. BREUER, S. FREUD
         Abril de 1895
         
         PREFCIO  SEGUNDA EDIO
         
         O interesse que, em grau sempre crescente, vem se voltando para a psicanlise parece agora estar-se estendendo a estes Estudos sobre a Histeria. O editor 
deseja publicar nova edio do livro, que no momento se acha esgotado. Aparece ele agora numa reimpresso sem quaisquer alteraes, embora as opinies e os mtodos 
apresentados na primeira edio tenham desde ento passado por desenvolvimentos de longo alcance e profundidade. No que me diz respeito, pessoalmente, desde aquela 
poca no lidei ativamente com o assunto; no tive nenhuma participao em seu importante desenvolvimento e nada poderia acrescentar de novo ao que foi escrito em 
1895. Assim, nada pude fazer alm de expressar o desejo de que minhas duas contribuies ao volume fossem reimpressas sem alterao.
         
         BREUER
         
         Tambm quanto a minha participao no livro, a nica deciso possvel  que o texto da primeira edio seja reimpresso sem alterao. Os desenvolvimentos 
e mudanas ocorridos em meus pontos de vista no decorrer de treze anos de trabalho foram extensos demais para que seja possvel vincul-los a minha anterior exposio 
sem destruir inteiramente seu carter essencial. Tampouco tenho qualquer motivo para desejar eliminar esta prova de meus conceitos iniciais. Ainda hoje no os considero 
como erros, mas como valiosas primeiras aproximaes de um conhecimento que s poderia ser plenamente adquirido aps longos e continuados esforos. O leitor atento 
ser capaz de descobrir neste livro os germes de tudo aquilo que desde ento foi acrescentado  teoria da catarse; por exemplo, o papel desempenhado pelos fatores 
psicossexuais e pelo infantilismo, e a importncia dos sonhos e do simbolismo inconsciente. E no posso dar melhor conselho a qualquer interessado no desenvolvimento 
da catarse at chegar  psicanlise do que comear pelos Estudos sobre a Histeria e, desse modo, seguir o caminho que eu prprio trilhei.
         
         FREUD
         VIENA, julho de 1908
         
         
         
         
         
         
         
         




















I - SOBRE O MECANISMO PSQUICO DOS FENMENOS HISTRICOS: 
COMUNICAO PRELIMINAR (1893)
(BREUER E FREUD)
         
         
         I
         Uma observao casual levou-nos, durante vrios anos, a pesquisar uma grande variedade de diferentes formas e sintomas de histeria, com vistas a descobrir 
sua causa precipitante - o fato que teria provocado a primeira ocorrncia, muitos anos antes com freqncia, do fenmeno em questo. Na grande maioria dos casos 
no  possvel estabelecer o ponto de origem atravs da simples interrogao do paciente, por mais minuciosamente que seja levada a efeito. Isso se verifica, em 
parte, porque o que est em questo , muitas vezes, alguma experincia que o paciente no gosta de discutir; mas ocorre principalmente porque ele  de fato incapaz 
de record-la e, muitas vezes, no tem nenhuma suspeita da conexo causal entre o evento desencadeador e o fenmeno patolgico. Via de regra,  necessrio hipnotizar 
o paciente e provocar, sob hipnose, suas lembranas da poca em que o sintoma surgiu pela primeira vez; feito isso, torna-se possvel demonstrar a conexo causal 
da forma mais clara e convincente.
         Esse mtodo de exame tem produzido, num grande nmero de casos, resultados que se afiguram valiosos tanto do ponto de vista terico como do ponto de vista 
prtico.
         Eles so teoricamente valiosos porque nos ensinaram que os fatos externos determinam a patologia da histeria numa medida muito maior do que se sabe e reconhece. 
Naturalmente,  bvio que, nos casos de histeria "traumtica", o que provoca os sintomas  o acidente. A ligao causal evidencia-se igualmente nos ataques histricos 
quando  possvel deduzir dos enunciados do paciente que, em cada ataque, ele est alucinando o mesmo evento que provocou o primeiro deles. A situao  mais obscura 
no caso de outros fenmenos.
         Nossas experincias, porm, tm demonstrado que os mais variados sintomas, que so ostensivamente espontneos e, como se poderia dizer, produtos idiopticos 
da histeria, esto to estritamente relacionados com o trauma desencadeador quanto os fenmenos a que acabamos de aludir e que exibem a conexo causal de maneira 
bem clara. Os sintomas cujo rastro pudemos seguir at os referidos fatores desencadeadores deste tipo abrangem nevralgias e anestesias de naturezas muito diversas, 
muitas das quais haviam persistido durante anos, contraturas e paralisias, ataques histricos e convulses epileptides, que os observadores consideravam como epilepsia 
verdadeira, petit mal e perturbaes da ordem dos tiques, vmitos crnicos e anorexia, levados at o extremo de rejeio de todos os alimentos, vrias formas de 
perturbao da viso, alucinaes visuais constantemente recorrentes, etc. A desproporo entre os muitos anos de durao do sintoma histrico e a ocorrncia isolada 
que o provocou  o que estamos invariavelmente habituados a encontrar nas neuroses traumticas. Com grande freqncia,  algum fato da infncia que estabelece um 
sintoma mais ou menos grave, que persiste durante os anos subseqentes.
         Muitas vezes, a ligao  to ntida que se torna bem evidente como foi que o fato desencadeante produziu um dado fenmeno especfico, de preferncia a 
qualquer outro. Nesse caso, o sintoma foi de forma bem bvia determinado pela causa desencadeadora. Podemos tomar como exemplo muito comum uma emoo penosa surgida 
durante uma refeio, mas suprimida na poca, e que produz ento nuseas e vmitos que persistem por meses sob a forma de vmitos histricos. Uma jovem que velava 
o leito de um enfermo, atormentada por uma grande angstia, caiu num estado crepuscular e teve uma alucinao aterrorizante, enquanto seu brao direito, que pendia 
sobre o dorso da cadeira, ficou dormente; disso proveio uma paresia do mesmo brao, acompanhada de contratura e anestesia. Ela tentou rezar, mas no conseguiu encontrar 
as palavras; por fim, conseguiu repetir uma orao para crianas em ingls. Posteriormente, ao surgir uma histeria grave e altamente complicada, ela s conseguia 
falar, escrever e compreender o ingls, enquanto sua lngua materna permaneceu ininteligvel para ela por dezoito meses. - A me de uma criana muito doente, que 
finalmente adormecera, concentrou toda a sua fora de vontade em manter-se imvel a fim de no despert-la. Precisamente por causa da sua inteno, produziu um rudo 
de "estalo" com a lngua. (Um exemplo de "contravontade histrica".) Esse rudo se repetiu numa ocasio subseqente em que ela desejava manter-se perfeitamente imvel, 
tendo dele surgido um tique que, sob a forma de um estalido com a lngua, ocorreu durante um perodo de muitos anos sempre que ela se sentia excitada. - Um homem 
muito inteligente estava presente quando uma articulao da coxa anquilosada de seu irmo foi submetida a uma manobra de extenso sob a ao de um anestsico. No 
momento em que a articulao cedeu com um estalido, ele sentiu uma dor violenta em sua prpria articulao, que persistiu por quase um ano. - Outros exemplos poderiam 
ser citados.
         Em outros casos a conexo causal no  to simples. Consiste apenas no que se poderia denominar uma relao "simblica" entre a causa precipitante e o fenmeno 
patolgico - uma relao do tipo da que as pessoas saudveis formam nos sonhos. Por exemplo, uma nevralgia pode sobrevir aps um sofrimento mental, ou vmitos aps 
um sentimento de repulsa moral. Temos estudado pacientes que costumavam fazer o mais abundante uso dessa espcie de simbolizao. Noutros casos ainda, no  possvel 
compreender  primeira vista como os sintomas podem ser determinados  maneira como sugerimos. So precisamente os sintomas histricos tpicos que se enquadram nessa 
classe, tais como a hemianestesia, a contrao do campo visual, as convulses epileptiformes e assim por diante. Uma explicao de nossos pontos de vista sobre esse 
grupo deve ser reservada para um exame mais acurado do assunto.
         Observaes como essas nos parecem estabelecer uma analogia entre a patognese da histeria comum e a das neuroses traumticas e justificar uma extenso 
do conceito de histeria traumtica. Nas neuroses traumticas, a causa atuante da doena no  o dano fsico insignificante, mas o afeto do susto - o trauma psquico. 
De maneira anloga, nossas pesquisas revelam para muitos, se no para a maioria dos sintomas histricos, causas desencadeadoras que s podem ser descritas como traumas 
psquicos. Qualquer experincia que possa evocar afetos aflitivos - tais como os de susto, angstia, vergonha ou dor fsica - pode atuar como um trauma dessa natureza; 
e o fato de isso acontecer de verdade depende, naturalmente, da suscetibilidade da pessoa afetada (bem como de outra condio que ser mencionada adiante). No caso 
da histeria comum no  rara a ocorrncia, em vez de um trauma principal isolado, de vrios traumas parciais que formam um grupo de causas desencadeadoras. Essas 
causas s puderam exercer um efeito traumtico por adio e constituem um conjunto por serem, em parte, componentes de uma mesma histria de sofrimento. Existem 
outros casos em que uma circunstncia aparentemente trivial se combina com o fato realmente atuante ou ocorre numa ocasio de peculiar suscetibilidade ao estmulo 
e, dessa forma, atinge a categoria de um trauma, que de outra forma no teria tido, mas que da por diante persiste.
         Mas a relao causal entre o trauma psquico determinante e o fenmeno histrico no  de natureza a implicar que o trauma atue como mero agent provocateur 
na liberao do sintoma, que passa ento a levar uma existncia independente. Devemos antes presumir que o trauma psquico - ou, mais precisamente, a lembrana do 
trauma - age como um corpo estranho que, muito depois de sua entrada, deve continuar a ser considerado como um agente que ainda est em ao; encontramos a prova 
disso num fenmeno invulgar que, ao mesmo tempo, traz um importante interesse prtico para nossas descobertas.
          que verificamos, a princpio com grande surpresa, que cada sintoma histrico individual desaparecia, de forma imediata e permanente, quando conseguamos 
trazer  luz com clareza a lembrana do fato que o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhara, e quando o paciente havia descrito esse fato com o maior 
nmero de detalhes possvel e traduzido o afeto em palavras. A lembrana sem afeto quase invariavelmente no produz nenhum resultado. O processo psquico originalmente 
ocorrido deve ser repetido o mais nitidamente possvel; deve ser levado de volta a seu status nascendi e ento receber expresso verbal. Quando aquilo com que estamos 
lidando so fenmenos que envolvem estmulos (espasmos, nevralgias e alucinaes), estes reaparecem mais uma vez com intensidade mxima e a seguir desaparecem para 
sempre. As deficincias funcionais, tais como paralisias e anestesias, desaparecem da mesma maneira, embora,  claro, sem que a intensificao temporria seja discernvel.
         
          plausvel supor que se trata aqui de sugesto inconsciente: o paciente espera ser aliviado de seus sofrimentos por esse procedimento, e  essa expectativa, 
e no a expresso verbal, o fator operativo. Mas no  isso que ocorre. O primeiro caso dessa natureza a ser objeto de observao remonta ao ano de 1881, isto , 
 era da "pr-sugesto". Um caso muito complicado de histeria foi analisado dessa maneira, e os sintomas que decorriam de causas distintas foram distintamente eliminados. 
Essa observao foi possibilitada por auto-hipnoses espontneas por parte do paciente, e surgiu com uma grande surpresa para o observador.
         Podemos inverter a mxima "cessante causa cessat effectus" |"cessando a causa cessa o efeito"| e concluir dessas observaes que o processo determinante 
continua a atuar, de uma forma ou de outra, durante anos - no indiretamente, atravs de uma corrente de elos causais intermedirios, mas como uma causa diretamente 
liberadora - da mesma forma que um sofrimento psquico que  recordado no estado consciente de viglia ainda provoca uma secreo lacrimal muito tempo depois de 
ocorrido o fato. Os histricos sofrem principalmente de reminiscncias.
         
         
         
         II
         
          primeira vista parece extraordinrio que fatos experimentados h tanto tempo possam continuar a agir de forma to intensa - que sua lembrana no esteja 
sujeita ao processo de desgaste a que, afinal de contas, vemos sucumbirem todas as nossas recordaes. Talvez as consideraes que se seguem possam tornar isso um 
pouco mais inteligvel.
         O esmaecimento de uma lembrana ou a perda de seu afeto dependem de vrios fatores. O mais importante destes  se houve uma reao energtica ao fato capaz 
de provocar um afeto. Pelo termo "reao" compreendemos aqui toda a classe de reflexos voluntrios e involuntrios - das lgrimas aos atos de vingana - nos quais, 
como a experincia nos mostra, os afetos so descarregados. Quando essa reao ocorre em grau suficiente, grande parte do afeto desaparece como resultado. O uso 
da linguagem comprova esse fato de observao cotidiana com expresses como "desabafar pelo pranto" |"sich ausweinen"| e "desabafar atravs de um acesso de clera" 
|"sich austoben", literalmente "esvair-se em clera"|. Quando a reao  reprimida, o afeto permanece vinculado  lembrana. Uma ofensa revidada, mesmo que apenas 
com palavras,  recordada de modo bem diferente de outra que teve que ser aceita. A linguagem tambm reconhece essa distino, em suas conseqncias mentais e fsicas; 
de maneira bem caracterstica, ela descreve uma ofensa sofrida em silncio como "uma mortificao" |"Krnkung", literalmente, um "fazer adoecer"|. - A reao da 
pessoa insultada em relao ao trauma s exerce um efeito inteiramente "catrtico" se for uma reao adequada - como, por exemplo, a vingana. Mas a linguagem serve 
de substituta para a ao; com sua ajuda, um afeto pode ser "ab-reagido" quase com a mesma eficcia. Em outros casos, o prprio falar  o reflexo adequado: quando, 
por exemplo, essa fala corresponde a um lamento ou  a enunciao de um segredo torturante, por exemplo, uma confisso. Quando no h uma reao desse tipo, seja 
em aes ou palavras, ou, nos casos mais benignos, por meio de lgrimas, qualquer lembrana do fato preserva sua tonalidade afetiva do incio.
         A "ab-reao", contudo, no  o nico mtodo de lidar com a situao para uma pessoa normal que tenha experimentado um trauma psquico. Uma lembrana desse 
trauma, mesmo que no tenha sido ab-reagida, penetra no grande complexo de associaes, entra em confronto com outras experincias que possam contradiz-la, e est 
sujeita  retificao por outras representaes. Depois de um acidente, por exemplo, a lembrana do perigo e a repetio (mitigada) do medo  associada  lembrana 
do que ocorreu depois - o socorro e a situao consciente da segurana atual. Da mesma forma, a lembrana de uma humilhao  corrigida quando a pessoa situa os 
fatos no devidos lugares, considerando seu prprio valor, etc. Desse modo, uma pessoa normal  capaz de provocar o desaparecimento do afeto concomitante por meio 
do processo de associao.
         A isso devemos acrescentar a obliterao geral das impresses, o evanescimento das lembranas a que chamamos "esquecimento" e que desgasta as representaes 
no mais afetivamente atuantes.
         Nossas observaes demonstraram, por outro lado, que as lembranas que se tornaram os determinantes de fenmenos histricos persistem por longo tempo com 
surpreendente vigor e com todo o seu colorido afetivo. Devemos, contudo, mencionar outro fato notvel do qual posteriormente poderemos tirar proveito, a saber, que 
essas lembranas, em contraste com outras de sua vida passada, no se acham  disposio do paciente. Pelo contrrio, essas experincias esto inteiramente ausentes 
da lembrana dos pacientes quando em estado psquico normal, ou s se fazem presentes de forma bastante sumria. Apenas quando o paciente  inquirido sob hipnose 
 que essas lembranas emergem com a nitidez inalterada de um fato recente.
         Assim, durante nada menos de seis meses, uma de nossas pacientes reproduziu sob hipnose, com uma nitidez alucinatria, tudo o que a havia excitado no mesmo 
dia no ano anterior (durante um ataque de histeria aguda). Um dirio mantido por sua me sem o conhecimento da paciente provou a inteireza da reproduo |ver em 
[1]|. Outra paciente, em parte sob hipnose e em parte durante ataques espontneos, reviveu com clareza alucinatria todos os fatos de uma psicose histrica que experimentara 
dez anos antes e que havia esquecido, em sua maior parte, at o momento em que ela ressurgiu. Alm disso, verificou-se que certas lembranas de importncia etiolgica 
que datavam dos quinze aos vinte e cinco anos estavam surpreendentemente intactas e possuam uma intensidade sensorial notvel, e que, ao retornarem, atuaram com 
toda a fora afetiva das experincias novas |ver em [1]-[2]|.
         Isso s pode ser explicado pelo fato de que essas lembranas constituem uma exceo em sua relao com todos os processos de desgaste que examinamos atrs. 
Em outras palavras: parece que essas lembranas correspondem a traumas que no foram suficientemente ab-reagidos; e se penetrarmos mais a fundo nos motivos que impediram 
isso, encontraremos pelo menos dois grupos de condies sob as quais a reao ao trauma deixa de ocorrer.
         No primeiro grupo acham-se os casos em que os pacientes no reagiram a um trauma psquico porque a natureza do trauma no comportava reao, como no caso 
da perda obviamente irreparvel de um ente querido, ou porque as circunstncias sociais impossibilitavam uma reao, ou porque se tratava de coisas que o paciente 
desejava esquecer, e portanto, recalcara intencionalmente do pensamento consciente, inibindo-as e suprimindo-as. So precisamente as coisas aflitivas dessa natureza 
que, sob hipnose, constatamos serem a base dos fenmenos histricos (por exemplo, os delrios histricos de santos e freiras, de mulheres que guardam a castidade 
e de crianas bem-educadas).
         O segundo grupo de condies  determinado, no pelo contedo das lembranas, mas pelos estados psquicos em que o paciente recebeu as experincias em questo, 
pois encontramos sob hipnose, dentre as causas dos sintomas histricos, representaes que em si mesmas no so importantes, mas cuja persistncia se deve ao fato 
de que se originaram durante a prevalncia de afetos gravemente paralisantes, tais como o susto, ou durante estados psquicos positivamente anormais, como o estado 
crepuscular semi-hipntico dos devaneios, a auto-hipnose, etc. Em tais casos,  a natureza dos estados que torna impossvel uma reao ao acontecimento.
          claro que ambas as espcies de condies podem estar presentes ao mesmo tempo, e isso de fato ocorre com freqncia.  o que acontece quando um trauma 
que  atuante por si mesmo ocorre enquanto predomina um afeto gravemente paralisante, ou durante um estado de alterao da conscincia. Mas tambm parece ser verdade 
que em muitas pessoas um trauma psquico produz um desses estados anormais, o que, por sua vez, torna a reao impossvel.
         
         Ambos os grupos de condies, porm, possuem em comum o fato de que os traumas psquicos que no foram eliminados pela reao tambm no podem s-lo pela 
elaborao por meio da associao. No primeiro grupo, o paciente est decidido a esquecer as experincias aflitivas e, por conseguinte, as exclui tanto quanto possvel 
da associao; j no segundo grupo, a elaborao associativa deixa de ocorrer porque no existe nenhuma vinculao associativa abrangente entre o estado normal da 
conscincia e os estados patolgicos em que as representaes surgiram. Logo teremos ocasio de nos aprofundarmos nesse assunto.
         Assim, pode-se dizer que as representaes que se tornaram patolgicas persistiram com tal nitidez e intensidade afetiva porque lhes foram negados os processos 
normais de desgaste por meio da ab-reao e da reproduo em estados de associao no inibida.
         
         
         III
         
         Mencionamos as condies que, como demonstra nossa experincia, so responsveis pelo desenvolvimento de fenmenos histricos provenientes de traumas psquicos. 
Ao faz-lo, j fomos obrigados a falar nos estados anormais de conscincia em que surgem essas representaes patognicas e a ressaltar o fato de que a lembrana 
do trauma psquico atuante no se encontra na memria normal do paciente, mas em sua memria ao ser hipnotizado. Quanto mais nos ocupamos desses fenmenos, mais 
nos convencemos de que a diviso da conscincia, que  to marcante nos casos clssicos conhecidos sob a forma de "double conscience", acha-se presente em grau rudimentar 
em toda histeria, e que a tendncia a tal dissociao, e com ela ao surgimento dos estados anormais da conscincia que (reuniremos sob a designao de "hipnides"), 
constitui o fenmeno bsico dessa neurose. Quanto a esses concordamos com Binet e com os dois Janets, embora no tenhamos tido nenhuma experincia das notveis descobertas 
que eles fizeram com pacientes anestsicos.
         Gostaramos de contrabalanar a conhecida tese de que a hipnose  uma histeria artificial com uma outra - a de que a base e condio sine qua non da histeria 
 a existncia de estados hipnides. Esses estados hipnides partilham uns com os outros e com a hipnose, por mais que difiram sob outros aspectos, uma caracterstica 
comum: as representaes que neles surgem so muito intensas, mas esto isoladas da comunicao associativa com o restante do contedo da conscincia. Podem ocorrer 
associaes entre esses estados hipnides, e seu contedo representativo pode, dessa forma, atingir um grau mais ou menos elevado de organizao psquica. Alm disso, 
deve-se supor que a natureza desses estados e a extenso em que ficam isolados dos demais processos da conscincia variam do mesmo modo que ocorre na hipnose, que 
vai desde uma leve sonolncia at o sonambulismo, de uma lembrana completa at a amnsia total.
         Quando os estados hipnides dessa natureza j se acham presentes antes da instalao da doena manifesta, eles fornecem o terreno em que o afeto planta 
a lembrana patognica com suas conseqentes manifestaes somticas. Isso corresponde  histeria disposicional. Verificamos, todavia, que um trauma grave (tal como 
ocorre numa neurose traumtica) ou uma supresso trabalhosa (como a de um afeto sexual, por exemplo) podem ocasionar uma diviso expulsiva de grupos de representaes 
mesmo em pessoas que, sob outros aspectos, no esto afetadas; e esse seria o mecanismo da histeria psiquicamente adquirida. Entre os extremos dessas duas formas 
devemos presumir a existncia de uma srie de casos dentro dos quais a tendncia  dissociao do indivduo e a magnitude afetiva do trauma variam numa proporo 
inversa.
         Nada temos de novo a dizer sobre a questo da origem desses estados hipnides disposicionais. Ao que parece, eles freqentemente emergem dos devaneios que 
so to comuns at mesmo nas pessoas sadias e aos quais os trabalhos de costura e ocupaes semelhantes tornam as mulheres particularmente propensas. Por que  que 
as "associaes patolgicas" surgidas nesses estados so to estveis, e por que  que exercem uma influncia to maior sobre os processos somticos do que costumam 
fazer as representaes, so perguntas que coincidem com o problema geral da eficcia das sugestes hipnticas. Nossas observaes no trazem nenhuma nova contribuio 
para esse assunto, mas lanam luz sobre a contradio entre a mxima "a histeria  uma psicose" e o fato de que, entre os histricos, podem-se encontrar pessoas 
da mais lcida inteligncia, da maior fora de vontade, do melhor carter e da mais alta capacidade crtica. Essa caracterizao  vlida em relao a seus pensamentos 
em estado de viglia, mas, em seus estados hipnides, elas so insanas, como somos todos nos sonhos. Todavia, enquanto nossas psicoses onricas no exercem nenhum 
efeito sobre nosso estado de viglia, os produtos dos estados hipnides intrometem-se na viglia sob a forma de sintomas histricos.
         
         IV
         
         O que afirmamos sobre os sintomas histricos crnicos pode ser aplicado quase que integralmente aos ataques histricos. Charcot, como se sabe, deu-nos uma 
descrio esquemtica do "grande" ataque histrico, segundo a qual se podem distinguir quatro fases num ataque completo: (1) a fase epileptide, (2) a fase dos movimentos 
amplos, (3) a fase das "atittudes passionnelles" (fase alucinatria) e (4) a fase de delrio terminal. Charcot deduz todas as formas de ataque histrico que, na 
prtica, so encontradas com maior freqncia do que o "grande attaque" completo, a partir da abreviao ou do prolongamento, da ausncia ou do isolamento dessas 
quatro fases distintas.
         Nossa tentativa de explicao tem como ponto de partida a terceira dessas fases, a das "atittudes passionnelles". Quando esta se acha presente numa forma 
bem acentuada, ela apresenta a reproduo alucinatria de uma lembrana que foi importante no desencadeamento da histeria - a lembrana de um grande trauma isolado 
(que encontramos par excellence no que  denominado histeria traumtica) ou de uma srie de traumas parciais interligados (como os subjacentes  histeria comum). 
Ou, finalmente, o ataque pode reviver os fatos que se tornaram relevantes em virtude de sua coincidncia com um momento de predisposio especial ao trauma.
         Entretanto, h tambm ataques que parecem consistir exclusivamente em fenmenos motores e nos quais a fase de atittudes passionnelles se acha ausente. Quando 
se consegue entrar em rapport com o paciente durante um ataque como esse, de espasmos clnicos generalizados ou rigidez catalptica, ou durante um attaque de sommeil 
|acesso de sono| - ou quando, melhor ainda, se consegue provocar o acesso sob hipnose - verifica-se que tambm aqui h uma lembrana subjacente do trauma psquico 
ou da srie de traumas, que, de modo geral, chama nossa ateno numa fase alucinatria.
         Dessa forma, durante anos, uma menina sofreu ataques de convulses generalizadas que poderiam ser, e realmente foram, considerados como epilpticos. Ela 
foi hipnotizada com vistas a um diagnstico diferencial, e de imediato teve um de seus acessos. Perguntaram-lhe o que estava vendo e ela respondeu: "O cachorro! 
O cachorro est vindo!"; e de fato verificou-se que tivera o primeiro de seus ataques aps ter sido perseguida por um co feroz. O xito do tratamento confirmou 
o diagnstico.
         Por sua vez, um funcionrio que ficara histrico em decorrncia de ser maltratado por seu superior sofria de ataques em que caa no cho e tinha acessos 
de raiva, mas sem dizer uma s palavra ou demonstrar qualquer sinal de alucinao. Foi possvel provocar um ataque sob hipnose, e o paciente ento revelou estar 
revivendo a cena em que seu patro o insultara na rua e batera nele com a bengala. Dias depois o paciente voltou e queixou-se de ter tido outro ataque da mesma natureza. 
Nessa ocasio, verificou-se sob hipnose que ele estivera revivendo a cena com que estava relacionada a instalao real da doena: a cena no tribunal em que ele no 
conseguira obter reparao pelas injrias sofridas.
         Tambm em todos os demais aspectos as lembranas que emergem ou podem ser provocadas nos ataques histricos correspondem s causas desencadeadoras que temos 
encontrado na raiz dos sintomas histricos crnicos. Tais como estas ltimas causas, as lembranas subjacentes aos ataques histricos relacionam-se com traumas psquicos 
que no foram eliminados pela ab-reao ou pela atividade associativa do pensamento.  semelhana delas, estas esto, quer inteiramente, quer em seus elementos essenciais, 
fora do alcance da lembrana da conscincia normal, e mostram pertencer ao contedo representativo dos estados hipnides de conscincia, com associao restrita. 
Por fim, tambm o teste teraputico pode ser aplicado a elas. Nossas observaes nos tm com freqncia ensinado que uma recordao dessa espcie, que at ento 
havia provocado ataques, deixa de ser capaz de faz-lo depois que os processos de reao e de correo associativa so a ela aplicados sob hipnose.
         Os fenmenos motores dos ataques histricos podem ser parcialmente interpretados como formas universais de reao apropriadas ao afeto que acompanha a lembrana 
(tais como espernear e agitar os braos e pernas, o que at mesmo os bebs de tenra idade fazem), e em parte como uma expresso direta dessas lembranas; mas em 
parte, como no caso dos estigmas histricos verificados entre os sintomas crnicos, no podem ser explicadas dessa maneira.
         Os ataques histricos, alm disso, so especialmente interessantes se tivermos em mente uma teoria que mencionamos atrs, a saber, que na histeria certos 
grupos de representaes que se originam nos estados hipnides esto presentes e so isolados da ligao associativa com as outras representaes, mas podem associar-se 
entre si, formando assim o rudimento mais ou menos altamente organizado de uma segunda conscincia, uma condition seconde. Se assim for, um sintoma histrico crnico 
corresponder  intruso desse segundo estado na inervao somtica, que, em geral, se acha sob o controle da conscincia normal. O ataque histrico, por outro lado, 
 prova de uma organizao mais elevada desse segundo estado. Quando o ataque surge pela primeira vez, indica um momento em que essa conscincia hipnide adquiriu 
controle sobre toda a existncia do indivduo - indica, em outras palavras, uma histeria aguda; quando ocorre em ocasies subseqentes e contm uma lembrana, indica 
um retorno daquele momento. Charcot j sugeriu que os ataques histricos constituem uma forma rudimentar de uma condition seconde. Durante o ataque, o controle sobre 
toda a inervao somtica passa para a conscincia hipnide. A conscincia normal, como o demonstram observaes bem conhecidas, nem sempre  inteiramente recalcada. 
Ela pode at mesmo perceber os fenmenos motores do ataque, enquanto os fatos psquicos concomitantes ficam fora de seu conhecimento.
         O curso caracterstico de um caso grave de histeria , como sabemos, o seguinte: de incio, forma-se um contedo representativo durante os estados hipnides; 
quando esse contedo aumenta de forma suficiente, ele assume o controle, durante um perodo de "histeria aguda", da inervao somtica e de toda a existncia do 
paciente, criando sintomas crnicos e ataques; depois disso, desaparece, a no ser por certos resduos. Quando a personalidade normal consegue recuperar o controle, 
o que resta do contedo representativo hipnide reaparece em ataques histricos e, de tempos em tempos, leva o sujeito de volta a estados semelhantes, eles prprios 
novamente influenciveis a traumas. Um estado de equilbrio, por assim dizer, pode ento ser estabelecido entre os dois grupos psquicos que se combinam na mesma 
pessoa: os ataques histricos e a vida normal prosseguem lado a lado sem que um interfira no outro. O ataque ocorre de modo espontneo, como fazem as lembranas 
nas pessoas normais; contudo,  possvel provoc-lo, do mesmo modo que qualquer lembrana pode ser suscitada de acordo com as leis da associao. Pode-se provoc-lo, 
quer pela estimulao de uma zona histerognica, quer por uma nova experincia que o desencadeia graas a uma semelhana com a experincia patognica. Esperamos 
poder demonstrar que essas duas espcies de determinantes, embora paream to diferentes, no diferem quanto aos pontos essenciais, mas que em ambas uma lembrana 
hiperestsica  evocada.
         Em outros casos esse equilbrio  muito instvel. O ataque surge como manifestao do resduo da conscincia hipnide sempre que a personalidade est esgotada 
e incapacitada. No se pode afastar a possibilidade de que, nessa situao, o ataque tenha sido despojado de seu significado original e esteja recorrendo como uma 
reao motora sem qualquer contedo.
         Cabe a uma pesquisa ulterior descobrir o que  que determina se uma personalidade histrica se manifestar em ataques, em sintomas crnicos ou numa mistura 
de ambos.
         
         V
         
         Agora poder ficar claro por que o mtodo psicoterpico que descrevemos nestas pginas tem um efeito curativo. Ele pe termo  fora atuante da representao 
que no fora ab-reagida no primeiro momento, ao permitir que seu afeto estrangulado encontre uma sada atravs da fala; e submete essa representao  correo associativa, 
ao introduzi-la na conscincia normal (sob hipnose leve) ou elimin-la por sugesto do mdico, como se faz no sonambulismo acompanhado de amnsia.
         Em nossa opinio, as vantagens teraputicas desse mtodo so considerveis. Naturalmente,  verdade que no curamos a histeria na medida em que ela dependa 
de fatores disposicionais. Nada podemos fazer contra a recorrncia dos estados hipnides. Alm disso, durante a fase produtiva de uma histeria aguda, nosso mtodo 
no pode impedir que os fenmenos to laboriosamente eliminados sejam imediatamente substitudos por outros. To logo passa essa fase aguda, porm, quaisquer resduos 
que possam ter ficado sob a forma de sintomas crnicos ou ataques costumam ser removidos de forma permanente por nosso mtodo, porque ele  radical; e nesse sentido 
ele nos parece muito superior em sua eficcia  remoo atravs da sugesto direta, tal como  hoje praticada pelos psicoterapeutas.
         Se, ao descobrirmos o mecanismo psquico dos fenmenos histricos, demos um passo  frente na trilha inicialmente aberta com tanto xito por Charcot, com 
sua explicao e sua imitao artificial das paralisias hstero-traumticas, no podemos ocultar de ns mesmos que isso s nos aproximou um pouco mais da compreenso 
do mecanismo dos sintomas histricos, e no das causas internas da histeria. No fizemos mais do que tocar de leve na etiologia da histeria e, a rigor, s conseguimos 
lanar luz sobre suas formas adquiridas - sobre a importncia dos fatores acidentais nessa neurose.
         
         VIENA, dezembro de 1892
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
       
       
       
       
       II - CASOS CLNICOS
         (BREUER E FREUD)
         
         
         CASO 1 - SRTA. ANNA O. (BREUER)
         
         Na ocasio em que adoeceu (em 1880), a Srta. Anna O. contava vinte e um anos de idade. Pode-se considerar que era portadora de uma hereditariedade neuroptica 
moderadamente grave, visto que algumas psicoses haviam ocorrido entre seus parentes mais distantes. Seus pais eram normais nesse aspecto. A prpria paciente fora 
sempre saudvel at ento e no havia mostrado nenhum sinal de neurose durante seu perodo de crescimento. Era dotada de grande inteligncia e aprendia as coisas 
com impressionante rapidez e intuio aguada. Possua um intelecto poderoso, que teria sido capaz de assimilar um slido acervo mental e que dele necessitava - 
embora no o recebesse desde que sara da escola. Anna tinha grandes dotes poticos e imaginativos, que estavam sob o controle de um agudo e crtico bom senso. Graas 
a esta ltima qualidade, ela era inteiramente no sugestionvel, sendo influenciada apenas por argumentos e nunca por meras asseres. Sua fora de vontade era vigorosa, 
tenaz e persistente; algumas vezes, chegava ao extremo da obstinao, que s cedia pela bondade e considerao para com as outras pessoas.
         Um de seus traos de carter essenciais era a generosa solidariedade. Mesmo durante a doena, pde ajudar muito a si mesma por ter conseguido cuidar de 
grande nmero de pessoas pobres e enfermas, pois assim satisfazia a um poderoso instinto. Seus estados de esprito sempre tenderam para um leve exagero, tanto na 
alegria como na tristeza; por conseguinte, era s vezes sujeita a oscilaes de humor. A noo da sexualidade era surpreendentemente no desenvolvida nela. A paciente, 
cuja vida se tornou conhecida por mim num grau em que raras vezes a vida de uma pessoa  conhecida de outra, nunca se apaixonara; e em todo o imenso nmero de alucinaes 
que ocorreram durante sua doena a noo da sexualidade nunca emergiu.
         Essa moa, cheia de vitalidade intelectual, levava uma vida extremamente montona no ambiente de sua famlia de mentalidade puritana. Embelezava sua vida 
de um modo que provavelmente a influenciou de maneira decisiva em direo  doena, entregando-se a devaneios sistemticos que descrevia como seu "teatro particular". 
Enquanto todos pensavam que ela estava prestando ateno, ela se imaginava vivendo contos de fada; mas estava sempre alerta quando lhe dirigiam a palavra, de modo 
que ningum se dava conta de seu estado. Exercia essa atividade de modo quase ininterrupto enquanto se ocupava de seus afazeres domsticos, dos quais se desincumbia 
de forma irrepreensvel. Terei a seguir que descrever a maneira pela qual esses devaneios habituais, no perodo em que ela estava com sade, foram-se convertendo 
gradativamente em doena.
         O curso da doena enquadrou-se em vrias fases nitidamente separveis:
         (A)Incubao latente. De meados de julho at cerca de 10 de dezembro de 1880. Essa fase da doena costuma ficar omissa para ns; mas, nesse caso, graas 
a seu carter peculiar, foi-nos completamente acessvel; esse fato, por si s, traz um aprecivel interesse patolgico para o caso. Descreverei esta fase em seguida.
         (B)A doena manifesta. Uma psicose de natureza peculiar, com parafasia, estrabismo convergente, graves perturbaes da viso, paralisias (sob a forma de 
contraturas) completa na extremidade superior direita e em ambas as extremidades inferiores, e parcial na extremidade superior esquerda, e paresia dos msculos do 
pescoo. Reduo gradual da contratura nas extremidades da mo direita. Alguma melhora, interrompida por um grave trauma psquico (a morte do pai da paciente) em 
abril, depois do que se seguiram:
         (C)Um perodo de sonambulismo persistente, alternando-se subseqentemente com estados mais normais. Grande nmero de sintomas crnicos perduraram at dezembro 
de 1881.
         (D)Cessao gradual dos estados e sintomas patolgicos at junho de 1882.
         Em julho de 1880, o pai da paciente, a quem ela era extremamente afeioada, adoeceu de um abscesso peripleurtico que no sarou e do qual veio a morrer 
em abril de 1881. Durante os primeiros meses da doena, Anna dedicou todas as suas energias a cuidar do pai, e ningum ficou muito surpreso quando, pouco a pouco, 
sua prpria sade foi-se deteriorando de forma acentuada. Ningum, talvez nem mesmo a prpria paciente, sabia o que lhe estava acontecendo; mas afinal, o estado 
de debilidade, anemia e averso pelos alimentos se agravou a tal ponto que, para seu grande pesar, no lhe permitiram mais que continuasse a cuidar do paciente. 
A causa imediata dessa proibio foi uma tosse muito intensa, razo pela qual a examinei pela primeira vez. Era uma tussis nervosa tpica. Anna logo comeou a mostrar 
uma pronunciada necessidade de repouso durante a tarde, continuada, ao anoitecer, por um estado semelhante a sono e, a seguir, por uma condio de intensa excitao.
         No incio de dezembro apareceu um estrabismo convergente. Um oftalmologista o explicou (erroneamente) como decorrente da paresia de um dos abdutores. Em 
11 de dezembro a paciente caiu de cama e assim permaneceu at 1 de abril.
         Surgiu em rpida sucesso uma srie de perturbaes graves que eram aparentemente novas: dor de cabea occipital esquerda; estrabismo convergente (diplopia), 
acentuadamente aumentado pela excitao; queixas de que as paredes do quarto pareciam estar vindo abaixo (afeco do nervo oblquo); perturbaes da viso difceis 
de ser analisadas; paresia dos msculos anteriores do pescoo, de modo que, afinal, a paciente s conseguia mover a cabea pressionando-a para trs entre os ombros 
erguidos e movendo as costas inteiramente; contratura e anestesia da extremidade superior direita e, depois de certo tempo, da extremidade inferior direita. Esta 
ltima sofreu total extenso, aduo e rotao para dentro. Posteriormente, surgiu o mesmo sintoma na extremidade inferior esquerda e, por fim, no brao esquerdo, 
cujos dedos, contudo conservaram at certo ponto a capacidade de movimento. De igual modo, tambm no havia uma rigidez completa nas articulaes do ombro. A contratura 
atingiu seu ponto mximo nos msculos dos braos. Da mesma forma, a regio dos cotovelos revelou-se a mais atingida pela anestesia quando, num estgio posterior, 
tornou-se possvel fazer um exame mais cuidadoso da sensibilidade. No incio da doena a anestesia no pde ser testada de modo eficiente em virtude da resistncia 
da paciente em decorrncia de sentimentos de angstia.
         Foi enquanto a paciente se achava nesse estado que comecei a trat-la, havendo logo reconhecido a gravidade da perturbao psquica com que teria de lidar. 
Havia dois estados de conscincia inteiramente distintos, que se alternavam, de modo freqente e sbito e que se tornaram cada vez mais diferenciados no curso da 
doena. Num desses estados ela reconhecia seu ambiente; ficava melanclica e angustiada, mas relativamente normal. No outro, tinha alucinaes e ficava "travessa" 
- isto , agressiva, e jogava almofadas nas pessoas, tanto quanto o permitiam as contraturas, arrancava botes da roupa de cama e de suas roupas com os dedos que 
conseguia movimentar, e assim por diante. Nesse estgio da doena, se alguma coisa tivesse sido tirada do lugar no quarto ou algum tivesse entrado ou sado dele 
|durante seu outro estado de conscincia|, ela se queixava de haver "perdido" tempo e tecia comentrios sobre as lacunas na seqncia de seus pensamentos conscientes. 
Visto que as pessoas que a cercavam tentavam negar isso e confort-la quando ela se queixava de estar ficando louca, Anna, depois de jogar os travesseiros, acusava 
as pessoas de fazerem coisas contra ela e de a deixarem num estado de confuso, etc.
         Essas "absences" j tinham sido observadas antes de ela cair de cama; costumava parar no meio de uma frase, repetir as ltimas palavras e, depois de uma 
breve pausa, continuar a falar. Essas interrupes aumentaram de forma gradual at atingirem as dimenses que acabam de ser descritas; e no auge da doena, quando 
as contraturas se haviam estendido at o lado esquerdo do corpo, s durante um curto perodo do dia  que ela apresentava certo grau de normalidade. Mas as perturbaes 
invadiram at mesmo seus momentos de conscincia relativamente clara. Haveria modificaes muitssimo rpidas de humor, que levavam a uma fase de animao intensa, 
mas bastante passageira, e em outras ocasies havia uma angstia acentuada, uma oposio tenaz a qualquer esforo teraputico e alucinaes assustadoras com cobras 
negras, que eram a maneira como Anna via seus cabelos, fitas e coisas semelhantes. Ao mesmo tempo, ficava dizendo a si mesma para deixar de ser to tola: o que na 
verdade via eram apenas seus cabelos, etc. Em certos momentos, quando sua mente estava inteiramente lcida, queixava-se da profunda escurido na cabea, de no conseguir 
pensar, de ficar cega e surda, de ter dois eus, um real e um mau, que a forava a comportar-se mal, e assim por diante.
         s tardes caa num estado de sonolncia que durava at cerca de uma hora depois do pr-do-sol. Ento despertava e se queixava de que algo a estava atormentando 
- ou melhor, ficava a repetir na forma impessoal: "atormentando, atormentando", e isso porque, paralelamente ao desenvolvimento das contraturas, surgiu uma profunda 
desorganizao funcional da fala. A princpio, ficou claro que ela sentia dificuldade de encontrar as palavras, e essa dificuldade foi aumentando de maneira gradativa. 
Posteriormente, ela perdeu o domnio da gramtica e da sintaxe; no mais conjugava verbos e acabou por empregar apenas os infinitivos, em sua maioria formados incorretamente 
a partir dos particpios passados, e omitia tanto o artigo definido quanto o indefinido. Com o passar do tempo, ficou quase totalmente desprovida de palavras. Juntava-as 
penosamente a partir de quatro ou cinco idiomas e tornou-se quase ininteligvel. Quando tentava escrever (at que as contraturas a impediram totalmente de faz-lo), 
empregava o mesmo jargo. Durante duas semanas emudeceu por completo e, apesar de envidar grandes e contnuos esforos, foi incapaz de emitir uma nica slaba. E 
ento, pela primeira vez, o mecanismo psquico do distrbio ficou claro. Como eu sabia, ela se sentira extremamente ofendida com alguma coisa e tomara a deliberao 
de no falar a esse respeito. Quando adivinhei isso e a obriguei a falar sobre o assunto, a inibio, que tambm tornara impossvel qualquer outra forma de expresso, 
desapareceu.
         Essa mudana coincidiu com a volta da capacidade de movimento das extremidades do lado esquerdo do corpo, em maro de 1881. A parafasia regrediu, mas da 
por diante ela passou a falar apenas ingls - s que, aparentemente, sem saber que o estava fazendo. Tinha discusses com a enfermeira, que, como  lgico, no conseguia 
entend-la. S alguns meses depois  que pude convenc-la de que estava falando ingls. No obstante, ela prpria ainda compreendia as pessoas a seu redor que falavam 
alemo. S em momentos de extrema ansiedade  que sua capacidade de falar a abandonava por completo, ou ento ela utilizava uma mistura de toda sorte de lnguas. 
s vezes, quando se encontrava em seu melhor estado e com a mxima liberdade, falava francs e italiano. Havia uma amnsia total entre essas ocasies e aquelas em 
que falava ingls. Tambm nessa poca seu estrabismo comeou a diminuir e passou a se apresentar apenas nos momentos de grande excitao. Ela voltou a conseguir 
sustentar a cabea. No dia 1 de abril, levantou-se pela primeira vez.
         No dia 5 de abril morreu seu adorado pai. Durante a doena da paciente ela o vira muito raramente e por perodos curtos. Esse foi talvez o trauma psquico 
mais grave que ela poderia ter experimentado. Uma violenta exploso de excitao foi acompanhada de um profundo estupor, que durou cerca de dois dias e do qual ela 
emergiu num estado acentuadamente modificado. No comeo, ficou muito mais tranqila e seus sentimentos de angstia tiveram uma reduo considervel. A contratura 
do brao e perna direitos persistiu, bem como a anestesia de ambos, embora esta no fosse profunda. Houve um alto grau de restrio do campo visual: num buqu de 
flores que lhe proporcionou muito prazer, s pde ver uma flor de cada vez. Queixava-se de no conseguir reconhecer as pessoas. Normalmente, dizia, fora capaz de 
reconhecer os rostos sem ter de fazer nenhum esforo deliberado; agora era obrigada a fazer um laborioso"recognizing work" e tinha que dizer a si mesma: "o nariz 
dessa pessoa  assim e assim e o cabelo  assim ou assado, de modo que deve ser fulano". Todas as pessoas que via pareciam figuras de cera, sem qualquer ligao 
com ela. Achava muito aflitiva a presena de alguns de seus parentes prximos, e essa atitude negativa foi-se acentuando cada vez mais. Quando algum a quem comumente 
via com prazer entrava no quarto, ela o reconhecia e ficava consciente das coisas por um curto espao de tempo, mas logo mergulhava de novo em suas elucubraes, 
e o visitante se apagava. Eu era a nica pessoa que ela sempre reconhecia quando entrava; enquanto eu conversava com ela, a paciente permanecia animada e em contato 
com as coisas exceto pelas sbitas interrupes causadas por uma de suas "absences" alucinatrias.
         Nesses momentos, s falava ingls e no conseguia compreender o que lhe diziam em alemo. Os que a cercavam eram obrigados a dirigir-lhe a palavra em ingls, 
e at a enfermeira aprendeu, at certo ponto, a se fazer entender dessa maneira. Anna, porm, conseguia ler em francs e italiano. Se tivesse que ler uma dessas 
lnguas em voz alta, o que produzia, com extraordinria fluncia, era uma admirvel traduo improvisada do ingls.
         Ela recomeou a escrever, mas de maneira peculiar. Escrevia com a mo esquerda, a menos rgida, e empregava letras de forma romanas, copiando o alfabeto 
da sua edio de Shakespeare.
         Anteriormente, ela costumava comer muito pouco, mas agora recusava qualquer alimento. Entretanto, permitiu-me que a alimentasse, de modo que logo comeou 
a se alimentar mais. Mas nunca consentia em comer po. Aps a refeio, lavava invariavelmente a boca, e o fazia at mesmo quando, por qualquer motivo, nada era 
comido - o que indica como era distrada a respeito dessas coisas.
         Seus estados de sonolncia  tarde e seu sono profundo depois do crepsculo persistiram. Quando, depois disso, ela se havia esgotado de tanto falar (terei 
que explicar depois o que quero dizer com isso), ficava com a mente clara, calma e alegre.
         Esse estado relativamente tolervel no durou muito. Cerca de dez dias aps a morte do pai, chamou-se um mdico para opinar sobre o caso, a quem, como fazia 
com todos os estranhos, ela ignorou inteiramente enquanto eu demonstrava a ele todas as peculiaridades da paciente. "That's like an examination", disse ela a rir 
quando fiz com que lesse em ingls, em voz alta, um texto escrito em francs. O outro mdico interveio na conversa etentou atrair-lhe a ateno, mas foi intil. 
Era uma autntica "alucinao negativa" do tipo que, desde ento, vem sendo produzida com freqncia em carter experimental. No fim, ele conseguiu romper a alucinao 
ao soprar fumaa no rosto da paciente. De sbito, ela viu diante de si um estranho, precipitou-se para a porta a fim de retirar a chave e caiu no cho, inconsciente. 
Seguiu-se um breve acesso de raiva e depois uma grave crise de angstia, que tive grande dificuldade em acalmar. Infelizmente, tive que sair de Viena naquela noite 
e, ao retornar, passados vrios dias, encontrei a paciente muito pior. Ela ficara sem qualquer alimentao durante todo aquele tempo, estava extremamente angustiada 
e, em suas absences alucinatrias, via figuras aterradoras, caveiras e esqueletos. Dado que se comportava diante dessas coisas como se as estivesse vivenciando e 
em parte as traduzia em palavras, as pessoas em torno dela ficaram amplamente cientes do contedo dessas alucinaes.
         A ordem habitual das coisas era: o estado sonolento  tarde, seguido, aps o pr-do-sol, pela hipnose profunda, para a qual ela inventou o nome tcnico 
de "clouds". Quando, durante a hipnose, ela conseguia narrar as alucinaes que tivera no decorrer do dia, despertava com a mente desanuviada, calma e alegre. Sentava-se 
para trabalhar e escrever ou desenhar at altas horas da noite, de maneira bem racional. Por volta das quatro horas ia deitar-se. No dia seguinte, toda a srie de 
fatos se repetia. Era um contraste realmente notvel: durante o dia, a paciente irresponsvel, perseguida por alucinaes, e  noite a moa com a mente inteiramente 
lcida.
         Apesar de sua euforia noturna, seu estado psquico continuava a se deteriorar. Surgiram fortes impulsos suicidas, que tornaram desaconselhvel que ela permanecesse 
morando no terceiro andar. Contra sua vontade, portanto, foi transferida para uma casa de campo nas imediaes de Viena (em 7 de junho de 1881). Eu nunca a havia 
ameaado com essa mudana de seu lar, que ela encarava com horror, mas ela, sem o dizer, havia esperado e temido tal medida. Esse fato deixou claro, mais uma vez, 
at que ponto o afeto de angstia dominava seu distrbio psquico. Assim como se havia instalado um estado de maior tranqilidade logo aps a morte do pai da paciente, 
tambm agora, quando o que ela temia de fato ocorreu, de novo ela ficou mais calma. No obstante, a mudana foi imediatamente seguida por trs dias e trs noites 
sem qualquer sono e sem alimento, por numerosas tentativas de suicdio (embora, como Anna ficasse num jardim, tais tentativas no fossem perigosas), pela quebra 
de janelas e assim por diante, e por alucinaes no acompanhadas de absences - que ela era capaz de distinguir facilmente de suas outras alucinaes. Depois disso, 
ficou mais calma, passou a deixar que a enfermeira a alimentasse e chegou at a tomar cloral  noite.
         
         Antes de prosseguir em meu relato do caso, preciso voltar mais uma vez para descrever uma de suas peculiaridades, que at agora s mencionei de passagem. 
J disse que ao longo de toda a doena, at esse ponto, a paciente caa num estado de sonolncia todas as tardes, e que, aps o pr-do-sol, esse perodo passava 
para um sono mais profundo - "clouds". (Parece plausvel atribuir essa seqncia regular dos acontecimentos apenas  experincia dela enquanto cuidava do pai, o 
que teve de fazer por vrios meses. Durante as noites, ela velava  cabeceira do paciente ou ficava acordada, escutando ansiosamente at amanhecer; s tardes, deitava-se 
para um ligeiro repouso, como  o costume habitual das enfermeiras. Esse padro de ficar acordada  noite e dormir  tarde parece ter sido transposto para sua prpria 
doena e persistido muito depois de o sono ter sido substitudo por um estado hipntico.) Aps cerca de uma hora de sono profundo, ela ficava irrequieta, virava 
de um lado para outro e repetia "atormentando, atormentando", com os olhos fechados o tempo todo. Tambm se observou como, durante suas absences diuturnas, ela obviamente 
criava alguma situao ou episdio para o qual dava uma pista murmurando algumas palavras. Acontecia ento - de incio por acaso, mas depois a propsito - que algum 
perto dela repetia uma dessas suas frases enquanto ela se queixava do "atormentando". Ela imediatamente fazia coro e comeava a retratar alguma situao ou a narrar 
alguma histria, a princpio com hesitao e no seu jargo parafsico; mas, quanto mais se estendia, mais fluente se tornava, at que por fim falava um alemo bem 
fluente. (Isso se aplica ao perodo inicial, antes que comeasse a falar somente em ingls |ver em [1]|.) As histrias eram sempre tristes, e algumas delas, encantadoras, 
no estilo do lbum de Figuras sem Figuras, de Hans Andersen, e de fato  provvel que se estruturassem sobre aquele modelo. Via de regra, seu ponto de partida ou 
situao central era o de uma moa ansiosamente sentada  cabeceira de um doente. Mas ela tambm construa suas histrias com outros temas bem diversos. - Alguns 
momentos depois de haver concludo a narrativa, ela despertava, obviamente acalmada, ou, como dizia, "gehaeglich". Durante a noite, tornava a ficar irrequieta, e 
pela manh, aps algumas horas de sono, estava visivelmente envolvida em algum outro grupo de representaes. - Quando, por qualquer motivo, no podia narrar-me 
a histria durante a hipnose do anoitecer, no conseguia acalmar-se depois, e no dia seguinte tinha que me contar duas histrias para que isso acontecesse.
         As caractersticas essenciais desse fenmeno - o aumento e a intensificao de suas absences at sua auto-hipnose do anoitecer, o efeito dos produtos de 
sua imaginao como estmulos psquicos e o afrouxamento e a remoo de seu estado de estimulao quando os expressava verbalmente em sua hipnose - permaneceram 
constantes durante todos os dezoito meses em que a paciente ficou em observao.
         As histrias naturalmente se tornaram ainda mais trgicas aps a morte do pai. Contudo, foi s depois da deteriorao do estado mental da paciente, o que 
se seguiu quando seu estado de sonambulismo sofreu uma interrupo abrupta, da maneira j descrita, que suas narrativas do anoitecer deixaram de ter o carter de 
composies poticas, criadas de forma mais ou menos livre, e se transformaram numa cadeia de alucinaes medonhas e apavorantes. (J era possvel chegar a elas 
a partir do comportamento da paciente durante o dia). J descrevi | [1]-[2]| como sua mente ficava inteiramente aliviada depois que, trmula de medo e horror, havia 
reproduzido essas imagens assustadoras e dado expresso verbal a elas.
         
         Enquanto Anna ficou no campo, ocasio em que no pude fazer-lhe as visitas dirias, a situao processou-se da seguinte maneira. Visitava-a  tardinha, 
quando sabia que a encontraria em hipnose, e ento a aliviava de toda a carga de produtos imaginativos que ela havia acumulado desde minha ltima visita. Era essencial 
que isso fosse feito de forma completa se se quisesse alcanar bons resultados. Quando isso era levado a efeito, ela ficava perfeitamente calma e, no dia seguinte, 
mostrava-se agradvel, fcil de lidar, diligente e at mesmo alegre; no segundo dia, porm, tornava-se cada vez mais mal-humorada, voluntariosa e desagradvel, o 
que se acentuava ainda mais no terceiro dia. Quando ficava assim, nem sempre era fcil faz-la falar, mesmo em seu estado hipntico. Ela descrevia de modo apropriado 
esse mtodo, falando a srio, como uma "talking cure, ao mesmo tempo em que se referia a ele, em tom de brincadeira, como "chimney-sweeping". A paciente sabia que, 
depois que houvesse dado expresso a suas alucinaes, perderia toda a sua obstinao e aquilo que descrevia como sua "energia"; equando, aps um intervalo relativamente 
longo, ficava de mau humor, recusava-se a falar, sendo eu obrigado a superar sua falta de disposio encarecendo e suplicando, e at usando recursos como repetir 
uma frmula com a qual ela estava habituada a iniciar suas histrias. Mas ela jamais comeava a falar antes de haver confirmado plenamente minha identidade, apalpando-me 
as mos com cuidado. Nas noites em que no se acalmava pela enunciao verbal, era necessrio recorrer novamente ao cloral. Eu j o havia experimentado em algumas 
ocasies anteriores, mas vi-me obrigado a aplicar-lhe 5 gramas, sendo o sono precedido por um estado de intoxicao que durava algumas horas. Quando me achava presente, 
esse estado era de euforia, mas em minha ausncia era altamente desagradvel e caracterizado por angstia e excitao. (Pode-se observar, a propsito, que esse estado 
de intoxicao aguda no fazia nenhuma diferena quanto a suas contraturas.) Eu havia conseguido evitar o uso de narcticos, visto que a expresso verbal de suas 
alucinaes a tranqilizava, ainda que no induzisse ao sono; entretanto, quando ela estava no campo, as noites em que no conseguia alvio hipntico eram to insuportveis 
que, apesar de tudo, era necessrio recorrer ao cloral. Mas foi possvel reduzir a dose, de forma gradual.
         O sonambulismo persistente no reapareceu, mas, por outro lado, a alternncia entre os dois estados de conscincia perdurou. Ela costumava ter alucinaes 
no meio de uma conversa, sair correndo, subir numa rvore, etc. Quando algum a agarrava, com grande rapidez retomava a frase interrompida, sem tomar nenhum conhecimento 
do que acontecera no intervalo. Todas essas alucinaes, contudo, sobrevinham e eram relatadas em sua hipnose.
         Seu estado, de modo geral, experimentou melhoras. Ela ingeria alimentos sem dificuldades e permitia que a enfermeira a alimentasse com exceo do po, que 
pedia mas rejeitava no momento em que lhe tocava os lbios. A paralisia espstica da perna teve uma diminuio acentuada. Verificaram-se tambm melhoras em sua capacidade 
de julgamento, e ela ficou muito apegada a um amigo meu, o Dr. B., mdico que a visitava. Beneficiou-se muito da presena de um co terra-nova que lhe tinha sido 
presenteado e pelo qual tinha uma afeio apaixonada. Em certa ocasio, porm, seu animal de estimao atacou um gato, e foi extraordinrio ver a forma como a frgil 
moa tomou de um chicote na mo esquerda e afastou a chicotadas o enorme animal para salvar sua vtima. Mais tarde, cuidou de algumas pessoas pobres e doentes, e 
isto a ajudou.
         Foi aps minha volta de uma viagem de frias, que durou vrias semanas, que tive a prova mais convincente do efeito patognico e excitante ocasionado pelos 
complexos de representaes produzidos durante suas absences, ou condition seconde, e do fato de que esses complexos eram eliminados ao receberem expresso verbal 
durante a hipnose. Nesse intervalo no fora efetuada nenhuma "cura pela fala", porque foi impossvel persuadi-la a confiar o que tinha a dizer a qualquer pessoa 
seno eu - nem mesmo ao Dr. B., a quem, sob outros aspectos, ela se havia afeioado. Encontrei-a num estado moral deplorvel, inerte, intratvel, mal-humorada e 
at mesmo malvola. Tornou-se claro por suas histrias noturnas que sua veia imaginativa e potica se estava esgotando. O que ela relatava dizia respeito, cada vez 
mais, a suas alucinaes e, por exemplo, s coisas que a haviam aborrecido nos ltimos dias. Estas eram revestidas de uma forma imaginativa, mas apenas formuladas 
em imagens estereotipadas, e no elaboradas em produes poticas. Mas a situao s ficou tolervel depois de eu haver providenciado o retorno da paciente a Viena 
por uma semana e de, noite aps noite, fazer com que ela me contasse trs a cinco histrias. Quando levei isso a termo, tudo o que se acumulara durante as semanas 
de minha ausncia fora descarregado. Foi s ento que se restabeleceu o ritmo anterior: no dia seguinte quele em que dava expresso verbal a suas fantasias, ela 
ficava amvel e alegre; no segundo dia, mais irritadia e menos agradvel e, no terceiro, verdadeiramente "detestvel". Seu estado moral era uma funo do tempo 
decorrido desde a ltima expresso oral. Isso ocorria porque cada um dos produtos espontneos de sua imaginao e todos os fatos que tinham sido assimilados pela 
parte patolgica de sua mente persistiam como um estmulo psquico at serem narrados em sua hipnose, aps o que deixavam inteiramente de atuar.
         Quando, no outono, a paciente retornou a Viena (embora para uma casa diferente daquela em que adoecera), sua condio era suportvel, tanto fsica como 
mentalmente, pois pouqussimas de suas experincias - de fato, apenas as mais marcantes - eram transformadas em estmulos psquicos de maneira patolgica. Eu tinha 
esperana de uma melhora contnua e progressiva, desde que o permanente carregamento de sua mente com novos estmulos pudesse ser evitado atravs da expresso verbal 
dada a eles. Mas, de incio, fiquei decepcionado. Em dezembro houve um agravamento acentuado de seu estado psquico. Ela voltou a ficar excitada, taciturna e irritvel. 
No tinha mais nenhum "dia realmente bom", mesmo quando era impossvel detectar alguma coisa que estivesse permanecendo "presa" dentro dela. Em fins de dezembro, 
na poca do Natal, a paciente ficou particularmente inquieta e por uma semana inteira, nos fins de tarde, nada me disse de novo alm dos produtos imaginativos que 
havia elaborado dia a dia sob presso de uma angstia e emoo intensas durante o Natal de 1880 |um ano antes|. Quando as sries eram concludas, ela sentia um enorme 
alvio.
         J havia transcorrido um ano desde que Anna se separara do pai e cara de cama, e a partir dessa poca seu estado tornou-se mais claro e foi sistematizado 
de maneira muito peculiar. Seus estados de conscincia alternados, que se caracterizavam pelo fato de que, a partir da manh, suas absences (isto , o surgimento 
de sua condition seconde) sempre se tornavam mais freqentes  medida que o dia avanava e exerciam seu domnio absoluto at o anoitecer - esses estados alternados 
tinham diferido um do outro, no passado, pelo fato de o primeiro ser normal, e o segundo, alienado; agora, porm, eles diferiam ainda mais pelo fato de que, no primeiro, 
ela estava vivendo, como o restante de ns, no inverno de 1881-2, ao passo que, no segundo, vivia no inverno de 1880-1 e se esquecera por completo de todos os eventos 
subseqentes. A nica coisa que, no obstante, parecia permanecer consciente a maior parte do tempo era o fato de que o pai morrera. Ela se via transportada ao ano 
anterior com tal intensidade que, na casa nova, tinha alucinaes com seu antigo quarto, de modo que quando queria ir at a porta, tropeava na estufa, que ficava 
situada em relao  janela do mesmo modo que a porta em seu antigo quarto. A transio de um estado para outro ocorria de forma espontnea, mas tambm podia ser 
facilmente promovida por qualquer impresso sensorial que lembrasse o ano anterior com nitidez. Bastava segurar uma laranja diante dos olhos dela (essa fruta tinha 
constitudo seu principal alimento durante a primeira parte da doena) para que ela se visse transportada para o ano de 1881. Mas essa transferncia ao passado no 
ocorria de modo geral ou indefinido; ela revivia o inverno anterior dia a dia. Eu s teria podido suspeitar de que isso estava acontecendo, no fosse pelo fato de 
que todas as noites, durante a hipnose, ela falava sobre o que a havia excitado no mesmo dia em 1881, e no fosse pelo fato de um dirio particular mantido pela 
me dela em 1881 ter confirmado, sem sombra de dvida, a ocorrncia dos fatos subjacentes. Essa revivescncia do ano anterior continuou at que a doena chegasse 
a seu final, em junho de 1882.
         Tambm foi interessante observar, nesse aspecto, a forma pela qual esses estmulos psquicos revividos, pertencentes a seu estado secundrio, insinuavam-se 
em seu primeiro estado, mais normal. Aconteceu, por exemplo, que certa manh a paciente me disse rindo que no tinha nenhuma idia de qual era o problema, mas estava 
com raiva de mim. Graas ao dirio eu sabia o que estava ocorrendo, e dito e feito, a situao foi revivida na hipnose do anoitecer; eu tinha aborrecido muito a 
paciente na mesma noite, em 1881. Houve outra ocasio em que ela me disse que havia algo errado com seus olhos: estava vendo as cores erradas. Sabia estar usando 
um vestido marrom, mas o via como se fosse azul. Logo verificamos que ela sabia distinguir todas as cores das folhas de teste visual de forma correta e clara, e 
que a perturbao s se relacionava com o material do vestido. O motivo foi que, durante o mesmo perodo em 1881, ela estivera muito atarefada com a confeco de 
um roupo para o pai, que era feito do mesmo material de seu atual vestido, porm era azul em vez de marrom. A propsito, constatava-se com freqncia que essas 
lembranas emergentes revelavam de antemo seu efeito; a perturbao do estado normal ocorria mais cedo, e a lembrana era despertada de forma gradativa apenas em 
sua condition seconde.
         Sua hipnose da noite ficava assim intensamente sobrecarregada, pois tnhamos que escoar pela fala no s seus produtos imaginrios contemporneos, como 
tambm os eventos e "vexations" de 1881. (Felizmente, nessa poca eu j a havia aliviado dos produtos imaginrios daquele ano.) Mas, alm de tudo isso, o trabalho 
a ser executado pela paciente e por seu mdico era imensamente aumentado por um terceiro grupo de perturbaes isoladas, que tinham de ser eliminadas da mesma maneira. 
Tratava-se dos eventos psquicos em jogo no perodo de incubao da molstia, entre julho e dezembro de 1880; eles  que haviam produzido todos os fenmenos histricos 
e, quando receberam expresso verbal, os sintomas desapareceram.
         Quando isso aconteceu pela primeira vez - quando, em decorrncia de um enunciado acidental e espontneo dessa natureza, durante a hipnose da noite, uma 
perturbao que havia persistido por um tempo considervel veio a desaparecer - fiquei extremamente surpreso. Era vero, numa poca de calor intenso, e a paciente 
sofria de uma sede horrvel, pois, sem que pudesse explicar a causa, viu-se de repente impossibilitada de beber. Apanhava o copo de gua desejado, mas, assim que 
o tocava com os lbios, repelia-o como algum que sofresse de hidrofobia. Ao faz-lo, ficava obviamente numa absence por alguns segundos. Para mitigar a sede que 
a martirizava, vivia somente de frutas, como meles, etc. Quando isso j durava perto de seis semanas, um dia, durante a hipnose, ela resmungou qualquer coisa a 
respeito de sua dama de companhia inglesa, de quem no gostava, e comeou ento a descrever, com demonstraes da maior repugnncia, como fora certa vez ao quarto 
dessa senhora e como l pudera ver o cozinho dela - criatura nojenta! - bebendo num copo. A paciente no tinha dito nada, pois quisera ser gentil. Depois de exteriorizar 
energicamente a clera que havia contido,pediu para beber alguma coisa, bebeu sem qualquer dificuldade uma grande quantidade de gua e despertou da hipnose com o 
copo nos lbios. A partir da, a perturbao desapareceu de uma vez por todas. Vrios outros caprichos extremamente obstinados foram eliminados de forma semelhante, 
depois de ela haver descrito as experincias que os tinham ocasionado. A paciente deu um grande passo  frente quando o primeiro de seus sintomas crnicos desapareceu 
da mesma maneira - a contratura da perna direita, que,  verdade, j havia diminudo muito. Esses achados - de que, no caso dessa paciente, os fenmenos histricos 
desapareciam to logo o fato que os havia provocado era reproduzido em sua hipnose - tornaram possvel chegar-se a uma tcnica teraputica que nada deixava a desejar 
em sua coerncia lgica e sua aplicao sistemtica. Cada sintoma individual nesse caso complicado era considerado de forma isolada; todas as ocasies em que tinha 
surgido eram descritas na ordem inversa, comeando pela poca em que a paciente ficara acamada e retrocedendo at o fato que levara  sua primeira apario. Quando 
este era descrito, o sintoma era eliminado de maneira permanente.
         Dessa forma, suas paralisias espsticas e anestesias, os diferentes distrbios da viso e da audio, as nevralgias, tosses, tremores, etc., e por fim seus 
distrbios da fala foram "removidos pela fala". Entre suas perturbaes da viso, os seguintes, por exemplo, foram eliminados um de cada vez: o estrabismo convergente 
com diplopia; o desvio de ambos os olhos para a direita, de modo que quando a mo se estendia para apanhar algo, sempre se dirigia para a esquerda do objeto; a restrio 
do campo visual; a ambliopia central; a macropsia; a viso de uma caveira em vez do pai; e a incapacidade para a leitura. Apenas alguns fenmenos dispersos (como, 
por exemplo, a extenso das paralisias espsticas para o lado esquerdo do corpo), que surgiram enquanto ela estava confinada ao leito, permaneceram intocados por 
esse processo de anlise, sendo provvel, na realidade, que de fato no tivessem nenhuma causa psquica imediata | ver em [1]-[2]|.
         Revelou-se inteiramente impraticvel abreviar o trabalho pela tentativa de evocar de imediato em sua memria a primeira causa provocadora de seus sintomas. 
Ela era incapaz de descobri-la, ficava confusa e as coisas se processavam ainda com maior lentido do que se lhe fosse permitido, de modo tranqilo e firme, retomar 
o fio retrospectivo das recordaes em que se havia envolvido. Dado que este ltimo mtodo, porm, levava muito tempo na hipnose noturna, em vista de ela estar muito 
tensa e profundamente perturbada por "eliminar pela fala" os dois outros grupos de experincias -e tambm em virtude do fato de que as reminiscncias precisavam 
de tempo antes para poderem atingir uma nitidez suficiente - elaboramos o seguinte mtodo. Eu costumava visit-la pela manh e hipnotiz-la. (Alguns mtodos muito 
simples para isso foram obtidos de forma emprica.) A seguir, pedia-lhe que concentrasse os pensamentos no sintoma que estvamos tratando no momento e me dissesse 
as ocasies em que ele surgira. A paciente passava a descrever em rpida sucesso e em frases sucintas os fatos externos em causa, os quais eu anotava. Durante sua 
subseqente hipnose noturna, ela ento me fazia, com a ajuda de minhas anotaes, um relato razoavelmente minucioso dessas circunstncias.
         Um exemplo revelar a forma completa pela qual ela realizava isso. Nossa experincia comum era que a paciente no ouvisse quando lhe era dirigida a palavra. 
Foi possvel diferenciar da seguinte forma esse hbito passageiro de no ouvir:
         (a) No ouvir quando algum entrava, enquanto se abstraa em seus pensamentos. 108 exemplos detalhados e isolados desses casos, com meno das pessoas e 
circunstncias, muitas vezes com datas. Primeiro exemplo: no ouvir o pai entrar.
         (b) No compreender quando vrias pessoas conversavam. 27 exemplos. Primeiro exemplo: o pai, mais uma vez, e um conhecido.
         (c) No ouvir quando estava sozinha e lhe dirigiam a palavra diretamente. 50 exemplos. Origem: o pai tendo em vo lhe pedido vinho.
         (d) Surdez ocasionada por ter sido sacudida (numa carruagem, etc.). 15 exemplos. Origem: por ter sido sacudida com raiva pelo irmo mais novo quando este 
a surpreendeu, certa noite, com o ouvido colado ao quarto do doente.
         (e) Surdez provocada ao assustar-se com um rudo. 37 exemplos. Origem: um acesso de sufocao do pai, causado por ter engolido mal.
         (f) Surdez durante absence profunda. 12 exemplos.
         (g) Surdez ocasionada por ouvir mal durante muito tempo, de modo que, quando lhe dirigiam a palavra, deixava de ouvir. 54 exemplos.
          claro que todos esse episdios eram, numa ampla medida, idnticos, no sentido de que era possvel relacion-los com estados de alheamento, absences ou 
susto. Mas, na memria da paciente, eram diferenciados de modo to claro que, se acontecia ela cometer algum erro em sua seqncia, era obrigada a corrigir-se e 
p-los na ordem certa; se isso no fosse feito, seu relato ficava paralisado. Os fatos que ela descrevia eram to sem interesse e significao, e narrados com tanta 
riqueza de detalhes, que no se poderia suspeitar de que tivessem sido inventados. Muitos desses incidentes consistiam em experincias puramente internas e, assim, 
no podiam ser verificados; outros (ou as circunstncias que os cercavam) estavam na lembrana das pessoas do ambiente de Anna.
         Tambm esse exemplo apresentava uma caracterstica que era sempre observvel quando um sintoma estava sendo "eliminado pela fala": o sintoma especfico 
surgia com maior intensidade enquanto ela o abordava. Assim, durante a anlise de sua incapacidade de ouvir, ela ficou to surda que numa parte do tempo fui obrigado 
a comunicar-me com ela por escrito. A primeira causa provocadora costumava ser um susto de alguma espcie, experimentado enquanto ela cuidava do pai - alguma negligncia 
da parte dela, por exemplo.
         O trabalho de recordao nem sempre era fcil e, algumas vezes, a paciente tinha que fazer grandes esforos. Certa ocasio, todo o nosso progresso ficou 
obstrudo por algum tempo porque uma lembrana recusava-se a emergir. Tratava-se de uma alucinao particularmente pavorosa. Quando cuidava do pai, vira seu rosto 
como se fosse uma caveira. Ela e as pessoas a seu redor lembravam que, certa vez, enquanto parecia ainda gozar de boa sade, ela fizera uma visita a um de seus parentes. 
Abrira a porta e imediatamente cara no cho, inconsciente. Para superar a obstruo a nosso progresso, ela tornou a visitar o mesmo lugar e, ao entrar no quarto, 
mais uma vez caiu no cho, inconsciente. Durante a hipnose noturna seguinte, o obstculo foi superado. Ao entrar no quarto, ela vira seu rosto plido refletido num 
espelho que pendia defronte  porta, mas no fora a si mesma que tinha visto, e sim o pai com um rosto de caveira. - Muitas vezes observamos que seu pavor de uma 
lembrana, como no presente exemplo, inibia o surgimento da mesma, e esta precisava ser provocada  fora pela paciente ou pelo mdico.
         O seguinte incidente, entre outros, ilustra o alto grau de coerncia lgica de seus estados. Durante esse perodo, como j se teve ocasio de explicar, 
a paciente estava sempre em sua condition seconde - isto , no ano de 1881 -  noite. Certa ocasio, despertou durante a noite, declarando ter sido levada para longe 
de casa mais uma vez, e ficou de tal forma excitada que todas as pessoas da casa se alarmaram. A razo foi simples. Na noite anterior, a cura pela fala havia dissipado 
o distrbio da viso, e isso tambm se aplicava a sua condition seconde. Assim, ao acordar durante a noite, ela se viu num quarto estranho, pois a famlia se mudara 
na primavera de 1881. Acontecimentos desagradveis dessa espcie eram evitados por mim pelo fato de (a pedido da paciente) eu sempre fechar seus olhos  noite e 
dar-lhe a sugesto de que ela no poderia abri-los at que eu prprio o fizesse na manh seguinte. Essa perturbao s se repetiu uma vez, quando a paciente gritou 
num sonho e abriu os olhos ao despertar dele.
         Visto que essa trabalhosa anlise de seus sintomas versou sobre os meses do vero de 1880, o perodo preparatrio de sua doena, consegui uma compreenso 
completa da incubao e patognese desse caso de histeria, que agora passarei a descrever de forma sucinta.
         Em julho de 1880, quando se encontrava no campo, o pai de Anna adoeceu gravemente em decorrncia de um abscesso subpleural. Ela dividia com a me as tarefas 
de cuidar do enfermo. Certa vez, acordou de madrugada, muito ansiosa pelo doente, que estava com febre alta; e ela estava sob a tenso de aguardar a chegada de um 
cirurgio de Viena que iria oper-lo. Sua me se ausentara por algum tempo, e Anna, sentada  cabeceira do doente, ps o brao direito sobre o espaldar da cadeira. 
Entrou num estado de devaneio e viu, como se viesse da parede, uma cobra negra que se aproximava do enfermo para mord-lo. ( muito provvel que, no terreno situado 
atrs da casa, algumas cobras tivessem de fato aparecido anteriormente, assustando a moa e fornecendo agora o material para a alucinao.) Ela tentou manter a cobra 
a distncia, mas estava como que paralisada. O brao direito, que pendia sobre o espaldar da cadeira, ficara dormente, insensvel e partico; e quando ela o contemplou 
seus dedos se transformaram em cobrinhas cujas cabeas eram caveiras (as unhas). ( provvel que ela tenha tentado afugentar a cobra com o brao direito paralisado 
e por isso a anestesia e a paralisia do brao se associaram com a alucinao da cobra.) Quando a cobra desapareceu, Anna, aterrorizada, tentou rezar. Mas no achou 
palavras em idioma algum, at que, lembrando-se de um poema infantil em ingls, pde pensar e rezar nessa lngua. O apito do trem que trazia o mdico por ela esperado 
desfez o encanto.
         No dia seguinte, durante um jogo, Anna atirou uma argola em alguns arbustos e, quando foi busc-la, um galho recurvado fez com que ela revivesse a alucinao 
da cobra, e ao mesmo tempo seu brao direito ficou distendido com rigidez. A partir de ento, ocorria invariavelmente a mesma coisa sempre que a alucinao era recordada 
por algum objeto com aparncia mais ou menos semelhante  de uma cobra. Essa alucinao, contudo, bem como a contratura, s apareciam durante as curtas absences, 
que se tornaram cada vez mais freqentes a partir daquela noite. (A contratura s veio a se estabilizar em dezembro, quando a paciente ficou inteiramente prostrada 
e acamada de forma permanente.) Como resultado de algum fato particular cujo registro no consigo encontrar em minhas anotaes e do qual no me recordo mais, a 
contratura da perna direita foi acrescida  do brao direito.
         Sua tendncia s absences auto-hipnticas fixou-se a partir daquele momento. Na manh seguinte  noite que descrevi, enquanto esperava a chegada do cirurgio, 
Anna caiu num tal estado de alheamento que ele por fim chegou ao quarto sem que ela o ouvisse aproximar-se. Sua angstia persistente interferia com a ingesto de 
alimentos e conduziu aos poucos a intensas sensaes de nusea. Afora isso, a rigor, cada um de seus sintomas histricos surgiu sob a ao de um afeto. No  bem 
certo se em cada um dos casos houve um estado momentneo de absence, mas isso parece provvel em vista do fato de que, em seu estado de viglia, a paciente ficava 
totalmente alheia ao que havia acontecido.
         Alguns de seus sintomas, contudo, parecem no haver surgido em suas absences, mas apenas quando de algum afeto durante sua vida de viglia; se foi esse 
o caso, porm, eles reapareciam da mesma forma. Assim pudemos rastrear todas as suas diversas perturbaes da viso at diferentes causas determinantes mais ou menos 
claras. Por exemplo, certa ocasio, quando, com lgrimas nos olhos, se achava sentada  cabeceira do pai, ele de repente lhe perguntou que horas eram. Ela no conseguia 
enxergar com nitidez; fez um grande esforo e aproximou o relgio dos olhos. O mostrador pareceu-lhe ento muito grande, explicando assim sua macropsia e seu estrabismo 
convergente. Ou ento ela se esforou para reprimir as lgrimas para que o doente no as visse.
         Uma discusso, durante a qual Anna reprimiu uma resposta  altura, provocou um espasmo de glote, e isso se repetia em todas as ocasies semelhantes.
         Perdeu a capacidade de falar (a) como resultado do medo, depois de sua primeira alucinao  noite, (b) aps haver reprimido uma observao noutra ocasio 
(por inibio ativa), (c) depois de ter sido injustamente culpada de algo e (d) em todas as ocasies anlogas (quando se sentia mortificada). Comeou a tossir pela 
primeira vez quando, certa feita, sentada  cabeceira do pai, ouviu o som de msica para danar que vinha de uma casa vizinha sentiu um sbito desejo de estar l 
e foi dominada por auto-recriminaes. A partir de ento, durante toda a sua doena, reagia a qualquer msica acentuadamente ritmada com uma tussis nervosa.
         No lamento muito que o fato de minhas anotaes serem incompletas torne impossvel para mim enumerar todas as ocasies em que seus vrios sintomas histricos 
apareciam. Ela prpria os relatava a mim em cada caso isolado, com uma nica exceo por mim mencionada |em [1] e tambm mais adiante, em [1]-[2]|; e, como j disse, 
todos os sintomas desapareciam depois de ela descrever sua primeira ocorrncia.
         Tambm dessa maneira toda a doena desapareceu. A prpria paciente formara o firme propsito de que todo o tratamento deveria terminar no dia em que fizesse 
um ano da data em que foi levada para o campo |7 de junho (ver em [1])|. Por conseguinte, no comeo de junho, ela iniciou a "cura pela fala" com a maior energia. 
No ltimo dia - recorrendo, como ajuda, a uma nova arrumao do quarto, a fim de assemelh-lo ao quarto de doente do pai - ela reproduziu a aterrorizante alucinao 
j descrita acima e que constitui a raiz de toda a sua doena. Durante a cena original, Anna s havia conseguido pensar e rezar em ingls; mas, logo aps sua reproduo, 
pde falar alemo. Alm disso, libertou-se das inmeras perturbaes que exibira antes. Depois, saiu de Viena e viajou por algum tempo, mas passou-se um perodo 
considervel antes que recuperasse inteiramente seu equilbrio mental. Desde ento tem gozado de perfeita sade.
         Embora eu tenha suprimido um grande nmero de detalhes bem interessantes, este caso clnico de Anna O. tornou-se mais volumoso do que pareceria necessrio 
para uma doena histrica que, em si mesma, no foi de carter inusitado. Entretanto, foi impossvel descrever o caso sem entrar em pormenores, e suas caractersticas 
me parecem suficientemente importantes para justificar esta exposio extensa. Da mesma maneira, os ovos dos equinodermos so importantes na embriologia, no porque 
o ourio-do-mar seja um animal interessante, mas porque o protoplasma de seus ovos  transparente e porque o que neles observamos lana luz, desse modo, sobre o 
provvel curso dos acontecimentos nos ovos cujo protoplasma  opaco. O interesse do presente caso me parece residir, acima de tudo, na extrema clareza e inteligibilidade 
de sua patognese.
         Havia nessa moa, enquanto ainda gozava de perfeita sade, duas caractersticas psquicas que atuaram como causas de predisposio para sua subseqente 
doena histrica:
         (1)Sua vida familiar montona e a ausncia de ocupao intelectual adequada deixavam-na com um excedente no utilizado de vivacidade e energia mentais, 
tendo esse excedente encontrado uma sada na atividade constante de sua imaginao.
         (2)Isso a levou ao hbito dos devaneios (seu "teatro particular"), que lanou as bases para uma dissociao de sua personalidade mental. No obstante, uma 
dissociao desse grau ainda se acha nos limites da normalidade. Os devaneios e as reflexes durante ocupaes mais ou menos mecnicas no implicam, em si mesmos, 
uma diviso patolgica da conscincia visto que, ao serem interrompidos - quando, por exemplo, algum dirige a palavra  pessoa - a unidade normal da conscincia 
 restaurada; no implicam tampouco a existncia de amnsia. No caso de Anna O., porm, esse hbito preparou o terreno em que o afeto de angstia e pavor pde estabelecer-se 
na forma que descrevi, to logo esse afeto transformou os devaneios habituais da paciente numa absence alucinatria.  notvel que a primeira manifestao da doena 
em seus primrdios j exibisse de modo to completo suas principais caractersticas, que depois permaneceram inalteradas por quase dois anos. Estas compreendiam 
a existncia de um segundo estado de conscincia, que surgiu primeiro como uma absence temporria e depois se organizou sob a forma de uma "double conscience"; uma 
inibio da fala, determinada pelo afeto de angstia, que encontrou uma descarga fortuita nos versos em lngua inglesa; posteriormente, a parafasia e a perda da 
lngua materna, que foi substituda por um ingls excelente; e, por fim, a paralisia acidental do brao direito, em virtude da presso, que depois evoluiu para uma 
paresia espstica e anestesia do lado direito. O mecanismo pelo qual esta segunda afeco veio a existir mostrou-se em inteira consonncia com a teoria da histeria 
traumtica de Charcot - um ligeiro trauma ocorrido durante um estado de hipnose.
         
         Mas, enquanto a paralisia experimentalmente provocada por Charcot em seus pacientes se estabilizava de imediato, e enquanto a paralisia causada em vtimas 
de neuroses traumticas devidas a grave choque traumtico logo se estabelece, o sistema nervoso dessa moa ofereceu uma resistncia bem-sucedida durante quatro meses. 
Sua contratura, bem como as outras perturbaes que se acompanharam, s se estabeleceu durante as curtas absences e em sua condition seconde, deixando-a, durante 
seu estado normal, com pleno controle do corpo, e em posse de seus sentidos, de modo que nada foi observado nem por ela prpria nem por aqueles que a cercavam, se 
bem que a ateno deles estivesse enfocada no pai enfermo da paciente e, por conseguinte, desviada dela.
         Entretanto, uma vez que suas absences, com sua amnsia total, e fenmenos histricos concomitantes, tornaram-se cada vez mais freqentes a partir da poca 
de sua primeira auto-hipnose alucinatria, as oportunidades se multiplicaram para a formao de novos sintomas da mesma espcie, e os que j se haviam formado tornaram-se 
mais fortemente entrincheirados pela freqente repetio. Alm disso, qualquer afeto angustiante sbito passou gradativamente a ter o mesmo resultado de uma absence 
(embora, a rigor, seja possvel que esses afetos causassem de fato uma absence temporria em todos os casos); algumas coincidncias fortuitas formaram associaes 
patolgicas e perturbaes sensoriais ou motoras, que da por diante passaram a surgir junto com o afeto. Mas at ento isso s havia ocorrido durante momentos passageiros. 
Antes de ficar permanentemente acamada, a paciente j havia desenvolvido todo o conjunto de fenmenos histricos, sem que ningum o soubesse. S depois de ela ter 
entrado em colapso completo, graas ao esgotamento acarretado pela falta de alimentos, insnia e angstia constante, e s depois de ter comeado a passar mais tempo 
em sua condition seconde do que em seu estado normal, foi que os fenmenos histricos se estenderam a este ltimo e passaram da condio de sintomas agudos intermitentes 
 de sintomas crnicos.
         Surge agora a questo de determinar at que ponto se pode confiar nas declaraes da paciente e de saber se as ocasies e o modo de origem dos fenmenos 
foram realmente tais como ela os representou. Quanto aos fatos mais importantes e fundamentais, o grau de confiabilidade de seu relato me parece estar fora de dvida. 
Quanto ao fato de os sintomas desaparecerem depois de "verbalizados", no posso empregar isso como prova;  bem possvel que isso se explique pela sugesto. Mas 
sempre achei que a paciente era inteiramente fiel  verdade e digna de toda confiana. As coisas que me relatou estavam intimamente vinculadas com o que lhe era 
mais sagrado. O que quer que pudesse ser verificado atravs de outras pessoas era plenamente confirmado. At mesmo a moa mais bem-dotada seria incapaz de engendrar 
uma trama de dados com tal grau de coerncia interna como o exibido na histria deste caso. No se pode duvidar, contudo, de que precisamente sua coerncia talvez 
a tenha levado (em absoluta boa-f) a atribuir a alguns dos seus sintomas uma causa desencadeadora que na verdade no possuam. Mas tambm a essa suspeita considero 
injustificada. A prpria insignificncia de tantas dessas causas e o carter irracional de tantas das conexes envolvidas depem a favor de sua realidade. A paciente 
no conseguia entender como  que a msica para danar a fazia tossir; uma construo dessa natureza  por demais destituda de sentido para ter sido deliberada. 
(Pareceu-me muito provvel, alis, que cada um de seus dramas de conscincia acarretasse um de seus habituais espasmos da glote e que os impulsos motores que sentia 
- pois ela gostava muito de danar - transformassem o espasmo numa tussis nervosa.) Por conseguinte, em minha opinio, as declaraes da paciente mereciam toda a 
confiana e correspondiam aos fatos.
         E agora devemos considerar at que ponto  justificvel supor que a histeria se produza de maneira anloga em outros pacientes e que o processo seja semelhante 
quando nenhuma condition seconde to claramente distinta tenha-se organizado. Para sustentar esse ponto de vista, posso assinalar o fato de que, tambm no presente 
caso, a histria da evoluo da doena teria permanecido inteiramente desconhecida, tanto da paciente quanto do mdico, se no fosse a peculiaridade de a paciente 
se recordar de coisas na hipnose, como descrevi, e de conseguir relacion-las. Enquanto estava em seu estado de viglia, ela no tinha nenhum conhecimento de tudo 
isso. Portanto,  impossvel, nos outros casos, chegar-se ao que est acontecendo atravs de um exame dos pacientes em estado de viglia, pois, com a melhor boa 
vontade do mundo, eles no podem dar informao alguma a ningum. E j ressaltei como as pessoas que cercavam a paciente eram pouco capazes de observar aquilo que 
estava acontecendo. Por conseguinte, s seria possvel descobrir o estado de coisas em outros pacientes por meio de um mtodo semelhante ao que foi proporcionado, 
no caso de Anna O., por suas auto-hipnoses. Por enquanto, podemos apenas externar o ponto de vista de que seqncias de fatos semelhantes aos aqui descritos ocorrem 
com maior freqncia do que nos levou a supor nossa ignorncia do mecanismo patognico em causa.
         Quando a paciente ficou de cama e sua conscincia passou a oscilar de forma constante entre o estado normal e o "secundrio", toda a srie de sintomas histricos, 
que haviam surgido isoladamente e at ento se achavam latentes, tornou-se manifesta, como j vimos, como sintomas crnicos. Acrescentou-se ento a estes um novo 
grupo de fenmenos que pareciam ter tido uma origem diferente: as paralisias espsticas das extremidades esquerdas e a paresia dos msculos elevadores da cabea. 
Eu os distingo dos outros fenmenos porque, uma vez que tivessem desaparecido, nunca mais retornavam, mesmo na forma mais breve ou branda, ou durante a fase conclusiva 
e de recuperao, quando todos os outros sintomas se tornaram de novo ativos aps terem ficado inativos por algum tempo. Da mesma forma, jamais vieram  tona nas 
anlises hipnticas e no foram rastreados at as fontes emocionais ou imaginativas. Inclino-me a pensar, portanto, que seu surgimento no se deveu ao mesmo processo 
psquico dos outros sintomas, mas que cabe atribu-lo a uma extenso secundria daquela condio desconhecida que constitui o fundamento somtico dos fenmenos histricos.
         Durante toda a doena seus dois estados de conscincia persistiram lado a lado: o primrio, em que ela era bastante normal psiquicamente, e o secundrio, 
que bem pode ser assemelhado a um sonho, em vista de sua abundncia de produes imaginrias e alucinaes, suas grandes lacunas de memria e a falta de inibio 
e controle em suas associaes. Nesse estado secundrio, a paciente ficava numa situao de alienao. O fato de que toda a condio mental da paciente estava na 
dependncia da intruso desse estado secundrio no normal parece lanar uma considervel luz sobre pelo menos um tipo de psicose histrica. Cada uma de suas hipnoses 
 noite oferecia provas de que a paciente estava inteiramente lcida e bem ordenada em sua mente e normal no tocante a seus sentimentos e a sua volio, desde que 
nenhum dos produtos de seu estado secundrio atuasse como um estmulo "no inconsciente". A psicose extremamente acentuada que surgia sempre que havia um intervalo 
considervel nesse processo de desabafo revelou o grau em que esses produtos influenciavam os fatos psquicos de seu estado latentes, tornou-se manifesta, como j 
vimos, como sintomas crnicos. Acrescentou-se ento a estes um novo grupo de fenmenos que pareciam ter tido uma origem diferente: as paralisias espsticas das extremidades 
esquerdas e a paresia dos msculos elevadores da cabea. Eu os distingo dos outros fenmenos porque, uma vez que tivessem desaparecido, nunca mais retornavam, mesmo 
na forma mais breve ou branda, ou durante a fase conclusiva e de recuperao, quando todos os outros sintomas se tornaram de novo ativos aps terem ficado inativos 
por algum tempo. Da mesma forma, jamais vieram  tona nas anlises hipnticas e no foram rastreados at as fontes emocionais ou imaginativas. Inclino-me a pensar, 
portanto, que seu surgimento no se deveu ao mesmo processo psquico dos outros sintomas, mas que cabe atribu-lo a uma extenso secundria daquela condio desconhecida 
que constitui o fundamento somtico dos fenmenos histricos.
         Durante toda a doena seus dois estados de conscincia persistiram lado a lado: o primrio, em que ela era bastante normal psiquicamente, e o secundrio, 
que bem pode ser assemelhado a um sonho, em vista de sua abundncia de produes imaginrias e alucinaes, suas grandes lacunas de memria e a falta de inibio 
e controle em suas associaes. Nesse estado secundrio, a paciente ficava numa situao de alienao. O fato de que toda a condio mental da paciente estava na 
dependncia da intruso desse estado secundrio no normal parece lanar uma considervel luz sobre pelo menos um tipo de psicose histrica. Cada uma de suas hipnoses 
 noite oferecia provas de que a paciente estava inteiramente lcida e bem ordenada em sua mente e normal no tocante a seus sentimentos e a sua volio, desde que 
nenhum dos produtos de seu estado secundrio atuasse como um estmulo "no inconsciente". A psicose extremamente acentuada que surgia sempre que havia um intervalo 
considervel nesse processo de desabafo revelou o grau em que esses produtos influenciavam os fatos psquicos de seu estado "normal".  difcil evitar expressar 
a situao afirmando que a paciente estava dividida em duas personalidades, das quais uma era mentalmente normal, e a outra, insana. Em minha opinio, a ntida diviso 
entre os dois estados nessa paciente s vem revelar com maior clareza aquilo que ocasionou um grande nmero de problemas inexplicados em muitos outros pacientes 
histricos. Foi especialmente observvel, em Anna O., o grau em que os produtos de seu "mau eu", conforme ela prpria o denominava, afetavam seu senso tico mental. 
Se esses produtos no tivessem sido continuamente eliminados, ter-nos-amos confrontado com uma histrica do tipo malvolo - teimosa, indolente, desagradvel e rabugenta; 
mas o que se passava era que, aps a remoo desses estmulos, seu verdadeiro carter, que era o oposto de tudo isso, sempre ressurgia de imediato.
         No obstante, embora seus dois estados fossem assim nitidamente separados, no s o estado secundrio invadia o primeiro, como tambm - e isso se dava com 
freqncia em todas as ocasies, mesmo quando ela se encontrava numa condio muito ruim - um observador lcido e calmo ficava sentado, conforme ela dizia, num canto 
de seu crebro, contemplando toda aquela loucura a seu redor. Essa persistncia do pensamento claro enquanto a psicose estava em pleno processo encontrava expresso 
numa forma muito curiosa. Numa ocasio em que, depois de terem cessado os fenmenos histricos, a paciente estava atravessando uma depresso temporria, ela apresentou 
grande nmero de temores e auto-recriminaes infantis, entre eles a idia de que de modo algum estivera doente e tudo aquilo fora simulado. Observaes semelhantes, 
como sabemos, tm sido feitas com freqncia. Depois que um distrbio dessa natureza desapareceu e os dois estados de conscincia voltaram a se fundir num s, os 
pacientes, lanando um olhar retrospectivo para o passado, se vem como a personalidade nica e indivisa que se dava conta de todo aquele absurdo; acham que poderiam 
t-lo impedido se assim tivessem desejado e se sentem como se tivessem praticado todo o mal de forma deliberada. - Deve-se acrescentar que esse raciocnio normal 
que persistia durante o estado secundrio deve ter variado enormemente de intensidade e, muitas vezes, at deve ter estado ausente de todo.
         J descrevi o surpreendente fato de que, do comeo ao fim da doena, todos os estmulos decorrentes do estado secundrio, junto com suas conseqncias, 
eram eliminados de maneira permanente ao receberem expresso verbal na hipnose, e resta-me apenas acrescentar a certeza de que isso no foi uma inveno minha imposta 
 paciente por sugesto. Fui apanhado inteiramente de surpresa, e s depois de todos os sintomas serem assim eliminados em toda uma srie de situaes  que desenvolvi 
uma tcnica teraputica a partir dessa experincia.
         A cura final da histeria merece mais algumas palavras. Ela foi acompanhada, como j tive oportunidade de dizer, por perturbaes considerveis e uma deteriorao 
do estado mental da paciente. Tive impresso muito forte de que os numerosos produtos do seu estado secundrio que ficaram latentes foravam agora sua entrada na 
conscincia; e embora de incio fossem recordados apenas em seu estado secundrio, estavam ainda assim sobrecarregando e perturbando seu estado normal. Resta verificar 
se no deveramos procurar a mesma origem nos outros casos em que a histeria crnica termina numa psicose.
         
         CASO 2 - SRA EMMY VON N., IDADE 40 ANOS, DA LIVNIA (FREUD)
         
         Em 1 de maio de 1889, comecei o tratamento de uma senhora de cerca de quarenta anos, cujos sintomas e personalidade me interessaram de tal forma que lhe 
dediquei grande parte de meu tempo e decidi fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para recuper-la. Era histrica e podia ser posta com a maior facilidade num 
estado de sonambulismo; ao tomar cincia disso, resolvi fazer uso da tcnica de investigao sob hipnose, de Breuer, que eu viera a conhecer pelo relato que ele 
me fizera do bem-sucedido tratamento de sua primeira paciente. Essa foi minha primeira tentativa de lidar com aquele mtodo teraputico | ver em [1] e [2]|. Estava 
ainda longe de t-lo dominado; de fato, no fui bastante  frente na anlise dos sintomas, nem o segui de maneira suficientemente sistemtica. Talvez possa apresentar 
melhor um quadro da condio da paciente e de minha conduta clnica reproduzindo as anotaes que fiz todas as noites durante as trs primeiras semanas do tratamento. 
Onde quer que a experincia posterior me haja proporcionado melhor compreenso, eu a incorporarei em notas de rodap e comentrios intercalados.
         1 de maio de 1889. - Essa senhora, quando a vi pela primeira vez, estava deitava num sof com a cabea repousando numa almofada de couro. Parecia ainda 
jovem e as feies eram delicadas e marcantes. O rosto tinha uma expresso tensa e penosa, as plpebras estavam cerradas e os olhos, baixos; a testa apresentava 
profundas rugas e as dobras nasolabiais eram acentuadas. Falava em voz baixa, como se tivesse dificuldade, e a fala ficava de tempos em tempos sujeita a interrupes 
espsticas, a ponto de ela gaguejar. Conservava os dedos firmemente entrelaados, e eles exibiam uma agitao incessante, parecida com a que ocorre na atetose. Havia 
freqentes movimentos convulsivos semelhantes a tiques, no rosto e nos msculos do pescoo, durante os quais alguns destes, especialmente o esternoclidomastideo 
direito, se tornavam muito salientes. Alm disso, ela interrompia com freqncia suas observaes emitindo um curioso "estalido" com a boca, um som impossvel de 
imitar.
         O que a paciente me dizia era perfeitamente coerente e revelava um grau inusitado de instruo e inteligncia. Isso fazia com que parecesse ainda mais estranho 
que, a cada dois ou trs minutos, ela de sbito se calasse, contorcesse o rosto numa expresso de horror e nojo, estendesse a mo em minha direo, abrindo e entortando 
os dedos, e exclamasse numa voz alterada, carregada de angstia: "Fique quieto! - No diga nada! - No me toque!"  provvel que estivesse sob a influncia de alguma 
alucinao recorrente de natureza apavorante e que, com essa frmula, estivesse mantendo afastado o material intromissivo. Essas interpolaes chegavam ao fim to 
de sbito quanto comeavam, e a paciente retomava seu relato anterior, sem dar continuidade a sua excitao momentnea e sem explicar ou pedir desculpas por seu 
comportamento - provavelmente, portanto, sem que ela prpria notasse a interpolao.
         Tomei conhecimento do seguinte sobre as circunstncias de sua vida: Sua famlia era originria da Alemanha Central, mas duas de suas geraes haviam fixado 
residncia nas provncias blticas da Rssia, onde possua grandes propriedades. Ela era a dcima terceira de quatorze filhos. Apenas quatro dentre eles sobreviveram. 
A paciente recebeu uma educao cuidadosa, mas sob a disciplina rgida de uma me excessivamente enrgica e severa. Quando contava vinte e trs anos, casou-se com 
um homem muito bem-dotado e capaz, que alcanara uma posio elevada como grande industrial, mas que era muito mais velho do que ela. Depois de um casamento de curta 
durao, ele morreu de derrame cerebral. A esse fato, bem como  tarefa de educar as duas filhas, ento com dezesseis e quatorze anos, muitas vezes enfermas e que 
sofriam de distrbios nervosos, ela atribua sua prpria doena. Desde a morte do marido, quatorze anos antes, vivera constantemente doente, com variados graus de 
gravidade. H quatro anos, seu estado sofrera uma melhora temporria com uma srie de massagens combinadas com banhos eltricos. Afora isso, todos os seus esforos 
para melhorar de sade tm sido infrutferos. Ela viajou muito e tem um vivo interesse por muitas coisas. Atualmente, mora numa casa de campo num ponto do Bltico, 
perto de uma grande cidade. H vrios meses tem estado outra vez muito doente, sofrendo de depresso e insnia e atormentada por dores; foi at Abbazia na v esperana 
de obter melhoras, e nas ltimas seis semanas est em Viena, at agora sob os cuidados de um mdico de excelente reputao.
         Sugeri que ela se separasse das duas filhas, que tm governanta, e se internasse numa casa de sade, onde eu poderia v-la todos os dias. Concordou com 
isso sem levantar a menor objeo.
         
         Na noite de 2 de maio visitei-a na casa de sade. Notei que se assustava muito sempre que a porta se abria de modo inesperado. Assim, providenciei para 
que, ao visit-la, as enfermeiras e os mdicos internos batessem com fora na porta e s entrassem depois de ela dizer que podiam faz-lo. Mesmo assim, ela ainda 
fazia trejeitos faciais e dava um pulo toda vez que algum entrava.
         Sua principal queixa hoje foi sobre sensaes de frio e dor na perna esquerda, que se originavam nas costas, acima da crista do ilaco. Ordenei que lhe 
dessem banhos quentes e lhe aplicarei massagens por todo o corpo duas vezes ao dia.
         Ela  uma excelente paciente para o hipnotismo. Bastou eu levantar um dedo diante dela e ordenar-lhe que dormisse para que se reclinasse com uma expresso 
atordoada e confusa. Sugeri que ela dormiria bem, que todos os seus sintomas melhorariam, e assim por diante. Ela ouviu tudo isso com os olhos fechados, mas sem 
dvida com uma ateno inconfundivelmente concentrada, e suas feies aos poucos se relaxaram e assumiram uma aparncia pacfica. Depois dessa primeira hipnose, 
conservou uma tnue lembrana de minhas palavras, mas, j na segunda, houve completo sonambulismo (com amnsia). Tinha-a avisado de que pretendia hipnotiz-la, ao 
que ela no opusera nenhuma dificuldade. Ela nunca fora hipnotizada antes, mas pode-se supor que j leu sobre o hipnotismo, embora eu no saiba dizer quais so suas 
idias sobre o estado hipntico.
         Esse tratamento  base de banhos quentes, massagens duas vezes ao dia e sugesto hipntica prosseguiu por mais alguns dias. Ela dormia bem, melhorava a 
olhos vistos e passava a maior parte do dia tranqilamente deitada. No lhe foi proibido ver as filhas, ler, ou cuidar da correspondncia.
         
         8 de maio, manh. - Ela me entreteve, num estado que parecia normal, com histrias aterradoras sobre animais. Lera no Frankfurter Zeitung, que estava na 
mesa em frente a ela, uma histria de como um aprendiz amarrara um menino e lhe pusera na boca um rato branco. O menino morrera de susto. O Dr. K. lhe dissera ter 
mandado uma caixa cheia de ratos brancos para Tiflis. Ao narrar-me isso, ela demonstrava todos os sinais de horror. Torcia e retorcia as mos vrias vezes. "Fique 
quieto! - No diga nada! - No me toque! - Imagine s se houvesse uma criatura dessas na cama!" (Estremeceu.) "Pense s, quando for aberta! H um rato morto entre 
eles - um que foi ro-o--do!"
         Durante a hipnose tentei eliminar essas alucinaes com animais. Enquanto ela dormia, apanhei o Frankfurter Zeitung. Achei a histria do menino que fora 
maltratado, mas sem nenhuma referncia a camundongos ou ratos. Logo, ela os havia introduzido a partir de seu delrio enquanto lia. ( noite, falei-lhe de nossa 
conversa sobre os ratos brancos. Ela no sabia de nada daquilo, ficou muito surpresa e deu boas risadas.)
          tarde teve o que chamou de uma "cibra no pescoo", que no entanto, como disse, "s durou pouco tempo - umas poucas horas".
         
         Noite. - Pedi-lhe que, sob hipnose, falasse, o que, depois de certo esforo, ela conseguiu fazer. Falava baixo e refletia por um momento, cada vez, antes 
de responder. Sua expresso se alterava de acordo com o tema de suas observaes e se acalmava to logo minha sugesto punha termo  impresso nela causada pelo 
que dizia. Perguntei-lhe por que se assustava com tanta facilidade e ela respondeu: "Est relacionado com as lembranas de minha meninice." "Quando?" "Primeiro, 
quando eu tinha cinco anos e meus irmos e irms costumavam atirar animais mortos em mim. Foi a que tive meu primeiro desmaio e espasmos. Mas minha tia disse que 
aquilo era uma vergonha e que eu no devia ter daqueles ataques, de modo que eles pararam. Depois me assustei de novo quando tinha sete anos, e inesperadamente, 
vi minha irm no caixo; e outra vez quando contava oito anos e meu irmo me aterrorizou uma poro de vezes, enrolando-se em lenis como um fantasma; e tambm 
quando tinha nove anos e vi minha tia no caixo e de repente o queixo dela caiu."
          claro que essa srie de causas desencadeadoras traumticas que ela citou em resposta a minha pergunta sobre a razo de ser to propensa a se assustar 
j estava pronta em sua memria. Ela no poderia ter reunido to depressa esses episdios de diferentes perodos de sua infncia no curto intervalo transcorrido 
entre minha pergunta e sua resposta. No fim de cada uma das histrias ela se crispava toda e assumia uma expresso de medo e horror. Ao final da ltima, escancarou 
a boca e ficou ofegante. As palavras com que descreveu o tema pavoroso de sua experincia foram pronunciadas com dificuldade e entremeadas de estertores. Depois, 
suas feies se tranqilizaram.
         Em resposta a uma pergunta, disse-me que enquanto descrevia essas cenas via-as diante de si, numa forma plstica e em suas cores naturais. Contou que, em 
geral, pensava nessas experincias com muita freqncia e o fizera nos ltimos dias. Sempre que isso acontecia, via essas cenas com toda a nitidez da realidade. 
Compreendo agora por que tantas vezes ela me entretm com cenas de animais e quadros de cadveres. Minha terapia consiste em eliminar esses quadros, de modo que 
ela no possa mais v-los diante de si. Para reforar minha sugesto, passei suavemente a mo por seus olhos vrias vezes.
         
         9 de maio, |manh.| - Sem que lhe tivesse dado nenhuma outra sugesto, ela dormiu bem. Mas sentiu dores gstricas pela manh. Estas surgiram ontem, no jardim, 
onde ela permaneceu muito tempo com as filhas. Concordou em que eu limitasse as visitas das moas a duas horas e meia. Alguns dias atrs recriminara a si prpria 
por deixar as filhas sozinhas. Encontrei-a um tanto agitada hoje; a testa estava enrugada, a fala era hesitante e ela produzia aqueles estalidos caractersticos. 
Enquanto era massageada, disse-me apenas que a governanta das filhas lhe levara um atlas etnolgico e que algumas fotografias de ndios norte-americanos vestidos 
como animais lhe produziram um grande choque. "Pense s se eles ganhassem vida!" (Estremeceu.)
         Sob hipnose perguntei-lhe por que se assustara tanto com essas fotografias, visto j no ter mais medo de animais. Respondeu que a tinham feito recordar 
as vises que tivera (aos dezenove anos) na poca da morte do irmo. (Deixarei para depois as indagaes sobre essa lembrana.) A seguir, perguntei-lhe se sempre 
gaguejara e h quanto tempo tinha o tique (o estalido peculiar): A gagueira, disse, surgira quando estava doente; tinha o tique h cinco anos, desde o tempo em que 
estivera sentada  cabeceira da filha mais nova, quando esta esteve muito doente, e desejara ficar absolutamente quieta. Tentei reduzir a importncia dessa lembrana, 
ressaltando que, afinal de contas, nada acontecera  filha, e assim por diante. A coisa surgia, disse-me ela, sempre que ficava apreensiva ou assustada. Dei-lhe 
instrues para que no se assustasse com os retratos dos peles-vermelhas, mas que risse  vontade deles e at chamasse para eles minha ateno. E isso de fato aconteceu 
depois de ela despertar: olhou para o livro, perguntou-me se o tinha visto, abriu-o na pgina e riu alto das figuras grotescas, sem o menor indcio de medo e sem 
que suas feies denotassem a menor tenso. O Dr. Breuer entrou subitamente com o mdico interno para visit-la. Ela se assustou e comeou a produzir o estalido 
caracterstico, de modo que eles logo se retiraram. A paciente me explicou que ficara agitada daquela maneira por ser desagradavelmente afetada pelo fato de o mdico 
interno tambm entrar a todo instante.
         Eu tambm havia eliminado suas dores gstricas durante a hipnose, tocando-a levemente no abdome, e lhe disse que, embora ela esperasse pelo retorno da dor 
depois do almoo, isso no aconteceria.
         Noite. - Pela primeira vez ela se mostrou alegre e falante e deu mostras de um senso de humor que eu no teria esperado numa mulher to sria; e entre outras 
coisas, com a acentuada sensao de estar melhor, zombou do tratamento feito por meu antecessor. De h muito pretendia, segundo me disse, desistir daquele tratamento, 
mas no conseguia encontrar o mtodo certo de faz-lo, at que uma observao fortuita feita pelo Dr. Breuer, numa ocasio em que a visitou, indicou-lhe a soluo. 
Quando pareci surpreso com isso, assustou-se e comeou a recriminar-se asperamente por ter sido indiscreta. Ao que parece, porm, consegui reassegur-la. - Ela no 
tinha sentido as dores gstricas, embora as houvesse esperado.
         Sob hipnose pedi-lhe que me contasse outras experincias que tivessem dado margem a um medo duradouro. Ela forneceu uma segunda seqncia dessa espcie, 
que datava do final de sua juventude, com a mesma rapidez da primeira seqncia, e me assegurou mais uma vez que todas essas cenas surgiram diante dela muitas vezes, 
nitidamente e em cores. Uma delas era de como viu uma prima ser levada para um asilo de loucos (quando ela estava com quinze anos). Ela havia tentado pedir socorro, 
mas no conseguira e perdera a capacidade de falar at a noite do mesmo dia. Visto que ela falava em hospcios com muita freqncia em seu estado de viglia, interrompi-a 
e perguntei em que outras ocasies ela se preocupara com a loucura. Ela me contou que sua prpria me tinha passado algum tempo num hospcio. Em certa poca, tiveram 
uma empregada cuja antiga patroa estivera muito tempo internada numa dessas instituies e que costumava contar-lhes histrias aterradoras de como os pacientes eram 
amarrados a cadeiras, espancados, etc. Ao narrar-me isso, retorceu as mos, horrorizada; estava vendo tudo diante dos olhos. Esforcei-me por corrigir-lhe as idias 
sobre os manicmios e lhe assegurei que ela conseguiria ouvir falar de instituies dessa natureza sem referi-las a si mesma. Com isso, suas feies se relaxaram.
         Prosseguiu com sua relao de lembranas aterradoras. Uma, aos quinze anos, de como encontrara a me, que tivera um derrame cerebral, estendida no cho 
(a me viveu mais quatro anos); de novo, aos dezenove, de como chegou a casa certo dia e encontrou a me morta, com o rosto contorcido. Naturalmente, tive uma dificuldade 
considervel em atenuar-lhe essas lembranas. Aps uma explicao bastante longa, assegurei-lhe que tambm esse quadro s lhe surgiria outra vez de forma indistinta 
e sem intensidade. - Outra lembrana era a da maneira como, aos dezenove anos, ela levantou uma pedra e encontrou debaixo dela um sapo, o que a fez perder a fala 
durante horas.
         Durante essa hipnose convenci-me de que ela sabia de tudo o que acontecera na ltima hipnose, enquanto na vida de viglia no tem nenhum conhecimento disso.
         
         10 de maio, manh. - Pela primeira vez, deram-lhe hoje um banho de farelo, em vez de seu habitual banho morno. Achei-a com uma expresso de aborrecimento 
e angstia, com as mos envoltas num xale. Queixava-se de frio e dores. Quando lhe perguntei o que se passava, disse-me que o banho fora incomodamente curto e provocara 
dores. Durante a massagem, comeou por dizer que ainda se sentia mal por ter atraioado o Dr. Breuer ontem. Acalmei-a com uma pequena mentira e disse que eu j sabia 
daquilo o tempo todo, ao que sua agitao (estalidos, trejeitos faciais) cessou. Todas as vezes, portanto, mesmo enquanto a massageio, minha influncia j comea 
a afet-la; a paciente fica mais tranqila e mais lcida, e mesmo sem que haja perguntas sob hipnose consegue descobrir a causa de seu mau humor daquele dia. Tampouco 
sua conversa durante a massagem  to sem objetivo como poderia parecer. Pelo contrrio, encerra uma reproduo razoavelmente completa das lembranas e das novas 
impresses que a afetaram desde nossa ltima conversa e, muitas vezes, de maneira bem inesperada, progride at as reminiscncias patognicas, que ela vai desabafando 
sem ser solicitada.  como se tivesse adotado meu mtodo e se valesse de nossa conversa, aparentemente sem constrangimento e guiada pelo acaso, como um complemento 
de sua hipnose. Por exemplo, hoje comeou a falar sobre sua famlia e, com muitos rodeios, passou ao assunto de um primo. Este no era muito bom da cabea e os pais 
mandaram arrancar-lhe todos os dentes de uma s vez. Ela acompanhou a histria com expresses de horror e ficou repetindo sua frmula protetora ("Fique quieto! - 
No diga nada! - No me toque!"). Depois disso, seu rosto se descontraiu e ela ficou alegre. Assim, seu comportamento na vida de viglia  dirigido pelas experincias 
que teve durante o sonambulismo, embora acredite, enquanto est acordada, nada saber a respeito delas.
         Sob hipnose repeti minha pergunta quanto quilo que a perturbara e recebi as mesmas respostas, mas na ordem inversa: (1) sua conversa indiscreta de ontem, 
e (2) suas dores provocadas por ter sentido muito desconforto no banho. - Perguntei-lhe hoje o significado de sua frase "Fique quieto!", etc. Explicou que, quando 
tinha pensamentos assustadores, temia que eles fossem interrompidos em seu curso, porque ento tudo ficaria confuso e as coisas ficariam ainda piores. O "Fique quieto!" 
relacionava-se com o fato de que as formas animais que lhe apareciam quando ela se achava em mau estado comeavam a mover-se e a atac-la se algum fizesse um movimento 
em sua presena. A exortao final "No me toque!" provinha das seguintes experincias: contou-me como, quando o irmo estivera muito doente por ter ingerido muita 
morfina - ela estava com dezenove anos na ocasio - costumava muitas vezes agarr-la, e como, de outra feita, um conhecido enlouquecera de sbito em sua casa e a 
tinha segurado pelo brao (houve um terceiro exemplo semelhante, do qual no se recordava com exatido); e por ltimo, como, quando tinha vinte e oito anos e a filha 
estava muito doente, a criana se agarrara nela com tanta fora em seu delrio que ela quase fora sufocada. Embora esses quatro exemplos fossem to separados no 
tempo, ela os relatou numa nica frase e numa sucesso to rpida que poderiam ter constitudo um nico episdio em quatro atos. A propsito, todos os relatos que 
me fazia de traumas como esses, dispostos em grupos, comeavam por um "como", sendo os traumas componentes separados por um "e". Uma vez que percebi que a frmula 
protetora se destinava a salvaguard-la contra uma repetio dessas experincias, eliminei esse medo por meio da sugesto e, de fato, jamais a ouvi dizer a frmula 
de novo.
         Noite. - Encontrei-a muito animada. Contou-me, sorridente, que se assustara com um cozinho que havia latido para ela no jardim. Seu rosto, porm, estava 
um pouco contrado, e havia certa agitao interna, que s desapareceu quando ela me perguntou se eu estava aborrecido com alguma coisa que ela dissera durante a 
massagem nessa manh e respondi "no". Sua menstruao recomeou hoje, aps um intervalo que mal chegou a uma quinzena. Prometi-lhe regul-la por sugesto hipntica 
e, sob hipnose, fixei o intervalo em 28 dias.
         Em hipnose, tambm lhe perguntei se se recordava da ltima coisa que me contara; ao perguntar-lhe isso, o que eu tinha em mente era uma tarefa que restara 
da noite passada, mas ela comeou, muito corretamente, pelo "no me toque" da hipnose de hoje de manh. Assim, levei-a de volta ao assunto de ontem. Eu lhe havia 
perguntado qual a origem de sua gagueira e ela respondera "no sei". Pedira-lhe, portanto, que se lembrasse disso na hora da hipnose de hoje. Em conseqncia, me 
respondeu hoje, sem nenhuma reflexo adicional, mas com grande agitao e com dificuldades espsticas na fala: "Como os cavalos certa vez saram em disparada com 
as crianas na carruagem; e como outra vez eu estava passando de carruagem pela floresta com as meninas, durante uma tempestade, e uma rvore bem  frente dos cavalos 
foi atingida por um raio e os cavalos se assustaram e eu pensei: 'Agora voc precisa ficar bem quietinha, seno seus gritos vo assustar os cavalos ainda mais e 
o cocheiro no conseguir cont-los de jeito nenhum.' Surgiu a partir daquele momento." A paciente ficou extraordinariamente agitada ao contar-me essa histria. 
Soube tambm por ela que a gagueira tinha comeado logo aps a primeira dessas duas ocasies, mas havia desaparecido pouco depois e ento se estabelecera de uma 
vez por todas aps a segunda ocasio semelhante. Apaguei sua lembrana plstica dessas cenas, mas pedi-lhe que as imaginasse mais uma vez. Ela pareceu tentar faz-lo 
e permaneceu quieta enquanto atendia a meu pedido; a partir de ento, falou durante a hipnose sem qualquer impedimento espstico.
         Verificando que ela estava disposta a ser comunicativa, perguntei-lhe que outros fatos em sua vida a haviam assustado tanto a ponto de a terem deixado com 
lembranas plsticas. Ela respondeu fornecendo-me uma coleo de tais experincias: - |1| Como um ano aps a morte da me, estava visitando uma francesa que era 
sua amiga, quando lhe disseram que fosse ao quarto contguo com outra moa para buscar um dicionrio e ela viu, sentado na cama, algum que tinha a aparncia idntica 
 da mulher que ela acabara de deixar no outro aposento. Ficou toda rgida e pregada no cho. Depois, ficara sabendo que se tratava de um manequim especialmente 
preparado. Asseverei que o que a paciente tinha visto fora uma alucinao e apelei para seu bom senso, e ento seu rosto se relaxou. |2| Como cuidara do irmo enfermo 
e este tivera acessos terrveis por causa da morfina, aterrorizando-a e agarrando-a. Lembrei que ela j havia mencionado essa experincia hoje de manh e, a ttulo 
de experimentao, perguntei-lhe em que outras ocasies esse "agarramento" havia ocorrido. Para minha agradvel surpresa, ela fez uma longa pausa dessa vez antes 
de responder e ento perguntou, num tom de dvida: "Minha filhinha?" Ficou inteiramente incapaz de recordar-se das outras duas ocasies (ver atrs |em [1]|). Minha 
proibio - o apagamento de suas lembranas - tinha sido, portanto, eficaz. - E mais: |3| como, enquanto cuidava do irmo, o rosto plido da tia havia aparecido 
de sbito por cima do biombo. Ela acabara de convert-lo ao catolicismo.
         Vi que havia chegado  raiz de seu constante temor das surpresas e pedi-lhe outros exemplos. Prosseguiu: como tinha na casa dela um amigo que gostava de 
entrar furtivamente no quarto, de modo que de repente estava l; como ela ficara muito doente aps a morte da me e fora para uma casa de sade, e um luntico havia 
entrado por engano em seu quarto vrias vezes,  noite, chegando bem perto de sua cama; e por fim, como, na vinda de Abbazia para c, um estranho abrira quatro vezes 
a porta de sua cabine e cada vez fixara nela um olhar demorado. A Sra. Emmy tinha ficado to apavorada que chegou a chamar o condutor.
         Apaguei todas essas lembranas, despertei-a e lhe garanti que ela dormiria bem  noite, tendo deixado de fazer-lhe essa sugesto na hipnose. A melhora de 
seu estado geral foi revelada por sua observao de que no lera nada hoje, pois estava vivendo num sonho muito feliz - ela, que sempre tinha que estar fazendo alguma 
coisa em virtude de sua inquietude interior.
         
         11 de maio, manh. - Hoje teve uma entrevista com o Dr. N., o ginecologista, que deve examinar sua filha mais velha por causa das complicaes menstruais. 
Encontrei a Sra. Emmy bastante agitada, embora isso se traduzisse em sinais fsicos mais leves que antes. De vez em quando, exclamava: "Estou com medo, estou com 
tanto medo que acho que vou morrer." Perguntei-lhe de que estava com medo. Era o Dr. N.? No sabia, respondeu; simplesmente estava com medo. Sob a hipnose, que induzi 
antes da chegada de meu colega, declarou ter medo de que me tivesse ofendido por alguma coisa que dissera durante a massagem, ontem, que lhe parecera indelicada. 
Tambm tinha medo de tudo o que era novo e, por conseguinte, do novo mdico. Consegui acalm-la e, embora se assustasse uma ou duas vezes na presena do Dr. N., 
ela se comportou muito bem e no produziu nenhum de seus estalidos nem houve qualquer inibio da fala. Depois que ele se foi, tornei a coloc-la sob hipnose para 
eliminar qualquer possvel resduo da excitao provocada pela visita. Ela prpria ficou muito contente com seu comportamento e depositou grandes esperanas no tratamento; 
tentei convenc-la, a partir desse exemplo, de que no  preciso ter medo do que  novo, j que o que  novo tambm contm o que  bom.
         
         Noite. - Estava muito animada e desabafou um grande nmero de dvidas e escrpulos em nossa conversa antes da hipnose. Durante a hipnose, perguntei-lhe 
que acontecimento de sua vida havia produzido efeito mais duradouro sobre ela e que mais surgia em sua memria. A morte do marido, respondeu. Fiz com que me descrevesse 
esse fato com todos os pormenores e ela o fez, com todos os sinais da mais profunda emoo, mas sem nenhum estalido e sem gaguejar: - Como, comeou a dizer, tinham 
ido a um lugar de que ambos gostavam muito na Riviera e, ao atravessarem uma ponte, ele cara de repente no cho e l ficara inerte por alguns minutos, mas depois 
se levantara, parecendo estar muito bem; como, pouco tempo depois, quando ela estava de cama aps seu segundo parto, o marido, que estivera tomando o caf da manh 
numa mesinha ao lado de sua cama e lendo o jornal, levantara-se de sbito, olhando-a de modo muito estranho, dera alguns passos  frente e, em seguida, cara morto; 
ela havia se levantado da cama, e os mdicos que foram chamados se esforaram para reanim-lo, o que ela ouviu do quarto contguo, mas em vo. E, prosseguiu a Sra. 
Emmy, como o beb, que contava ento algumas semanas de idade, fora tomado de grave molstia, que durou seis meses, durante a qual ela prpria ficara de cama com 
muita febre. - E vieram ento, em ordem cronolgica, suas reclamaes contra essa criana, que ela externou rapidamente, com uma expresso zangada no rosto, da maneira 
como algum falaria de uma pessoa que se houvesse tornado um incmodo. Essa criana, disse, se comportara de forma muito estranha por longo tempo; gritava o tempo 
todo e no dormia, e desenvolvera uma paralisia da perna esquerda cuja recuperao parecera apresentar muito poucas esperanas. Aos quatro anos, a criana tivera 
vises; aprendera a andar e a falar, tardiamente, de modo que por muito tempo fora julgada idiota. De acordo com os mdicos, tivera encefalite e mielite e ela no 
sabia mais o qu. Interrompi-a nesse ponto e a fiz ver que essa mesma criana era hoje uma menina normal, que gozava de perfeita sade, e impossibilitei-a de voltar 
a ver qualquer dessas coisas melanclicas, no apenas apagando suas lembranas das mesmas na forma plstica, mas tambm removendo toda a sua recordao dessas coisas, 
como se nunca tivessem existido em sua mente. Prometi-lhe que isso a levaria a libertar-se da expectativa de infortnios que no cessava de atorment-la e tambm 
das dores por todo o corpo, das quais se queixara precisamente durante sua narrativa, depois de passarmos vrios dias sem ouvir falar nelas.
         
         Para minha surpresa, depois dessa minha sugesto, ela comeou a falar, sem qualquer transio, sobre o Prncipe L., cuja fuga de um hospcio era objeto 
de muitos comentrios nessa poca. Externou novos temores sobre os hospcios - de que as pessoas que l se encontravam recebiam duchas de gua gelada na cabea e 
eram postas num aparelho que as fazia girar ininterruptamente at se acalmarem. Quando, h trs dias, ela se queixara pela primeira vez do seu medo dos hospcios, 
eu a havia interrompido aps sua primeira histria, a de que os pacientes eram amarrados a cadeiras. Vi ento que nada tinha ganho com essa interrupo e que no 
posso me furtar a escutar suas histrias com todos os detalhes at a ltima palavra. Depois de reparar essas falhas, livrei-a tambm dessa nova safra de temores. 
Apelei para seu bom senso e lhe disse que ela realmente deveria acreditar mais em mim do que na moa tola de quem ouvira aquelas histrias horripilantes sobre a 
maneira como se trabalha nos hospcios. Como notei que ela s vezes ainda gaguejava ao narrar-me essas outras coisas, perguntei-lhe mais uma vez de onde provinha 
a gagueira. Nenhuma resposta. - "A senhora no sabe?" - "No." - "Por que no?" - "Por que no?" - "Porque no posso saber!" (Pronunciou estas ltimas palavras com 
violncia e raiva). Essa declarao me parece ser a prova do xito de minha sugesto, mas ela me expressou o desejo de que a despertasse da hipnose, e assim fiz.
         
         12 de maio, |manh|. - Contrariamente a minha expectativa, ela dormira mal e por pouco tempo. Encontrei-a num estado de grande angstia, embora, incidentalmente, 
sem demonstrar seus costumeiros sinais fsicos desta. No disse o que estava acontecendo, mas apenas que tivera sonhos ruins e ficava vendo as mesmas coisas. "Como 
seria horrvel", disse, "se eles se tornassem realidade". Durante a massagem, ela abordou alguns pontos em resposta a minhas perguntas. Ficou alegre ento; falou-me 
de sua vida social na casa do Bltico que lhe coubera por morte do marido, das pessoas importantes que recebe da cidade vizinha, etc.
         Hipnose. - Ela tivera alguns sonhos de horror. Os ps e braos das cadeiras se haviam transformado todos em cobras; um monstro com bico de abutre estraalhava 
e comia todo o seu corpo; outros animais selvagens saltavam sobre ela, etc. Passou ento a outros delrios com animais, que, contudo, qualificou acrescentando: "Isso 
foi real" (no um sonho): como (numa ocasio anterior) ela fora apanhar um novelo de l e era um rato que sara correndo; como estivera fazendo uma caminhada e um 
grande sapo saltara de repente sobre ela, e assim por diante. Compreendi que minha proibio geral fora ineficaz e que teria de afastar dela suas impresses assustadoras 
uma a uma. Aproveitei tambm a oportunidade para lhe perguntar por que ela sofria de dores gstricas e de onde provinham. (Creio que todos os seus acessos de zoopsia 
|alucinaes com animais| so acompanhados de dores gstricas.) Sua resposta, dada a contragosto, foi que no sabia. Pedi-lhe que se lembrasse at amanh. Disse-me 
ento, num claro tom de queixa, que eu no devia continuar a perguntar-lhe de onde provinha isso ou aquilo, mas que a deixasse contar-me o que tinha a dizer. Concordei 
com isso e ela prosseguiu, sem nenhum prembulo: "Quando o levaram embora, no pude acreditar que ele estivesse morto." (Estava, portanto, falando sobre o marido 
mais uma vez, e compreendi ento que a causa de seu mau humor era que ela estivera sofrendo em virtude dos resduos no revelados dessa histria.) Depois disso, 
contou-me, odiara a filha por trs anos, pois sempre disse a si mesma que talvez tivesse podido restaurar a sade do marido se no estivesse de cama por causa da 
criana. Alm disso, aps a morte do marido, no tinha havido nada seno insultos e agitaes. Os parentes dele, que sempre foram contra o casamento e que tinham 
ficado com raiva por eles serem to felizes juntos, espalharam o boato de que ela o havia envenenado, de modo que ela desejara abrir um inqurito. Os parentes tinham-na 
envolvido em toda espcie de processos legais, com a ajuda de um jornalista suspeito. O miservel espalhara agentes a fim de incitar as pessoas contra ela. Fazia 
com que os jornais locais publicassem artigos difamantes a seu respeito e depois lhe mandava recortes. Essa fora a origem de sua insociabilidade e de seu dio por 
todos os estranhos. Aps eu dizer algumas palavras tranqilizadoras sobre o que me contara, ela disse que se sentia melhor.
         
         13 de maio, |manh|. - Mais uma vez ela dormira mal, por causa de dores gstricas. No tinha jantado. Tambm no se queixou de dores no brao direito. Mas 
estava de bom humor; mostrou-se alegre e, desde ontem, tem-me tratado com especial distino. Pediu minha opinio sobre toda espcie de coisas que lhe pareciam importantes 
e ficou excessivamente agitada, por exemplo, quando tive de procurar as toalhas necessrias  massagem, e assim por diante. Seu estalido e seu tique facial eram 
freqentes.
         Hipnose. - Ontem  noite, sbito lhe ocorrera por que os animaizinhos que ela via se tornavam to grandes. Isso lhe acontecera pela primeira vez em D -, 
durante um espetculo teatral em que um enorme lagarto aparecia em cena. Essa lembrana a havia atormentado muito ontem tambm.
         O motivo do reaparecimento dos estalidos foi que ontem ela teve dores abdominais e tentou no gemer para no demonstr-las. No tinha nenhuma idia da verdadeira 
causa desencadeadora do estalido (ver em |[1]|.) Tambm se recordou de que eu lhe dera instrues para descobrir a origem de suas dores gstricas. No o sabia, contudo, 
e me pediu que a ajudasse. Perguntei-lhe se, talvez, em alguma ocasio aps uma grande excitao, ela se haveria forado a comer. Ela confirmou isso. Aps a morte 
do marido, perdera inteiramente o apetite por muito tempo e havia comido apenas por um sentimento de obrigao, e as dores gstricas haviam de fato comeado naquela 
poca. Eliminei ento essas dores passando a mo algumas vezes sobre seu epigstrio. A seguir, por conta prpria, ela comeou a falar sobre as coisas que mais a 
haviam afetado. "J lhe contei", disse, "que no gostava da criana. Mas devo acrescentar que ningum poderia adivinhar isso por meu comportamento. Fiz tudo o que 
era necessrio. At hoje me recrimino por ter gostado mais da primognita".
         
         14 de maio, |manh.| - Estava bem e alegre e dormira at 7h30min da manh. Queixou-se apenas de ligeiras dores na regio radial da mo e na cabea e rosto. 
O que ela me diz antes da hipnose vai adquirindo um significado cada vez maior. Hoje no teve quase nada de horrvel para apresentar. Queixou-se de dores e perda 
de sensibilidade na perna direita. Disse-me que teve um surto de inflamao abdominal em 1871; mal se havia recuperado, ficou tratando do irmo doente, e foi ento 
que as dores apareceram pela primeira vez, chegando at a levar a uma paralisia temporria da perna direita.
         Durante a hipnose, perguntei-lhe se agora lhe seria possvel participar da vida social, ou se ainda estava muito temerosa. Respondeu-me que ainda lhe era 
desagradvel ter algum de p atrs dela ou mesmo a seu lado. A esse respeito, falou-me de outras ocasies em que fora desagradavelmente surpreendida pelo sbito 
aparecimento de algum. Certa feita, por exemplo, quando passeava com as filhas na ilha de Rgen, dois indivduos de aparncia suspeita haviam sado de uns arbustos 
e lhes dirigido insultos. Em Abbazia, quando estava passeando certa noite, um mendigo sara de repente de detrs de uma pedra e se ajoelhara diante dela. Parece 
que era um louco inofensivo. Por ltimo, contou-me como sua isolada casa de campo fora arrombada  noite, o que muito a havia alarmado.  fcil ver, entretanto, 
que a origem essencial desse medo das pessoas foi a perseguio a que ela se viu sujeita aps a morte do marido.
         Noite. - Embora parecesse muito animada, saudou-me com a exclamao: "Estou morta de medo; oh, mal posso lhe dizer, eu me odeio!" Afinal fui informado de 
que ela havia recebido a visita do Dr. Breuer e levara um susto ao v-lo aparecer. Como ele percebeu isso, ela lhe assegurou que fora "s aquela vez". Ficou profundamente 
penalizada por minha causa, por ter trado esse vestgio de seu antigo nervosismo. Em mais de uma ocasio tive oportunidade de notar, nestes ltimos dias, o quanto 
ela  severa consigo mesma, como tende a se culpar com severidade pelos nfimos sinais de negligncia - quando as toalhas para a massagem no esto em seu lugar 
habitual ou quando o jornal para eu ler enquanto ela adormece no se encontra prontamente  mo. Aps a eliminao da primeira e mais superficial camada de lembranas 
torturantes, sua personalidade moralmente supersensvel, com tendncia  autodepreciao, veio  tona. Tanto em seu estado de viglia como sob a hipnose, eu lhe 
disse (o que correspondeu ao velho preceito legal "de minimis non curat lex" que existe uma multido de coisinhas insignificantes entre o que  bom e o que  mau 
- coisas sobre as quais ningum precisa censurar-se. Ela no aceitou minha lio, suponho, tal como no o faria um monge medieval, que v o dedo de Deus ou a tentao 
do Demnio em cada fato trivial de sua vida e que  incapaz de imaginar o mundo, sequer por um momento fugaz ou em seu menor recanto, como destitudo de uma referncia 
a ele prprio.
         Em sua hipnose, ela trouxe  baila algumas outras imagens apavorantes (em Abbazia, por exemplo, via cabeas ensangentadas em cada onda do mar). Fi-la repetir 
as instrues que lhe dera enquanto estava acordada.
         
         15 de maio, |manh.| - Ela dormira at as 8h30min da manh, mas depois ficara inquieta, tendo-me recebido com ligeiros sinais de seu tique, dos estalidos 
e da inibio da fala. "Estou morta de medo", disse mais uma vez. Em resposta a uma pergunta, falou-me que a penso onde se encontravam suas filhas ficava no quarto 
andar de um prdio e l se chegava de elevador. Ontem havia insistido em que as filhas usassem o elevador tanto para descer como para subir, e agora se recriminava 
por isso, porque no se devia confiar inteiramente no ascensor. O prprio dono da penso tinha dito isso. Teria eu ouvido, perguntou, a histria da Condessa Sch., 
que encontrara a morte em Roma num acidente dessa natureza? Por coincidncia, conheo essa penso e sei que o elevador  propriedade particular do dono da mesma; 
no me parece provvel que esse homem, que chama uma ateno especial para o elevador num anncio, fosse ele prprio advertir algum contra sua utilizao. Pareceu-me 
que teramos a uma das paramnsias acarretadas pela angstia. Dei a minha opinio  Sra. Emmy e consegui, sem nenhuma dificuldade, faz-la rir da improbabilidade 
de seus temores. Exatamente por essa razo, no pude acreditar que esta fosse a causa da sua angstia e decidi formular a pergunta a sua conscincia hipntica. Durante 
a massagem, que hoje reiniciei aps um intervalo de alguns dias, ela me contou uma srie de histrias sem ligao umas com as outras, que talvez tenham sido reais 
- sobre um sapo que foi encontrado num poro, uma me excntrica quecuidava do filho idiota de maneira estranha, uma mulher que foi trancada num hospcio porque 
sofria de melancolia - e que revelavam o tipo de recordaes que lhe passavam pela cabea quando ela estava intranqila. Depois de se livrar dessas histrias, ficou 
muito animada. Descreveu a vida em sua propriedade e seus contatos com homens preeminentes da Rssia teutnica e da Alemanha setentrional e, na verdade, achei extremamente 
difcil conciliar atividades desse tipo com o quadro de uma mulher to gravemente neurtica.
         Assim, perguntei-lhe em sua hipnose por que ela estava to desassossegada esta manh. Em vez de suas dvidas sobre o elevador, informou-me ter sentido medo 
de que sua menstruao recomeasse e tornasse a interferir na massagem.
         
         Fiz ento com que ela me contasse a histria das dores na perna. Comeou da mesma forma que ontem |falando sobre haver cuidado do irmo| e prosseguiu com 
uma longa srie de exemplos de experincias, alternadamente aflitivas e irritantes, que tivera ao mesmo tempo que as dores na perna e cujo efeito fora o de torn-las 
cada vez piores, at mesmo a ponto de ela ficar com paralisia bilateral e perda de sensibilidade nas pernas. O mesmo se aplicava s dores do brao. Elas tambm surgiram 
enquanto a paciente cuidava de algum doente, ao mesmo tempo que as cibras no pescoo."Quanto a estas, fiquei sabendo apenas que se seguiram a alguns curiosos estados 
de inquietude acompanhados de depresso, que j existiam antes. Consistem num "aperto gelado" na nuca, juntamente com o surgimento da rigidez e um frio doloroso 
em todas as extremidades da paciente, incapacidade de falar e completa prostrao. Duram de seis a doze horas. Falharam minhas tentativas de demonstrar que esse 
complexo de sintomas representava uma lembrana. Fiz-lhe algumas perguntas com a finalidade de descobrir se seu irmo, enquanto a paciente o assistia durante o delrio 
dele, alguma vez a agarrara pelo pescoo; mas ela negou e disse no saber de onde provinham esses acessos.
         
         Noite. - Ela estava muito animada e demonstrava grande senso de humor. Contou-me, alis, que o caso do elevador no era como me havia relatado. O proprietrio 
s dissera aquilo para dar uma desculpa pelo fato de o elevador no ser utilizado para descer. Ela me fez um grande nmero de perguntas que nada tinham de patolgicas. 
Tem sofrido de lancinantes dores no rosto, na mo junto ao polegar e na perna. Fica rgida e sente dores no rosto se ficar sentada sem se mexer ou se olhar fixamente 
para algum ponto por um perodo considervel de tempo. Quando levanta qualquer coisa pesada, isso lhe causa dores no brao. - O exame da perna direita revelou sensibilidade 
relativamente boa na coxa, alto grau de insensibilidade na parte inferior da perna e no p e menor na regio das ndegas e do quadril.
         Sob hipnose, ela me informou que ocasionalmente ainda tem idias assustadoras, como a de que algo pode acontecer com suas filhas, que elas poderiam adoecer 
ou morrer, ou que o irmo dela, que est agora em lua-de-mel, poderia sofrer um acidente, ou que a esposa dele poderia morrer (porque os casamentos de todos os seus 
irmos e irms tinham sido muito curtos). No consegui arrancar da paciente quaisquer outros temores. Proibi-a de sentir qualquer necessidade de se assustar quando 
no houvesse nenhum motivo para isso. Prometeu-me desistir disso "porque o senhor est pedindo". Dei-lhe outras sugestes quanto s dores,  perna, etc.
         
         16 de maio, |manh|. - Ela havia dormindo bem. Queixava-se ainda de dores no rosto, braos e pernas. Estava muito alegre. Sua hipnose no rendeu nada. Apliquei 
um pincel fardico em sua perna insensibilizada.
         Noite. - Sobressaltou-se assim que entrei: "Estou muito contente com sua vinda", disse, "estou muito assustada". Ao mesmo tempo, dava todos os sinais de 
terror, juntamente com a gagueira e o tique. Primeiro fiz com que me contasse, em estado de viglia, o que tinha acontecido. Retorcendo os dedos e estendendo as 
mos para a frente, pintou um quadro ntido de seu terror ao dizer: "Um camundongo enorme passou de repente sobre minha mo no jardim e desapareceu num segundo; 
as coisas ficaram deslizando para trs e para a frente." (Uma iluso do jogo de sombras?) "Um bando inteiro de ratinhos estava sentado nas rvores. - O senhor no 
est ouvindo os cavalos batendo com as patas no circo? - H um homem gemendo no quarto ao lado; deve estar sentindo dores depois de sua operao. - Ser que estou 
em Rgen? Eu tinha uma estufa como essa l?" Ela estava confusa com a multido de pensamentos que se entrecruzavam em seu crebro e com o esforo que fazia para 
separ-los do ambiente que a cercava de fato. Quando lhe formulei perguntas sobre coisas atuais, tais como se as filhas estavam aqui, no soube dar nenhuma resposta.
         Tentei desembaraar por meio da hipnose a confuso que lhe ia pela mente. Perguntei-lhe o que era que a assustava. Repetiu a histria do camundongo, com 
todos os sinais de terror, e acrescentou que, quando descia os degraus, viu um animal horrvel deitado, que desapareceu imediatamente. Disse-lhe que isso eram alucinaes 
e lhe instru para que no se assustasse com os camundongos; s os bbados  que os viam (ela detestava bbados). Contei-lhe a histria do Bispo Hatto. Ela tambm 
a conhecia, e ouviu-a horrorizada. - "Como foi que a senhora veio a pensar no circo?" perguntei-lhe ento. Disse-me que tinha ouvido claramente os cavalos batendo 
com as patas nos estbulos ali perto e acabando presos nos arreios, o que poderia machuc-los. Quando isso acontecia, Johann costumava sair para desamarr-los. Neguei 
que houvesse estbulos por perto ou que algum no quarto contguo tivesse gemido. Ela sabia onde estava? Respondeu que agora sabia, mas antes pensara estar em Rgen. 
Perguntei-lhe como tinha chegado a essa lembrana. Tinham estado conversando no jardim, disse, sobre como fazia calor numa parte dele, e imediatamente lhe viera 
a idia do terrao sem sombra em Rgen. Muito bem, perguntei-lhe, quais eram as recordaes tristes que guardava de sua estada em Rgen? Ela citou uma srie delas. 
L sentira as dores mais terrveis nas pernas e nos braos; quando saa em excurses, fora vrias vezes apanhada por um nevoeiro e se perdera; duas vezes, quando 
passeava, um touro tinha corrido atrs dela, e assim por diante. Como  quando tinha tido essa crise hoje? - Como (respondeu)? Escrevera grande nmero de cartas; 
tinha levado trs horas e isso lhe deixara a cabea confusa. - Pude presumir, por conseguinte, que seu surto delirante fora provocado pelo cansao e que seu contedo 
fora determinado por associaes tais como a do lugar sem sombra do jardim, etc. Repeti todos os conselhos que tinha o hbito de lhe dar e deixei-a recomposta para 
dormir.
         
         17 de maio, |manh|. - Ela passou a noite muito bem. No banho de farelo que tomou hoje, deu alguns gritos, por ter confundido o farelo com vermes. Fui informado 
disso pela enfermeira. A prpria paciente relutou em falar-me a respeito. Estava quase exageradamente alegre, mas interrompia-se com exclamaes de horror e asco 
e fazia caretas que expressavam terror. Tambm gaguejou mais do que nos ltimos dias. Contou-me haver sonhado, na noite passada, que estava caminhando sobre uma 
poro de sanguessugas. Na noite anterior tinha tido sonhos horrveis. Tivera que amortalhar um grande nmero de defuntos e coloc-los em caixes, mas no os tampava. 
(Obviamente, uma lembrana do marido.) Disse-me ainda que, no decurso de sua vida, tivera inmeros incidentes com animais. O pior tinha sido com um morcego que ficara 
preso em seu guarda-roupa, de modo que ela se precipitara para fora do quarto sem nenhuma roupa. Para cur-la desse medo, o irmo lhe dera um belo broche com a forma 
de um morcego, mas ela nunca pudera us-lo.
         Sob hipnose, explicou-me que seu medo de vermes provinha de ter recebido como presente, certa vez, uma linda almofada para alfinetes; na manh seguinte, 
porm, quando quis us-la, uma poro de vermezinhos saram da almofada, que tinha sido enchida com farelo que no estava bem seco. (Uma alucinao? Talvez um fato 
real.) Pedi-lhe que me contasse outras histrias de animais. Certa feita, disse ela, quando passeava com o marido num parque de So Petersburgo, todo o caminho que 
levava a um pequeno lago estava recoberto de sapos, de modo que foram obrigados a voltar. Houve pocas em que ela ficara impossibilitada de estender a mo para qualquer 
pessoa, temendo que a mo se transformasse num animal terrvel, como tantas vezes tinha acontecido. Tentei libert-la de seu medo de animais designando-os um por 
um e perguntando-lhe se tinha medo deles. Em alguns casos, respondeu "no"; em outros, "no devo ter medo deles". Perguntei-lhe por que havia gaguejado e se mexido 
tanto ontem. Respondeu que sempre fazia isso quando estava muito assustada. - Mas por que tinha estado to assustada ontem? - Porque todas as espcies de pensamentos 
opressivos lhe haviam passado pela cabea no jardim: em particular, a idia de como poderia impedir que algo se acumulasse de novo dentro dela depois que seu tratamento 
terminasse. Repeti as trs razes que eu j lhe tinha dado para sentir-se reassegurada: (1) que ela se tornara mais sadia e mais capaz de ter resistncia, (2) que 
adquiriria o hbito de contar seus pensamentos a algum com quem mantivesse estreitas relaes, e (3) que, da por diante, consideraria indiferente um grande nmero 
de coisas que at ento a haviam oprimido. Ela prosseguiu dizendo que tambm estivera preocupada porque no me havia agradecido pela visita que eu lhe fizera ao 
fim do dia, e temia que eu perdesse a pacincia com ela em vista de sua recente recada. Ficara muito perturbada e alarmada porque o mdico interno perguntara a 
um senhor no jardim se ele agora se sentia capaz de enfrentar sua operao. A esposa estava sentada ao lado dele, e ela (a paciente) no pde deixar de pensar que 
talvez aquela fosse a ltima noite do pobre homem. Aps esta ltima explicao, sua depresso pareceu dissipar-se.
         Noite. - Ela estava muito animada e satisfeita. A hipnose no produziu absolutamente nada. Dediquei-me a cuidar de suas dores musculares e restaurar-lhe 
a sensibilidade da perna direita. Isso foi conseguido com muita facilidade na hipnose, mas sua sensibilidade restaurada tornou a perder-se parcialmente quando ela 
despertou. Antes de eu deix-la, externou seu espanto de que h tanto tempo no tivesse cibras no pescoo, j que elas costumavam sobrevir antes de cada tempestade.
         
         18 de maio. - H anos no dormia to bem como na noite passada. Depois do banho, porm, queixou-se de frio na nuca, contraes e dores no rosto, nas mos 
e nos ps. Suas feies estavam tensas, e os punhos, cerrados. A hipnose no revelou qualquer contedo psquico subjacente s cibras no pescoo. Melhorei-as atravs 
de massagens, depois que ela havia despertado.
         
         Espero que este resumo do histrico das trs primeiras semanas do tratamento seja suficiente para fornecer um quadro ntido do estado da paciente, da natureza 
de meus esforos teraputicos e da medida de seu xito. Passarei agora a ampliar o relato do caso.
         O delrio que acabo de descrever foi tambm a ltima perturbao importante no estado da Sra. Emmy von N. Visto que eu no tomava a iniciativa de procurar 
os sintomas e sua base, mas esperava que algo surgisse na paciente ou que ela me revelasse algum pensamento que lhe estivesse causando angstia, suas hipnoses logo 
deixaram de produzir material. Assim, passei a us-las principalmente com a finalidade de proporcionar-lhe mximas que ficassem sempre em sua mente e que a protegessem 
contra recadas em estados semelhantes quando voltasse para casa. Naquela poca, eu estava sob total influncia do livro de Bernheim sobre sugesto e previa mais 
resultados dessas medidas didticas do que o faria hoje. O estado de minha paciente melhorou to depressa que ela logo me assegurou que no se sentia to bem desde 
a morte do marido. Aps um tratamento que durou ao todo sete semanas, permiti-lhe que voltasse para sua casa no Bltico.
         No fui eu, mas o Dr. Breuer, quem recebeu notcias dela cerca de sete meses depois. Seu estado de sade continuara bom durante vrios meses, mas depois 
havia voltado a piorar como resultado de um novo choque psquico. Sua filha mais velha, durante a primeira estada de ambas em Viena, j havia tido, como a me, cibras 
no pescoo e ligeiros estados histricos; em particular, porm, sofrera de dores ao andar, em virtude de uma retroverso do tero. A conselho meu, procurara para 
tratamento o Dr. N., um de nossos mais famosos ginecologistas, que recolocara o tero em sua posio por meio de massagens, havendo ela ficado livre de problemas 
durante vrios meses. Seus problemas reapareceram, contudo, enquanto as duas estavam em casa, e a me chamou um ginecologista da cidade universitria vizinha. Ele 
receitou para a moa um tratamento local e geral que, todavia, acarretou uma grave doena nervosa (ela estava, na poca, com dezessete anos).  provvel que isso 
j fosse um indcio da sua predisposio patolgica que iria manifestar-se um ano depois numa alterao do carter. |Ver em [1].| A me, que havia entregue a moa 
s mos dos mdicos com sua habitual mistura de docilidade e desconfiana, foi dominada pelas mais violentas auto-recriminaes aps o infeliz resultado do tratamento. 
Uma associao de idias que eu no tinha investigado levou-a  concluso de que eu e o Dr. N. ramos os responsveis pela doena da filha, porque havamos feito 
pouco caso da gravidade de seu estado. Por um ato de vontade, por assim dizer, ela desfez os efeitos do meu tratamento e de imediato recaiu nos estados dos quais 
eu a havia libertado. Um ilustre mdico de suas redondezas, a quem procurou para obter orientao, juntamente com o Dr. Breuer, que se correspondia com ela, conseguiram 
convenc-la da inocncia dos dois alvos de suas acusaes; mas, mesmo depois que isso se dissipou, a averso formada contra mim nessa poca permaneceu como um resduo 
histrico, e ela declarou que lhe era impossvel reiniciar o tratamento comigo. A conselho da mesma autoridade mdica, recorreu  ajuda de um sanatrio na Alemanha 
setentrional. Por desejo de Breuer, expliquei ao mdico encarregado as modificaes da terapia hipntica que eu julgara eficazes no caso dessa paciente.
         Essa tentativa de transferncia falhou completamente. Desde o incio ela parece ter mostrado uma disposio contrria ao mdico. Esgotava-se na resistncia 
ao que quer que fosse feito por ela. Ficou deprimida, perdeu o sono e o apetite e s se recuperou depois que uma amiga sua, que foi visit-la no sanatrio, na verdade 
a seqestrou s escondidas e tratou-a em sua casa. Pouco tempo depois, exatamente um ano aps seu primeiro encontro comigo, ela estava de novo em Viena e mais uma 
vez se entregou a meus cuidados.
         Achei-a muito melhor do que esperava pelos relatos que recebera por carta. Podia movimentar-se e estava livre da angstia, e grande parte do que eu conseguira 
um ano antes ainda se mantinha. Sua principal queixa era com relao a freqentes estados de confuso - "tempestades na cabea", como as denominava. Alm disso, 
sofria de insnia e muitas vezes ficava em prantos por horas a fio. Sentia-se triste numa determinada hora do dia (cinco horas). Esse era o horrio habitual em que, 
no inverno, pudera visitar a filha na casa de sade. Gaguejava e emitia o estalido com grande freqncia e esfregava as mos como se estivesse enfurecida, e quando 
lhe perguntei se estava vendo muitos animais, apenas respondeu: "Oh, fique quieto!"
          minha primeira tentativa de induzir a hipnose, cerrou os punhos e exclamou: "No deixarei que me apliquem nenhuma injeo antipirtica; prefiro ter minhas 
dores! No gosto do Dr. R.; ele me  antiptico." Compreendi que ela estava presa  lembrana de ser hipnotizada no sanatrio, e acalmou-se to logo eu a trouxe 
de volta  situao atual.
         Logo no incio do tratamento |reiniciado| tive uma experincia instrutiva. Eu lhe havia perguntado h quanto tempo a gagueira voltara, e ela respondera 
de forma hesitante (sob hipnose) que tinha sido desde um choque que experimentara em D - durante o inverno. Um garom do hotel em que estava hospedada havia se escondido 
em seu quarto de dormir. Na escurido, disse ela, confundira o objeto com um sobretudo e estendera a mo para apanh-lo, tendo o homem de repente "dado um pulo para 
o alto". Eliminei essa imagem mental e, de fato, a partir daquele momento, ela deixou de gaguejar visivelmente, quer na hipnose, quer na vida de viglia. No me 
recordo do que foi que me levou a testar o xito da minha sugesto, mas quando voltei na mesma noite, perguntei-lhe, num tom aparentemente inocente, como eu poderia 
trancar a porta quando fosse embora (quando ela estivesse deitada dormindo), de modo que ningum pudesse entrar furtivamente no quarto. Para meu assombro, ela levou 
um susto horrvel e comeou a rilhar os dentes e esfregar as mos. Revelou que tivera um choque violento desse tipo em D -, mas no consegui persuadi-la a me contar 
a histria. Percebi que tinha em mente a mesma histria que me narrar aquela manh, durante a hipnose, e que eu julgara haver apagado. Em sua hipnose seguinte, contou-me 
a histria com maior riqueza de detalhes e maior verossimilhana. Agitada, estivera andando pelo corredor de um lado para o outro e encontrara aberta a porta do 
quarto da empregada. Tentou entrar e sentar-se. A empregada lhe bloqueou o caminho, mas a paciente no se deixou deter e entrou, e foi ento que viu contra a parede 
o objeto escuro que veio a se revelar como sendo um homem. Evidentemente, o fator ertico dessa pequena aventura  que a levara a fazer um relato falso da mesma. 
Isso me ensinou que uma histria incompleta sob hipnose no produz nenhum efeito teraputico. Acostumei-me a considerar incompleta qualquer histria que no trouxesse 
nenhuma melhora, e aos poucos tornei-me capaz de ler nos rostos dos pacientes se eles no estariam ocultando uma parte essencial de suas confisses.
         O trabalho que tive de levar a efeito com ela nessa ocasio consistiu em lidar, por meio da hipnose, com as impresses desagradveis que ela recebera durante 
o tratamento da filha e quando de sua prpria estada no sanatrio. Ela estava cheia de raiva, reprimida, pelo mdico que a tinha obrigado, sob hipnose, a soletrar 
a palavra "s...a...p...o" e me fez prometer que jamais a faria dizer isso. A esse respeito, aventurei-me a fazer uma brincadeira prtica numa de minhas sugestes 
a ela. Este foi o nico abuso da hipnose - alis um abuso muito inocente - cuja culpa para com essa paciente tenho de confessar. Assegurei-lhe que sua estada no 
sanatrio em "-tal" |"vale"| se tornaria to remota para ela que nem sequer conseguiria lembrar-se do nome, e sempre que quisesse referir-se a ele hesitaria entre 
"-berg" |"colina"|, "-tal", "-wald" |"bosque"|, e assim por diante. Isso efetivamente aconteceu, e logo o nico sinal remanescente de sua inibio da fala foi sua 
incerteza sobre esse nome. Por fim, aps uma observao do Dr. Breuer, aliviei-a dessa paramnsia compulsiva.
         Travei com o que ela descrevia como "as tempestades na cabea" uma luta mais longa do que com os resduos dessas experincias. Quando a vi pela primeira 
vez num desses estados, estava deitada no sof com as feies transtornadas e todo o corpo em permanente agitao. Ficava a pressionar a testa com as mos e a chamar, 
em tons de splica e desnimo, o nome "Emmy", que era o de sua filha mais velha e tambm o seu. Sob hipnose, confessou-me que esse estado era uma repetio dos numerosos 
acessos de desespero pelos quais se vira dominada durante o tratamento da filha, quando, depois de passar horas tentando descobrir algum meio de corrigir seus efeitos 
negativos, no se lhe apresentava nenhuma sada. Quando, em tais ocasies, sentia que seus pensamentos ficavam confusos, adotava o hbito de chamar pelo nome da 
filha, de modo que pudesse ajud-la a desanuviar a cabea; e isso porque, durante o perodo em que a doena da filha lhe estava impondo novos deveres e ela sentia 
que seu prprio estado nervoso mais uma vez comeava a domin-la, ela determinou que o que quer que tivesse a ver com a moa devia ficar isento de confuso, por 
mais catico que tudo o mais pudesse estar em sua cabea.
         
         No decurso de algumas semanas conseguimos eliminar tambm essas lembranas, e a Sra. Emmy permaneceu sob minha observao por mais algum tempo, sentindo-se 
perfeitamente bem. Ao final da sua estada aconteceu algo que passarei a descrever com pormenores, visto que lana a mais intensa luz sobre o carter da paciente 
e a maneira pela qual seus estados se produziam.
         Visitei-a um belo dia na hora do almoo e surpreendi-a no ato de atirar no jardim algo embrulhado em papel, que foi apanhado pelos filhos do porteiro. Em 
resposta  minha pergunta, ela admitiu que era o seu pudim (seco) e que a mesma coisa acontecia todos os dias. Isso me levou a investigar o que sobrava dos outros 
pratos e verifiquei que restava mais da metade da comida. Quando lhe perguntei por que comia to pouco, respondeu que no tinha o hbito de comer mais e que passava 
mal se o fizesse; a Sra. Emmy tinha a mesma constituio do pai, que tambm tinha o hbito de comer pouco. Quando lhe perguntei o que bebia, disse-me que s podia 
tolerar lquidos espessos, como leite, caf ou chocolate; beber gua, comum ou mineral, lhe perturbava a digesto. Isso tinha todos os sinais de uma escolha neurtica. 
Tirei uma amostra de sua urina e verifiquei que estava altamente concentrada e sobrecarregada de uratos.
         Julguei portanto aconselhvel recomendar-lhe que bebesse mais e resolvi tambm aumentar a quantidade de seus alimentos.  verdade que ela de modo algum 
parecia magra a ponto de chamar ateno, mas mesmo assim achei que valeria a pena faz-la comer mais um pouco. Quando, em minha visita seguinte, ordenei-lhe que 
ingerisse gua alcalina e proibi-a de lidar com o pudim da maneira como fazia, demonstrou agitao considervel. "Farei isso porque o senhor est pedindo", disse 
"mas posso dizer-lhe de antemo que dar mau resultado, porque  contrrio  minha natureza, e o mesmo aconteceu com meu pai". Quando lhe perguntei sob hipnose por 
que no podia comer mais nem beber gua, respondeu num tom mal-humorado: "No sei." No dia seguinte, a enfermeira informou que ela havia comido tudo o que lhe fora 
servido e bebera um copo de gua alcalina. Mas encontrei a prpria Sra. Emmy numa profunda depresso e num estado de humor muito irritado. Queixou-se de sentir dores 
gstricas muito violentas. "Eu lhe disse o que aconteceria", falou. "Sacrificamos todos os bons resultados pelos quais vimos lutando h tanto tempo. Estraguei minha 
digesto, como sempre acontece quando como mais ou bebo gua, e agora terei de morrer de fome por cinco dias a uma semana antes que possa tolerar qualquer coisa." 
Assegurei-lhe que no havia nenhuma necessidade de ela morrer de fome e que era impossvel estragar a digesto dessa forma: suas dores se deviam somente  angstia 
em relao a comer e beber. Ficou claro que essa explicao minha no causou nela a mais leve impresso, pois quando, logo depois, tentei faz-la dormir, pela primeira 
vez no consegui provocar a hipnose; e o olhar furioso que ela me dirigiu convenceu-me de que estava em franca rebelio e de que a situao era muito grave. Desisti 
de tentar hipnotiz-la e anunciei que lhe daria vinte e quatro horas para pensar bem e aceitar a opinio de que suas dores gstricas provinham apenas de seu medo. 
No fim desse perodo, eu lhe perguntaria se ainda era de opinio que sua digesto podia ser estragada por uma semana pela ingesto de um copo de gua mineral e de 
uma modesta refeio; se ela dissesse que sim, eu lhe pediria que fosse embora. Essa pequena cena apresentava um acentuado contraste com nossas relaes normais, 
que eram as mais amistosas.
         Encontrei-a vinte e quatro horas depois, dcil e submissa. Quando lhe perguntei o que pensava sobre a origem de suas dores gstricas, ela respondeu, porque 
era incapaz de subterfgios: "Penso que provm da minha angstia, mas s porque o senhor  dessa opinio." Em seguida, coloquei-a em hipnose e perguntei mais uma 
vez: "Por que a senhora no consegue comer mais?"
         A resposta veio prontamente e consistiu, mais uma vez, numa srie de razes dispostas em ordem cronolgica a partir de seu acervo de lembranas: "Estou 
pensando em como, quando eu era criana, muitas vezes acontecia que, por malcriao, recusava-me a comer carne ao jantar. Minha me era muito severa a esse respeito 
e, sob a ameaa de um castigo exemplar, eu era obrigada, duas horas depois, a comer a carne, que era deixada no mesmo prato. A essa altura a carne j estava muito 
fria e a gordura, muito dura" (ela demonstrou sua repulsa) "...Ainda posso ver o garfo na minha frente... um de seus dentes era meio torto. Sempre que me sento  
mesa vejo os pratos diante de mim, com a carne e a gordura frias. E me lembro como, muitos anos depois, morei com meu irmo, que era oficial e teve aquela doena 
horrvel. Eu sabia que era contagiosa e tinha um medo terrvel de apanhar sua faca e seu garfo por engano" (estremeceu) "...e apesar disso, fazia minhas refeies 
com ele, para que ningum soubesse que ele estava doente. E como, logo depois disso, cuidei de meu outro irmo quando esteve muito doente de tuberculose. Sentvamos 
ao lado de sua cama, e a escarradeira ficava sempre sobre a mesa, aberta" (estremeceu de novo) "...ele tinha o hbito de escarrar por sobre os pratos na escarradeira. 
Isso sempre me provocava muita nusea, mas eu no podia demonstr-la, temendo magoar os sentimentos dele. E essas escarradeiras ainda esto na mesa sempre que fao 
uma refeio, e ainda me causam nuseas." Naturalmente, removi com cuidado todo esse conjunto de fomentadores da repulsa e ento lhe perguntei por que ela no conseguia 
beber gua. Quando tinha dezessete anos, respondeu, a famlia havia passado alguns meses em Munique e quase todos os membros haviam contrado catarro gstrico, graas 
 gua potvel de m qualidade. No caso dos outros, o distrbio foi logo aliviado pelos cuidados mdicos, mas com ela havia persistido. Tampouco melhorara com a 
gua mineral que lhe fora recomendada. Quando o mdico a receitou, ela logo pensou: "isso no vai adiantar nada". A partir daquela ocasio, essa intolerncia pela 
gua comum e pela gua mineral repetiu-se inmeras vezes.
         O efeito teraputico dessas descobertas sob hipnose foi imediato e duradouro. Ela no passou fome durante uma semana, mas logo no dia seguinte comeu e bebeu 
sem nenhuma dificuldade. Dois meses depois, informou-me numa carta: "Estou comendo muitssimo bem e ganhei bastante peso. J bebi quarenta garrafas de gua. O senhor 
acha que devo continuar?"
         Revi a Sra. von N. na primavera do ano seguinte em sua propriedade rural perto de D-. Nessa ocasio, sua filha mais velha, por cujo nome ela havia chamado 
durante suas "tempestades na cabea", entrou numa fase de desenvolvimento anormal. Exibia ambies desenfreadas, inteiramente desproporcionais a seus escassos dons, 
e tornou-se desobediente e at violenta para com a me. Eu ainda gozava da confiana da Sra. Emmy e fui chamado para dar minha opinio sobre o estado da moa. Tive 
uma impresso desfavorvel da alterao psicolgica que se processara na jovem e, para chegar a um prognstico, tambm tive que levar em conta o fato de que todos 
os seus meio-irmos e irms (os filhos do primeiro matrimnio do Sr. von N.) tinham sucumbido  parania. Tambm na famlia de sua me no faltava uma hereditariedade 
neuroptica, embora nenhum de seus parentes mais prximos houvesse desenvolvido psicose crnica. Comuniquei  Sra. von N., sem qualquer reserva, a opinio que me 
havia pedido, e ela a recebeu com calma e compreenso. Ela havia engordado, e sua sade era florescente. Tinha-se sentido relativamente bem durante os nove meses 
decorridos desde o trmino de seu ltimo tratamento. Fora perturbada apenas por ligeiras cibras no pescoo e outros males de pequena monta. Nos vrios dias que 
passei em sua casa vim a compreender, pela primeira vez, toda a extenso de seus deveres, ocupaes e interesses intelectuais. Conheci tambm o mdico da famlia, 
que no tinha muitas queixas da paciente: logo, at certo ponto, ela fizera as pazes com a profisso mdica.
         Em inmeros aspectos, portanto, ela estava mais saudvel e mais apta; porm, apesar de todas as minhas sugestes de melhora, verificara-se pouca alterao 
em seu carter fundamental. Ela no parecia ter aceito a existncia de uma categoria de "coisas sem importncia". Sua inclinao para atormentar-se era muito pouco 
menor do que na poca do tratamento, e tampouco sua disposio histrica estivera estagnada durante esse bom perodo. Ela se queixava, por exemplo, de uma impossibilidade 
de fazer viagens de trem, de qualquer durao. Isso aparecera nos ltimos meses. Uma tentativa necessariamente apressada de alivi-la dessa dificuldade resultou 
apenas na produo de diversas impresses desagradveis e insignificantes deixadas por algumas viagens recentes que ela fizera a D- e suas imediaes. Entretanto, 
ela parecia relutar em ser comunicativa sob hipnose, e comecei mesmo a suspeitar de que estava a ponto de se afastar mais uma vez da minha influncia e de que a 
finalidade secreta de sua inibio em relao aos trens era impedir que fizesse uma nova viagem a Viena.
         Foi tambm durante esses dias que ela formulou suas queixas a respeito de lacunas na memria, "em especial quanto aos fatos mais importantes" |ver em [1]|, 
donde conclu que o trabalho que eu executara dois anos antes tinha sido inteiramente eficaz e duradouro. - Um dia, ela passeava comigo por uma avenida que se estendia 
da casa at uma enseada no mar e me arrisquei a perguntar se o caminho costumava ficar infestado de sapos. Como resposta, ela me lanou um olhar de censura, embora 
no acompanhado de sinais de horror; ampliou isso um momento depois, com as palavras "mas os daqui so reais". Durante a hipnose, que induzi para lidar com sua inibio 
a respeito dos trens, ela prpria pareceu insatisfeita com as respostas que me deu e externou o temor de que, no futuro, era provvel que fosse menos obediente sob 
hipnose do que antes. Decidi-me a convenc-la do contrrio. Escrevi algumas palavras num pedao de papel, entreguei-o a ela e disse: "No almoo de hoje a senhora 
me servir um copo de vinho tinto, da mesma forma que ontem. Quando eu levar o copo aos lbios, a senhora dir: 'Oh, por favor, sirva-me tambm um copo de vinho', 
e quando eu estender a mo para apanhar a garrafa, dir: 'No, obrigada; afinal, acho que no vou querer'. A senhora ento por a mo em sua bolsa, retirar dela 
um pedao de papel e encontrar essas mesmas palavras escritas nele". Isso foi pela manh. Algumas horas depois, o pequeno episdio ocorreu exatamente como eu o 
havia predisposto, e de maneira to natural que nenhuma das muitas pessoas presentes notou qualquer coisa. Quando me pediu o vinho, ela revelou visveis sinais de 
uma luta interna - pois nunca bebia vinho - e depois de haver recusado a bebida com evidente alvio, ps a mo na bolsa e retirou o pedao de papel em que figuravam 
as ltimas palavras que havia pronunciado. Balanou a cabea e olhou-me com assombro.
         Aps minha visita em maio de 1890, minhas notcias da Sra. von N.foram ficando cada vez mais escassas. Soube indiretamente que o estado deplorvel da filha, 
que lhe causava todas as espcies de aflies e agitaes, acabou por minar-lhe a sade. Por fim, no vero de 1893, recebi dela um bilhete pedindo-me permisso para 
ser hipnotizada por outro mdico, visto que voltara a ficar doente e no podia vir a Viena. A princpio, no compreendi por que minha permisso era necessria, at 
me recordar que, em 1890, por sua prpria solicitao, eu a havia protegido de ser hipnotizada por qualquer outra pessoa, para que no houvesse nenhum risco de ela 
ficar aflita ao se colocar sob o controle de algum mdico que lhe fosse antiptico, tal como acontecera em -berg (-tal, -wald). Por conseguinte, renunciei por escrito 
a minha prerrogativa exclusiva.
         
         
         DISCUSSO
         
         A menos que tenhamos em primeiro lugar chegado a um acordo completo sobre a terminologia em jogo, no  fcil resolver se um caso particular deve ser considerado 
como sendo de histeria ou de alguma outra neurose (refiro-me aqui s neuroses que no so de tipo puramente neurastnico); e ainda temos de aguardar a mo orientadora 
que fixar os marcos fronteirios na regio das neuroses mistas, que ocorrem comumente, e que trar  tona os aspectos essenciais para a caracterizao destas. Por 
conseguinte, se ainda estivermos acostumados a diagnosticar uma histeria, no sentido mais estrito do termo, por sua semelhana com casos tpicos j conhecidos, dificilmente 
poderemos questionar o fato de que o caso da Sra. Emmy von N. era de histeria. O carter brando de seus delrios e alucinaes (enquanto suas outras atividades mentais 
permaneciam intactas), a modificao de sua personalidade e de seu acervo de lembranas quando se encontrava num estado de sonambulismo artificial, a anestesia em 
sua perna dolorida, certos dados revelados em sua anamnese, sua nevralgia ovariana, etc. no admitem dvida quanto  natureza histrica da doena, ou, pelo menos, 
da paciente. Se alguma questo pode ser levantada,  apenas graas a um aspecto particular do caso, que tambm d oportunidade para um comentrio de validade geral. 
Como explicamos na "Comunicao Preliminar" que aparece no incio deste volume, consideramos os sintomas histricos como efeitos e resduos de excitaes que atuaram 
sobre o sistema nervoso como traumas. No h permanncia de resduos dessa natureza quando a excitao original  descarregada por ab-reao ou pela atividade do 
pensamento. No  mais possvel, a esta altura, evitar a introduo da idia de quantidades (ainda que no mensurveis). Devemos considerar o processo como se uma 
soma de excitao, atuando sobre o sistema nervoso, se transformasse em sintomas crnicos, na medida em que no fosse empregada em aes externas na proporo de 
sua quantidade. Ora, estamos habituados a verificar que, na histeria, uma parte considervel dessa "soma de excitao" do trauma  transformada em sintomas puramente 
somticos. Foi essa caracterstica da histeria que por tanto tempo atrapalhou seu reconhecimento como um distrbio psquico.
         Se, para sermos breves, adotarmos o termo "converso" para designar a transformao da excitao psquica em sintomas somticos crnicos, que  to caracterstica 
da histeria, podemos ento dizer que o caso da Sra. Emmy von N. apresentava apenas uma pequena quantidade de converso. A excitao, que era originariamente psquica, 
permaneceu em sua maior parte nessa esfera, e  fcil compreender que isso lhe confere uma semelhana com as outras neuroses, no histricas. Existem casos de histeria 
em que todo o excedente da estimulao sofre converso, de modo que os sintomas somticos da histeria se intrometem no que parece ser uma conscincia inteiramente 
normal. A transformao incompleta, no entanto,  mais comum, de modo que pelo menos parte do afeto que acompanha o trauma persiste na conscincia como um componente 
do estado emocional do indivduo.
         Os sintomas psquicos em nosso atual caso de histeria, em que havia muito pouca converso, podem ser divididos em alteraes do humor (angstia, depresso 
melanclica), fobias e abulias (inibies da vontade). As duas ltimas classes de perturbao psquica so consideradas pela escola francesa de psiquiatria como 
estigmas da degenerescncia neurtica, mas em nosso caso verifica-se que foram suficientemente determinadas por experincias traumticas. Essas fobias e abulias 
eram, na sua maior parte, de origem traumtica, como mostrarei com detalhes.
         Algumas das fobias da paciente,  verdade, correspondiam s fobias primrias dos seres humanos, e especialmente dos neuropatas - em particular, por exemplo, 
seu medo de animais (cobras e sapos, bem como todos os vermes de que Mefistfeles se gabava de ser o senhor), de tempestades e assim por diante. Mas tambm essas 
fobias se firmaram mais graas a acontecimentos traumticos. Assim, seu medo dos sapos foi fortalecido pela experincia, nos primeiros anos de infncia, de um de 
seus irmos lhe ter atirado um sapo morto, o que levou a seu primeiro acesso de espasmos histricos |ver em [1]|; e de modo semelhante, seu medo de tempestades foi 
provocado pelo choque que deu lugar a seu estalido caracterstico | ver em [1]|, e o medo de nevoeiros pelo passeio na Ilha de Rgen |ver em [1]|. No obstante, 
neste grupo o medo primrio - ou talvez se pudesse dizer o medo instintivo - (considerado como um estigma psquico) desempenha o papel preponderante.
         As outras fobias, mais especficas, tambm foram explicadas por acontecimentos bem determinados. Seu temor de choques inesperados e sbitos era conseqncia 
da terrvel impresso que teve ao ver o marido, que parecia estar gozando de tima sade, sucumbir a um ataque cardaco diante de seus prprios olhos. Seu medo dos 
estranhos e das pessoas em geral revelou-se originrio da poca em que estava sendo perseguida pela famlia |do marido| e tendia a ver um agente deles em cada estranho, 
e de quando lhe pareceu provvel que os estranhos soubessem das coisas que estavam sendo espalhadas por toda parte a respeito dela, por escrito e verbalmente |ver 
em [1]-[2]|. Seu medo dos hospcios e de seus ocupantes remontava a toda uma srie de acontecimentos tristes ocorridos em sua famlia e s histrias despejadas em 
seus ouvidos atentos por uma empregada estpida |ver em [1]|. Independentemente disso, essa fobia era sustentada, de um lado, pelo horror primrio e instintivo que 
as pessoas sadias tm  loucura, e de outro, pelo medo sentido por ela, no menos do que por todos os neurticos, de que ela mesma viesse a enlouquecer. Seu medo 
altamente especfico de que houvesse algum de p atrs dela |ver em [1]| foi determinado por diversas experincias apavorantes na mocidade e mais tarde. Desde o 
episdio do hotel |ver em [1]|, que lhe foi especialmente aflitivo por causa de suas implicaes erticas, seu medo de que um estranho se esgueirasse para seu quarto 
foi muito acentuado. Por fim, seu medo de ser enterrada viva, que partilhava com tantos neuropatas, era inteiramente explicado por sua crena de que o marido no 
estava morto quando seu corpo foi levado - crena esta que expressava de modo to comovente sua incapacidade de aceitar o fato de que sua vida com o homem a quem 
amava chegara a um fim sbito. Na minha opinio, contudo,todos esses fatores psquicos embora possam responder pela escolha dessas fobias, no podem explicar-lhe 
a persistncia.  necessrio, julgo eu, acrescentar um fator neurtico para explicar sua persistncia - o fato de que a paciente vinha vivendo h anos em estado 
de abstinncia sexual. Tais circunstncias se acham entre as causas mais freqentes de uma tendncia  angstia.
         As abulias de nossa paciente (inibies da vontade, incapacidade de agir) admitem ainda menos que as fobias sejam consideradas como estigmas psquicos causados 
por uma limitao geral da capacidade. Pelo contrrio, a anlise hipntica do caso tornou claro que suas abulias eram determinadas por um duplo mecanismo psquico 
- o qual, no fundo, era um s. Em primeiro lugar, uma abulia pode ser simples conseqncia de uma fobia. Isso ocorre quando a fobia se acha ligada a uma ao do 
prprio sujeito, e no a uma expectativa |de um fato externo| - por exemplo, em nosso caso atual, o medo de sair ou de se relacionar com as pessoas, em contraste 
com o medo de algum se esgueirar para dentro do quarto. Aqui, a inibio da vontade  causada pela angstia concomitante  realizao da ao. Seria errado considerar 
tais espcies de abulias como sintomas distintos das fobias correspondentes, embora se deva admitir que essas fobias podem existir (contanto que no sejam graves 
demais) sem produzir abulias. A segunda classe de abulias depende da presena de associaes carregadas de afeto e no resolvidas que se oponham  vinculao com 
outras associaes, e particularmente com qualquer uma que seja incompatvel com elas. A anorexia da nossa paciente oferece o mais brilhante exemplo dessa espcie 
de abulia |ver em [1] |. Ela comia to pouco por no gostar do sabor, e no podia apreciar o sabor porque o ato de comer, desde os primeiros tempos, se vinculara 
a lembranas de repulsa cuja soma de afeto jamais diminura em qualquer grau; e  impossvel comer com repulsa e prazer ao mesmo tempo. Sua antiga repulsa s refeies 
permanecera inalterada porque ela era constantemente obrigada a reprimi-la, em vez de livrar-se dela por reao. Na infncia ela fora forada, sob ameaa de punio, 
a comer a refeio fria que lhe era repugnante, e nos anos posteriores tinha sido impedida, por considerao aos irmos, de externar os afetos a que ficava exposta 
durante suas refeies em comum.
         
         Neste ponto, talvez deva referir-me a um pequeno artigo no qual tentei dar uma explicao psicolgica das paralisias histricas (Freud 1893c). Nele cheguei 
 hiptese de que a causa dessas paralisias residiria na inacessibilidade a novas associaes por parte de um grupo de representaes vinculadas, digamos, a uma 
das extremidades do corpo; essa inacessibilidade associativa dependeria, por sua vez, do fato de a representao do membro paralisado estar ligada  lembrana do 
trauma - uma lembrana carregada de afeto que no fora descarregado. Mostrei, a partir de exemplos extrados da vida cotidiana, que uma catexia como essa, de uma 
representao cujo afeto no foi decomposto, envolve sempre uma certa dose de inacessibilidade associativa e de incompatibilidade com novas catexias.
         At agora no consegui confirmar, por meio da anlise hipntica, essa teoria sobre as paralisias motoras, mas posso citar a anorexia da Sra. von N. como 
prova de que esse mecanismo  o que opera em certas abulias, e de que as abulias nada mais so que uma espcie altamente especializada - ou, para usar uma expresso 
francesa, "sistematizada" - de paralisia psquica.
         A situao psquica da Sra. von N. pode ser caracterizada no seu essencial, ressaltando-se dois pontos. (1) Os afetos aflitivos vinculados a suas experincias 
traumticas tinham ficado indecompostos - por exemplo, sua depresso, sua dor (pela morte do marido), seu ressentimento (por ser perseguida pelos parentes dele), 
sua repulsa (pelas refeies compulsrias), seu medo (das numerosas experincias assustadoras), e assim por diante. (2) Sua memria exibia uma intensa atividade, 
que, ora espontaneamente, ora em reao a um estmulo contemporneo (por exemplo, as notcias da revoluo em So Domingos |ver em [1]|), trazia seus traumas e os 
afetos concomitantes, pouco a pouco, at sua conscincia atual. Minha conduta teraputica baseou-se nessa atividade de sua memria, e esforcei-me todos os dias para 
resolver e livrar-me de tudo o que cada dia trazia  tona, at que o acervo acessvel de suas lembranas patolgicas pareceu estar esgotado.
         Essas duas caractersticas psquicas, que considero como geralmente presentes nos paroxismos histricos, abriram caminho para muitas consideraes importantes. 
Adiarei, contudo, a discusso das mesmas at que tenha dispensado certa ateno ao mecanismo dos sintomas somticos.
         No  possvel atribuir a mesma origem a todos os sintomas somticos desses pacientes. Pelo contrrio, mesmo a partir deste caso, que no os apresentava 
em grande nmero, verificamos que os sintomas somticos de uma histeria podem surgir de vrias maneiras. Ousarei, em primeiro lugar, incluir as dores entre os sintomas 
somticos. At onde posso ver, um grupo de dores da Sra. von N. fora por certo organicamente determinado por ligeiras modificaes (de natureza reumtica) nos msculos, 
tendes ou feixes, que causam muito mais dor nos neurticos do que nas pessoas normais. Outro grupo de dores era, com certeza, as lembranas de dores - eram smbolos 
mnmicos das pocas de agitao e cuidados prestados aos doentes, pocas que desempenharam papel de grande relevncia na vida da paciente.  bem possvel que essas 
dores tambm se tenham justificado, originariamente, em bases orgnicas, mas foram depois adaptadas para as finalidades da neurose. Baseio estas afirmativas sobre 
as dores da Sra. von N. principalmente em observaes feitas em outro caso, as quais relatarei mais adiante. Quanto a este ponto particular, poucas informaes puderam 
ser colhidas com a prpria paciente.
         Alguns dos notveis fenmenos motores revelados pela Sra. von N. eram simplesmente expresso das emoes e podiam ser reconhecidos com facilidade como tal. 
Assim, a maneira como estendia as mos para a frente com os dedos separados e retorcidos expressava horror, do mesmo modo que seu jogo facial. Esta era, com certeza, 
uma maneira mais viva e desinibida de expressar as emoes do que era comum entre as mulheres de sua instruo e raa. Na realidade, ela prpria era comedida, quase 
rgida em seus movimentos expressivos quando no se encontrava em estado histrico. Outros de seus sintomas motores estavam, de acordo com ela prpria, relacionados 
diretamente com suas dores. Agitada, ela brincava com os dedos (1888) |ver em [1]| ou esfregava as mos uma na outra (1889) |ver em [1]| para impedir-se de gritar. 
Esse raciocnio nos obriga a lembrar de um dos princpios formulados por Darwin para explicar a expresso das emoes - o princpio do extravasamento da excitao 
|Darwin, 1872, Cap. III|, que explica, por exemplo, por que os ces abanam as caudas. Todos ns estamos acostumados, ao sermos atingidos por estmulos dolorosos, 
a substituir o grito por outros tipos de inervaes motoras. Uma pessoa que tenha tomado a firme deciso de, no consultrio do dentista, conservar a cabea e a boca 
imveis, e no colocar a mo no caminho, poder no mnimo comear a bater com os ps.
         
         Um mtodo mais complicado de converso  revelado pelos movimentos semelhantes a tiques da Sra. von N., como estalar a lngua e gaguejar, chamar pelo nome 
"Emmy" nos estados confusionais |ver em [1]| e empregar a expresso "Fique quieto! No diga nada! No me toque!" (1888) |ver em [1]|. Dessas manifestaes motoras, 
a gagueira e o estalido com a lngua podem ser explicados segundo um mecanismo que descrevi, num breve artigo sobre o tratamento de um caso por sugesto hipntica 
(1892-93), como "o acionamento de idias antitticas". O processo, tal como exemplificado em nosso caso atual |ver em [1]| seria como se segue. Nossa paciente histrica, 
esgotada pela preocupao e pelas longas horas de viglia junto ao leito da filha enferma que afinal adormecera, disse a si mesma: "Agora voc precisa ficar inteiramente 
imvel para no acordar a menina."  provvel que essa inteno tenha dado origem a uma representao antittica, sob a forma de um medo de que, mesmo assim, ela 
fizesse um rudo que despertasse a criana do sono que tanto esperara. Representaes antitticas como essa surgem em ns de forma marcante quando nos sentimos inseguros 
de poder pr em prtica alguma inteno importante.
         Os neurticos, em cujo sentimento a respeito de si mesmos  difcil deixar de encontrar uma veia de depresso ou de expectativa ansiosa, formam um nmero 
maior dessas idias antitticas do que as pessoas normais, ou as percebem com mais facilidade, e as consideram mais importantes. No estado de exausto de nossa paciente 
a idia antittica, que seria normalmente rejeitada, mostrou-se a mais forte. Foi essa idia que entrou em ao e que, para horror da paciente, na realidade produziu 
o rudo que ela tanto temia. A fim de explicar todo o processo, pode-se ainda presumir que sua exausto fosse apenas parcial; ela afetava, para empregarmos a terminologia 
de Janet e seus seguidores, apenas seu ego "primrio", e no resultava igualmente num enfraquecimento da representao antittica.
         Pode-se ainda presumir que foi seu horror ao rudo produzido contra sua vontade que tornou traumtico aquele momento e fixou o rudo em si como um sintoma 
mnmico somtico de toda a cena. Creio, realmente, que o carter do prprio tique, que consistia numa sucesso de sons emitidos de forma convulsiva e separados por 
pausas e que melhor se assemelharia a estalidos, revela traos do processo ao qual devia sua origem. Parece ter havido um conflito entre a inteno dela e a idia 
antittica (a contravontade), o que deu ao tique seu carter descontnuo e confinou a representao antittica em outras vias que no as habituais para inervar o 
aparelho muscular da fala.
         A inibio espstica da fala da paciente - sua gagueira peculiar - era o resduo de uma causa excitante fundamentalmente similar |ver em [1]-[2]|. Nesse 
caso, contudo, no foi o resultado da inervao final - a exclamao - mas o prprio processo de inervao - a tentativa de inibio convulsiva dos rgos da fala 
- que foi transformado num smbolo do acontecimento em sua memria.
         Esses dois sintomas, o estalido e a gagueira, que estavam assim intimamente relacionados pela histria de sua origem, continuaram a se associar e se transformaram 
em sintomas crnicos aps se repetirem numa ocasio semelhante. A partir da, passaram a ser utilizados em mais um sentido. Tendo-se originado num momento de violento 
pavor, foram desde ento ligados a qualquer medo (de acordo com o mecanismo da histeria monossintomtica, que ser descrito no Caso 5 |ver em [1] |), mesmo quando 
o medo no podia levar ao acionamento de uma representao antittica.
         Os dois sintomas acabaram sendo vinculados a tantos traumas, e tiveram tantas razes para serem reproduzidos na memria, que passaram a interromper sempre 
a fala da paciente, sem nenhuma causa especfica,  maneira de um tique sem significado. A anlise hipntica, entretanto, pde demonstrar quanto significado se ocultava 
por trs desse aparente tique; e se o mtodo de Breuer no conseguiu, nesse caso, eliminar de todo os dois sintomas de um s golpe, foi porque a catarse se estendera 
apenas aos trs traumas principais, e no aos traumas associados de forma secundria.
         
         Segundo as normas que regem os ataques histricos, a exclamao "Emmy" durante seus acessos de confuso reproduzia, como havemos de recordar, seus freqentes 
estados de desamparo durante o tratamento da filha. Essa exclamao estava ligada ao contedo do ataque por um complexo encadeamento de idias e sua natureza era 
a frmula protetora contra o ataque. A exclamao, por uma aplicao mais ampla do seu significado, provavelmente degeneraria num tique, como de fato j havia acontecido 
no caso da complicada frmula protetora "No me toque", etc. Em ambas as situaes o tratamento hipntico impediu qualquer outra progresso dos sintomas; mas a exclamao 
"Emmy" mal havia surgido, e apanhei-a enquanto ainda estava em seu solo nativo, restrito aos ataques de confuso.
         Como vimos, esses sintomas motores se originaram de vrias maneiras: por meio do acionamento de uma representao antittica (como no estalido), por uma 
simples converso da excitao psquica em atividade motora (como na gagueira), ou por uma ao voluntria durante um paroxismo histrico (como nas medidas protetoras 
exemplificadas pela exclamao "Emmy" e pela frmula mais longa). Mas como quer que esses sintomas motores se tenham originado, todos tm uma coisa em comum. Pode-se 
demonstrar que possuem uma ligao originria ou de longa data com os traumas, e representam smbolos destes nas atividades da memria.
         Outros dos sintomas somticos da paciente no eram em absoluto de natureza histrica. Isto se aplica, por exemplo, s cibras no pescoo, que considero 
como uma forma modificada de enxaqueca |ver em [1]| e que, como tal, no devem ser classificadas como uma neurose, mas como um distrbio orgnico. Os sintomas histricos, 
porm, ligam-se regularmente a tais distrbios. As cibras no pescoo da Sra. von N., por exemplo, eram empregadas para fins dos ataques histricos, embora ela no 
tivesse a seu dispor a sintomatologia tpica dos ataques histricos.
         Ampliarei esta descrio do estado psquico da Sra. von N. com algumas consideraes sobre as alteraes patolgicas de conscincia que puderam ser observadas 
nela. Tais como suas cibras no pescoo, os acontecimentos aflitivos presentes (cf. seu ltimo delrio no jardim |em [1]|) ou qualquer coisa que a fizesse recordar 
com intensidade qualquer de seus traumas levavam-na a um estado de delrio. Em tais estados - e as poucas observaes que fiz no me conduziram a nenhuma outra concluso 
- havia uma limitao da conscincia e uma compulso a associar, semelhante  que predomina nos sonhos |em. [1]|; as alucinaes e iluses eram facilitadas at o 
mais alto grau e faziam-se inferncias tolas ou mesmo disparatadas. Esse estado, que era comparvel ao da alienao alucinatria, provavelmente representava um ataque. 
Poderia ser encarado como uma psicose aguda (servindo como equivalente de um ataque) que seria classificada como uma situao de "confuso alucinatria". Uma outra 
semelhana entre esses seus estados e um ataque histrico tpico foi mostrada pelo fato de que uma parcela das lembranas traumticas enraizadas desde longa data 
podia em geral ser detectada como subjacente ao delrio. A transio de um estado normal para um delrio ocorria muitas vezes de forma imperceptvel. Num dado momento, 
ela ia conversando de modo perfeitamente racional sobre assuntos de pequena importncia emocional e,  medida que a conversa passava para idias de natureza aflitiva, 
eu notava por seus gestos exagerados ou pelo surgimento de suas frmulas habituais de fala, etc., que ela se encontrava num estado de delrio. No incio do tratamento 
o delrio durava o dia inteiro, de modo que era difcil definir com certeza se quaisquer sintomas - como seus gestos - faziam parte de seu estado psquico como meros 
sintomas de um ataque, ou se - como o estalido e a gagueira - tinham-se tornado autnticos sintomas crnicos. Muitas vezes, s aps o evento  que era possvel distinguir 
entre o que tinha acontecido num delrio e o que tinha acontecido em seu estado normal, pois os dois estados estavam separados em sua memria e, algumas vezes, ela 
ficava extremamente surpresa ao saber das coisas que o delrio havia introduzido aos poucos em sua conversa normal. Minha primeira entrevista com ela constituiu 
o exemplo mais marcante da maneira como os dois estados se entrelaavam sem prestar nenhuma ateno um ao outro. Somente num momento dessa gangorra psquica foi 
que sua conscincia normal, em contato com o tempo presente, mostrou-se afetada: foi quando me deu uma resposta oriunda do delrio e disse ser "uma mulher que datava 
do sculo passado" |ver em [1]|.
         A anlise desses estados delirantes na Sra. von N. no foi realizada de forma completa, em virtude de ter sua condio melhorado to depressa que os delrios 
se tornaram nitidamente diferenciados de sua vida normal e se restringiram aos perodos de suas cibras no pescoo. Por outro lado, colhi grande nmero de informaes 
sobre o comportamento da paciente num terceiro estado, o do sonambulismo artificial. Enquanto, em seu estado normal, ela no tinha nenhum conhecimento das experincias 
psquicas ocorridas durante seus delrios e o sonambulismo, tinha acesso durante o sonambulismo, s lembranas de todos os trs estados. A rigor, portanto, era no 
estado de sonambulismo que ela se encontrava no auge de sua normalidade. Realmente, se eu deixar de lado o fato de que no sonambulismo ela era muito menos reservada 
comigo do que em seus melhores momentos da vida cotidiana - isto , que no sonambulismo me dava informaes sobre sua famlia e coisas semelhantes, enquanto nas 
outras ocasies me tratava como um estranho - e se, alm disso, eu desprezar o fato de que ela exibia o grau pleno de sugestionabilidade que  caracterstico do 
sonambulismo, serei forado a dizer que durante o sonambulismo ela se achava num estado inteiramente normal. Era interessante observar que, por outro lado, seu sonambulismo 
no apresentava nenhum sinal de ser supernormal, mas estava sujeito a todas as falhas mentais que estamos acostumados a associar a um estado normal de conscincia.
         Os exemplos que se seguem esclarecem o comportamento de sua memria no sonambulismo. Certo dia, numa conversa, ela expressou seu encanto pela beleza de 
uma planta num vaso que decorava o saguo de entrada da casa de sade. "Mas qual  o nome dela, doutor? O senhor sabe? Eu sabia seus nomes em alemo e latim, mas 
esqueci." A paciente tinha amplo conhecimento de plantas, ao passo que fui obrigado, nessa ocasio, a admitir minha falta de preparo em botnica. Alguns minutos 
depois perguntei-lhe, sob hipnose, se ela agora sabia o nome da planta do saguo. Sem qualquer hesitao, respondeu: "O nome em alemo  'Tuerkenlilie' |martago|; 
esqueci mesmo o nome em latim." De outra feita, quando se sentia bem de sade, falou-me de uma visita que fizera s catacumbas romanas, mas no conseguia recordar-se 
de dois termos tcnicos, nem pude eu ajud-la. Logo depois perguntei-lhe, sob hipnose, quais as palavras que estavam em sua mente. Mas ela tambm no soube diz-las 
em hipnose, de modo que lhe falei: "No se preocupe mais com elas agora, mas quando estiver no jardim amanh, entre cinco e seis da tarde - mais perto das seis do 
que das cinco - elas subitamente lhe ocorrero." Na noite seguinte, enquanto conversvamos sobre algo que no tinha nenhuma relao com as catacumbas, ela subitamente 
exclamou: "'Cripta', doutor, e 'Columbrio'." "Ah! essas so as palavras em que a senhora no conseguia pensar ontem. Quando foi que lhe ocorreram?" "Hoje  tarde 
no jardim, pouco antes de eu subir para meu quarto." Vi que, com isso, ela queria que eu soubesse que havia seguido com preciso minhas instrues quanto ao horrio, 
j que tinha o hbito de sair do jardim por volta das seis horas da tarde.
         Vemos assim que mesmo no sonambulismo ela no tinha acesso a toda a extenso do seu conhecimento. Mesmo nesse estado havia uma conscincia real e outra 
potencial. Muitas vezes acontecia que, quando eu lhe perguntava, durante seu sonambulismo, de onde provinha esse ou aquele fenmeno, ela franzia a testa e, depois 
de uma pausa, respondia num tom de desculpas: "No sei." Em tais ocasies eu tinha adquirido o hbito de dizer: "Pense por um momento; vir sem nenhum rodeio"; e 
depois de breve reflexo, ela conseguia dar-me a informao desejada. Mas algumas vezes acontecia nada lhe ocorrer, e eu era obrigado a deix-la com a tarefa de 
lembrar-se daquilo no dia seguinte, o que nunca deixou de acontecer.
         Em sua vida cotidiana a Sra. von N. evitava escrupulosamente qualquer inverdade, e jamais mentiu para mim sob hipnose. s vezes, contudo, dava-me respostas 
incompletas e retinha parte da histria at eu insistir uma segunda vez para que a completasse. Em geral, como no exemplo citado em [1], era o desagrado inspirado 
pelo assunto que lhe fechava a boca no sonambulismo, assim como na vida cotidiana. No obstante, apesar desses traos restritivos, a impresso causada por seu comportamento 
mental durante o sonambulismo era, no conjunto, a de um desinibido desenrolar de seus poderes mentais e de um pleno domnio sobre seu acervo de lembranas.
         Embora no se possa negar que no estado de sonambulismo ela era altamente sugestionvel, estava longe de exibir uma ausncia patolgica de resistncia. 
Pode-se asseverar, de modo geral, que eu no lhe causava maior impresso nesse estado de que esperaria conseguir se estivesse procedendo a uma pesquisa dessa natureza 
sobre os mecanismos psquicos de algum em pleno gozo de suas faculdades e que tivesse plena confiana no que eu dizia. A nica diferena era que a Sra. von N. era 
incapaz, no que era considerado seu estado normal, de ter para comigo tal atitude mental favorvel. Quando, como aconteceu com sua fobia por animais, eu no conseguia 
apresentar-lhe razes convincentes, ou no penetrava na histria psquica da origem de um sintoma, mas tentava atuar por meio de sugesto autoritria, invariavelmente 
notava em seu rosto uma expresso tensa e insatisfeita; e quando, ao final da hipnose, perguntava-lhe se ainda tinha medo do animal, ela respondia: "No... j que 
o senhor insiste." Uma afirmao como esta, baseada apenas em sua obedincia a mim, nunca tinha xito, como tambm no o alcanavam as numerosas injunes genricas 
que lhe fazia em lugar das quais bem poderia ter repetido a simples sugesto de que ela ficasse boa.
         Mas essa mesma pessoa que se apegava to obstinadamente a seus sintomas em face da sugesto e s os abandonava em resposta  anlise psquica ou  convico 
pessoal era, por outro lado, to dcil quanto a melhor paciente encontrvel em qualquer hospital, no que dizia respeito s sugestes irrelevantes - na medida em 
que se tratasse de assuntos no relacionados com sua doena. J apresentei exemplos de sua obedincia ps-hipntica ao longo do relato do caso. No me parece haver 
nada de contraditrio nesse comportamento. Tambm aqui a idia mais forte estava destinada a se afirmar. Se penetrarmos no mecanismo das "ides fixes", constataremos 
que se acham baseadas e apoiadas por tantas experincias, que atuam com tal intensidade, que no nos podemos surpreender ao descobrir que essas idias so capazes 
de opor uma resistncia bem-sucedida  idia contrria apresentada pela sugesto, que s est revestida de poderes limitados. Apenas de um crebro verdadeiramente 
patolgico  que se poderiam varrer por mera sugesto produtos to bem fundamentados de eventos psquicos intensos.
         Foi enquanto estudava as abulias da Sra. von N. que comecei a ter srias dvidas quanto  validade da assero de Bernheim de que "tout est dans la suggestion" 
|"tudo est na sugesto"| e sobre a deduo do seu sagaz amigo Delboeuf: "Comme quoi il n'y a pas d'hypnotisme" |"Sendo assim, no existe o que se chama de hipnotismo"|. 
E at hoje no posso compreender como se pode supor que, apenas levantando um dedo e dizendo uma vez "durma", eu tinha criado na paciente o estado psquico peculiar 
em que sua memria tinha acesso a todas as suas experincias psquicas. Talvez eu tenha evocado esse estado com minha sugesto, mas no o criei, visto que suas caractersticas 
- que, alis, so encontradas universalmente - foram uma grande surpresa para mim.
         O relato do caso esclarece suficientemente a maneira como o trabalho teraputico foi conduzido durante o sonambulismo. Como  praxe na psicoterapia hipntica, 
lutei contra as representaes patolgicas da paciente por meio de garantias e proibies e apresentando toda espcie de representaes opostas. Mas no me contentei 
com isso. Investiguei a gnese dos sintomas individuais a fim de poder combater as premissas sobre as quais se erguiam as representaes patolgicas. No curso dessa 
anlise costumava acontecer que a paciente expressava verbalmente, com a mais violenta agitao, assuntos cujo afeto associado at ento s se manifestara como uma 
expresso de emoo. |ver em [1].| No sei dizer quanto do xito teraputico, em cada situao, deveu-se ao fato de eu ter eliminado o sintoma por sugesto in statu 
nascendi, e quanto se deveu  transformao do afeto por ab-reao, j que combinei esses dois fatores teraputicos. Por conseguinte, este caso no pode ser rigorosamente 
utilizado como prova da eficcia teraputica do mtodo catrtico; ao mesmo tempo, devo acrescentar que s os sintomas de que fiz uma anlise psquica foram de fato 
eliminados de forma permanente.
         De modo geral o xito teraputico foi considervel, mas no duradouro. A tendncia da paciente a adoecer de forma semelhante sob o impacto de novos traumas 
no foi afastada. Qualquer um que desejasse empreender a cura definitiva de um caso de histeria como este teria que penetrar mais a fundo do que eu o fiz, em minha 
tentativa, no complexo de fenmenos. A Sra. von N. era, sem dvida, uma personalidade com grave hereditariedade neuroptica. Parece provvel que no pode haver histeria 
independente de uma predisposio dessa natureza. Mas, por outro lado, a predisposio sozinha no faz a histeria. Deve haver razes que a trazem  tona, e, na minha 
opinio, essas razes devem ser apropriadas: a etiologia  de natureza especfica. J tive ocasio de mencionar que, na Sra. von N., os afetos pertinentes a um grande 
nmero de experincias traumticas tinham ficado retidos, e que a atividade dinmica de sua memria fazia aflorar  sua mente ora um, ora outro desses traumas. Aventurar-me-ei 
agora a formular uma explicao do motivo por que ela retinha os afetos dessa maneira. Esse motivo,  verdade, estava ligado a sua predisposio hereditria. Por 
um lado, seus sentimentos eram muito intensos; ela possua uma natureza veemente, capaz das mais fortes paixes. Por outro, desde a morte do marido, tinha vivido 
em completa solido mental; a perseguio que lhe moveram os parentes a havia tornado desconfiada dos amigos, e ela ficou atentamente em guarda para impedir que 
qualquer pessoa adquirisse demasiada influncia sobre suas aes. O crculo de suas obrigaes era muito amplo, e ela realizava sozinha todo o trabalho mental que 
estas lhe impunham, sem um amigo ou confidente, quase isolada da famlia e prejudicada por sua conscienciosidade, sua tendncia a se atormentar e tambm, muitas 
vezes, pelo desamparo natural da mulher. Em suma, o mecanismo da reteno de grandes quantidades de excitao, independente de tudo o mais, no pode ser desprezado 
neste caso. Baseava-se em parte nas circunstncias de sua vida, e em parte em sua predisposio natural. Sua averso, por exemplo, a dizer qualquer coisa sobre si 
mesma era to grande, que, como notei com assombro, em 1891, nenhum dos visitantes dirios que iam  sua casa percebia que ela estava doente nem tinha conscincia 
de que eu era seu mdico.
         Ser que isso esgota a etiologia deste caso de histeria? Penso que no, pois, na poca de seus dois tratamentos, eu ainda no levantara em minha prpria 
mente as questes a que  preciso responder antes que seja possvel uma explicao completa de um caso como este. Sou agora de opinio que deve ter havido algum 
fator adicional para provocar a irrupo da doena precisamente nestes ltimos anos, considerando-se que as condies etiolgicas operantes tinham estado presentes 
durante muitos anos anteriormente. Tambm me ocorreu que, dentre todas as informaes ntimas que me foram dadas pela paciente, houve uma ausncia completa do elemento 
sexual, que , afinal de contas, passvel mais do que qualquer outro de ocasionar traumas.  impossvel que suas excitaes nesse campo no tivessem deixado quaisquer 
vestgios; o que me foi permitido ouvir foi, sem dvida, uma editio in usum delphini |uma edio expurgada| da histria de sua vida. A paciente comportava-se com 
o maior e mais natural senso de decoro, a julgar pelas aparncias, sem nenhum trao de pudiccia. Quando, porm, reflito sobre a reserva com que me narrou, sob hipnose, 
a pequena aventura de sua empregada no hotel, no posso deixar de suspeitar de que essa mulher, que era to passional e to capaz de sentimentos fortes, no tenha 
vencido suas necessidades sexuais sem grandes lutas, e que, por vezes, suas tentativas de suprimir essa pulso, que  de todas a mais poderosa, tinham-na exposto 
a seu grave esgotamento mental. Uma vez, ela admitiu que ainda no se havia casado de novo porque, em vista da sua grande fortuna, no podia dar crdito ao desinteresse 
de seus pretendentes e porque se recriminaria por prejudicar as expectativas de suas duas filhas com um novo matrimnio.
         Cabe-me fazer mais uma observao antes de encerrar o caso clnico da Sra. von N. O Dr. Breuer e eu a conhecamos razoavelmente bem e h bastante tempo, 
e costumvamos sorrir ao comparar seu carter com o quadro da psique histrica que pode ser acompanhado desde os primeiros tempos por meio dos trabalhos e das opinies 
dos mdicos. Ns tnhamos aprendido, a partir de nossas observaes da Sra. Caecilie M., que o tipo mais grave de histeria pode coexistir com dons da natureza mais 
rica e mais original - uma concluso mais do que comprovada na biografia de mulheres eminentes na histria e na literatura. Da mesma forma, a Sra. Emmy von N. nos 
deu um exemplo de como a histeria  compatvel com um carter impecvel e um modo de vida bem orientado. A mulher que viemos a conhecer era admirvel. A seriedade 
moral com que encarava suas obrigaes, sua inteligncia e energia, que no eram inferiores s de um homem, e seu alto grau de instruo e de amor  verdade nos 
impressionaram grandemente, enquanto seu generoso cuidado para com o bem-estar de todos os seus dependentes, sua humildade de esprito e o requinte de suas maneiras 
revelaram tambm suas qualidades de verdadeira dama. Descrever essa mulher como "degenerada" seria distorcer por completo o significado desse termo. Faramos bem 
em distinguir o conceito de "predisposio" do de "degenerescncia" tais como aplicados s pessoas; de outra forma, ver-nos-emos forados a admitir que a humanidade 
deve uma grande parcela de suas maiores realizaes ao esforo de "degenerados".
         Devo igualmente confessar que no vejo na histria da Sra. von N. nenhum sinal da "ineficincia psquica"  qual Janet atribui a gnese da histeria. De 
acordo com ele, a predisposio histrica consiste numa restrio anormal do campo da conscincia (em virtude da degenerescncia hereditria), que resulta no desprezo 
por grupos inteiros de representaes e, mais tarde, numa desintegrao do ego e na organizao de personalidades secundrias. Se assim fosse, o que resta do ego 
aps a retirada dos grupos psquicos histericamente organizados seria, por necessidade, tambm menos eficiente do que um ego normal; e de fato, de acordo com Janet, 
o ego na histeria  afligido por estigmas psquicos, condenado ao monoidesmo e incapaz dos atos volitivos da vida cotidiana. Janet, julgo eu, cometeu aqui o erro 
de promover o que constituem os efeitos secundrios das alteraes da conscincia decorrentes da histeria  posio de determinantes primrios da histeria. O assunto 
merece maior considerao em outro trecho, mas na Sra. von N. no havia qualquer sinal de tal ineficincia. Por ocasio de seus piores momentos, ela era e continuou 
a ser capaz de desempenhar seu papel na administrao de uma grande empresa industrial, de manter uma vigilncia constante sobre a educao das filhas e de manter 
sua correspondncia com pessoas preeminentes do mundo intelectual - em suma, de cumprir com suas obrigaes bastante bem para que sua doena permanecesse oculta. 
Inclino-me a acreditar, portanto, que tudo isso envolvia com excesso considervel de eficincia, que talvez no pudesse ser mantido por muito tempo e estava fadado 
a levar ao esgotamento - a uma "misre psychologique" |"empobrecimento psicolgico"| secundria. Parece provvel que algumas perturbaes desse tipo em sua eficincia 
estivessem comeando a se fazer sentir na poca em que a vi pela primeira vez, mas, seja como for, uma histeria grave estivera presente por muitos anos antes do 
aparecimento dos sintomas de esgotamento.
         
         CASO 3 - MISS LUCY R., 30 ANOS (FREUD)
         
         No fim do ano de 1892, um colega conhecido meu encaminhou-me uma jovem que estava sendo tratada por ele de rinite supurativa cronicamente recorrente. Verificou-se 
em seguida que a obstinada persistncia do problema da jovem se devia a uma crie do osso etmide. Ultimamente, ela se vinha queixando de alguns sintomas novos que 
o competente clnico no pde mais continuar a atribuir a uma afeco local. Ela perdera todo o sentido do olfato e era quase continuamente perseguida por uma ou 
duas sensaes olfativas subjetivas, que lhe eram muito aflitivas. Alm disso, estava desanimada e fatigada e se queixava de peso na cabea, pouco apetite e perda 
de eficincia.
         A jovem, que vivia como governanta na casa do diretor-gerente de uma fbrica nos arredores de Viena, vinha visitar-me de vez em quando em meus horrios 
de consulta. Era de nacionalidade inglesa. Tinha uma constituio delicada, de pigmentao deficiente, mas gozava de boa sade, salvo por sua afeco nasal. Suas 
primeiras declaraes confirmaram o que o mdico me dissera. Sofria de depresso e fadiga e era atormentada por sensaes subjetivas do olfato. Quanto aos sintomas 
histricos, apresentava uma analgesia geral mais ou menos definida, sem nenhuma perda da sensibilidade ttil, e um exame grosseiro (com a mo) no revelou nenhuma 
restrio do campo visual. O interior de seu nariz era inteiramente analgsico e sem reflexos: ela era sensvel  presso ttil no local, mas a percepo propriamente 
dita do nariz como rgo dos sentidos estava ausente, tanto para estmulos especficos quanto para outros (por exemplo, amnia, ou cido actico). O catarro nasal 
purulento estava ento numa fase de melhora.
         Em nossas primeiras tentativas de tornar a doena inteligvel, foi necessrio interpretar as sensaes olfativas subjetivas, visto que eram alucinaes 
recorrentes, como sintomas histricos crnicos. Sua depresso talvez fosse o afeto ligado ao trauma, e deveria ser possvel encontrar uma experincia em que esses 
odores, que agora se haviam tornado subjetivos, tivessem sido objetivos. Essa experincia devia ter sido o trauma que as sensaes recorrentes do olfato simbolizavam 
na memria. Talvez seja mais correto considerar as alucinaes olfativas recorrentes, em conjunto com a depresso que as acompanhava, como equivalentes de um ataque 
histrico. A natureza das alucinaes recorrentes, a rigor, torna-as inadequadas para desempenharem o papel de sintomas crnicos. Mas na verdade essa questo no 
surgiunum caso como este, que mostrava apenas um desenvolvimento rudimentar. Era essencial, contudo, que as sensaes subjetivas do olfato tivessem tido uma origem 
especializada de uma natureza que admitisse terem-se derivado de algum objeto real bem especfico.
         Essa expectativa foi logo realizada. Quando lhe perguntei qual era o odor pelo qual era mais constantemente perturbada, ela me respondeu: "Um cheiro de 
pudim queimado." Assim, eu s precisava presumir que um cheiro de pudim queimado tinha de fato ocorrido na experincia que atuara como trauma.  muito incomum, sem 
dvida, que as sensaes olfativas sejam escolhidas como smbolos mnmicos de traumas, mas no foi difcil explicar essa escolha. A paciente vinha sofrendo de rinite 
supurativa e, em conseqncia disso, sua ateno estava especialmente enfocada no nariz e nas sensaes nasais. O que eu sabia das circunstncias da vida da paciente 
limitava-se ao fato de que as duas crianas de quem ela cuidava no tinham me; esta morrera alguns anos antes em decorrncia de uma molstia aguda.
         Resolvi ento fazer do cheiro de pudim queimado o ponto de partida da anlise. Descreverei o curso dessa anlise como se tivesse ocorrido em condies favorveis. 
De fato, o que deveria ter sido uma nica sesso estendeu-se por vrias. Isso se verificou porque a paciente s podia visitar-me em meus horrios de consulta, quando 
eu s lhe podia dedicar pouco tempo. Alm disso, uma nica discusso dessa natureza costumava estender-se por mais de uma semana, visto que as obrigaes dela no 
lhe permitiam fazer a longa viagem da fbrica at minha casa com grande freqncia. Costumvamos, portanto, interromper nossa conversa em meio a seu curso e retomar 
o fio da meada no mesmo ponto na vez seguinte.
         Miss Lucy R. no entrou em estado de sonambulismo quando tentei hipnotiz-la. Assim, abri mo do sonambulismo e conduzi toda a sua anlise enquanto ela 
se encontrava num estado que, a rigor, talvez tenha diferido muito pouco de um estado normal.
         
         Terei que falar com mais detalhes sobre esse aspecto de meu procedimento tcnico. Quando, em 1889, visitei as clnicas de Nancy, ouvi o Dr. Libeault, o 
doyen (decano) do hipnotismo, dizer: "Se ao menos tivssemos meios de pr todos os pacientes em estado de sonambulismo, a terapia hipntica seria a mais poderosa 
de todas." Na clnica de Bernheim chegava quase a parecer que essa arte realmente existia e que era possvel aprend-la com Bernheim. Mas logo que tentei pratic-la 
com meus prprios pacientes, descobri que pelo menos meus poderes estavam sujeitos a graves limitaes e que, quando o sonambulismo no era provocado num paciente 
nas trs primeiras tentativas, eu no tinha nenhum meio de induzi-lo. A percentagem de casos acessveis ao sonambulismo era muito menor, em minha experincia, do 
que a relatada por Bernheim.
         Vi-me, por conseguinte, defrontado com a opo de abandonar o mtodo catrtico na maioria dos casos que lhe seriam apropriados ou aventurar-me  experincia 
de empregar esse mtodo sem o sonambulismo, quando a influncia hipntica fosse leve ou mesmo quando sua existncia fosse duvidosa. Parecia-me indiferente qual o 
grau de hipnose - de acordo com uma ou outra das escalas propostas para medi-la - que era alcanado nesse estado sonamblico, pois, como sabemos, de qualquer modo 
cada uma das vrias formas assumidas pela sugestionabilidade independe das outras, e a obteno da catalepsia, de movimentos automticos e assim por diante no funciona 
nem favorecendo, nem prejudicando aquilo de que eu precisaria para minhas finalidades, ou seja, que o despertar das lembranas esquecidas fosse facilitado. Alm 
disso, logo abandonei a prtica de fazer testes para indicar o grau de hipnose alcanado, visto que num bom nmero de casos isso provocava a resistncia dos pacientes 
e abalava sua confiana em mim, da qual eu necessitava para executar o trabalho psquico mais importante. Ademais, logo comecei a ficar cansado de proferir asseguramentos 
e ordens tais como "Voc vai dormir... durma!" e de ouvir o paciente, como tantas vezes acontecia quando o grau de hipnose era leve, reclamar comigo: "Mas doutor, 
eu no estou dormindo", e de ter ento que fazer distines sutis: "No me refiro a um sono comum, mas sim  hipnose. Como v, voc est hipnotizado, no consegue 
abrir os olhos", etc., "e de qualquer modo, no h necessidade de que voc adormea", e assim por diante. Estou certo de que muitos outros mdicos que praticam a 
psicoterapia sabem sair dessas dificuldades de forma mais hbil do que eu. Se assim for, ho de poder adotar algum outro mtodo que no o meu. Parece-me, contudo, 
que quando algum espera com tanta freqncia descobrir-se numa situao embaraosa pelo uso de determinada palavra, ser prudente evitar tanto a palavra quanto 
o embarao. Quando, portanto, minha primeira tentativa no me conduzia nem ao sonambulismo nem a um grau de hipnose que acarretasse modificaes fsicas marcantes, 
eu abandonava de modo ostensivo a hipnose e pedia apenas "concentrao"; e ordenava ao paciente que se deitasse e deliberadamente fechasse os olhos como meio de 
alcanar essa "concentrao".  possvel que, dessa forma, eu obtivesse com apenas um ligeiro esforo o mais profundo grau de hipnose possvel de ser alcanado naquele 
caso particular.
         Mas, ao abrir mo do sonambulismo, talvez me estivesse privando de uma precondio sem a qual o mtodo catrtico no parecia utilizvel, pois esse mtodo 
era claramente baseado na possibilidade de os pacientes, em seu estado alterado de conscincia, terem acesso s lembranas e serem capazes de identificar ligaes 
que no pareciam estar presentes em seu estado de conscincia normal. Se a extenso sonamblica da memria estivesse ausente, tambm no haveria nenhuma possibilidade 
de estabelecer quaisquer causas determinantes que o paciente pudesse apresentar ao mdico como algo desconhecido para ele (o paciente); e est claro que so precisamente 
as lembranas patognicas que, como j tivemos ocasio de dizer em nossa "Comunicao Preliminar" |ver em [1]|, se acham "ausentes da lembrana dos pacientes quando 
em estado psquico normal, ou s se fazem presentes de forma bastante sumria".
         Poupei-me desse novo embarao ao me lembrar de que eu prprio vira Bernheim dar provas de que as lembranas dos acontecimentos ocorridos durante o sonambulismo 
so apenas aparentemente esquecidas no estado de viglia, e podem ser revividas por meio de uma ordem delicada e de uma presso com a mo, destinada a indicar um 
estado diferente de conscincia. Ele havia, por exemplo, dado a uma mulher em estado de sonambulismo uma alucinao negativa, no sentido de que ele no estava mais 
presente, e depois se esforava por chamar a ateno dela para si prprio de diversas maneiras diferentes, inclusive algumas de natureza decididamente agressiva. 
No teve sucesso. Depois de ela ser despertada, ele lhe pediu que contasse o que lhe fizera enquanto ela achava que ele no estava mais l. Surpresa, ela respondeu 
nada saber a esse respeito. Mas ele no aceitou essa resposta, insistindo em que ela podia recordar-se de tudo, e ps a mo em sua testa a fim de ajud-la a lembrar-se. 
E vejam s! Ela acabou por descrever tudo o que aparentemente no havia percebido durante o sonambulismo e aparentemente no havia recordado no estado de viglia.
         Essa surpreendente e instrutiva experincia me serviu de modelo. Resolvi partir do pressuposto de que meus pacientes sabiam tudo o que tinha qualquer significado 
patognico e que se tratava apenas de uma questo de obrig-los a comunic-lo. Assim, quando alcanava um ponto em que, depois de formular ao paciente uma pergunta 
como "H quanto tempo tem este sintoma?" ou "Qual foi sua origem?", recebia como resposta "Realmente no sei", eu prosseguia da seguinte maneira. Colocava a mo 
na testa do paciente ou lhe tomava a cabea entre a mos e dizia: "Voc pensar nisso sob a presso da minha mo. No momento em que eu relaxar a presso, ver algo 
 sua frente, ou algo aparecer em sua cabea. Agarre-o. Ser o que estamos procurando. - E ento, o que foi que viu ou o que lhe ocorreu?"
         
         Nas primeiras ocasies em que usei esse mtodo (no foi com Miss Lucy R.), eu prprio me surpreendi ao constatar que ele me proporcionava precisamente os 
resultados de que eu necessitava. E posso afirmar com segurana que quase nunca me deixou em dificuldades desde ento. Sempre apontou o caminho que a anlise deveria 
seguir e me permitiu conduzir cada uma dessas anlises at o fim sem o emprego do sonambulismo. Afinal fiquei to confiante que, quando os pacientes respondiam "no 
vejo nada" ou "nada me ocorreu", podia descartar essa afirmao como uma impossibilidade e assegurar-lhes que por certo haviam ficado conscientes do que se desejava, 
mas se recusavam a acreditar que fosse aquilo e o rejeitavam. Dizia-lhes que estava pronto a repetir o mtodo quantas vezes desejassem e que eles veriam a mesma 
coisa todas as vezes. Invariavelmente, eu tinha razo. Os pacientes ainda no tinham aprendido a relaxar sua faculdade crtica. Haviam rejeitado a lembrana que 
surgira ou a idia que lhes tinha ocorrido, sob a alegao de que no servia e era uma interrupo irrelevante. E depois que a relatavam a mim, ela sempre revelava 
ser aquilo que se desejava. s vezes, quando aps trs ou quatro presses eu tinha por fim extrado a informao, o paciente replicava: "Alis, eu de fato j sabia 
disso desde a primeira vez, mas era justamente o que eu no queria dizer", ou ento, "Eu tinha esperana de que no fosse isso".
         Era trabalhosa essa questo de ampliar o que se supunha ser uma conscincia limitada - muito mais trabalhosa, pelo menos, do que uma investigao durante 
o sonambulismo. No obstante, tornou-se independente do sonambulismo e me proporcionou uma compreenso dos motivos que muitas vezes determinam o "esquecimento" das 
lembranas. Posso afirmar que esse esquecimento  muitas vezes intencional e desejado, e seu xito nunca  mais do que aparente.
         Achei ainda mais surpreendente, talvez, que pelo mesmo mtodo fosse possvel fazer retornarem nmeros e datas que, a um exame superficial, h muito tinham 
sido esquecidos, e assim revelar como a memria pode ser inesperadamente precisa.
         O fato de, ao procurarmos nmeros e datas, nossa escolha ser to limitada permite-nos chamar em nosso auxlio uma proposio que nos  familiar a partir 
da teoria da afasia, ou seja, que reconhecer alguma coisa  uma tarefa mais leve para a memria do que pensar nela espontaneamente. Assim, quando o paciente  incapaz 
de recordar-se do ano, ms ou dia em que um fato particular ocorreu, podemos repetir-lhe os nmeros dos anos possivelmente relevantes, os nomes dos doze meses e 
os trinta e um nmeros dos dias do ms, assegurando-lhe que, quando chegarmos ao nmero certo, ou ao nome certo, seus olhos se abriro por sua livre vontade ou ele 
sentir qual  o certo. Na grande maioria dos casos, de fato o paciente se decide por uma data particular. Com grande freqncia (como no caso da Sra. Caecilie M.) 
 possvel comprovar, por documentos do perodo em questo, que a data foi reconhecida de forma correta, enquanto em outros casos e em outras ocasies a indiscutvel 
exatido da data escolhida pode ser inferida pelo contexto dos fatos recordados. Por exemplo, depois que uma paciente teve sua ateno atrada para a data a que 
se tinha chegado por esse mtodo de "contagem", ela disse: "Ora, esse  o aniversrio do meu pai!" e acrescentou: " claro! foi por ser aniversrio dele que eu estava 
esperando o acontecimento de que estvamos falando".
         Aqui, s de passagem posso tocar nesse tema. A concluso que extra de todas essas observaes foi que as experincias que desempenharam um papel patognico 
importante, junto com todos os seus concomitantes secundrios, so retidas com exatido na memria do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas - quando 
ele  incapaz de relembr-las.
         
         Aps essa longa mais inevitvel digresso, voltarei ao caso de Miss Lucy R. Como disse, portanto, minhas tentativas de hipnose com ela no produziram o 
sonambulismo. Ela simplesmente ficava deitada, quieta, num estado acessvel a um discreto grau de influncia, com os olhos fechados o tempo todo, as feies um pouco 
rgidas e sem mexer nem as mos nem os ps. Perguntei-lhe se conseguia lembrar-se da ocasio em que sentira pela primeira vez o cheiro de pudim queimado. - "Ah, 
sim, sei exatamente. Foi h uns dois meses, dois dias antes do meu aniversrio. Estava com as crianas na sala de aula e brincava de cozinhar com elas" (eram duas 
meninas). - "Chegou uma carta que acabara de ser entregue pelo carteiro. Vi pelo carimbo postal e pela letra que era da minha me, em Glasgow, e queria abri-la e 
l-la, mas as crianas se precipitaram sobre mim, arrancaram a carta de minhas mos e gritaram: 'No, voc no vai ler agora! Deve ser pelo seu aniversrio, vamos 
guardar a carta para voc!' Enquanto as crianas faziam essa brincadeira comigo, houve de repente um cheiro forte. Elas haviam esquecido o pudim que estavam assando, 
e ele estava queimando. Desde ento tenho sido perseguida pelo cheiro, que est sempre presente e fica mais forte quando estou agitada".
         - "Voc v essa cena com nitidez diante de seus olhos?" - "Em tamanho natural, exatamente como a experimentei." - "Que poderia haver a respeito dela que 
fosse to perturbador?" - "Fiquei emocionada porque as crianas foram muito afetuosas comigo." - "E no o eram sempre?" - "Sim... mas justamente quando recebi a 
carta de minha me." - "No compreendo por que h um contraste entre a afeio das crianas e a carta de sua me, pois  o que voc parece estar sugerindo." - "Eu 
estava pretendendo voltar para a casa de minha me, e pensar em deixar aquelas crianas queridas me deixava muito triste." - "Qual  o problema com sua me? Tem 
se sentido sozinha e mandou buscar voc? Ou estava doente na ocasio, e voc esperava notcias dela?" - "No; ela no  muito forte, mas no est exatamente doente, 
e tem algum que lhe faz companhia." - "Ento por que voc precisava deixar as crianas?" - "No podia mais suportar ficar naquela casa. A empregada, a cozinheira 
e a governanta francesa pareciam pensar que eu me estava colocando acima do meu lugar. Aliaram-se numa pequena intriga contra mim e disseram toda espcie de coisas 
a meu respeito ao av das crianas, e no obtive tanto apoio quanto esperava dos dois cavalheiros quando me queixei a eles. Assim, notifiquei o Diretor (o pai das 
crianas) de que pretendia ir embora. Ele respondeu de maneira muito amvel que seria melhor eu pensar mais sobre o assunto durante umas duas ou trs semanas, antes 
de dar-lhe minha deciso final. Eu estava nessa situao de incerteza na poca e achava que iria deixar a casa, mas acabei ficando." - "Havia algo em particular, 
afora a afeio delas por voc, que a ligasse s crianas?" - "Havia. A me delas era parente distante da minha me, e eu lhe prometera em seu leito de morte que 
me devotaria com todas as minhas foras s crianas, que no as deixaria e que ocuparia o lugar da me junto a elas. Ao dar a notificao de minha sada eu havia 
quebrado essa promessa".
         Isso pareceu completar a anlise da sensao objetiva de cheiro apresentada pela paciente. De fato, ela mostrara ter sido, em sua origem, uma sensao objetiva, 
intimamente associada a uma experincia - uma pequena cena - em que dois afetos antagnicos tinham estado em conflito: sua tristeza por deixar as crianas e as desconsideraes 
que, no obstante, a estavam impelindo a decidir-se por aquele curso de ao. A carta da me naturalmente a havia feito relembrar suas razes para tomar essa deciso, 
visto que era sua inteno juntar-se a ela ao partir. O conflito entre seus afetos promovera o momento da chegada da carta  categoria de um trauma, e a sensao 
de cheiro associada a esse trauma persistiu como seu smbolo. Ainda era necessrio explicar por que, de todas as percepes sensoriais proporcionadas pela cena, 
ela havia escolhido aquele odor como smbolo. Eu j estava preparado, contudo, para recorrer  afeco crnica do nariz de minha paciente para ajudar a explicar 
esse ponto. Em resposta a uma pergunta direta, disse-me que, justamente naquela poca, estava mais uma vez com um resfriado nasal to forte que mal podia sentir 
o cheiro do que quer que fosse. Entretanto, quando em seu estado de agitao, percebeu o cheiro do pudim queimado, que transps a barreira da perda organicamente 
determinada de seu sentido de olfato.
         Mas no fiquei satisfeito com a explicao assim alcanada. Tudo parecia muito plausvel, mas havia algo que me escapava, alguma razo adequada por que 
essas agitaes e esse conflito de afetos levaram  histeria, e no a qualquer outra coisa. Por que tudo no havia permanecido no nvel da vida psquica normal? 
Em outras palavras, qual era a justificativa para a converso que havia ocorrido? Por que ela no se recordava sempre da prpria cena, em vez da sensao associada 
que ela isolava como o smbolo da lembrana? Tais questes poderiam parecer curiosas demais e suprfluas, se estivssemos lidando com uma histrica de longa data 
em quem o mecanismo da converso fosse habitual. Mas no fora seno quando do advento desse trauma, ou pelo menos dessa pequena histria de perturbaes, que a moa 
ficara histrica.
         Ora, eu j sabia, pela anlise de casos semelhantes, que antes de a histeria poder ser adquirida pela primeira vez, uma condio essencial precisa ser preenchida: 
uma representao precisa ser intencionalmente recalcada da conscincia e excluda das modificaes associativas. Em minha opinio, esse recalcamento intencional 
constitui tambm a base para a converso total ou parcial da soma de excitao. A soma de excitao, estando isolada da associao psquica, encontra ainda com mais 
facilidade seu caminho pela trilha errada para a inervao somtica. A base do prprio recalcamento s pode ser uma sensao de desprazer, uma incompatibilidade 
entre a representao isolada a ser recalcada e a massa dominante de representaes que constituem o ego. A representao recalcada vinga-se, contudo, tornando-se 
patognica.
         Por conseguinte, do fato de Miss Lucy R. ter sucumbido  converso histrica no momento em questo, inferi que, entre os determinantes do trauma, devia 
ter havido um que ela intencionalmente procurara deixar na obscuridade e se esforara por esquecer. Se sua afeio pelas crianas e sua sensibilidade em relao 
aos outros membros da casa fossem consideradas em conjunto, s se poderia tirar uma concluso. Fui ousado o bastante para informar minha paciente dessa interpretao. 
Disse-lhe: "No consigo conceber que essas sejam todas as razes para seus sentimentos a respeito das crianas. Creio que, na verdade, voc est apaixonada por seu 
patro, o Diretor, embora talvez sem que voc prpria esteja consciente disso, e que nutre a esperana secreta de tomar de verdade o lugar da me delas. E devemos 
tambm recordar a sensibilidade que voc agora tem em relao s criadas, aps ter vivido pacificamente com elas durante anos. Voc teme que elas suspeitem de suas 
esperanas e se divirtam  sua custa.
         Ela respondeu em seu habitual estilo lacnico: "Sim, acho que isso  verdade." - "Mas, se voc sabia que amava seu patro, por que no me disse?" - "No 
sabia... ou melhor, no queria saber. Queria tirar isso de minha cabea e no pensar mais no assunto, e creio que ultimamente tenho conseguido." - "Por que foi que 
voc no estava disposta a admitir essa inclinao? Estava envergonhada de amar um homem?" - "De forma alguma, no sou assim to pudica. De qualquer forma, no somos 
responsveis por nossos sentimentos. Isso me foi aflitivo apenas porque ele  meu patro e estou a seu servio, morando em sua casa. No sinto em relao a ele a 
mesma independncia completa que sentiria em relao a qualquer outro. E depois, sou apenas uma moa pobre, e ele  um homem muito rico e de boa famlia. As pessoas 
iriam rir de mim se tivessem alguma idia disso".
         A essa altura, ela no ops nenhuma resistncia a esclarecer a origem dessa inclinao. Disse-me que nos primeiros anos vivera feliz na casa, cumprindo 
com seus deveres e livre de quaisquer desejos irrealizveis. Um dia, porm, seu patro, um homem srio e sobrecarregado de trabalho, cujo comportamento em relao 
a ela sempre fora reservado, iniciou uma discusso sobre os moldes em que as crianas deveriam ser educadas. Ele foi menos formal e mais cordial do que de costume 
e lhe disse o quanto dependia dela para cuidar de seus filhos rfos; e ao dizer isso, olhou-a de modo significativo... O amor da jovem por ele havia comeado nesse 
momento, e ela se permitira at mesmo apoiar-se nas esperanas gratificantes que havia baseado nessa conversa. Mas quando no houve nenhum outro progresso, e depois 
de esperar em vo por outra hora ntima de troca de opinies, ela decidiu banir tudo aquilo da mente. Miss Lucy concordou inteiramente comigo em que era provvel 
que o olhar por ela notado durante a conversa havia brotado dos pensamentos dele sobre a esposa, e reconheceu de maneira bem clara que no havia nenhuma perspectiva 
de que seus sentimentos por ele fossem de algum modo correspondidos.
         Esperava que essa conversa trouxesse uma modificao fundamental em seu estado, mas por algum tempo isso no se verificou. Ela continuou desanimada e deprimida. 
Sentia-se um pouco revigorada pela manh, graas ao tratamento hidroptico que eu lhe receitara ao mesmo tempo. O cheiro de pudim queimado no desapareceu por completo, 
embora se tornasse menos freqente e mais fraco. S aparecia, disse-me ela, quando ficava extremamente agitada. A persistncia desse smbolo mnmico levou-me a suspeitar 
que, alm da cena principal, ele havia assumido a representao dos numerosos traumas secundrios associados quela cena. Assim, procuramos alguma outra coisa que 
pudesse ter relao com o pudim queimado; penetramos na questo do atrito domstico, do comportamento do av e assim por diante, e  medida que o fazamos o cheiro 
de queimado foi-se dissipando cada vez mais. Tambm durante essa poca o tratamento foi interrompido por um tempo considervel, graas a um novo ataque de seu distrbio 
nasal, que levou ento  descoberta da crie do etmide |ver em [1]|.
         Ao retornar, contou ela que no Natal recebera muitos presentes dos dois cavalheiros da casa e at das empregadas, como se todos estivessem ansiosos por 
fazer as pazes com ela e apagar de sua lembrana os conflitos dos ltimos meses. Mas esses sinais de boas intenes no haviam causado nenhuma impresso nela.
         Quando lhe perguntei mais uma vez sobre o cheiro de pudim queimado, ela me informou que ele havia desaparecido, mas que agora vinha sendo importunada por 
outro cheiro semelhante, parecido com o de fumaa de charuto. Esse cheiro tambm estivera presente antes, mas fora encoberto, por assim dizer, pelo cheiro do pudim. 
Agora aparecera por si mesmo.
         No fiquei muito satisfeito com os resultados do tratamento. O que acontecera fora exatamente o que sempre se consegue com um tratamento sintomtico: eu 
apenas eliminara um sintoma s para que seu lugar fosse ocupado por outro. Entretanto, no hesitei em dedicar-me  tarefa de eliminar esse novo smbolo mnmico atravs 
da anlise.
         Mas dessa vez ela no sabia de onde provinha a sensao olfativa subjetiva - em que ocasio importante ela fora uma sensao objetiva. "Todos os dias as 
pessoas fumam em nossa casa," disse, "e realmente no sei se o cheiro que sinto se refere a alguma ocasio especial". Insisti ento em que ela tentasse recordar 
sob a presso de minha mo. J tive oportunidade de mencionar |ver em [1]| que suas lembranas possuam a qualidade de uma nitidez plstica, que ela era um tipo 
"visual". E de fato, por insistncia minha, um quadro surgiu gradativamente diante dela, a princpio de maneira hesitante e fragmentada. Era a sala de jantar de 
sua casa, onde ela esperava com as crianas que os dois cavalheiros voltassem da fbrica para almoar. "Agora estamos todos sentados  mesa: os cavalheiros, a governanta 
francesa, a empregada, as crianas e eu. Mas isso  o que acontece todos os dias." - "Continue a olhar para o quadro; ele se desenvolver e ficar mais especfico." 
- "Sim, h um convidado.  o contador-chefe.  um senhor e  to afeioado s crianas como se fossem seus prprios netos. Mas ele vem tantas vezes almoar que tambm 
no h nada de especial nisso." - "Tenha pacincia e continue a olhar para o quadro;  certo que acontecer alguma coisa." - "No est acontecendo nada. Estamos 
nos levantando da mesa; as crianas se despedem e sobem conosco, como de costume, para o segundo andar." - "E ento?" - "Ora, afinal de contas  uma ocasio especial. 
Agora reconheo a cena. Quando as crianas se despedem, o contador tenta beij-las. Meu patro se exalta e chega a gritar com ele: 'No beije as crianas!' Sinto 
uma punhalada no corao, e como os cavalheiros j esto fumando, a fumaa dos charutos fica em minha memria."
         Essa, portanto, era uma segunda cena, mais profunda, que  semelhana da primeira funcionou como um trauma e deixou atrs de si um smbolo mnmico. Mas 
a que essa cena devera sua eficcia? - "Qual das duas cenas foi a primeira", perguntei, "essa ou a do pudim queimado?" - "A cena que acabo de lhe contar foi a primeira, 
com uma diferena de quase dois meses." - "Ento por que voc sentiu essa punhalada quando o pai das crianas deteve o velho? A reprimenda dele no visava a voc." 
- "No foi certo da parte dele gritar com um senhor idoso, que era um bom amigo e, ainda por cima, um convidado. Ele poderia ter dito aquilo com delicadeza." - "Ento 
foi s a violncia com que ele se expressou que magoou voc? Voc se sentiu constrangida por ele? Ou talvez tenha pensado: 'Se ele pode ser to violento por uma 
coisa to insignificante com um velho amigo e convidado, quanto mais seria comigo se eu fosse mulher dele.'" - "No, no  isso." - "Mas teve algo a ver com a violncia 
dele, no foi?" - "Teve, em relao ao fato de as crianas serem beijadas. Ele jamais gostou disso."
         E nesse momento, sob a presso de minha mo, emergiu a lembrana de uma terceira cena, ainda mais antiga, que fora o trauma realmente atuante e que dera 
 cena com o contador-chefe sua eficcia traumtica. Ainda acontecera, alguns meses antes, que uma senhora conhecida do patro fora visit-los e, ao sair, beijara 
as duas crianas na boca. O pai delas, que se achava presente, conseguira refrear-se para no dizer nada  senhora, mas depois que ela havia partido, sua fria explodira 
sobre a cabea da infeliz governanta. Disse que a responsabilizaria se algum beijasse as crianas na boca, que era seu dever no permitir tal coisa e que ela estaria 
incidindo numa falta para com seu dever se o permitisse; se aquilo acontecesse de novo, ele confiaria a educao das crianas a outras mos. Isso havia acontecido 
numa ocasio em que Miss Lucy ainda supunha que ele a amava, e estava na expectativa de uma repetio de sua primeira conversa amistosa. A cena esmagara suas esperanas. 
Ela dissera consigo mesma: "Se ele pode enfurecer-se comigo dessa maneira e fazer tais ameaas por um assunto to banal, e em relao ao qual, alm disso, no tenho 
a mnima responsabilidade, devo ter cometido um erro. Ele no pode jamais ter tido quaisquer sentimentos ternos por mim, seno eles o teriam ensinado a tratar-me 
com maior considerao." Foi obviamente a lembrana dessa cena aflitiva que lhe veio quando o contador-chefe tentou beijar as crianas e foi repreendido pelo pai 
destas ltimas.
         Depois dessa ltima anlise, quando, dois dias depois, Miss Lucy tornou a me visitar, no pude deixar de lhe perguntar o que lhe acontecera para deix-la 
to feliz. Parecia transfigurada. Estava sorridente e de cabea erguida. Pensei por um momento que, afinal de contas, eu estava errado sobre a situao e a governanta 
das crianas tinha ficado noiva do Diretor. Mas ela desfez essa minha idia. "No aconteceu nada. Ocorre apenas que o senhor no me conhece. O senhor s me viu doente 
e deprimida. Em geral, sou sempre alegre. Quando acordei ontem pela manh, no sentia mais aquele peso na cabea, e desde ento tenho-me sentido bem." - "E o que 
acha de suas perspectivas na casa?" - "Tenho uma idia bem clara sobre o assunto. Sei que no tenho nenhuma possibilidade e no vou ficar infeliz por isso." - "E 
ser que agora vai se dar bem com os empregados?" - "Acho que minha prpria sensibilidade exagerada foi a responsvel pela maior parte do que aconteceu." - "E voc 
ainda est apaixonada por seu patro?" - "Sim,  claro que estou, mas isso no faz nenhuma diferena. Afinal, posso guardar comigo meus prprios pensamentos e sentimentos."
         Examinei-lhe ento o nariz e verifiquei que sua sensibilidade  dor e sua excitabilidade reflexa tinham sido quase inteiramente restauradas. Ela tambm 
conseguia distinguir os odores, embora com insegurana e apenas se fossem fortes. Cabe-me deixar em aberto, contudo, a questo de saber at que ponto seu distrbio 
nasal ter desempenhado um papel na reduo de seu sentido do olfato.
         Esse tratamento durou ao todo nove semanas. Quatro meses depois encontrei-me por acaso com a paciente numa de nossas estaes de veraneio. Estava animada 
e assegurou-me que sua recuperao fora duradoura.
         
         
         DISCUSSO
         
         No estou inclinado a subestimar a importncia do caso que acabo de descrever, muito embora a paciente s estivesse sofrendo de uma histeria leve e benigna 
e houvesse apenas poucos sintomas em jogo. Pelo contrrio, parece-me um fato instrutivo que mesmo uma doena como essa, to improdutiva quando encarada como uma 
neurose, exigisse tantos determinantes psquicos. Na realidade, quando considero esse caso clnico mais detidamente, fico tentado a v-lo como um modelo exemplar 
de um tipo particular de histeria, ou seja, a forma dessa molstia que pode ser contrada mesmo por uma pessoa de boa hereditariedade, como resultado de experincias 
apropriadas. Deve-se compreender que no me refiro, com isso, a uma histeria independente de qualquer predisposio j existente.  provvel que tal histeria no 
exista. Mas s reconhecemos uma predisposio dessa natureza numa pessoa depois que ela se torna de fato histrica, pois antes disso no h provas da sua existncia. 
A predisposio neuroptica, tal como genericamente compreendida,  diferente. J est marcada, antes da instalao da doena, pelo quantum da contaminao hereditria 
do sujeito ou pela soma de suas anormalidades psquicas individuais. At onde vo minhas informaes, no havia em Miss Lucy R. nenhum trao de qualquer desses fatores. 
Sua histeria, portanto, pode ser descrita como adquirida, e no pressups nada alm da posse do que , provavelmente, uma tendncia muito difundida - a tendncia 
para adquirir a histeria. Ainda no temos quase nenhuma idia de quais possam ser as caractersticas dessa tendncia. Nos casos dessa espcie, contudo, a nfase 
principal recai na natureza do trauma, embora,  claro, considerada em conjunto com a reao do sujeito ao mesmo. Para a aquisio da histeria, vem a ser um sine 
qua non o desenvolvimento de uma incompatibilidade entre o ego e alguma idia a ele apresentada. Espero ter a possibilidade de indicar, em outro texto, como diferentes 
perturbaes neurticas emergem dos diversos mtodos adotados pelo "ego" para escapar a essa incompatibilidade. O mtodo histrico de defesa - para o qual, como 
vimos,  necessria a posse de uma tendncia especfica - reside na converso da excitao em uma inervao somtica; e a vantagem disso  que a idia incompatvel 
 forada para fora do ego consciente. Em troca, essa conscincia guarda ento a reminiscncia fsica surgida por meio da converso (em nosso caso, as sensaes 
subjetivas de olfato da paciente) e sofre por causa do afeto que se acha de forma mais ou menos clara ligado precisamente quela reminiscncia. A situao assim 
provocada passa ento a no ser suscetvel de modificao, pois a incompatibilidade que teria exigido uma eliminao do afeto no existe mais, graas ao recalque 
e  converso. Assim, o mecanismo que produz a histeria representa, por um lado, um ato de covardia moral e, por outro, uma medida defensiva que se acha  disposio 
do ego. Com bastante freqncia temos de admitir que rechaar as excitaes crescentes provocando a histeria , nessas circunstncias, a coisa mais conveniente a 
fazer; com maior freqncia, naturalmente, temos que concluir que uma dose maior de coragem moral teria sido vantajosa para a pessoa em causa.
         O momento traumtico real, portanto,  aquele em que a incompatibilidade se impe sobre o ego e em que este ltimo decide repudiar a idia incompatvel. 
Essa idia no  aniquilada por tal repdio, mas apenas recalcada para o inconsciente. Quando esse processo ocorre pela primeira vez, passa a existir um ncleo e 
centro de cristalizao para a formao de um grupo psquico divorciado do ego - um grupo em torno do qual tudo o que implicaria uma aceitao da idia incompatvel 
passa ento a se reunir. A diviso da conscincia nesses casos de histeria adquirida , portanto, deliberada e intencional. Pelo menos,  muitas vezes introduzida 
por um ato de volio, pois o resultado real  um pouco diferente do que o indivduo pretendia. O que ele desejava era eliminar uma idia, como se jamais tivesse 
surgido, mas tudo o que consegue fazer  isol-la psiquicamente.
         Na histria de nossa atual paciente, o momento traumtico foi o da exploso do patro contra ela porque as crianas foram beijadas pela senhora. Por algum 
tempo, contudo, essa cena no teve nenhum efeito manifesto. (Pode ser que a hipersensibilidade e o desnimo da paciente tenham comeando a partir dela, mas no posso 
afirm-lo.) Seus sintomas histricos s comearam depois, em momentos que podem ser descritos como "auxiliares". O trao caracterstico do momento auxiliar , creio 
eu, que os dois grupos psquicos divididos convergem temporariamente para ele, como fazem na conscincia ampliada que ocorre no sonambulismo. No caso de Miss Lucy 
R., o primeiro dos momentos auxiliares, no qual ocorreu a converso, foi a cena  mesa, quando o contador-chefe tentou beijar as crianas. Aqui a lembrana traumtica 
estava desempenhando um papel: a paciente no se comportou como se se tivesse livrado de tudo o que se relacionava com sua dedicao ao patro. (Na histria de outros 
casos, esses diferentes momentos coincidem; a converso ocorre como efeito imediato do trauma.)
         O segundo momento auxiliar repetiu o mecanismo do primeiro de forma quase exata. Uma impresso poderosa reagrupou temporariamente a conscincia da paciente, 
e a converso mais uma vez seguiu a trilha que se abrira na primeira ocasio.  interessante notar que o segundo sintoma a se desenvolver camuflou o primeiro, de 
modo que este s foi percebido com clareza quando o segundo foi retirado do caminho. Tambm me parece que vale a pena fazer uma observao sobre o curso inverso 
que teve de ser seguido tambm pela anlise. Tive a mesma experincia num grande nmero de casos; os sintomas surgidos posteriormente camuflaram os primeiros, e 
a chave de toda a situao estava apenas no ltimo sintoma a ser alcanado pela anlise.
         O processo teraputico, neste caso, consistiu em compelir o grupo psquico que fora dividido a se reunir mais uma vez com a conscincia do ego. Estranhamente, 
o xito no acompanhou pari passu o volume de trabalho realizado. Foi s quando a ltima tarefa foi concluda que de repente ocorreu a recuperao.
         
         CASO 4 - KATHARINA - (FREUD)
         
         Nas frias de vero do ano de 189.. fiz uma excurso ao Hohe Tauern para que por algum tempo pudesse esquecer a medicina e, mais particularmente, as neuroses. 
Quase havia conseguido isso quando, um belo dia, desviei-me da estrada principal para subir uma montanha que ficava um pouco afastada e que era renomada por suas 
vistas e sua cabana de hospedagem bem administrada. Alcancei o cimo aps uma subida estafante e, sentindo-me revigorado e descansado, sentei-me, mergulhando em profunda 
contemplao do encanto do panorama distante. Estava to perdido em meus pensamentos que, a princpio, no relacionei comigo estas palavras, quando alcanaram meus 
ouvidos: "O senhor  mdico?" Mas a pergunta fora endereada a mim, e pela moa de expresso meio amuada, de talvez dezoito anos de idade, que me servira a refeio 
e  qual a proprietria se dirigira pelo nome de "Katharina". A julgar por seus trajes e seu porte, no podia ser uma empregada, mas era sem dvida filha ou parenta 
da hospedeira.
         Voltando a mim, respondi:
         -Sim, sou mdico, mas como voc soube disso?
         -O senhor escreveu seu nome no livro de visitantes. E pensei que, se o senhor pudesse dispor de alguns momentos... A verdade, senhor,  que meus nervos 
esto ruins. Fui ver um mdico em L- por causa deles, e ele me receitou alguma coisa, mas ainda no estou boa.
         Assim, l estava eu novamente s voltas com as neuroses - pois nada mais poderia haver de errado com aquela moa de constituio forte e slida e de aparncia 
tristonha. Fiquei interessado ao constatar que as neuroses podiam florescer assim, a uma altitude superior a 2.000 metros; portanto, fiz-lhe outras perguntas. Relato 
a conversa que se seguiu entre ns tal como ficou gravada em minha memria, e no alterei o dialeto da paciente.
         -Bem, e de que  que voc sofre?
         -Sinto muita falta de ar. Nem sempre. Mas s vezes ela me apanha de tal forma que acho que vou ficar sufocada.
         Isso no pareceu,  primeira vista, um sintoma nervoso. Mas logo me ocorreu que provavelmente era apenas uma descrio representando uma crise de angstia: 
ela estava destacando a falta de ar do complexo de sensaes que decorrem da angstia e atribuindo uma importncia indevida a esse fator isolado.
         -Sente-se aqui. Como so as coisas quando voc fica "sem ar"?
         -Acontece de repente. Antes de tudo, parece que h alguma coisa pressionando meus olhos. Minha cabea fica muito pesada, h um zumbido horrvel e fico to 
tonta que quase chego a cair. Ento alguma coisa me esmaga o peito a tal ponto que quase no consigo respirar.
         -E no nota nada na garganta?
         -Minha garganta fica apertada, como se eu fosse sufocar.
         -Acontece mais alguma coisa na cabea?
         -Sim, umas marteladas, o bastante para faz-la explodir.
         -E no se sente nem um pouco assustada quando isso acontece?
         -Sempre acho que vou morrer. Em geral, sou corajosa e ando sozinha por toda parte, desde o poro at a montanha inteira. Mas no dia em que isso acontece 
no ouso ir a parte alguma; fico o tempo todo achando que h algum atrs de mim que vai me agarrar de repente.
         Portanto, era de fato uma crise de angstia, e introduzida pelos sinais de uma "aura" histrica - ou, mais corretamente, era um ataque histrico cujo contedo 
era a angstia. Mas no seria provvel que houvesse tambm outro contedo?
         -Quando voc tem uma dessas crises, pensa em alguma coisa? E sempre a mesma coisa? Ou v alguma coisa diante de voc?
         -Sim. Sempre vejo um rosto medonho que me olha de uma maneira terrvel, de modo que fico assustada.
         Talvez isso pudesse oferecer um meio rpido de chegarmos ao cerne da questo.
         -Voc reconhece o rosto? Quero dizer,  um rosto que realmente j viu alguma vez?
         -No.
         -Sabe de onde vm as suas crises?
         -No.
         -Quando as teve pela primeira vez?
         -H dois anos, quando ainda morava na outra montanha com minha tia. (Ela dirigia uma cabana de hospedagem e ns nos mudamos para c h dezoito meses.) Mas 
elas continuam a acontecer.
         Deveria eu fazer uma tentativa de anlise? No podia aventurar-me a transplantar a hipnose para essas altitudes, mas talvez tivesse sucesso com uma simples 
conversa. Teria que arriscar um bom palpite. Eu havia constatado com bastante freqncia que, nas moas, a angstia era conseqncia do horror de que as mentes virginais 
so tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade.
         Ento disse-lhe:
         -Se voc no sabe, vou dizer-lhe como eu penso que voc passou a ter seus ataques. Nessa ocasio, h dois anos, voc deve ter visto ou ouvido algo que muito 
a constrangeu e que teria preferido muitssimo no ver.
         -Cus,  isso mesmo! - respondeu. - Foi quando surpreendi meu tio com a moa, com Franziska, minha prima.
         -Que histria  essa sobre uma moa? No vai me contar?
         -Suponho que se pode contar tudo a um mdico. Bem, naquela poca, o senhor sabe, meu tio, o marido de minha tia que o senhor viu aqui, tinha a estalagem 
na - kogel. Agora eles esto divorciados, e a culpa  minha, pois foi atravs de mim que se veio a saber que ele estava andando com Franziska.
         -E como voc descobriu isso?
         -Foi assim. Um dia, h dois anos, uns cavalheiros tinham subido a montanha e pediram alguma coisa para comer. Minha tia no estava em casa, e Franziska, 
que era quem sempre cozinhava, no foi encontrada em parte alguma. E meu tio tambm no foi encontrado. Procuramos por toda parte, e finamente Alois, o garotinho 
que era meu primo, disse: "Ora, Franziska deve estar no quarto de papai!" E ambos rimos, mas no estvamos pensando em nada de mau. Fomos ento ao quarto do meu 
tio, mas o encontramos trancado. Isso me pareceu estranho. Ento Alois disse: "H uma janela no corredor de onde se pode olhar para dentro do quarto." Dirigimo-nos 
para o corredor, mas Alois recusou-se a ir at a janela e disse que estava com medo. Ento, eu falei: "Seu menino bobo! Eu vou. No tenho o menor medo." E no tinha 
nada de mau na mente. Olhei para dentro. O quarto estava um pouco escuro, mas vi meu tio e Franziska; ele estava deitado em cima dela.
         -E ento?
         -Afastei-me da janela imediatamente, apoiei-me na parede e fiquei sem ar, justamente o que me acontece desde ento. Tudo ficou opaco, minhas plpebras se 
fecharam  fora e havia marteladas e um zumbido em minha cabea.
         -Voc contou isso a sua tia no mesmo dia?
         -Oh, no, no disse nada.
         -Ento por que ficou to assustada quando os viu juntos? Voc entendeu? Sabia o que estava acontecendo?
         -Oh, no. No compreendi nada naquela ocasio. Tinha apenas dezesseis anos. No sei por que me assustei.
         -Srta. Katharina, se pudesse lembrar-se agora do que lhe aconteceu naquela ocasio em que teve sua primeira crise, no que pensou sobre o fato ... isso a 
ajudaria.
         -Sim, se pudesse. Mas fiquei to assustada que me esqueci de tudo.
         (Traduzido na terminologia de nossa "Comunicao Preliminar" |ver em [1]|, isso significa: "O prprio afeto criou um estado hipnide cujos produtos foram 
ento isolados da ligao associativa com a conscincia do ego".)
         -Diga-me, senhorita, ser que a cabea que voc sempre v quando fica sem ar  a de Franziska, tal como a viu naquele momento?
         -No, no, ela no era to horrvel. Alm disso,  uma cabea de homem.
         -Ou talvez a de seu tio?
         -No vi o rosto dele assim com tanta clareza. Estava escuro demais no quarto. E por que estaria fazendo uma cara to medonha exatamente naquela hora?
         -Voc tem toda razo.
         (O caminho de repente pareceu bloqueado. Talvez algo pudesse surgir no restante de sua histria.)
         -E o que aconteceu depois?
         -Bem, os dois devem ter ouvido algum rudo, porque saram logo em seguida. Senti-me muito mal o tempo todo. Ficava sempre pensando naquilo. Ento, dois 
dias depois, era domingo, havia muito o que fazer, e trabalhei o dia inteiro. E na manh de segunda-feira tornei a me sentir tonta e ca doente, fiquei acamada por 
trs dias seguidos.
         Ns |Breuer e eu| muitas vezes havamos comparado a sintomatologia da histeria com uma escrita pictogrfica que se torna inteligvel aps a descoberta de 
algumas inscries bilnges. Nesse alfabeto, estar doente significa repulsa. Ento eu disse:
         -Se voc ficou doente trs dias depois, creio que isso significa que quando olhou para dentro do quarto sentiu repulsa.
         -Sim, tenho certeza de que senti repulsa - disse ela, pensativa -, mas repulsa de qu?
         -No ter visto algum nu, talvez? Como estavam eles?
         -Estava muito escuro para ver qualquer coisa; alm disso, ambos estavam vestidos. Oh, se pelo menos soubesse do que foi que senti nojo!
         Eu tambm no tinha nenhuma idia. Mas disse-lhe que continuasse e que me contasse qualquer coisa que lhe ocorresse, na confiante expectativa de que ela 
viesse a pensar exatamente no que eu precisava para explicar o caso.
         Bem, ela passou a descrever como afinal havia contado sua descoberta  tia, que a achou mudada e suspeitou que estivesse escondendo algum segredo. Seguiram-se 
algumas cenas muito desagradveis entre o tio e a tia, no decorrer das quais as crianas vieram a ouvir muitas coisas que lhes abriram os olhos de vrias maneiras 
e que teria sido melhor que no tivessem ouvido. Finalmente, a tia resolveu mudar-se com os filhos e a sobrinha e ficar com a atual estalagem, deixando o tio sozinho 
com Franziska, que entrementes ficara grvida. Depois disso, contudo, para minha surpresa, Katharina abandonou o fio da meada e comeou a me contar dois grupos de 
histrias mais antigas, que retrocediam a dois ou trs anos antes do momento traumtico. O primeiro grupo relacionava-se com ocasies em que o mesmo tio fizera investidas 
sexuais contra ela prpria, quando estava com apenas quatorze anos. Ela descreveu como, certa feita, fora com ele numa viagem at o vale, no inverno, e ali passara 
a noite na estalagem. Ele ficou no bar bebendo e jogando cartas, mas ela sentiu sono e foi cedo para a cama, no quarto que iam partilhar no andar de cima. No estava 
ainda inteiramente adormecida quando ele subiu; depois, tornou a adormecer e acordou de repente, "sentindo o corpo dele" na cama. Deu um salto e admoestou-o: "O 
que  que o senhor est pretendendo, tio? Por que no fica na sua prpria cama?" Ele tentou apazigu-la: "Ora, sua bobinha, fique quieta. Voc no sabe como  bom." 
- "No gosto de suas coisas 'boas'; o senhor nem ao menos deixa a gente dormir em paz." Ela ficou de p na porta, pronta a se refugiar no corredor do lado de fora, 
at que finalmente ele desistiu e foi dormir. Ento ela voltou para sua prpria cama e dormiu at de manh. Pela maneira como relatou ter-se defendido, parece que 
ela no reconheceu nitidamente a investida como sendo de ordem sexual. Quando lhe perguntei se sabia o que ele estava tentando fazer com ela, respondeu: "No naquela 
ocasio." Disse ento que isso lhe ficara claro muito depois: resistira porque era desagradvel ser perturbada durante o sono e "porque no era bom".
         Fui obrigado a relatar isso minuciosamente por causa de sua grande importncia para a compreenso de tudo o que se seguiu. Ela passou a relatar-me ainda 
outras experincias um pouco posteriores: como mais uma vez teve de defender-se dele numa estalagem, quando ele estava inteiramente bbado, e histrias semelhantes. 
Em resposta a uma pergunta para saber se, nessas ocasies, sentira algo semelhante a sua posterior falta de ar, ela respondeu com firmeza que em todas as ocasies 
sentira a presso nos olhos e no peito, mas nada semelhante  fora que havia caracterizado a cena da descoberta.
         Logo aps ter terminado esse conjunto de lembranas, ela comeou a me contar um segundo conjunto, que se relacionava com ocasies em que notara algo entre 
o tio e Franziska. Uma vez, toda a famlia passara a noite, com a roupa que trazia no corpo, num palheiro, e ela fora subitamente despertada por um rudo; pensou 
ter reparado que o tio, que estivera deitado entre ela e Franziska, se afastava, e que Franziska estava acabando de se deitar. De outra feita, passavam a noite numa 
estalagem na aldeia de N-; ela e o tio estavam num quarto, e Franziska, num outro contguo. Ela acordou de repente durante a noite e viu uma figura alta e branca 
na porta, prestes a girar a maaneta: - "Deus do cu,  o senhor, tio? O que est fazendo na porta?" - "Fique quieta. Estava s procurando uma coisa." - "Mas a sada 
 pela outra porta." - ", foi um engano meu" ... e assim por diante.
         Perguntei-lhe se ficara desconfiada nessa ocasio. "No, no dei nenhuma importncia quilo; apenas notei e no pensei mais no assunto."
         Quando lhe perguntei se tinha ficado assustada tambm nessas ocasies, respondeu que achava que sim, mas no estava to certa disso.
         Ao fim desses dois conjuntos de lembranas, ela parou. Parecia algum que tivesse passado por uma transformao. O rosto amuado e infeliz ficara animado, 
os olhos brilhavam, sentia-se leve e exultante. Entrementes, a compreenso de seu caso tornara-se clara para mim. A ltima parte do que me contara, numa forma aparentemente 
sem sentido, proporcionou uma admirvel explicao de seu comportamento na cena da descoberta. Naquela ocasio, ela carregava consigo dois conjuntos de experincias 
de que se recordava mas que no compreendia, e das quais no havia extrado nenhuma inferncia. Quando vislumbrou o casal no ato sexual, estabeleceu de imediato 
uma ligao entre a nova impresso e aqueles dois conjuntos de lembranas, comeou a compreend-los e, ao mesmo tempo, a recha-los. Seguiu-se ento um curto perodo 
de elaborao, de "incubao", aps o qual os sintomas de converso se instalaram, com os vmitos funcionando como um substituto para a repulsa moral e fsica. Isto 
solucionou o enigma. Ela no sentira repulsa pela viso das duas pessoas, mas pela lembrana que aquela viso despertara. E, levando tudo em conta, esta s poderia 
ser a lembrana da investida contra ela na noite em que "sentira o corpo do tio".
         Assim, quando ela terminou sua confisso, eu lhe disse:
         -Sei agora o que foi que voc pensou ao olhar para dentro do quarto: "Agora ele est fazendo com ela o que queria fazer comigo naquela noite e nas outras 
vezes." Foi disso que voc sentiu repulsa, porque lembrou-se da sensao de quando despertou durante a noite e sentiu o corpo dele.
         - bem possvel - respondeu - que tenha sido isso o que me causou repulsa e que tenha sido nisso que pensei.
         -Diga-me s mais uma coisa. Voc agora  uma moa crescida e sabe toda espcie de coisas...
         -Sim, agora eu sou.
         -Diga-me apenas uma coisa. Qual foi a parte do corpo dele que voc sentiu naquela noite?
         Mas ela no me deu mais nenhuma resposta definida. Sorriu de maneira constrangida, como se tivesse sido apanhada, como algum que  obrigado a admitir que 
se atingiu uma posio fundamental na qual no resta mais muita coisa a dizer. Pude imaginar qual fora a sensao ttil que ela depois aprendera a interpretar. Sua 
expresso facial parecia dizer que ela achava que eu tinha razo em minha conjetura. Mas no pude ir mais alm e, de qualquer modo, fiquei-lhe grato por me haver 
tornado muito mais fcil conversar com ela do que com as senhoras pudicas da minha clnica na cidade, que consideram vergonhoso tudo o que  natural.
         Assim, o caso ficou esclarecido. Mas esperemos um momento! O que dizer da alucinao peridica da cabea que surgia durante suas crises e lhe infundia terror? 
De onde provinha? Perguntei-lhe ento sobre isso e, como se seu conhecimento tambm tivesse sido ampliado por nossa conversa, ela respondeu prontamente:
         -Sim, agora eu sei. A cabea  a do meu tio, agora a reconheo, mas no daquela poca. Mais tarde quando todas as brigas tinham irrompido, meu tio deu vazo 
a uma clera absurda contra mim. Vivia dizendo que era tudo culpa minha: se eu no tivesse dado com a lngua nos dentes, aquilo nunca teria redundado em divrcio. 
Ele vivia ameaando fazer alguma coisa contra mim; e quando me avistava a distncia, seu rosto se transfigurava de dio e ele partia para cima de mim com a mo levantada. 
Eu sempre fugia dele e sempre ficava apavorada com a idia de que um dia ele me pegasse desprevenida. O rosto que sempre vejo agora  o dele, quando ficava furioso.
         Esses dados me fizeram recordar que seu primeiro sintoma histrico - o vmito - havia passado, a crise de angstia permanecera e adquirira um novo contedo. 
Por conseguinte, estvamos lidando com uma histeria que fora ab-reagida num grau considervel. E, de fato, ela havia informado a tia de sua descoberta pouco depois 
do acontecimento.
         -Voc contou a sua tia as outras histrias... sobre as investidas que ele fez contra voc?
         -Contei. No imediatamente, mas depois, quando j se falava em divrcio. Minha tia disse: "Vamos guardar isso de reserva. Se ele criar caso no tribunal, 
contaremos isso tambm."
         Posso compreender muito bem que tenha sido precisamente este ltimo perodo - quando ocorreram cenas cada vez mais agitadas na casa e quando o estado da 
prpria paciente deixou de interessar a tia, que estava inteiramente absorta na disputa - que tenha sido esse perodo de acmulo e reteno que lhe tenha deixado 
o legado do smbolo mnmico |do rosto alucinado|.
         Espero que essa moa, cuja sensibilidade sexual fora afetada numa idade to precoce, tenha tirado algum benefcio de nossa conversa. Desde ento no voltei 
a v-la.
         
         
         DISCUSSO
         
         Se algum afirmasse que o presente relato no  tanto um caso analisado de histeria, e sim um caso solucionado por conjeturas, eu nada teria a dizer contra 
ele.  certo que a paciente concordou que aquilo que introduzi em sua histria provavelmente era verdade, mas ela no estava em condies de reconhec-lo como algo 
que houvesse experimentado. Creio que teria sido necessria a hipnose para conseguir isso. Admitindo que minhas conjeturas tenham sido certas, tentarei agora inserir 
o caso no quadro esquemtico de uma histeria "adquirida", nos moldes sugeridos pelo Caso 3. Parece plausvel, portanto, comparar os dois conjuntos de experincias 
erticas com momentos "traumticos", e a cena da descoberta do casal, com um momento "auxiliar". | ver em [1] e seg.| A semelhana est no fato de que, nas experincias 
anteriores, criou-se um elemento da conscincia que foi excludo da atividade de pensamento do ego e permaneceu, por assim dizer, armazenado, ao passo que, na ltima 
cena, uma nova impresso ocasionou forosamente uma ligao associativa entre esse grupo separado e o ego. Por outro lado, existem diferenas que no podem ser desprezadas. 
A causa do isolamento no foi, como no Caso 3, um ato de vontade do ego, mas ignorncia por parte deste, que ainda no era capaz de lidar com experincias sexuais. 
Nesse sentido, o caso de Katharina  tpico. Em toda anlise de casos de histeria baseados em traumas sexuais, verificamos que as impresses do perodo pr-sexual 
que no produziram nenhum efeito na criana atingem um poder traumtico, numa data posterior, como lembranas, quando a moa ou a mulher casada adquire uma compreenso 
da vida sexual. Pode-se dizer que a diviso dos conjuntos psquicos  um processo normal no desenvolvimento do adolescente, sendo fcil ver que sua recepo posterior 
pelo ego proporciona oportunidades freqentes para perturbaes psquicas. Alm disso, gostaria, neste ponto, de externar a dvida de se uma diviso da conscincia 
devida  ignorncia  realmente diferente de uma que se deva  rejeio consciente, e se mesmo os adolescentes no possuem conhecimento sexual com muito mais freqncia 
do que se supe ou do que eles mesmos acreditam.
         Outra distino no mecanismo psquico deste caso reside no fato de que a cena da descoberta, que classificamos de "auxiliar" merece igualmente ser denominada 
de "traumtica". Ela atuou por seu prprio contedo, e no simplesmente como alguma coisa que revivesse experincias traumticas anteriores. Combinou as caractersticas 
de um momento "auxiliar" e de um momento "traumtico". No parece haver nenhum motivo, contudo, para que essa coincidncia nos leve a abandonar uma separao conceitual 
que em outros casos corresponde tambm a uma separao no tempo. Outra peculiaridade do caso de Katharina, que, alis, h muito j nos  familiar, pode ser observada 
na circunstncia de que a converso, a produo dos fenmenos histricos, no ocorreu imediatamente aps o trauma, e sim depois de um intervalo de incubao. Charcot 
gostava de classificar esse intervalo de "perodo de elaborao |laboration| psquica".
         
         A angstia de que Katharina sofria em suas crises era histrica, isto , era uma reproduo da angstia que surgira em conexo com cada um dos traumas sexuais. 
No comentarei aqui o fato que tenho encontrado regularmente num nmero muito grande de casos - a saber, que a mera suspeita de relaes sexuais desperta o afeto 
de angstia nas pessoas virgens. | ver em [1].|
         
         CASO 5 - SRTA. ELISABETH VON R. (FREUD)
         
         No outono de 1892, um mdico meu conhecido pediu-me que examinasse uma jovem que vinha sofrendo h mais de dois anos de dores nas pernas e que tinha dificuldades 
em andar. Ao fazer esse pedido, acrescentou que julgava tratar-se de um caso de histeria, embora no houvesse nenhum vestgio das indicaes habituais dessa neurose. 
Disse-me conhecer ligeiramente a famlia, e que, nos ltimos anos, ela tivera muitos infortnios e pouca felicidade. Primeiro, o pai da paciente morrera, em seguida 
a me tivera de submeter-se a uma sria operao da vista e logo depois uma irm casada sucumbira a uma afeco cardaca de longa durao aps o puerprio. De todas 
essas dificuldades e todos os cuidados dispensados aos enfermos, a maior parcela recara sobre nossa paciente.
         Minha primeira entrevista com essa jovem de vinte e quatro anos de idade no me ajudou a realizar grandes progressos na compreenso do caso. Ela parecia 
inteligente e mentalmente normal, e suportava seus problemas, que interferiam em sua vida social e seus prazeres, com ar alegre - a belle indiffrence dos histricos, 
como no pude deixar de pensar. Andava com a parte superior do corpo inclinada para a frente, mas sem fazer uso de qualquer apoio. Sua marcha no era de nenhum tipo 
patolgico reconhecido e, alm disso, de modo algum era notavelmente mau. Tudo o que se observava era que ela se queixava de grande dor ao andar e de se cansar rapidamente 
ao andar e ao ficar de p, e que depois de curto intervalo tinha de descansar, o que diminua as dores mas no as eliminava inteiramente. A dor era de carter indefinido; 
depreendi que era algo da natureza de uma fadiga dolorosa. Uma rea bastante grande e mal definida da superfcie anterior da coxa direita era indicada como o foco 
das dores, a partir da qual elas se irradiavam com mais freqncia e onde atingiam sua maior intensidade. Nessa regio, a pele e os msculos eram tambm particularmente 
sensveis  presso e aos belisces (embora uma picada de agulha provocasse, quando muito, certa dose de indiferena). A hiperalgia da pele e dos msculos no se 
restringia a essa regio, mas podia ser observada mais ou menos em toda a extenso das duas pernas. Os msculos eram talvez ainda mais sensveis  dor do que a pele;mas 
no havia dvida de que as coxas eram as partes mais sensveis a essas duas espcies de dor. A fora motora das pernas no podia ser qualificada de pequena e os 
reflexos eram de intensidade mdia. No havia outros sintomas, de modo que no existia fundamento para se suspeitar da presena de qualquer afeco orgnica grave. 
O distrbio se desenvolvera gradativamente durante os dois anos anteriores e variava bastante em intensidade.
         No achei fcil chegar a um diagnstico, mas resolvi por duas razes concordar com o que fora proposto por meu colega, isto , que se tratava de um caso 
de histeria. Em primeiro lugar, fiquei impressionado com a indefinio de todas as descries do carter das dores fornecidas pela paciente, que era, no obstante, 
uma pessoa muito inteligente. Um paciente que sofra de dores orgnicas, a menos que alm disso seja neurtico, as descrever de forma definida e calma. Dir, por 
exemplo, que so dores lancinantes, que ocorrem a certos intervalos, que se estendem deste lugar para aquele e que lhe parecem ser provocadas por uma coisa ou outra. 
Por outro lado, quando um neurastnico descreve suas dores, d a impresso de estar empenhado numa difcil tarefa intelectual que ultrapassa em muito suas foras. 
Suas feies se contraem e se deformam como se ele estivesse sob a influncia de um afeto angustiante. A voz torna-se mais aguda e ele luta por encontrar um meio 
de expresso. Rejeita qualquer descrio de suas dores proposta pelo mdico, mesmo que ela depois se revele inquestionavelmente adequada. Percebe-se que ele  da 
opinio de que a linguagem  pobre demais para que ele encontre palavras para descrever suas sensaes e de que essas sensaes so algo nico e at ento desconhecido 
do qual seria inteiramente impossvel dar uma descrio completa. Por esse motivo, ele jamais se cansa de acrescentar novos detalhes sem cessar e, quando  obrigado 
a parar, com certeza fica com a convico de que no conseguiu se fazer entender pelo mdico. Tudo isso porque as dores atraram toda a ateno dele para elas. A 
Srta. von R. comportava-se de forma inteiramente oposta, e somos levados a concluir que, j que ela ainda assim atribua importncia suficiente a seus sintomas, 
sua ateno devia estar em outra coisa, da qual as dores eram apenas um fenmeno acessrio - provavelmente, portanto, em pensamentos e sentimentos que estavam vinculados 
a elas.
         Mas existe um segundo fator que  ainda mais decisivamente favorvel a essa opinio sobre as dores. Quando estimulamos uma regio sensvel  dor em algum 
com uma doena orgnica ou num neurastnico, o rosto do paciente assume uma expresso de mal-estar ou de dor fsica. Alm disso, ele se esquiva, retrai-se e resiste 
ao exame. No caso da Srta. von R., contudo, quando se pressionava ou beliscava a pele e os msculos hiperalgsicos de suas pernas, seu rosto assumia uma expresso 
peculiar, que era antes de prazer do que de dor. Ela gritava mais e eu no podia deixar de pensar que era como se ela estivesse tendo uma voluptuosa sensao de 
ccega - o rosto enrubescia, ela jogava a cabea para trs e fechava os olhos, e seu corpo se dobrava para trs. Nenhum desses movimentos era muito exagerado, mas 
era distintamente observvel, e isso s podia ser conciliado com o ponto de vista de que seu distrbio era histrico e de que o estmulo tocara uma zona histerognica.
         Sua expresso facial no se ajustava  dor evidentemente provocada pela beliscadura dos msculos e da pele; provavelmente se harmonizava mais com o tema 
dos pensamentos que jaziam ocultos por trs da dor e que eram despertados nela pela estimulao das partes do corpo associadas com esses pensamentos. Observei repetidamente 
expresses de significado semelhante em casos incontestveis de histeria, quando se aplicava um estmulo s zonas hiperalgsicas. Os outros gestos da paciente eram, 
 claro, indcios muito leves de um ataque histrico.
         Para comear, no havia explicao para a localizao inusitada de sua zona histerognica. O fato de a hiperalgia afetar principalmente os msculos tambm 
dava o que pensar. O distrbio mais habitualmente responsvel pela sensibilidade difusa e local  presso nos msculos  uma infiltrao reumtica desses msculos 
- o reumatismo muscular crnico comum. J mencionei | ver em. [1]| a tendncia desse distrbio a simular afeces nervosas. Essa possibilidade no entrava em contradio 
com a consistncia dos msculos hiperalgsicos da paciente. Havia numerosas fibras endurecidas na substncia muscular e estas pareciam ser especialmente sensveis. 
Assim, era provvel que uma alterao muscular orgnica da espcie indicada estivesse presente e que a neurose se houvesse ligado a ela, fazendo-a parecer exageradamente 
importante.
         O tratamento prosseguiu na suposio de que o distrbio fosse dessa espcie mista. Recomendamos a continuao da massagem e faradizao sistemtica dos 
msculos sensveis, independentemente da dor resultante, e reservei para mim o tratamento das pernas com correntes eltricas de alta tenso, a fim de poder manter-me 
em contato com a paciente. Sua pergunta quanto a se deveria forar-se a andar foi respondida com um incisivo "sim".
         Dessa maneira, promovemos uma ligeira melhora. Em especial, ela parecia gostar muito dos choques dolorosos produzidos pelo aparelho de alta-tenso, e quanto 
mais fortes estes eram, mais pareciam afastar suas prprias dores para um segundo plano. Entrementes, meu colega preparava o terreno para o tratamento psquico, 
e quando, aps quatro semanas de meu pretenso tratamento, propus a ela o outro mtodo e lhe dei algumas explicaes sobre seu processamento e modo de ao, obtive 
rpida compreenso e pouca resistncia.
         A tarefa em que ento me empenhei veio a ser, entretanto, uma das mais rduas que j empreendi, e a dificuldade de fazer um relato dela  comparvel, alm 
disso, s dificuldades que tive ento de superar. Tambm por muito tempo fui incapaz de apreender a conexo entre os fatos de sua doena e seus sintomas reais, que, 
no obstante, deveriam ter sido causados e determinados por aquele conjunto de experincias.
         Quando se inicia um tratamento catrtico dessa natureza, a primeira pergunta que se faz  se a prpria paciente tem conscincia da origem e da causa precipitante 
de sua doena. Em caso afirmativo, no se faz necessria nenhuma tcnica especial para permitir-lhe reproduzir a histria de sua doena. O interesse que o mdico 
demonstra por ela, a compreenso que lhe permite sentir e as esperanas de recuperao que lhe d, tudo isso faz com que a paciente se decida a revelar seu segredo. 
Desde o incio me pareceu provvel que a Srta. Elisabeth estivesse consciente da causa de sua doena, que o que guardava na conscincia fosse apenas um segredo, 
e no um corpo estranho. Contemplando-a, no se podia deixar de pensar nas palavras do poeta:
         
         Das Maeskchen da weissagt verborgnen Sinn
         
         A princpio, portanto, pude dispensar a hipnose, porm com a ressalva de que poderia fazer uso dela posteriormente, se no curso de sua confisso surgisse 
algum material cuja elucidao no estivesse ao alcance de sua memria. Ocorreu assim que nesta, que foi a primeira anlise integral de uma histeria empreendida 
por mim, cheguei a um processo que mais tarde transformei num mtodo regular e empreguei deliberadamente. Esse processo consistia em remover o material psquico 
patognico camada por camada e gostvamos de compar-lo  tcnica de escavar uma cidade soterrada. Eu comeava por fazer com que a paciente me contasse o que sabia 
e anotava cuidadosamente os pontos em que alguma seqncia de pensamentos permanecia obscura ou em que algum elo da cadeia causal parecia estar faltando. E depois 
penetrava em camadas mais profundas de suas lembranas nesses pontos, realizando uma investigao sob hipnose ou utilizando alguma tcnica semelhante. Todo o trabalho 
baseava-se, naturalmente, na expectativa de que seria possvel identificar um conjunto perfeitamente adequado de determinantes para os fatos em questo. Examinarei 
agora os mtodos utilizados para a investigao profunda.
         A histria que a Srta. Elisabeth me relatou de sua doena foi cansativa, composta de muitas experincias penosas diferentes. Enquanto fazia o relato, ela 
no ficava sob hipnose, mas eu a fazia deitar-se e conservar os olhos fechados, embora no me opusesse a que os abrisse ocasionalmente, mudasse de posio, se sentasse 
e assim por diante. Quando ela ficava mais profundamente emocionada do que de costume com uma parte da histria, parecia cair num estado mais ou menos semelhante 
 hipnose. Ficava ento imvel e mantinha os olhos bem fechados.
         Comearei por repetir o que surgiu como a camada mais superficial de suas lembranas. Sendo a mais jovem de trs filhas, ela era ternamente apegada aos 
pais e passara a juventude na propriedade deles, na Hungria. A sade da me era freqentemente perturbada por uma afeco dos olhos, bem como por estados nervosos. 
Foi assim que ela se viu atrada para um contato muito ntimo com o pai, um homem alegre e experiente conhecedor da vida que costumava dizer que aquela filha ocupava 
o lugar de um filho e de um amigo com quem ele podia trocar idias. Embora a mente da moa encontrasse estmulo intelectual nessa relao com o pai, ele no deixava 
de observar que a constituio mental dela estava, por causa disso, afastando-se do ideal que as pessoas gostam de ver concretizado numa moa. Em tom brincalho, 
ele a chamava de "insolente" e "convencida" e a aconselhava a no ser categrica demais em seus julgamentos, advertindo-a contra o hbito de dizer a verdade s pessoas 
sem medir as conseqncias e muitas vezes dizendo que ela teria dificuldades em achar um marido. Ela se sentia, de fato, muito descontente por ser mulher. Tinha 
muitos planos ambiciosos. Queria estudar ou receber educao musical e ficava indignada com a idia de ter de sacrificar suas inclinaes e sua liberdade de opinio 
pelo casamento. Assim, nutria-se de seu orgulho pelo pai e do prestgio e posio social da famlia, e guardava zelosamente tudo o que se relacionava com essas vantagens. 
O altrusmo, contudo, com que colocava em primeiro lugar a me e as irms mais velhas, quando surgia a ocasio, reconciliava inteiramente seus pais com o lado mais 
spero do seu carter.
         Em vista da idade das moas, ficou resolvido que a famlia se mudaria para a capital, onde Elisabeth, durante um curto espao de tempo, pde desfrutar de 
uma vida mais completa e mais alegre no crculo familiar. Mas sobreveio ento o golpe que destruiu a felicidade da famlia. O pai ocultara, ou talvez tivesse ele 
prprio subestimado, uma afeco crnica do corao, e um dia foi levado inconsciente para casa, com um edema pulmonar. Foi assistido durante dezoito meses, e Elisabeth 
agiu no sentido de desempenhar o papel principal junto a seu leito de doente. Dormia no quarto dele, estava pronta a despertar quando ele a chamava  noite, cuidava 
dele durante o dia e obrigava-se a parecer alegre, enquanto ele se conformava com seu estado irremedivel, mostrando uma resignao sem queixas. O incio da doena 
dela deve ter-se relacionado com esse perodo de desvelos, pois ela se recordava de que, durante os ltimos seis meses, ficara acamada por um dia e meio por causa 
das dores que descrevemos. Ela asseverou, porm, que essas dores passaram rapidamente e no lhe haviam causado nenhuma inquietao nem atrado sua ateno. E, de 
fato, s dois anos aps o falecimento do pai foi que ela se sentiu doente e ficou impossibilitada de andar por causa das dores.
         A lacuna causada na vida dessa famlia de quatro mulheres pela morte do pai, seu isolamento social, a interrupo de tantas relaes que prometiam trazer-lhe 
interesse e diverso, a sade precria da me, que ento se tornou mais acentuada - tudo isso lanou uma sombra sobre o estado de esprito da paciente; mas, ao mesmo 
tempo, despertou-lhe um vivo desejo de que sua famlia logo pudesse encontrar algo para substituir a felicidade perdida, levando-a a concentrar toda a sua afeio 
e cuidado na me que ainda vivia.
         Quando o ano de luto havia passado, sua irm mais velha casou-se com um homem bem-dotado e dinmico. Ele ocupava posio de responsabilidade e sua capacidade 
intelectual parecia prometer-lhe um grande futuro. Mas para com os conhecidos mais ntimos ele exibia uma sensibilidade mrbida e uma insistncia egosta em suas 
excentricidades. E foi o primeiro do crculo da famlia a ousar demonstrar falta de considerao pela velha senhora. Isso foi demais para Elisabeth. Ela se sentiu 
convocada a empreender uma luta contra o cunhado sempre que ele lhe dava oportunidade para isso, enquanto as outras mulheres no levavam a srio as exploses temperamentais 
dele. Foi um desapontamento penoso para ela ver assim interrompida a reconstruo da antiga felicidade da famlia, e ela no conseguia perdoar a irm casada pela 
complacncia feminina com que esta sempre evitava tomar partido. Elisabeth reteve na memria inmeras cenas ligadas a isso, envolvendo queixas parcialmente no verbalizadas 
contra seu primeiro cunhado. Mas sua principal recriminao a ele continuava a prender-se ao fato de, em nome de uma possvel promoo, ele ter-se mudado com sua 
pequena famlia para uma remota cidade da ustria e assim ter ajudado a aumentar o isolamento da me. Nessa ocasio, Elisabeth sentiu de maneira intensa seu desamparo, 
sua incapacidade de proporcionar  me um substituto pela felicidade que perdera e a impossibilidade de levar a cabo a inteno que tivera quando da morte do pai.
         O casamento da segunda irm pareceu prometer um futuro mais brilhante para a famlia, pois o segundo cunhado, embora menos bem-dotado intelectualmente, 
era do agrado daquelas mulheres cultas, educado que fora, como acontecera com elas, para ter considerao pelos outros. Seu comportamento reconciliou Elisabeth com 
a instituio do matrimnio e com a idia dos sacrifcios que este implicava. Alm disso, o segundo casal permaneceu morando perto da me e o filho que tiveram tornou-se 
o predileto de Elisabeth. Infelizmente, outro acontecimento veio lanar uma sombra sobre o ano em que a criana nasceu. O tratamento do problema na vista da me 
exigiu que ela permanecesse num quarto escuro por vrias semanas, durante as quais Elisabeth ficou com ela. Uma operao foi considerada inevitvel. A agitao diante 
dessa perspectiva coincidiu com os preparativos para a mudana do primeiro cunhado. Finalmente, a me saiu-se bem da operao, que foi realizada por mo de mestre. 
As trs famlias se reuniram numa estao de veraneio e esperou-se que Elisabeth, que ficara exausta com as ansiedades dos ltimos meses, se recuperasse inteiramente 
durante o que seria o primeiro perodo de libertao dos pesares e temores a ser desfrutado pela famlia desde a morte do pai.
         Foi precisamente durante essas frias, contudo, que as dores e a fraqueza locomotora de Elisabeth comearam. Ela estivera mais ou menos cnscia das dores 
por um curto perodo, mas elas sobrevieram com violncia, pela primeira vez, depois de ela ter tomado um banho quente na pequena estao de guas. Alguns dias antes 
ela sara para dar um longo passeio - na verdade, uma caminhada que durou meio dia -, o qual eles relacionaram com o aparecimento das dores, de modo que foi fcil 
adotar o ponto de vista de que Elisabeth primeiro ficara "cansada demais" e em seguida "se resfriara".
         A partir dessa poca Elisabeth foi a invlida da famlia. Foi aconselhada pelo mdico a dedicar o resto do mesmo vero a um perodo de tratamento hidroptico 
em Gastein |nos Alpes austracos|, e viajou para l com a me.  Mas foi ento que surgiu uma nova preocupao. A segunda irm ficara grvida novamente e as notcias 
de seu estado eram extremamente desfavorveis, de modo que a custo pde decidir-se a ir para Gastein. Ela e a me mal tinham passado quinze dias l quando foram 
chamadas de volta pelas notcias de que a irm se achava acamada e em estado gravssimo.
         Seguiu-se uma viagem angustiante, durante a qual Elisabeth foi atormentada no s por suas dores como tambm por expectativas sombrias. Quando as duas chegaram 
 estao, houve sinais que as levaram a temer o pior; e ao entrarem no quarto da doente tiveram a certeza de que haviam chegado tarde demais para se despedirem 
de uma pessoa viva.
         Elisabeth sofreu no s com a perda dessa irm, a quem amava ternamente, mas quase na mesma medida com os pensamentos provocados pela morte dela e pelas 
mudanas que esta acarretou. A irm sucumbira a uma doena cardaca que fora agravada pela gravidez. Surgiu ento a idia de que a doena de corao fora herdada 
do lado paterno da famlia. Recordou-se que a irm morta havia sofrido, no incio da adolescncia, de coria, acompanhada de um distrbio cardaco brando. A famlia 
culpou a si prpria e aos mdicos por terem permitido o casamento, e foi impossvel poupar o infeliz do vivo da acusao de ter posto em perigo a sade da esposa, 
ao provocar duas gestaes em sucesso imediata. A partir dessa poca, os pensamentos de Elisabeth se ocuparam ininterruptamente com a sombria reflexo de que quando, 
para variar, as raras condies para um casamento feliz tinham sido preenchidas, essa felicidade chegara a um fim terrvel. Alm disso, ela viu mais uma vez o colapso 
de tudo o que desejara para a me. O cunhado vivo ficou inconsolvel e afastou-se da famlia da esposa. Ao que parece, a famlia dele, que se afastara durante seu 
breve e feliz casamento, achou que aquele momento era favorvel para atra-lo de volta para seu prprio crculo. No houve meio de preservar a unio que existira 
anteriormente. No era vivel ele morar com a me dela, uma vez que Elisabeth era solteira. Como ele tambm se recusasse a deixar a criana, que era o nico legado 
da esposa morta, sob a custdia das duas mulheres, deu-lhes a oportunidade, pela primeira vez, de acus-lo de crueldade. Por fim - e este no foi o fato menos aflitivo 
- chegou aos ouvidos de Elisabeth o boato de que surgira uma querela entre seus dois cunhados. Ela s pde tentar adivinhar-lhe a causa; mas, ao que parecia, o vivo 
formulara exigncias de ordem financeira que o outro declarou injustificveis e que, na verdade, em vista do pesar da me na ocasio, ele pde caracterizar como 
chantagem da pior espcie.
         Essa era, portanto, a infeliz histria dessa moa orgulhosa com sua nsia de amor. Incompatibilizada com seu destino, amargurada pelo fracasso de todos 
os seus pequenos planos para o restabelecimento das antigas glrias da famlia, com todos aqueles a quem amava mortos, distantes ou estremecidos, e despreparada 
para refugiar-se no amor de algum homem desconhecido, ela viveu dezoito meses em recluso quase completa, no tendo nada a ocup-la seno os cuidados com a me e 
com suas prprias dores.
         Se pusermos de lado os grandes infortnios e penetrarmos nos sentimentos de uma moa, no poderemos deixar de sentir profunda solidariedade humana pela 
Srta. Elisabeth. Mas que dizer do interesse, puramente mdico, dessa histria de sofrimentos, de suas relaes com a dolorosa fraqueza locomotora da paciente e das 
possibilidades de explicao e cura proporcionadas por nosso conhecimento desses traumas psquicos?
         No que concerne ao mdico, a confisso da paciente foi,  primeira vista, uma grande decepo. Era um relato de choques emocionais corriqueiros e nada havia 
que explicasse por que ela adoecera precisamente de histeria ou por que sua histeria assumira a forma especfica de uma abasia dolorosa. O relato no esclarecia 
nem as causas, nem a determinao especfica de sua histeria. Talvez pudssemos presumir que a paciente havia estabelecido uma associao entre suas impresses mentais 
dolorosas e as dores corporais que por acaso estava experimentando na mesma poca, e que agora, em sua vida de lembranas, estivesse usando suas sensaes fsicas 
como smbolo das mentais. Mas restava explicar quais teriam sido seus motivos para fazer tal substituio e em que momento ela ocorrera. Essas perguntas, alis, 
no eram do tipo que os mdicos tinham por hbito formular. Em geral, ns nos contentvamos com a afirmao de que um paciente era constitucionalmente histrico 
e sujeito a desenvolver sintomas histricos sob a presso de excitaes intensas de qualquer natureza.
         Aquela confisso parecia oferecer ainda menos ajuda para a cura de sua doena do que para sua explicao. No era fcil verificar que tipo de influncia 
benfica a Srta. Elisabeth poderia obter da recapitulao da histria de seus sofrimentos de anos recentes - com os quais todos os membros da sua famlia estavam 
acostumados - para um estranho que a ouvia com solidariedade apenas moderada. Nem havia qualquer sinal de que a confisso produzisse um efeito curativo dessa espcie. 
Durante esse primeiro perodo de tratamento, ela nunca deixou de repetir que ainda se sentia doente e que suas dores continuavam intensas como sempre; e, quando 
dizia isso olhando-me com uma expresso maliciosa de satisfao por eu estar confuso, eu no podia deixar de me lembrar da opinio do velho Sr. von R. sobre sua 
filha predileta - que ela era muitas vezes "insolente" e "convencida". Mas eu era obrigado a admitir que ela estava certa.
         
         Se eu tivesse interrompido o tratamento psquico da paciente nesse estgio, o caso da Srta. Elisabeth von R. no teria lanado nenhuma luz sobre a teoria 
da histeria. Mas continuei minha anlise porque esperava, convicto, que os nveis mais profundos de sua conscincia proporcionariam uma compreenso tanto das causas 
como dos determinantes especficos dos sintomas histricos. Resolvi, portanto, formular uma pergunta direta  paciente, num estado ampliado de conscincia, e indagar-lhe 
qual teria sido a impresso psquica  qual se vinculara a primeira emergncia de dores nas pernas.
         Com essa finalidade em vista, propus-me pr a paciente em hipnose profunda. Infelizmente, porm, no pude deixar de observar que meu procedimento no a 
colocara em nenhum outro estado a no ser naquele em que ela fizera seu relato. J me dei por satisfeito por ela no ter protestado triunfalmente nessa ocasio: 
"No estou dormindo, sabe; no posso ser hipnotizada." Nesse ponto, ocorreu-me a idia de recorrer ao expediente de aplicar-lhe a presso na cabea, cuja origem 
descrevi na ntegra no caso clnico de Miss Lucy | ver em. [1] e segs.|. Realizei isso instruindo a paciente para que me informasse com fidelidade tudo o que aparecesse 
em sua imaginao ou de que se lembrasse no momento da presso. Ela ficou calada por muito tempo e ento, por insistncia minha, admitiu ter pensado numa noite em 
que um jovem a acompanhara at em casa depois de uma festa, da conversa que houvera entre eles e dos sentimentos com que voltara para casa a fim de ficar  cabeceira 
do pai enfermo.
         Essa primeira meno ao rapaz abriu uma nova corrente de representaes cujos contedos extra ento gradativamente. Tratava-se aqui de um segredo, pois 
ela no havia contado a ningum, exceto a um amigo comum, suas relaes com esse rapaz e as esperanas ligadas a elas. Ele era filho de uma famlia com a qual h 
muito eles mantinham relaes amistosas e que morava perto da antiga propriedade de nossa paciente. O jovem, que era rfo, fora devotadamente afeioado ao pai dela 
e seguira os conselhos deste no tocante a sua carreira. Estendera sua admirao pelo pai s damas da famlia. Numerosas lembranas de leituras feitas em comum, de 
trocas de idias e de observaes feitas por ele que eram repetidas a ela por outras pessoas apoiaram nela o gradual desenvolvimento da convico de que ele a amava 
e a compreendia e de que o casamento com ele no implicaria sacrifcios por parte dela, sacrifcios esses que ela tanto temia no casamento de maneira geral. Infelizmente, 
ele era pouco mais velho do que ela e ainda estava longe de poder sustentar-se. Mas ela estava firmemente determinada a esperar por ele.
         
         Depois que o pai de Elisabeth adoeceu gravemente e ela ficou muito ocupada em cuidar dele, seus encontros com o namorado se tornaram cada vez mais raros. 
A noite da qual ela se recordara pela primeira vez representou o que fora, na verdade, o clmax dos sentimentos dela, mas mesmo nessa ocasio no tinha havido nenhum 
claircissement entre eles. Naquela ocasio ela se deixara convencer, por insistncia da famlia e do prprio pai, a ir a uma festa em que era provvel que o encontrasse. 
Quisera voltar cedo para casa, mas fora pressionada a ficar e cedera quando ele prometeu acompanh-la at a residncia dela. Elisabeth nunca experimentou sentimentos 
to afetuosos para com ele como enquanto ele a acompanhou nessa noite. Mas ao chegar tarde em casa, nesse estado de esprito abenoado, ela constatou que o pai sofrera 
uma piora e se recriminou amargamente por ter sacrificado tanto tempo  sua prpria diverso. Essa foi a ltima vez que se afastou do pai doente por uma noite inteira. 
Encontrou-se poucas vezes com o namorado depois disso. Aps a morte do pai, o jovem pareceu afastar-se dela em sinal de respeito por seu pesar. O curso de sua vida 
levou-o ento por outros rumos. Ela teve de se acostumar pouco a pouco com a idia de que o interesse dele por ela fora substitudo por outros e de que ela o havia 
perdido. Mas essa decepo em seu primeiro amor ainda a feria sempre que ela pensava nele.
         Foi nessa relao, portanto, e na cena descrita acima, na qual ela atingiu seu auge, que pude procurar as causas de suas primeiras dores histricas. O contraste 
entre os sentimentos de alegria que ela se permitira ter naquela ocasio e o agravamento do estado do pai com que deparara ao voltar para casa constituiu um conflito, 
uma situao de incompatibilidade. O resultado desse conflito foi que a representao ertica foi recalcada para longe da associao e o afeto ligado a essa representao 
foi utilizado para intensificar ou reviver uma dor fsica que estivera presente simultaneamente ou pouco antes. Assim, tratava-se de um exemplo do mecanismo de converso 
com finalidade de defesa, o qual descrevi com pormenores em outro texto.
         Vrios comentrios,  claro, podem ser feitos a esta altura. Devo ressaltar que no consegui estabelecer, com base em suas recordaes, se a converso ocorreu 
no momento de sua volta  casa. Assim, procurei por experincias semelhantes durante o tempo em que ela cuidou do pai e trouxe  tona grande nmero delas. Entre 
estas, uma importncia especial se prendeu, por causa de sua ocorrncia freqente, a cenas em que, a chamado do pai, ela pulava da cama de ps descalos num quarto 
frio. Eu me senti inclinado a atribuir alguma importncia a esses fatores, visto que alm de se queixar de dor nas pernas, ela tambm se queixava de torturantes 
sensaes de frio. No obstante, mesmo aqui fui incapaz de obter qualquer cena passvel de ser identificada como aquela em que ocorreu a converso. Por essa razo, 
eu me sentia inclinado a achar que havia uma lacuna na explicao nesse ponto, at me lembrar que, de fato, as dores histricas nas pernas no haviam surgido durante 
o perodo em que ela estava cuidando do pai. Ela s se recordava de um nico acesso de dor, que durara apenas um ou dois dias e no lhe chamara a ateno | ver em. 
[1]|. Dirigi ento minhas indagaes para esse primeiro aparecimento das dores. Consegui reavivar com segurana a lembrana que a paciente tinha dele. Precisamente 
naquela ocasio um parente os visitara e ela no pudera receb-lo por estar de cama. Esse mesmo homem fora infeliz o bastante para visit-las novamente dois anos 
depois, para encontr-la de cama mais uma vez. Mas, apesar de repetidas tentativas, no conseguimos descobrir qualquer causa psquica para as primeiras dores. Julguei 
seguro presumir que, de fato, elas haviam surgido sem nenhuma causa psquica e eram uma afeco reumtica branda; e pude estabelecer que esse distrbio orgnico, 
que foi o modelo copiado em sua histeria posterior, teria de ser situado, de qualquer modo, antes da cena em que ela voltara da festa acompanhada. A julgar pela 
natureza das coisas, no obstante,  possvel que essas dores, sendo de origem orgnica, tivessem persistido por algum tempo em grau atenuado, sem serem muito percebidas. 
A obscuridade devida ao fato de que a anlise apontava para a ocorrncia de uma converso de excitao psquica em dor fsica, embora essa dor certamente no fosse 
percebida na ocasio em questo ou relembrada em poca posterior - esse  um problema que espero poder solucionar mais tarde, com base em outras consideraes e 
em exemplos posteriores. | ver em [1] |
         A descoberta da razo da primeira converso abriu um segundo perodo profcuo do tratamento. A paciente surpreendeu-me logo depois, ao anunciar que agora 
sabia por que era que as dores sempre se irradiavam daquela regio especfica da coxa direita e atingiam ali sua maior intensidade: era nesse lugar que seu pai costumava 
apoiar a perna todas as manhs, enquanto ela renovava a atadura em torno dela, pois estava muito inchada. Isso deve ter acontecido uma centena de vezes, mas ela 
no havia notado a ligao at esse momento. Assim, ela me forneceu a explicao de que eu precisava quanto ao surgimento do que era uma zona histerognica atpica. 
Alm disso, suas pernas doloridas comearam a "participar da conversa" durante nossas sesses de anlise. | ver em [1].| O que tenho em mente  o seguinte fato notvel: 
em geral, a paciente estava sem dor quando comevamos a trabalhar. Se ento, por meio de uma pergunta ou pela presso na sua cabea, eu despertava uma lembrana, 
surgia uma sensao de dor, e esta era comumente to aguda que a paciente estremecia e punha a mo no ponto doloroso. A dor assim despertada persistia enquanto a 
paciente estivesse sob a influncia da lembrana; alcanava seu clmax quando ela estava no ato de me contar a parte essencial e decisiva do que tinha a comunicar, 
e com a ltima palavra desse relato, desaparecia. Com o tempo, passei a utilizar essas dores como uma bssola para minha orientao: quando a moa parava de falar 
mas admitia ainda estar sentindo dor, eu sabia que ela no me havia contado tudo e insistia para que continuasse sua histria, at que a dor se esgotasse pela fala. 
S ento eu despertava uma nova lembrana.
         Durante esse perodo de 'ab-reao', o estado da paciente, tanto fsico quanto mental, teve uma melhora to notvel que eu costumava dizer, meio de brincadeira, 
que estava retirando um pouco de seus motivos de dor de cada vez e que, quando os tivesse eliminado inteiramente, ela ficaria boa. Elisabeth logo chegou ao ponto 
de passar a maior parte do tempo sem dor; deixou-se convencer a caminhar bastante e a abandonar seu isolamento anterior. No curso da anlise, ora eu acompanhava 
as oscilaes espontneas do estado da paciente, ora seguia minha prpria estimativa da situao, quando achava no ter esgotado inteiramente alguma parte da histria 
de sua doena.
         Durante esse trabalho, fiz algumas observaes interessantes, cujas lies vi confirmadas mais tarde, ao tratar de outros pacientes. Quanto s oscilaes 
espontneas, em primeiro lugar, constatei que, na verdade, no ocorrera nenhuma que no tivesse sido provocada por associao com algum evento contemporneo. Numa 
ocasio, ela ouvira falar de uma doena de um de seus conhecidos, o que a fez lembrar-se de um detalhe da doena do pai; de outra feita, o filho da irm morta fora 
visit-las e sua semelhana com a me provocara nela sentimentos de pesar; e ainda noutra ocasio uma carta da irm distante mostrou claramente a influncia do cunhado 
insensvel e causou-lhe uma dor que a obrigou a relatar a histria de uma cena familiar que ainda no me contara. Visto que ela nunca trazia  tona duas vezes a 
mesma causa precipitante para uma dor, parecia-me justificado supor que assim esgotaramos o estoque dessas causas. Desse modo, eu no hesitava em coloc-la em situaes 
projetadas para despertar novas lembranas que ainda no tivessem alcanado a superfcie. Por exemplo, mandei-a visitar o tmulo da irm e encorajei-a a ir a uma 
festa, em que poderia mais uma vez encontrar o namorado de sua juventude.
         A seguir, consegui algum discernimento sobre o modo originrio do que poderia ser chamado de histeria "monossintomtica". Verifiquei que sua perna direita 
doa durante a hipnose quando a discusso versava sobre os cuidados que ela dispensara ao pai enfermo, ou sobre suas relaes com o namorado da mocidade, ou sobre 
outros acontecimentos que se enquadravam no primeiro perodo de suas experincias patognicas; por outro lado, a dor surgia na outra perna, a esquerda, to logo 
eu provocava uma lembrana relacionada com a irm morta ou com os dois cunhados - em suma, com uma impresso proveniente da segunda metade da histria de sua doena. 
Tendo assim minha ateno despertada pela regularidade dessa relao, levei minha pesquisa adiante e fiquei com a impresso de que essa diferenciao ia ainda mais 
alm e que cada novo determinante psquico de sensaes dolorosas ficara ligado a algum ponto novo da regio dolorosa das pernas. O ponto doloroso original de sua 
coxa direita se relacionara com os cuidados prestados ao pai; a regio da dor estendera-se desse ponto para regies vizinhas, como resultado de novos traumas. O 
que tnhamos aqui, portanto, no era, rigorosamente falando, um sintoma fsico nico, ligado a uma variedade de complexos mnmicos na mente, mas sim um grande nmero 
de sintomas semelhantes, que pareciam, numa viso superficial, estar fundidos num nico sintoma. Mas, ao verificar que a ateno da paciente se desviava desse tema, 
no prossegui com a delimitao das zonas de dor correspondentes aos diferentes determinantes psquicos.
         No deixei, contudo, de voltar minha ateno para o modo como todo o complexo sintomtico da abasia poderia ter-se estruturado nessas zonas dolorosas e, 
nesse sentido, fiz vrias perguntas  paciente, tais como: Qual foi a origem de suas dores ao andar? E ao ficar de p? E ao deitar-se? A algumas dessas perguntas 
ela respondeu espontaneamente, a outras sob a presso de minha mo. Duas coisas resultaram da. Em primeiro lugar, ela dividiu em grupos para mim todas as cenas 
a que estavam vinculadas impresses dolorosas, conforme as tivesse experimentado enquanto estava sentada ou de p, e assim por diante. Por exemplo, estava de p 
junto a uma porta quando o pai foi levado para casa logo aps o ataque cardaco | ver em [1]| e, com o susto, ficara paralisada como se tivesse razes no cho. Continuou 
acrescentando vrias outras lembranas a esse primeiro exemplo de susto quando se achava de p, at chegar  cena assustadora em que, mais uma vez, estava de p, 
como que enfeitiada, junto ao leito de morte da irm | ver em [1]|. Poder-se-ia esperar que toda essa cadeia de lembranas mostrasse haver uma conexo verdadeira 
entre suas dores e o ficar de p, e a rigor ela poderia ser aceita como prova de uma associao. Mas convm lembrar que seria preciso comprovar a presena de um 
outro fator em todos esses eventos, um fator que lhe teria dirigido a ateno precisamente para o fato de estar de p (ou, conforme o caso, andando, sentada, etc.) 
e, por conseguinte, levado  converso. A explicao para o fato de sua ateno ter tomado esse rumo s pode ser buscada na circunstncia de que andar, ficar de 
p e deitar so funes e estados da parte do corpo que, no caso dela, abrangiam as zonas dolorosas: a saber, as pernas. Portanto, foi fcil compreender nesse caso 
a ligao entre a astasia-abasia e a primeira ocorrncia da converso.
         Entre os episdios que, de acordo com esse catlogo, pareceram ter tornado doloroso o andar, um recebeu destaque especial: um passeio que ela fizera na 
estao de guas em companhia de vrias outras pessoas | ver em [1]-[2]| e que teria sido longo demais. Os detalhes desse episdio s emergiram de maneira hesitante 
e deixaram vrios enigmas no solucionados. Ela estivera num estado de nimo particularmente dcil e se juntou, alegremente, a seu grupo de amigos. O dia estava 
bonito e no fazia muito calor. A me ficou em casa e a irm mais velha j tinha ido embora. A irm mais moa sentiu-se mal, mas no quis estragar o prazer dela; 
o cunhado primeiro disse que ficaria com a esposa, mas depois resolveu juntar-se ao grupo por causa de Elisabeth. Essa cena parecia estar estreitamente relacionada 
com o primeiro aparecimento das dores, pois ela se lembrou de ter ficado muito cansada e de ter sentido uma dor violenta ao voltar do passeio. Disse, contudo, no 
estar certa de j ter percebido as dores antes disso. Fiz-lhe ver que era improvvel que tivesse empreendido uma caminhada to longa se j tivesse sentido quaisquer 
dores fortes. Perguntei-lhe o que na caminhada poderia ter provocado a dor, e ela me forneceu a resposta um tanto obscura de que o contraste entre sua prpria solido 
e a felicidade conjugal da irm enferma (felicidade esta que o comportamento do cunhado lhe lembrava constantemente) fora doloroso para ela.
         Outra cena, muito prxima da primeira no tempo, teve seu papel na ligao das dores com o sentar. Ocorreu alguns dias depois, quando a irm e o cunhado 
j haviam ido embora. Ela estava inquieta e ansiosa. Levantou-se cedo e subiu uma pequena colina, indo at um lugar onde muitas vezes eles tinham estado juntos e 
que proporcionava uma linda vista. Sentou-se num banco de pedra e se abandonou a seus pensamentos, que mais uma vez diziam respeito a sua solido e ao destino de 
sua famlia, e dessa vez confessou abertamente o desejo intenso de ser to feliz quanto a irm. Retornou dessa meditao matinal com dores violentas e, naquela mesma 
noite, tomou o banho aps o qual as dores surgiram em carter definitivo e permanente | ver em [1]|.
         Constatou-se ainda, sem qualquer sombra de dvida, que suas dores ao andar e ao ficar de p eram, de incio, aliviadas quando ela se deitava. As dores s 
passaram a se relacionar com o ficar deitada quando, aps ter notcia da doena da irm, ela viajou de volta de Gastein [loc. cit.] e foi atormentada durante a noite 
tanto pela preocupao com a irm quanto por dores lancinantes, tendo ficado estendida e insone no vago de trem. E por muito tempo depois disso, deitar-se foi, 
na realidade, mais doloroso para ela do que andar ou ficar de p.
         Dessa forma, em primeiro lugar, a regio dolorosa se estendera com o acrscimo de reas adjacentes: cada novo tema que exercia um efeito patognico catexizara 
uma nova regio das pernas; em segundo lugar, cada uma das cenas que lhe haviam causado uma forte impresso deixara um vestgio, provocando uma catexia duradoura 
e constantemente acumulada das vrias funes das pernas, uma ligao dessas funes com suas sensaes dolorosas. Mas um terceiro mecanismo indubitavelmente estivera 
envolvido na formao de sua astasia-abasia. A paciente encerrou sua descrio de uma srie de episdios com a queixa de que eles lhe haviam tornado doloroso o fato 
de "ficar sozinha". Em outra srie de episdios, que abrangiam suas tentativas frustradas de estabelecer uma nova vida para sua famlia, ela nunca se cansou de repetir 
que o doloroso nelas tinha sido seu sentimento de desamparo, o sentimento de que no podia "dar um nico passo  frente". Em vista disso, fui forado a supor que 
entre as influncias que contriburam para a formao de sua abasia, tiveram papel essas suas reflexes; no pude deixar de pensar que a paciente no fizera nada 
mais nada menos do que procurar uma expresso simblica para seus pensamentos dolorosos, e que a encontrara na intensificao de seus sofrimentos. O fato de que 
os sintomas somticos da histeria podem ser produzidos por uma simbolizao dessa natureza j foi afirmado em nossa "Comunicao Preliminar" | ver em [1]|. Na discusso 
do presente caso, apresentarei dois ou trs exemplos conclusivos disso. | ver em [1] e segs.| Esse mecanismo psquico de simbolizao no exerceu um papel importante 
na Srta. Elisabeth von R, no criou sua abasia. Mas tudo contribui para mostrar que a abasia que j estava presente recebeu assim um reforo considervel. Por conseguinte, 
essa abasia, na fase de desenvolvimento em que a encontrei, devia ser igualada no s a uma paralisia funcional baseada em associaes psquicas, mas tambm a uma 
paralisia baseada na simbolizao.
         Antes de prosseguir meu relato do caso, acrescentarei algumas palavras sobre o comportamento da paciente durante essa segunda fase do tratamento. No curso 
de toda a anlise usei a tcnica de provocar o surgimento de imagens e idias atravs da presso sobre a cabea da paciente, um mtodo, vale dizer, que seria impraticvel 
sem a plena cooperao e a ateno voluntria da paciente. | ver em [1] e segs.| Por vezes, realmente, seu comportamento correspondeu s minhas melhores expectativas, 
e durante tais perodos foi surpreendente a prontido com que as diferentes cenas relacionadas com um dado tema surgiram numa ordem rigorosamente cronolgica. Era 
como se ela estivesse lendo um extenso livro ilustrado cujas pginas estivessem sendo viradas diante de seus olhos. Em outras ocasies, parecia haver impedimentos 
de cuja natureza eu no desconfiava na poca. Quando lhe pressionava a cabea, ela sustentava que nada lhe havia ocorrido. Eu repetia a presso e lhe dizia que esperasse, 
mas ainda assim nada aparecia. Nas primeiras vezes em que surgiu, essa recalcitrncia permitiu-me interromper o trabalho: era um dia desfavorvel, tentaramos em 
outra ocasio. Duas observaes, contudo, levaram-me a alterar minha atitude. Notei, em primeiro lugar, que o mtodo s falhava quando eu encontrava Elisabeth alegre 
e sem dor, e nunca quando ela se sentia mal. Em segundo lugar, reparei que muitas vezes ela fazia essas afirmaes de no ter visto nada depois de deixar passar 
um longo intervalo durante o qual, no obstante, a expresso tensa e preocupada de seu rosto traa o fato de haver um processo mental em curso. Resolvi, portanto, 
adotar a hiptese de que o mtodo nunca falhava: de que, em todas as ocasies, sob a presso da minha mo, alguma idia ocorria a Elisabeth ou alguma imagem surgia 
diante de seus olhos, mas ela nem sempre estava preparada para comunic-las a mim e tentava reprimir mais uma vez o que fora evocado. Consegui pensar em dois motivos 
para esse encobrimento. Ou ela estava criticando a idia, o que no tinha nenhum direito de fazer, com o pretexto de que no era suficientemente importante ou de 
que era uma resposta irrelevante  pergunta que lhe fora formulada, ou estava hesitando em exibi-la por ach-la muito desagradvel de contar. Passei a agir, portanto, 
como se estivesse inteiramente convencido da confiabilidade da minha tcnica. No aceitava mais sua declarao de que nada lhe havia ocorrido e assegurava a ela 
que algo devia ter acontecido. Talvez, dizia eu, ela no tivesse prestado bastante ateno, e nesse caso eu teria prazer em repetir a presso. Ou talvez ela achasse 
que sua idia no era a idia certa. Isso, dizia-lhe eu, no era problema dela; sua obrigao era a de ser inteiramente objetiva e dizer o que lhe viesse  cabea, 
quer fosse apropriado, quer no. Por fim, eu declarava saber muito bem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando de mim, mas que jamais se livraria 
de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa. Ao insistir dessa maneira, consegui que, a partir dessa poca minha presso sobre sua cabea jamais falhasse. No 
pude deixar de concluir que minha opinio estava certa e extra dessa anlise uma confiana literalmente irrestrita em minha tcnica. Muitas vezes acontecia de s 
depois de eu pressionar-lhe a cabea por trs vezes  que ela me dava uma informao. Mas ela mesma observava depois: "Poderia ter-lhe dito isso da primeira vez." 
- "E por que no disse?" - "Pensei que no fosse o que era preciso", ou "Pensei que pudesse evit-lo, mas ficava voltando todas as vezes". No curso desse difcil 
trabalho, comecei a atribuir maior importncia  resistncia oferecida pela paciente na reproduo de suas lembranas e a compilar cuidadosamente as ocasies em 
que era particularmente acentuada.
         
         Cheguei ento  terceira fase do tratamento. A paciente sentia-se melhor. Fora mentalmente aliviada e era agora capaz de esforos bem-sucedidos. Mas suas 
dores, manifestamente, no tinham sido eliminadas, repetiam-se de tempos em tempos e com toda a sua antiga gravidade. Esse resultado teraputico incompleto correspondia 
a uma anlise incompleta. Eu ainda no sabia exatamente em que momento e por qual mecanismo as dores se haviam originado. Durante a reproduo da grande variedade 
de cenas da segunda fase e enquanto observava a resistncia da paciente em falar-me delas, eu havia formado uma suspeita especfica. No me aventurava ainda, contudo, 
a adot-la como base para minha ao subseqente. Mas uma ocorrncia fortuita resolveu o assunto. Um dia, enquanto trabalhava com a paciente, ouvi passos de um homem 
na sala contgua e uma voz agradvel que parecia estar formulando alguma pergunta. Minha paciente levantou-se de imediato e pediu para interrompermos os trabalhos 
por aquele dia: tinha ouvido o cunhado chegar e perguntar por ela. At esse momento ela estivera livre de dor, mas, aps a interrupo, sua expresso facial e seu 
andar traram o sbito surgimento de dores agudas. Minha suspeita foi fortalecida por esse fato e decidi-me a precipitar a explicao decisiva.
         Assim, perguntei-lhe pelas causas e circunstncias da primeira vez em que as dores haviam surgido.  guisa de resposta, seus pensamentos se voltaram para 
a visita de vero  estao de guas antes de sua viagem a Gastein, e inmeras cenas que no tinham sido tratadas de maneira muito completa surgiram de novo. Ela 
se lembrou de como se sentia na poca, de como estava esgotada aps a preocupao com a viso da me e os cuidados prestados a ela na poca da operao, e de como 
por fim perdera a esperana de que uma moa solitria como ela pudesse ter alguma felicidade na vida ou realizar alguma coisa. At ento ela se julgara forte o bastante 
para poder passar sem a ajuda de um homem, mas agora se via dominada pelo sentimento de sua fraqueza como mulher e por um anseio de amor no qual, citando suas prprias 
palavras, sua natureza congelada comeava a derreter-se. Nesse estado de esprito, ela foi profundamente afetada pelo casamento feliz da segunda irm - por ver com 
que tocante carinho o cunhado cuidava dela, como os dois se entendiam com um simples olhar e como pareciam seguros um do outro. Sem duvida, era lastimvel que a 
segunda gravidez tivesse vindo to perto da primeira, e a irm sabia que esse era o motivo de sua doena, mas como a suportava de bom grado por ter sido ele o causador! 
Por ocasio do passeio que estava to intimamente ligado s dores de Elisabeth, o cunhado a princpio no se mostrara disposto a participar e desejara permanecer 
ao lado da esposa enferma. Ela, porm, o persuadira com um olhar a acompanh-los, por achar que isso daria prazer a Elisabeth. Elisabeth permaneceu na companhia 
dele durante todo o passeio. Falaram sobre todos os assuntos, at os mais ntimos. Ela se descobriu em completo acordo com tudo o que ele dizia, e o desejo de ter 
um marido como ele acentuou-se muito. Ento, alguns dias depois, veio a cena da manh aps a partida da irm e do cunhado, quando ela foi ao local que tinha uma 
vista bonita e que fora o preferido nos passeios deles. Ali, sentou-se e sonhou mais uma vez em desfrutar de uma felicidade como a da irm e em encontrar um marido 
que soubesse cultivar-lhe o corao, como seu cunhado cativara o dela. Sentiu dor ao levantar-se, mas esta passou mais uma vez. Foi somente  tarde, depois de ter 
tomado o banho quente, que as dores irromperam, e ela nunca mais se livrou delas. Tentei descobrir que pensamentos lhe teriam ocupado a mente enquanto ela tomava 
banho, mas soube apenas que o banheiro a fizera recordar-se dos membros da famlia que haviam partido, pois fora naquela casa que eles tinham ficado.
         Como era inevitvel, tudo isso j ficara claro para mim h muito tempo. Mas a paciente, mergulhada em suas lembranas acridoces, no parecia notar para 
onde se estava encaminhando e continuou a reproduzir suas recordaes. Passou a falar de sua visita a Gastein, da ansiedade com que aguardava cada carta e finalmente 
das ms notcias sobre a irm, da longa espera at o anoitecer, que foi o primeiro momento em que puderam partir de Gastein, e ento da viagem, feita numa torturante 
incerteza, e da noite insone - tudo isso acompanhado por um violento aumento das dores. Perguntei-lhe se durante a viagem havia pensado na possibilidade deplorvel 
que depois se concretizou. Respondeu-me que evitara cuidadosamente pensar nela, mas acreditava que desde o incio a me havia esperado o pior. Suas lembranas passaram 
ento  chegada a Viena,  impresso que lhes causaram os parentes que as esperavam,  curta viagem de Viena at a estao de veraneio prxima onde morava a irm, 
 chegada  noite,  caminhada apressada pelo jardim at a porta da casa ajardinada, ao silncio que reinava em seu interior e  escurido opressiva. Lembrou que 
o cunhado no estava l para receb-las e que ficaram diante da cama, olhando para a irm morta. Naquele momento de terrvel certeza de que a irm amada estava morta 
sem ter-lhes dito adeus, e sem que ela lhe tivesse aliviado os ltimos dias com seus cuidados, naquele exato momento outro pensamento atravessou a mente de Elisabeth, 
e agora se impunha de maneira irresistvel a ela mais uma vez, como um relmpago nas trevas: "Agora ele est livre novamente e posso ser sua esposa."
         Tudo ficou claro ento. Os esforos do analista foram ricamente recompensados. Os conceitos de "rechao" de uma representao incompatvel, da gnese dos 
sintomas histricos atravs da converso de excitaes psquicas em algo fsico e da formao de um grupo psquico separado, atravs do ato de vontade que conduziu 
ao rechao - todas essas coisas, naquele momento, apareceram diante de meus olhos de forma concreta. Assim, e de nenhuma outra maneira, as coisas haviam ocorrido 
nesse caso. Essa moa sentia pelo cunhado uma ternura cuja aceitao na conscincia deparara com a resistncia de todo o seu ser moral. Ela conseguiu poupar-se da 
dolorosa convico de que amava o marido da irm induzindo dores fsicas em si mesma. E foi nos momentos em que essa convico procurou impor-se a ela (no passeio 
com o cunhado, durante o devaneio matinal, no banho e junto ao leito da irm) que suas dores surgiram, graas  converso bem-sucedida. Na poca em que comecei o 
tratamento dela, o grupo de representaes relativas a seu amor j havia sido separado de seu conhecimento. De outra forma, penso eu, ela jamais teria concordado 
em iniciar o tratamento. A resistncia que ela havia repetidamente oferecido  reproduo das cenas que atuaram de forma dramtica correspondera, na verdade,  energia 
com que a representao incompatvel fora expulsa de suas associaes.
         O perodo que se seguiu, porm, foi rduo para o mdico. O resgate dessa representao recalcada teve um efeito devastador sobre a pobre moa. Ela chorou 
alto quando lhe expus secamente a situao com as palavras: "Quer dizer que, durante muito tempo, voc esteve apaixonada por seu cunhado. "Nesse momento, ela queixou-se 
das dores mais terrveis e fez um ltimo e desesperado esforo para rejeitar a explicao: no era verdade, eu a havia induzido quilo, no podia ser verdade, ela 
seria incapaz de tanta maldade, jamais poderia perdoar-se por isso. Foi fcil provar-lhe que o que ela prpria me dissera no admitia outra interpretao. Mas passou-se 
muito tempo antes que meus dois argumentos consoladores - o de que no somos responsveis por nossos sentimentos e o de que seu comportamento, o fato de ter adoecido 
naquelas circunstncias, era prova suficiente de seu carter moral - passou-se muito tempo antes que essas minhas consolaes a impressionassem um mnimo que fosse.
         Para minorar os sofrimentos da paciente, tive ento que percorrer mais de um caminho. Em primeiro lugar, eu queria dar-lhe uma oportunidade de se livrar 
da excitao que se vinha acumulando h tanto tempo atravs da "ab-reao". Vasculhamos as primeiras impresses que suas relaes com o cunhado lhe causaram, o incio 
dos sentimentos por ele que ela mantivera inconscientes. A deparamos com todos os pequenos sinais e impresses premonitrios a que uma paixo plenamente desenvolvida 
confere tanta importncia em retrospectiva. Na primeira visita que fizera  famlia, ele a confundira com a moa com quem iria casar-se e a cumprimentara antes da 
irm mais velha, de aparncia um tanto insignificante. Certa noite, os dois conversavam com tanta animao e pareciam dar-se to bem que a noiva os interrompeu num 
tom parcialmente srio, com a seguinte observao: "A verdade  que vocs dois se ajustariam de maneira esplndida." De outra vez, numa festa em que ningum sabia 
do noivado dele, falava-se do rapaz e uma senhora criticou-lhe um defeito fsico que indicava que ele tivera uma doena ssea na infncia. A prpria noiva ouviu 
isso tranqilamente, mas Elisabeth inflamou-se e defendeu a simetria do fsico de seu futuro cunhado com um zelo que ela prpria no pde compreender.  medida que 
fomos trabalhando essas lembranas, tornou-se claro para Elisabeth que seu sentimento afetuoso pelo cunhado estivera latente por muito tempo, talvez mesmo desde 
que o conhecera e ficara escondido todo aquele tempo atrs da mscara de uma mera afeio fraterna, que seu senso familiar muito desenvolvido permitia-lhe aceitar 
como natural.
         Esse processo de ab-reao certamente lhe fez muito bem. Mas pude alivi-la ainda mais ao me interessar como amigo por sua situao atual. Com essa finalidade 
em mente, providenciei uma entrevista com a Sra. von R. Verifiquei ser ela uma senhora compreensiva e sensvel, embora seu nimo vital tivesse sido abatido pelos 
recentes infortnios. Soube por ela que, num exame mais detido, a acusao de chantagem insensvel que o cunhado mais velho proferira contra o vivo, e que fora 
to penosa para Elisabeth, tivera de ser retirada. No restou nenhuma mancha no carter do rapaz. Tudo fora um mal-entendido devido aos valores diferentes que, como 
se pode ver facilmente, so atribudos ao dinheiro por um homem de negcios, para quem o dinheiro constitui um instrumento de sua profisso, e por um servidor pblico. 
Nada alm disso restara do penoso episdio. Pedi  me dela que, a partir daquele momento contasse a Elisabeth tudo o que ela precisava saber, e que no futuro lhe 
desse a oportunidade de descarregar sua mente, coisa a que eu j a teria habituado.
         Eu tambm estava, naturalmente, ansioso para saber que possibilidade haveria de que o desejo da moa, do qual ela agora tinha conscincia, se concretizasse. 
Aqui, as perspectivas eram menos favorveis. A me contou-me que h muito adivinhara os sentimentos de Elisabeth pelo rapaz, embora no soubesse que esses sentimentos 
j existiam quando a irm era viva. Ningum que visse os dois juntos - embora, na verdade, isso agora ocorresse raramente - poderia duvidar da nsia da moa em agrad-lo. 
Mas, disse, nem ela (a me) nem os conselheiros da famlia eram muito favorveis a um casamento. A sade do rapaz no era nada boa e recebera um novo golpe com a 
morte da esposa amada. Tambm no era nada certo que o estado mental dele j se houvesse recuperado o bastante para que ele fizesse um novo casamento. Talvez fosse 
por isso que ele se comportava com tanta reserva; talvez, tambm, estivesse incerto da acolhida que poderia ter e desejasse evitar os comentrios que provavelmente 
seriam feitos. Em vista dessas restries de ambos os lados, era improvvel que a soluo pela qual ansiava Elisabeth viesse a ocorrer.
         Disse  moa o que ouvira da me dela e tive a satisfao de ajud-la ao dar-lhe a explicao sobre a questo do dinheiro. Por outro lado, encorajei-a a 
enfrentar com calma a incerteza sobre o futuro, que era impossvel dissipar. Mas a essa altura, a aproximao do vero tornou urgente que encerrssemos a anlise. 
O estado da paciente estava de novo melhor e no se falara mais em suas dores desde que comeramos a investigar-lhes as causas. Ambos tnhamos a sensao de havermos 
chegado ao fim, embora eu dissesse a mim mesmo que a ab-reao do amor que ela havia refreado por tanto tempo no se realizara completamente. Considerei-a curada 
e disse-lhe que a soluo de suas dificuldades se processaria por sua prpria conta, agora que o caminho fora aberto. Ela no questionou isso. Partiu de Viena com 
a me para encontrar-se com a irm mais velha e a famlia desta, a fim de passarem juntas o vero.
         Tenho algumas palavras a acrescentar sobre o curso posterior do caso da Srta. Elisabeth von R. Algumas semanas depois de nos termos separado, recebi uma 
carta desesperada de sua me. Na primeira tentativa que fizera, disse-me ela, de discutir os assuntos sentimentais da filha com ela, a moa se rebelara violentamente 
e desde ento passara a sofrer de dores intensas mais uma vez. Ficara indignada comigo por eu ter trado seu segredo. Mostrava-se inteiramente inacessvel e o tratamento 
fora um fracasso completo. O que se deveria fazer agora? - perguntou. Elisabeth se recusava a ter mais qualquer outra coisa a ver comigo. No respondi a isso. Era 
evidente que Elisabeth, depois de sair dos meus cuidados, faria mais uma tentativa de rejeitar a interveno da me e refugiar-se mais uma vez no isolamento. Mas 
eu tinha uma espcie de convico de que tudo acabaria bem e de que o trabalho que eu tivera no fora em vo. Dois meses depois elas voltaram a Viena, e o colega 
que me apresentara o caso deu-me notcias de que Elisabeth se sentia perfeitamente bem e se comportava como se no houvesse nada de errado com ela, embora ainda 
sofresse ocasionalmente de leves dores. Vrias vezes desde ento ela me enviou mensagens semelhantes e, em cada uma delas, prometeu vir ver-me. Mas  caracterstico 
da relao pessoal que se estabelece nos tratamentos dessa natureza que ela nunca o tenha feito. Como me assegura meu colega, ela deve ser considerada curada. A 
ligao do cunhado dela com a famlia permaneceu inalterada.
         Na primavera de 1894, eu soube que ela iria a um baile particular para o qual eu poderia obter um convite, e no deixei escapar a oportunidade de ver minha 
ex-paciente passar por mim rodopiando numa dana animada. Depois dessa ocasio, por sua prpria vontade, casou-se com algum que no conheo.
         
         
         DISCUSSO
         
         Nem sempre fui psicoterapeuta. Como outros neuropatologistas, fui preparado para empregar diagnsticos locais e eletroprognsticos, e ainda me causa estranheza 
que os relatos de casos que escrevo paream contos e que, como se poderia dizer, falte-lhes a marca de seriedade da cincia. Tenho de consolar-me com a reflexo 
de que a natureza do assunto  evidentemente a responsvel por isso, e no qualquer preferncia minha. A verdade  que o diagnstico local e as reaes eltricas 
no levam a parte alguma no estudo da histeria, ao passo que uma descrio pormenorizada dos processos mentais, como as que estamos acostumados a encontrar nas obras 
dos escritores imaginativos, me permite, com o emprego de algumas frmulas psicolgicas, obter pelo menos alguma espcie de compreenso sobre o curso dessa afeco. 
Os casos clnicos dessa natureza devem ser julgados como psiquitricos; entretanto, possuem uma vantagem sobre estes ltimos, a saber: uma ligao ntima entre a 
histria dos sofrimentos do paciente e os sintomas de sua doena - uma ligao pela qual ainda procuramos em vo nas biografias das outras psicoses.
         Ao relatar o caso da Srta. Elisabeth von R., esforcei-me por entrelaar as explicaes que pude fornecer sobre o caso com minha descrio do curso da recuperao 
da paciente. Talvez valha a pena reunir mais uma vez os pontos importantes. Descrevi o carter da paciente - as caractersticas que so encontradas com tanta freqncia 
nas pessoas histricas e que no h nenhuma desculpa para se considerar como conseqncia da degenerescncia: seus talentos variados, sua ambio, sua sensibilidade 
moral, sua excessiva exigncia de amor, a princpio atendida pela famlia, e a independncia de sua natureza, que ia alm do ideal feminino e encontrava expresso 
numa dose considervel de obstinao, combatividade e reserva. Nenhuma mancha hereditria aprecivel, segundo me disse meu colega, pde ser encontrada em qualquer 
dos dois lados da famlia.  verdade que a me sofrera por muitos anos de uma depresso neurtica que no fora investigada, mas os irmos e as irms da me, assim 
como o pai e a famlia deste, podiam ser considerados pessoas equilibradas, sem problemas nervosos. No ocorrera nenhum caso grave de neuropsicose entre os parentes 
prximos.
         Tal era a natureza da paciente, que agora se via dominada por emoes dolorosas, a comear pelo efeito depressivo de cuidar de seu querido pai durante uma 
doena prolongada.
         
         H bons motivos para que o fato de cuidar de pessoas doentes desempenhe um papel to significativo na pr-histria dos casos de histeria. Muitos dos fatores 
em ao so bvios: a perturbao da sade fsica que decorre do sono interrompido, o desleixo para consigo mesmo e o efeito da preocupao constante sobre as prprias 
funes vegetativas. Em minha opinio, porm, deve-se procurar o determinante mais importante em outra parte. Qualquer pessoa cuja mente seja ocupada pelas mil e 
uma tarefas envolvidas na prestao de cuidados a pessoas enfermas, tarefas essas que se seguem umas s outras numa sucesso interminvel por um perodo de semanas 
e meses, adotar, por um lado, o hbito de suprimir todos os sinais de sua prpria emoo, e por outro, logo desviar a ateno de suas prprias impresses, visto 
no ter nem tempo nem foras para apreci-las devidamente. Assim, acumula uma massa de impresses passveis de carregar afeto, que mal chegam a ser suficientemente 
percebidas e que, de qualquer modo, no foram enfraquecidas pela ab-reao. Est criando material para uma "histeria de reteno". Quando o doente se recupera,  
claro, todas essas impresses perdem seu significado. Mas quando ele morre e se instala ento o perodo de luto, no qual as nicas coisas que parecem ter valor so 
as que se relacionam com a pessoa que morreu, aquelas impresses que ainda no foram trabalhadas entram igualmente em cena, e aps um breve intervalo de exausto, 
irrompe a histeria, cujas sementes foram lanadas durante o tempo de prestao de cuidados ao doente.
         Tambm deparamos ocasionalmente com esse mesmo fato de os traumas acumulados durante a prestao de cuidados a um enfermo serem enfrentados mais tarde, 
sem que haja nenhuma impresso geral de doena, mas retendo-se ainda assim o mecanismo da histeria.  o caso, por exemplo, de uma senhora que conheo, extremamente 
bem-dotada, que sofre de leve nervosismo e cujo carter, como um todo, apresenta traos de histeria, embora ela nunca tenha tido que procurar assistncia mdica 
ou ficado impossibilitada de cumprir seus deveres. Ela j cuidou at o fim de trs ou quatro pessoas a quem amava. A cada vez, chegava a um estado de completo esgotamento, 
mas no adoecia depois desses trgicos esforos. Pouco depois da morte de cada paciente seu, contudo, iniciava-se nela um trabalho de reproduo que mais uma vez 
lhe colocava diante dos olhos as cenas da doena e da morte. Todos os dias ela repassava cada uma daquelas impresses, chorava e se consolava - a seu bel-prazer, 
poder-se-ia dizer. Esse processo de lidar com suas impresses encaixava-se em suas tarefas cotidianas sem que as duas atividades interferissem uma na outra. A situao 
inteira lhe passava pela mente em seqncia cronolgica. No sei dizer se o trabalho de rememorao correspondia dia a dia ao passado. Desconfio que isso dependia 
do nmero de horas de lazer proporcionadas por seus afazeres domsticos correntes.
         Alm dessas exploses de choro com que ela compensava o atraso e que ocorriam logo aps o trmino fatal da doena, essa senhora celebrava festivais anuais 
de lembranas no perodo de suas vrias catstrofes, e nessas ocasies sua ntida reproduo visual e suas expresses de sentimento se atinham rigorosamente s datas 
exatas. Por exemplo, uma vez encontrei-a chorando a perguntei-lhe amavelmente o que acontecera naquele dia. Ela repeliu minha pergunta, um pouco irritada: "No foi 
nada", disse, "foi s que o especialista esteve aqui hoje novamente e nos deu a entender que no havia mais nenhuma esperana. No tive tempo de chorar por causa 
disso na hora". Referia-se  ltima doena do marido, que falecera trs anos antes. Muito me interessaria saber se as cenas que ela relembrava nesses festivais anuais 
de recordaes eram sempre as mesmas, ou se a cada vez se apresentavam detalhes diferentes para fins de ab-reao, tal como suspeito em vista de minha teoria. Mas 
no posso saber com certeza. Essa senhora, que no tinha menos fora de carter do que inteligncia, sentia-se envergonhada do efeito violento que essas reminiscncias 
tinham sobre ela.
         Devo frisar mais uma vez que essa mulher no est doente; sua ab-reao retardada no era um processo histrico, por mais que se assemelhasse a tal processo. 
Podemos perguntar por que uma situao de velar por doentes  acompanhada de histeria e outra, no. No pode ser uma questo de predisposio individual, pois esta 
se achava presente em alto grau na senhora de que falei.
         Mas devo agora voltar  Srta. Elisabeth von R. Enquanto cuidava do pai, como vimos, ela desenvolveu pela primeira vez um sintoma histrico - uma dor numa 
regio especfica da coxa direita. Por meio da anlise, foi possvel encontrar uma elucidao adequada para o mecanismo do sintoma. Ele aconteceu no momento em que 
o crculo de idias que abrangia seus deveres para com o pai enfermo entrou em conflito com o contedo do desejo ertico que ela estava sentindo na poca. Sob a 
presso de intensas autocensuras, ela se decidiu em favor do primeiro e, ao faz-lo, provocou a dor histrica.
         De acordo com a viso sugerida pela teoria conversiva da histeria o que aconteceu pode ser descrito da seguinte maneira. Ela recalcou uma idia ertica 
fora da conscincia e transformou a carga de seu afeto em sensaes fsicas de dor. No ficou claro se esse primeiro conflito se apresentou a ela numa nica ocasio 
ou em vrias; a segunda alternativa  a mais provvel. Um conflito exatamente semelhante - embora de maior significao tica e ainda mais claramente estabelecido 
pela anlise - desenvolveu-se de novo alguns anos depois e levou a uma intensificao e uma extenso das mesmas dores para alm dos limites originais. Mais uma vez, 
foi um crculo de representaes de natureza ertica que entrou em conflito com todas as suas representaes morais, pois suas inclinaes centralizaram-se no cunhado 
e, tanto durante a vida da irm como depois de sua morte, a representao de ser atrada precisamente por esse homem lhe era totalmente inaceitvel. A anlise proporcionou 
informaes pormenorizadas sobre esse conflito, que foi o ponto central da histria da doena. Os germes do sentimento da paciente pelo cunhado podiam ter estado 
presentes por muito tempo; seu desenvolvimento foi favorecido pela exausto fsica devida  ampliao dos cuidados com os doentes e pela exausto moral devida s 
decepes que se estendiam por muitos anos. A frieza de sua natureza comeou a ceder e ela admitiu para si mesma sua necessidade do amor de um homem. Durante as 
vrias semanas que passou na companhia dele na estao de guas, seus sentimentos erticos, bem como suas dores, alcanaram seu clmax.
         A anlise, alm disso, deu provas de que durante o mesmo perodo a paciente se encontrava num estado psquico especial. A ligao desse estado com seus 
sentimentos erticos e suas dores parece possibilitar a compreenso do que aconteceu segundo a teoria da converso. Parece-me seguro afirmar que, na poca, a paciente 
s se conscientizou claramente de seus sentimentos pelo cunhado, por mais poderosos que fossem, numas poucas ocasies, e mesmo assim apenas momentaneamente. Se tivesse 
sido de outra forma, ela tambm se teria conscientizado, inevitavelmente, da contradio entre esses sentimentos e suas representaes morais, e teria experimentado 
tormentos mentais como os que a observei ter depois de nossa anlise. Ela no se lembrava de nenhum sofrimento desse tipo; havia-os evitado. Sucedeu que seus prprios 
sentimentos no ficaram claros para ela. Naquela poca, assim como durante a anlise, seu amor pelo cunhado estava presente em sua conscincia, como um corpo estranho, 
sem entrar em relao com o restante de sua vida representativa. Com relao a esses sentimentos, ela estava na situao peculiar de saber e, ao mesmo tempo, de 
no saber - situao, vale dizer, em que um grupo psquico  isolado. Mas isto, e nada mais,  o que queremos dizer quando afirmamos que esses sentimentos no estavam 
claros para ela. No queremos dizer que a conscincia deles fosse de qualidade inferior ou de menor grau, mas sim que eles foram isolados de qualquer livre conexo 
associativa de pensamento com o resto do contedo representativo de sua mente.
         Mas como poderia ocorrer que um grupo representativo com tanta fora emocional fosse mantido to isolado? Afinal de contas, em geral o papel desempenhado 
nas associaes por uma idia aumenta, proporcionalmente  quantidade de afetos que h nela.
         Poderemos responder a essa pergunta se levarmos em conta dois fatos que podemos usar como estabelecidos com certeza. (1) Simultaneamente  formao desse 
grupo psquico isolado, a paciente desenvolveu suas dores histricas. (2) A paciente ofereceu forte resistncia  tentativa de se promover uma associao entre o 
grupo psquico isolado e o resto do contedo de sua conscincia; e quando, apesar disso, a ligao se realizou, ela sentiu uma grande dor psquica. Nossa viso da 
histeria relaciona esses dois fatos com a diviso de sua conscincia, afirmando que o segundo deles indica o motivo para a diviso da conscincia, ao passo que o 
primeiro indica seu mecanismo. O motivo foi o de defesa - a recusa, por parte de todo o ego da paciente, a chegar a um acordo com esse grupo representativo. O mecanismo 
foi o de converso, isto , em lugar das dores mentais que ela evitou, surgiram as dores psquicas. Desse modo, efetuou-se uma transformao que teve a vantagem 
de livrar a paciente de uma condio mental intolervel, embora,  verdade,  custa de uma anormalidade psquica - a diviso da conscincia que se efetuou - e de 
uma doena fsica - suas dores, sobre as quais se desenvolveu uma astasia-abasia.
         Devo confessar que no posso oferecer nenhuma indicao de como se processa uma converso dessa natureza. Evidentemente, ela no se efetua da mesma maneira 
que uma ao intencional e voluntria.  um processo que ocorre sob a presso da motivao de defesa em algum cuja organizao - ou modificao temporria dela 
- tem uma tendncia nesse sentido.
         Essa teoria exige um exame mais detido. Podemos perguntar: o que  que se transforma aqui em dor fsica? Uma resposta cautelosa seria: algo que talvez se 
tivesse transformado e que deveria ter-se transformado em dor mental. Se nos aventurarmos um pouco mais e tentarmos representar o mecanismo representativo numa espcie 
de quadro algbrico, poderemos atribuir uma certa carga de afeto ao complexo representativo dos sentimentos erticos que permaneceram inconscientes e dizer que essa 
quantidade (a carga afetiva)  o que foi convertido. Resultaria diretamente dessa descrio que o "amor inconsciente" teria perdido tanto de sua intensidade atravs 
de uma converso desse tipo que se teria reduzido a apenas uma representao fraca. Essa reduo da fora seria, ento, a nica coisa que tornou possvel a existncia 
desses sentimentos inconscientes como um grupo psquico isolado. O presente caso, contudo, no se presta bem a dar um quadro ntido de um assunto to delicado, pois 
nele provavelmente s houve converso parcial; em outros, pode-se demonstrar com probabilidade que a converso completa tambm ocorre, e que nela a representao 
incompatvel  de fato "recalcada", como somente uma representao de intensidade muito fraca pode ser. Os pacientes em questo declaram, depois que a ligao associativa 
com a representao incompatvel se estabelece, que seus pensamentos no se voltavam para ela desde o aparecimento dos sintomas histricos.
         Afirmei anteriormente | ver em [1]| que em algumas ocasies, embora apenas por um momento, a paciente reconheceu conscientemente seu amor pelo cunhado. 
Como exemplo disso, podemos recordar o momento em que ela se encontrava de p junto  cama da irm e um pensamento lhe cruzou a mente: "Agora ele est livre e voc 
pode ser sua esposa" | ver em [1]|. Cabe-me agora considerar o significado desses momentos em sua relao com nossa viso de toda a neurose. Parece-me que o prprio 
conceito de "histeria de defesa" implica que pelo menos um desses momentos deve ter ocorrido. A conscincia simplesmente no sabe por antecipao quando uma representao 
incompatvel vai aflorar. A representao incompatvel, que juntamente com as que lhe esto associadas  depois excluda e forma um grupo psquico separado, deve 
originalmente ter estado em comunicao com a corrente principal de pensamento. De outra forma, o conflito que levou a sua excluso no poderia ter ocorrido. So 
esses momentos, portanto, que devem ser classificados de "traumticos";  nesses momentos que ocorre a converso, cujos resultados so a diviso da conscincia e 
o sintoma histrico. No caso da Srta. Elisabeth von R., tudo indica que ocorreram vrios desses momentos - as cenas do passeio, o devaneio matinal, o banho e a presena 
 cabeceira da irm.  at possvel que novos momentos da mesma espcie tenham acontecido durante o tratamento. O que possibilita a existncia de vrios desses momentos 
traumticos  que as experincias semelhantes  que originalmente introduziu a representao incompatvel acrescentam uma nova excitao ao grupo psquico separado 
e, desse modo, suspendem temporariamente o xito da converso. O ego  obrigado a prestar ateno a essa irrupo sbita da representao e a restaurar o antigo 
estado de coisas atravs de uma nova converso. A Srta. Elisabeth, que passava muito tempo na companhia do cunhado, deve ter ficado particularmente sujeita  ocorrncia 
de novos traumas. Do ponto de vista da minha exposio atual, eu teria preferido um caso em que a histria traumtica se situasse inteiramente no passado.
         Cabe-me agora tocar num ponto que conforme descrevi | ver em [1]-[2]| levanta um obstculo  compreenso desse caso. Baseando-se na anlise, presumi que 
uma primeira converso havia ocorrido quando a paciente estava cuidando do pai, na poca em que seus deveres de enfermeira entraram em conflito com seus desejos 
erticos, e que o que aconteceu ento foi o prottipo dos eventos posteriores, na estao de guas nos Alpes, que levaram  irrupo da doena. Mas parecia, pelo 
relato da paciente, que enquanto cuidava do pai e durante o tempo que se seguiu - o que descrevi como o "primeiro perodo" - ela no teve nenhuma dor e nenhuma fraqueza 
locomotora.  verdade que certa vez, durante a doena do pai, ela esteve acamada por alguns dias com dores nas pernas, mas permaneceu uma dvida quanto a determinar 
se esse ataque deveria ser atribudo  histeria. No se pde achar na anlise nenhuma ligao causal entre essas primeiras dores e qualquer impresso psquica.  
possvel, e na realidade provvel, que o que ela sentia na poca fossem dores musculares reumticas comuns. Alm disso, mesmo que estivssemos inclinados a supor 
que esse primeiro acesso de dores foi o efeito de uma converso histrica devida ao repdio de seus pensamentos erticos na poca, permanece o fato de que as dores 
desapareceram depois de apenas alguns dias, de modo que a paciente se comportara, na vida real, de maneira diferente do que pareceu indicar na anlise. Durante a 
reproduo do que denominei de primeiro perodo, todas as histrias da paciente sobre a doena e morte do pai, sobre suas impresses acerca do relacionamento com 
o primeiro cunhado, e assim por diante, foram acompanhadas de dores, ao passo que, na poca em que efetivamente vivenciou essas impresses, ela no sentira dor alguma. 
No seria esta uma contradio destinada a reduzir bastante nossa crena no valor explicativo de uma anlise como esta?
         Creio que posso solucionar essa contradio presumindo que as dores - os produtos da converso - no ocorreram enquanto a paciente estava experimentando 
as impresses do primeiro perodo, mas s posteriormente, isto , no segundo perodo, enquanto reproduzia essas impresses em seus pensamentos. Em outras palavras, 
a converso no se deu ligada a suas impresses enquanto novas, mas sim em conexo com suas lembranas das mesmas. Acredito mesmo que esse curso dos acontecimentos 
no  nada incomum na histeria e que, na verdade, desempenha um papel regular na gnese dos sintomas histricos. Mas como uma afirmao desse tipo no  evidente 
em si mesma, tentarei torn-la mais plausvel apresentando mais alguns exemplos.
         Certa vez aconteceu que um novo sintoma histrico se desenvolveu numa paciente em pleno curso de um tratamento analtico dessa espcie, de modo que pude 
empreender a tarefa de me livrar dele um dia aps seu aparecimento. Interpolarei aqui as principais caractersticas do caso. Foi um caso bem simples, porm no destitudo 
de interesse.
         A Srta. Rosalia H., de vinte e trs anos de idade, vinha h alguns anos estudando para tornar-se cantora. Tinha boa voz, mas se queixava de que, em certas 
partes de seu registro, perdia o controle sobre ela. Tinha uma sensao de sufocamento e de constrio na garganta, de modo que sua voz soava velada. Por esse motivo 
seu professor ainda no pudera consentir que ela se apresentasse em pblico como cantora. Embora essa imperfeio lhe afetasse apenas o registro mdio, no podia 
ser atribuda a um defeito no prprio rgo. s vezes a perturbao desaparecia por completo e seu professor expressava grande satisfao; em outras ocasies, bastava 
ela estar um pouco agitada, algumas vezes sem nenhuma causa aparente, para que a sensao de constrio reaparecesse e a produo da voz fosse prejudicada. No foi 
difcil reconhecer uma converso histrica nessa sensao extremamente perturbadora. No tomei nenhuma providncia para descobrir se havia de fato uma contratura 
dos msculos das cordas vocais. Durante a anlise hipntica que realizei com a moa vim a saber dos seguintes fatos sobre sua histria e, conseqentemente, sobre 
a causa de seu problema. Ela perdera os pais cedo e fora levada para morar com uma tia que tinha muitos filhos. Em conseqncia disso, envolveu-se numa vida familiar 
muito infeliz. O marido da tia, que era uma pessoa visivelmente patolgica, maltratava de maneira brutal a esposa e os filhos. Feria os sentimentos deles, sobretudo 
pela forma como demonstrava uma evidente preferncia sexual pelas criadas e amas da casa; e quanto mais os filhos foram crescendo, mais ofensivo isso se tornou. 
Aps a morte da tia, Rosalia tornou-se a protetora da multido de crianas que agora eram rfs e oprimidas pelo pai. Ela levava seus deveres a srio e superou todos 
os conflitos a que sua posio a conduziu, embora isso requeresse grande esforo para reprimir o dio e o desprezo que sentia pelo tio. Foi nessa poca que a sensao 
de constrio na garganta comeou. Todas as vezes que tinha de refrear uma resposta, ou se obrigava a ficar calada em face de alguma acusao ultrajante, sentia 
a garganta arranhar e apertar e perdia a voz - todas as sensaes localizadas na laringe ou na faringe que agora interferiam com o canto. No era de admirar que 
ela buscasse uma oportunidade para se tornar independente e escapar das agitaes e das experincias aflitivas que ocorriam diariamente na casa do tio. Um professor 
de canto muito competente ajudou-a de modo desinteressado e lhe assegurou que sua voz justificava que escolhesse o canto como profisso. Ela comeou ento a tomar 
lies com ele em segredo. Mas muitas vezes saa s pressas para a aula de canto enquanto ainda tinha a constrio na garganta, que costumava persistir aps cenas 
violentas em casa. Como conseqncia, estabeleceu-se com firmeza uma ligao entre o canto e sua paraestesia histrica - uma ligao para a qual o caminho foi preparado 
pelas sensaes orgnicas provocadas pelo canto. O aparelho sobre o qual ela deveria ter pleno controle quando cantava revelou-se catexizado com resduos de inervao 
que sobraram das numerosas cenas de emoo reprimida. Depois dessa poca, ela abandonou a casa do tio e se mudou para outra cidade, para ficar longe da famlia. 
Mas isso no eliminou sua dificuldade.
         
         Essa moa bonita e excepcionalmente inteligente no exibia quaisquer outros sintomas histricos.
         Fiz o melhor que pude para livr-la dessa "histeria de reteno" fazendo-a narrar todas as suas experincias perturbadoras e a ab-reagi-las a posteriori. 
Fiz com que destratasse o tio, lhe passasse sermes, lhe dissesse a verdade nua e crua e assim por diante, e esse tratamento lhe fez bem. Infelizmente, contudo, 
ela vivia em Viena em condies muito desfavorveis. No tinha sorte com os parentes. Fora alojada por outro tio, que a tratava de maneira amistosa, mas exatamente 
por esse motivo a tia tomara averso a ela. Essa mulher suspeitava que o marido tinha um interesse mais profundo pela sobrinha e, assim resolveu tornar-lhe a estada 
em Viena to desagradvel quanto possvel. A prpria tia, em sua mocidade, fora obrigada a desistir de uma carreira artstica e invejava a sobrinha por poder cultivar 
seu talento, embora no caso da moa no tivesse sido seu desejo, mas sua necessidade de independncia, que lhe determinara a deciso. Rosalie sentia-se to constrangida 
na casa que no se aventurava, por exemplo, a cantar ou tocar piano enquanto a tia pudesse ouvi-la, e evitava cuidadosamente cantar ou tocar para o tio (que, alis, 
era um senhor idoso, irmo de sua me) quando havia alguma possibilidade de a tia entrar. Enquanto eu tentava eliminar os vestgios de antigas agitaes, surgiram 
outras a partir dessas relaes com seu anfitrio e sua anfitrioa, que por fim interferiram no xito do meu tratamento e o levaram a um fim prematuro.
         Um dia a paciente chegou para a sesso com um novo sintoma, que no chegava a ter vinte e quatro horas. Queixava-se de uma desagradvel sensao de alfinetadas 
nas pontas dos dedos, as quais, segundo disse, vinha sentindo com intervalos de poucas horas desde o dia anterior e que a obrigavam a fazer um movimento peculiar 
de contoro dos dedos. No cheguei a observar um acesso, caso contrrio sem dvida teria podido adivinhar, pela natureza dos movimentos, o que os havia ocasionado. 
Mas imediatamente tentei seguir a trilha da explicao do sintoma (era, na verdade, um ataque histrico menor) pela anlise hipntica. Visto que a coisa s comeara 
a existir h to pouco tempo, eu tinha esperana de poder explicar rapidamente o sintoma e elimin-lo. Para minha surpresa, a paciente desfiou um grande nmero de 
cenas, sem hesitao e em ordem cronolgica, a comear por sua primeira infncia. Pareciam ter em comum o fato de lhe ter sido causado algum dano do qual ela no 
pudera defender-se e que teria feito seus dedos estremecerem. Eram cenas, por exemplo, como a de ter que estender a mo na escola para que o professor lhe batesse 
com uma rgua. Mas tinham sido ocasies muito comuns e eu estava preparado para negar que pudessem desempenhar um papel na etiologia de um sintoma histrico. Mas 
foi diferente com uma cena de sua infncia que ela descreveu. O tio mau, que sofria de reumatismo, pedira-lhe que massageasse suas costas e ela no ousara recusar. 
Na ocasio, ele estava deitado na cama e, de repente, jogou longe os lenis, deu um salto e tentou agarr-la e derrub-la na cama. A massagem,  claro, estava terminada, 
e no momento seguinte ela havia fugido e se trancado em seu quarto. Ficou claro que ela relutava em se lembrar disso e no estava disposta a dizer se vira algo quando 
ele se descobriu subitamente. As sensaes nos dedos poderiam ser explicadas, nesse caso, pelo impulso reprimido de puni-lo, ou simplesmente por t-lo massageado 
na ocasio. Foi somente depois de relatar essa cena que ela chegou  do dia anterior, depois da qual a sensao e os tremores nos dedos haviam-se instalado como 
um smbolo mnmico recorrente. O tio com quem ela morava agora pedira-lhe que tocasse alguma coisa. Ela se sentara ao piano e se acompanhara numa cano, pensando 
que a tia houvesse sado, mas, de repente, esta apareceu na porta. Rosalie deu um salto, fechou violentamente a tampa do piano e jogou longe a partitura. Podemos 
adivinhar qual foi a lembrana que lhe surgiu  mente e qual a seqncia de pensamentos que ela estava rechaando naquele momento: um sentimento intenso de ressentimento 
pela suspeita injusta a que ficou sujeita e que a teria levado a abandonar a casa, ao passo que, na verdade, se via obrigada a permanecer em Viena por causa do tratamento 
e no havia nenhum outro lugar onde pudesse alojar-se. O movimento dos dedos que a vi fazer enquanto narrava essa cena foi o de afastar algo retorcendo os dedos, 
da maneira como em sentido literal ou figurado, pomos algo de lado - jogamos fora um pedao de papel ou rejeitamos uma sugesto.
         Ela foi muito firme em sua insistncia de que no havia notado esse sintoma antes - de que ele no fora ocasionado pelas cenas inicialmente descritas por 
ela. Assim, s nos restou supor que o acontecimento da vspera havia, em primeiro lugar, despertado a lembrana de acontecimentos anteriores de temtica semelhante, 
e que a partir da se formara um smbolo mnmico que se aplicava a todo o grupo de lembranas. A energia para a converso fora suprida, de um lado, por um afeto 
renovado e, de outro, pelo afeto relembrado.
         
         Ao considerarmos a questo mais detidamente, devemos reconhecer que um processo dessa natureza  mais a regra do que a exceo na gnese dos sintomas histricos. 
Quase invariavelmente, ao investigar os determinantes desses estados, o que tenho encontrado no  uma nica causa traumtica, mas um grupo de causas semelhantes. 
(Isso foi bem exemplificado no caso da Sra. Emmy - Caso 2). Em alguns desses exemplos, foi possvel comprovar que o sintoma em causa j aparecera por um breve perodo 
aps o primeiro trauma e depois passara, at ser novamente provocado e estabilizado por um trauma subseqente. No existe, contudo, em princpio, nenhuma diferena 
entre o fato de o sintoma surgir dessa forma temporria aps sua primeira causa provocadora e o fato de estar latente desde o comeo. Com efeito, na grande maioria 
dos exemplos, verificamos que um primeiro trauma no deixa nenhum sintoma, ao passo que um trauma posterior da mesma espcie produz um sintoma, s que este ltimo 
no pode ter surgido sem a cooperao da causa provocadora anterior, nem pode ter esclarecido sem se levarem em conta todas as causas provocadoras.
         
         Enunciado em termos da teoria da converso, esse fato indiscutvel da soma dos traumas e da latncia preliminar dos sintomas nos ensina que a converso 
pode resultar tanto de sintomas novos quanto dos que so relembrados. Essa hiptese explica inteiramente a aparente contradio que observamos entre os fatos da 
doena da Srta. Elisabeth von R. e sua anlise. No resta dvida de que a existncia persistente na conscincia de idias cujo afeto no foi trabalhado pode ser 
tolerada em alto grau por indivduos saudveis. A opinio que acabo de apresentar nada mais faz do que aproximar o comportamento das pessoas histricas do das pessoas 
sadias. O que nos interessa aqui  claramente um fator quantitativo - a questo de qual o grau mximo de tenso afetiva dessa natureza que o organismo pode tolerar. 
Mesmo uma pessoa histrica  capaz de reter certa quantidade de afeto com o qual no se lidou; quando, em virtude da ocorrncia de causas provocadoras semelhantes, 
essa quantidade  aumentada pela soma at um ponto alm da tolerncia do indivduo, d-se o mpeto para a converso. Assim, quando dizemos que a formao dos sintomas 
histricos pode processar-se com base tanto em afetos relembrados quanto em afetos novos, no estamos fazendo nenhuma afirmao desconhecida, e sim declarando algo 
que  quase aceito como um postulado.
         Acabo de examinar os motivos e o mecanismo desse caso de histeria; resta-me considerar com que preciso o sintoma histrico foi determinado. Por que foi 
que o sofrimento mental da paciente passou a ser representado por dores nas pernas e no em qualquer outra parte? As circunstncias indicam que essa dor somtica 
no foi criada pela neurose, mas apenas utilizada, aumentada e mantida por ela. Posso acrescentar imediatamente que encontrei um estado de coisas semelhantes em 
quase todos os casos de dores histricas dos quais pude obter alguma compreenso. | ver em [1].| Sempre estivera presente, no incio, uma dor autntica, de base 
orgnica. Parece que as dores humanas mais comuns e mais difundidas so as escolhidas com mais freqncia para desempenhar um papel na histeria: em particular, as 
dores periosteais e nevrlgicas que acompanham as doenas dentrias, as dores de cabea provenientes de muitas fontes diferentes e, no com menos freqncia, as 
dores musculares reumticas que tantas vezes deixam de ser reconhecidas | ver em [1]|. Da mesma forma, atribuo uma base orgnica ao primeiro acesso de dor da Srta. 
Elisabeth von R., que ocorreu muito antes, quando ela ainda cuidava do pai. No obtive nenhum resultado quando tentei descobrir uma causa psquica para ela - e estou 
inclinado, devo confessar, a atribuir um poder de diagnstico diferencial a meu mtodo de evocar lembranas ocultas, contanto que ele seja utilizado com cuidado. 
Essa dor, que fora reumtica em sua origem, tornou-se ento um smbolo mnmico das excitaes psquicas penosas da paciente, e isso aconteceu, at onde posso ver, 
por mais de uma razo. A primeira, e sem dvida a mais importante delas, foi que a dor se achava presente na conscincia |de Elisabeth| mais ou menos na mesma poca 
que as excitaes. Em segundo lugar, estava ligada, ou poderia estar ligada, por muitos caminhos com as idias em sua mente na poca. De fato, a dor pode realmente 
ter sido uma conseqncia, embora apenas remota, do perodo em que ela cuidara dos doentes - da falta de exerccio e da alimentao reduzida que seus deveres de 
enfermeira acarretavam. Mas a moa no tinha nenhum conhecimento ntido disso. Maior importncia provavelmente h de ser atribuda ao fato de que ela deve ter sentido 
a dor naquela ocasio em momentos significativos, por exemplo, quando pulava da cama no frio do inverno em resposta aos chamados do pai | ver em [1]|. Mas o que 
deve ter tido influncia positivamente decisiva sobre o rumo tomado pela converso foi outra linha de conexo associativa | ver em [1]|: o fato de que, durante vrios 
dias seguidos, uma de suas pernas doloridas entrou em contato com a perna intumescida do pai enquanto as ataduras eram trocadas. A regio da perna direita que foi 
marcada por esse contato ficou sendo, a partir da, o foco de suas dores e o ponto de onde elas se irradiavam.  Formou uma zona histerognica artificial cuja origem, 
no presente caso, pde ser claramente observada.
         Se algum ficar surpreso com essa conexo associativa entre a dor fsica e o afeto psquico, em razo de ela ser de carter to mltiplo e artificial, devo 
responder que esse sentimento  to pouco justificado quanto a surpresa diante do fato de serem os ricos aqueles que tm mais dinheiro. Na verdade, quando no existem 
essas conexes to numerosas, o sintoma histrico no se forma, pois a converso no encontra nenhuma trilha aberta para ela. E posso afirmar que, quanto a sua determinao, 
o exemplo da Srta. Elisabeth von R. situou-se entre os mais simples. J tive que desenredar fios dos mais emaranhados, especialmente no caso da Sra. Caecilie M.
         No relato do caso clnico | ver em [1] e segs.| j discuti a maneira pela qual a astasia-abasia da paciente se desenvolveu sobre essas dores, depois de 
uma trilha especfica ter sido aberta para a converso. Naquele trecho, contudo tambm externei a opinio de que a paciente criara ou aumentara seu distrbio funcional 
por meio da simbolizao, que encontrara na astasia-abasia uma expresso somtica para sua falta de uma posio independente e sua incapacidade de fazer qualquer 
alterao em suas circunstncias de vida, e que expresses como "no ser capaz de dar um nico passo  frente" e "no ter nada em que se apoiar" serviram de ponte 
para esse novo ato de converso | ver em [1]|.
         Tentarei sustentar esse ponto de vista por meio de outros exemplos. A converso com base na simultaneidade, quando h tambm uma ligao associativa, parece 
ser a que menos exige uma predisposio histrica; a converso por simbolizao, por outro lado, parece exigir a presena de um grau mais elevado de modificaes 
histricas. Isso pde ser observado no caso da Srta. Elisabeth, mas apenas no ltimo estgio de sua histeria. Os melhores exemplos de simbolizao que vi ocorreram 
na Sra. Caecilie M., cujo caso eu poderia descrever de o mais grave e instrutivo que j tive. J expliquei | ver em [1]| que um relato pormenorizado de sua doena 
 infelizmente impossvel.
         A Sra. Caecilie sofria, entre outras coisas, de uma nevralgia facial extremamente violenta, que surgia subitamente duas ou trs vezes por ano, durava de 
cinco a dez dias, resistia a qualquer espcie de tratamento e cessava abruptamente. Limitava-se  segunda e terceira ramificaes do trigmeo, e visto que uma excreo 
anormal de uratos estava sem dvida alguma presente e que um "reumatismo agudo" no muito bem definido desempenhava certo papel na histria da paciente, o diagnstico 
de nevralgia gotosa era bastante plausvel. Esse diagnstico foi confirmado pelos diferentes mdicos chamados a cada acesso. Prescrevia-se o tratamento comum para 
esses casos: escova eltrica, gua alcalina e purgantes; mas a cada vez a nevralgia se mantinha inalterada at que resolvia dar lugar a outro sintoma. Numa poca 
anterior de sua vida - a nevralgia tinha quinze anos de idade -, os dentes da paciente tinham sido responsabilizados pelo problema. Foram condenados  extrao e, 
um belo dia, sob narcose, a sentena foi executada em sete dos criminosos. Essa tarefa no foi to fcil; os dentes estavam presos com tanta firmeza que as razes 
da maioria deles tiveram que ser deixadas no lugar. Essa operao cruel no teve nenhum resultado, nem temporrio nem permanente. Naquela poca, a nevralgia campeou 
por meses a fio. Mesmo durante meu tratamento, a cada acesso de nevralgia o dentista era chamado. Em todas essas ocasies, ele diagnosticou a presena de razes 
doentes e comeou a trabalhar nelas; mas, em geral, logo foi interrompido, pois a nevralgia cessava de repente, ao mesmo tempo, cessava a necessidade dos servios 
do dentista. No intervalo entre as crises, os dentes da paciente no doam. Certo dia, quando um acesso estava outra vez campeando furiosamente, a paciente fez com 
que eu lhe aplicasse tratamento hipntico. Proibi-lhe energicamente que sentisse dores e, a partir desse momento, elas pararam. Comecei ento a ter dvidas quanto 
 autenticidade da nevralgia.
         Cerca de um ano aps esse tratamento hipntico bem-sucedido, a doena da Sra. Caecilie assumiu uma forma nova e surpreendente. Ela subitamente apresentou 
novos estados patolgicos, diferentes dos que haviam caracterizado os ltimos anos. Mas, aps pensar um pouco, a paciente declarou que tivera todos eles em vrias 
ocasies durante sua longa doena, que datava de trinta anos antes. Surgiu ento uma abundncia realmente surpreendente de ataques histricos a que a paciente pde 
atribuir um lugar preciso no passado. Logo foi possvel acompanhar tambm as cadeias de pensamento muitas vezes complexas que determinaram a ordem de ocorrncia 
desses ataques. Elas pareciam uma srie de quadros com textos explanatrios. Pitres deve ter pensado em algo semelhante ao apresentar sua descrio do que denominou 
de "dlire ecmnsique". Era notvel observar a maneira como um ataque histrico desse tipo, pertencente ao passado, era reproduzido. Primeiro surgia, enquanto a 
paciente gozava da melhor sade, um estado de "nimo patolgico com um colorido especfico, que ela sistematicamente interpretava mal e atribua a algum acontecimento 
corriqueiro das ltimas horas. A seguir, acompanhados por uma crescente turvao da conscincia, sobrevinham os sintomas histricos: alucinaes, dores, espasmos 
e longos discursos declamatrios. Por fim, estes sintomas eram seguidos pela emergncia, sob forma alucinatria, de uma experincia passada que tornava possvel 
explicar seu estado de esprito inicial e o que determinara os sintomas de seu atual ataque. Com essa ltima parte do ataque ela recuperava a lucidez mental. Seus 
problemas desapareciam como que num passe de mgica e ela voltava a sentir-se bem - at o ataque seguinte, meio dia depois. Em geral, eu era chamado no clmax do 
ataque, induzia um estado de hipnose, evocava a reproduo da experincia traumtica e apressava o final do ataque por meios artificiais. Como assisti a vrias centenas 
desses ciclos com a paciente, obtive as informaes mais instrutivas sobre a maneira pela qual os sintomas histricos so determinados. Na realidade, foi o estudo 
desse caso notvel, juntamente com Breuer, que levou diretamente  publicao de nossa "Comunicao Preliminar" |de 1893, que serve de introduo ao presente volume|.
         Nessa fase do trabalho chegamos finalmente  reproduo de sua nevralgia facial, que eu prprio tratara nas ocasies em que surgiu em ataques atuais. Estava 
curioso em descobrir se tambm a nevralgia mostraria ter uma causa psquica. Quando comecei a evocar a cena traumtica, a paciente viu-se de volta a um perodo de 
grande irritabilidade mental para com o marido. Descreveu uma conversa que tivera com ele e uma observao dele que ela sentira como um spero insulto. De repente, 
levou a mo  face, soltou um grande grito de dor e exclamou: "Foi como uma bofetada no rosto". Com isso, cessaram tanto a dor como o ataque.
         No h dvida de que o que acontecera fora uma simbolizao. Ela se sentira como se tivesse realmente recebido uma bofetada. Todos perguntaro imediatamente 
como foi que a sensao de uma "bofetada no rosto" veio a assumir os contornos externos de uma nevralgia do trigmeo, por que se restringiu s segundas e terceiras 
ramificaes e por que piorava quando a paciente abria a boca e mastigava - embora, diga-se de passagem, no quando ela falava.
         No dia seguinte, a nevralgia estava de volta. Mas dessa vez foi dissipada pela narrao de outra cena, cujo contedo fora, mais uma vez, um suposto insulto. 
As coisas continuaram assim por nove dias. Parecia que, durante anos, os insultos, principalmente os externados verbalmente, haviam, atravs da simbolizao, provocado 
novos ataques de sua nevralgia facial.
         Mas por fim repercorreu o caminho de volta a seu primeiro acesso de nevralgia, mais de quinze anos antes. Ali no tinha havido simbolizao, mas uma converso 
atravs da simultaneidade. Ela vira um quadro doloroso, acompanhado de sentimentos de autocensura, e isso a forara a rechaar outro grupo de pensamentos. Assim, 
tratava-se de um caso de conflito e defesa. A gerao da nevralgia naquele momento s podia ser explicada pela suposio de que ela estava sofrendo, na poca, de 
leves dores de dentes ou de dores no rosto, e isso no era improvvel, visto que ela estava ento nos primeiros meses de sua primeira gravidez.
         Assim, a explicao foi que essa nevralgia passara a ser indicativa de uma excitao psquica especfica pelo mtodo usual da converso, mas que, posteriormente, 
pde ser acionada atravs de reverberaes associativas provenientes de sua vida mental ou da converso simblica - a rigor, o mesmo comportamento que encontramos 
na Srta. Elisabeth von R.
         Darei um segundo exemplo que demonstra a ao da simbolizao em outras condies. Num determinado perodo, a Sra. Caecilie foi acometida de uma violenta 
dor no calcanhar direito - uma dor lancinante a cada passo que dava, que tornou impossvel andar. A anlise levou-nos, com relao a isso, a uma poca em que a paciente 
estivera num sanatrio no exterior. Ela passara uma semana de cama e ia ser levada ao refeitrio comum pela primeira vez pelo mdico residente. A dor sobreveio no 
momento em que ela lhe tomou o brao para sair da sala com ele; desapareceu durante a reproduo da cena, quando a paciente me disse que, no ocasio, ficara com 
medo de no "acertar o passo" com aqueles estranhos.
         A princpio, isso parece ser um exemplo surpreendente e mesmo cmico da gnese dos sintomas histricos atravs da simbolizao por meio de uma expresso 
verbal. Um exame mais detido da situao, no entanto, favorece outra opinio do caso. A paciente vinha sofrendo, na poca, de dores generalizadas nos ps, e fora 
por causa delas que ficara presa ao leito por tanto tempo. Tudo o que se poderia alegar em favor da simbolizao era que o medo que dominou a paciente ao dar os 
primeiros passos escolheu, dentre todas as dores que a afligiam na poca, a dor especfica que era simbolicamente apropriada, a dor no calcanhar direito, e a transformara 
numa dor psquica, imprimindo-lhe uma persistncia especial.
         Nesses exemplos, o mecanismo da simbolizao parece ser relegado a uma importncia secundria, como sem dvida  a regra geral. Mas disponho de exemplos 
que parecem provar a gnese dos sintomas histricos apenas atravs da simbolizao. O exemplo que se segue  um dos melhores e se relaciona, mais uma vez, com a 
Sra. Caecilie. Quando contava quinze anos, ela estava deitada na cama sob o olhar vigilante da av rigorosa. A moa subitamente deu um grito; sentira uma dor penetrante 
na testa, entre os olhos, que durou semanas. No decorrer da anlise dessa dor, que foi descrita aps quase trinta anos, ela me disse que a av lhe dirigira um olhar 
to "penetrante" que fora direto at o crebro. (Ela sentira medo de que a velha a estivesse olhando com desconfiana.) Ao contar-me isso, irrompeu numa sonora gargalhada 
e a dor mais uma vez desapareceu. Neste caso, no posso discernir outra coisa seno o mecanismo da simbolizao, que tem seu lugar, em certo sentido, a meio caminho 
entre a auto-sugesto e a converso.
         Minha observao da Sra. Caecilie M. proporcionou-me a oportunidade de fazer uma coletnea sistemtica de tais simbolizaes. Todo um grupo de sensaes 
fsicas que normalmente se considera que so determinadas por causas orgnicas era, no caso dela, de origem psquica, ou pelo menos possua um significado psquico. 
Uma srie especfica de suas experincias foi acompanhada por uma sensao de punhalada na regio cardaca (significando "apunhalou-me no corao"). A dor, que ocorre 
na histeria, em que se cravam pregos na cabea tinha sem dvida de ser explicada, no caso dela, como uma dor relacionada com o pensamento. ("Uma coisa me entrou 
na cabea.") As dores dessa espcie eram sempre dissipadas to logo os problemas em jogo eram esclarecidos. Junto com a sensao de uma "aura" histrica na garganta, 
quando essa sensao surgia aps um insulto, havia a idia de que "terei de engolir isto". A paciente apresentava uma quantidade enorme de sensaes e idias que 
corriam paralelamente umas s outras. Ora a sensao evocava a idia que a explicava, ora a idia criava a sensao por meio de simbolizao, e no raro tinha-se 
que deixar em aberto a questo de qual dos dois elementos fora o primrio.
         
         No constatei nenhum uso to extenso da simbolizao em qualquer outro paciente.  verdade que a Sra. Caecilie M.era uma mulher de talentos bastante incomuns, 
principalmente artsticos, e cujo senso muito desenvolvido da forma era revelado em alguns poemas de grande perfeio. Sou de opinio, contudo, que quando um histrico 
cria uma expresso somtica para uma idia emocionalmente colorida, atravs da simbolizao, isso depende menos do que se poderia imaginar de fatores pessoais ou 
voluntrios. Ao tomar uma expresso verbal ao p da letra e sentir uma "punhalada no corao" ou uma "bofetada no rosto" aps um comentrio depreciativo vivido como 
um fato real, o histrico no est tomando liberdades com as palavras, mas simplesmente revivendo mais uma vez as sensaes a que a expresso verbal deve sua justificativa. 
Como poderamos referir-nos a algum que foi menosprezado dizendo que foi "apunhalado no corao", a menos que o menosprezo tivesse de fato sido acompanhado por 
uma sensao precordial que poderia ser adequadamente descrita por essa expresso e a menos que fosse identificvel por essa sensao? O que poderia ser mais provvel 
do que a idia de que a figura de linguagem "engolir alguma coisa", que empregamos ao falar de um insulto ao qual no foi apresentada nenhuma rplica, originou-se 
na verdade das sensaes inervatrias que surgem na faringe quando deixamos de falar e nos impedimos de reagir ao insulto? Todas essas sensaes e inervaes pertencem 
ao campo da "Expresso das Emoes", que, como nos ensinou Darwin |1872|, consiste em aes que originalmente possuam um significado e serviam a uma finalidade. 
Em sua maior parte, estas podem ter-se enfraquecido tanto que sua expresso em palavras nos parece ser apenas um quadro figurativo delas, ao passo que, com toda 
probabilidade, essa descrio um dia foi tomada em seu sentido literal; e a histeria tem razo em restaurar o significado original das palavras ao retratar suas 
inervaes inusitadamente fortes. Com efeito, talvez seja errado dizer que a histeria cria essas sensaes atravs da simbolizao.  possvel que ela no tome em 
absoluto o uso da lngua como seu modelo, mas que tanto a histeria quanto o uso da lngua extraiam seu material de uma fonte comum. [1]
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
       III - CONSIDERAES TERICAS
         (BREUER)
         
         
         Na "Comunicao Preliminar" que introduz este trabalho formulamos as concluses a que fomos levados por nossas observaes, e penso que posso mant-las 
em essncia. Mas a "Comunicao Preliminar"  to curta e concisa que, em sua maior parte, s nos foi possvel ventilar nossos conceitos. Portanto, agora que os 
casos clnicos apresentaram provas que confirmam nossas concluses, talvez seja permissvel enunci-las mais amplamente. Por certo aqui no  uma questo,  evidente, 
de lidar com todo o campo da histeria. Mas talvez possamos dar um tratamento mais detido e mais claro (com acrscimo de algumas ressalvas, sem dvida) dos pontos 
para os quais foram reunidas provas insuficientes ou que no receberam bastante destaque na "Comunicao Preliminar".
         No que se segue, far-se- pouca meno ao crebro e nenhuma absolutamente s molculas. Os processos psquicos sero abordados na linguagem da psicologia; 
e, a rigor, no poderia ser de outra forma. Se em vez de "idia" escolhssemos falar em "excitao do crtex", a segunda expresso s teria algum sentido para ns 
na medida em que reconhecssemos um velho amigo sob esse disfarce e tacitamente restaurssemos a "idia". Pois, enquanto as idias so objetos permanentes de nossa 
experincia e nos so familiares em todas as suas gradaes de significado, as "excitaes corticais" pelo contrrio, tm mais a natureza de um postulado: so objetos 
que temos a esperana de identificar no futuro. A substituio de um termo pelo outro no pareceria ser mais do que um disfarce desnecessrio. Por conseguinte, talvez 
me seja perdoado recorrer quase exclusivamente a termos psicolgicos.
         H outro aspecto para o qual devo pedir de antemo a indulgncia do leitor. Quando uma cincia vem fazendo rpidos avanos, certos pensamentos inicialmente 
expressos por indivduos isolados logo se transformam em domnio pblico. Dessa forma, ningum que tente formular hoje seus conceitos sobre a histeria e sua base 
psquica pode evitar repetir um grande nmero de idias de outrem que se acham em transio do domnio pessoal para o pblico.  difcil ter sempre a certeza de 
quem os expressou pela primeira vez, e h sempre o perigo de se considerar como produto prprio o que j foi dito por terceiros. Espero, portanto, que me desculpem 
se forem encontradas poucas citaes neste trabalho e se no for feita qualquer distino rigorosa entre o que  de minha prpria lavra e o que tem origens alhures. 
Reivindicamos originalidade para uma parte muito pequena do que ser encontrado nas pginas que se seguem.
         
         (1) SERO IDEOGNICOS TODOS OS FENMENOS HISTRICOS?
         
         Em nossa "Comunicao Preliminar" examinamos o mecanismo psquico dos "fenmenos histricos", e no da "histeria", pois no quisemos defender o conceito 
de que esse mecanismo psquico, ou a teoria psquica dos sintomas histricos em geral, tm validade ilimitada. No somos de opinio de que todos os fenmenos da 
histeria ocorram da maneira descrita por ns naquele artigo, nem acreditamos que todos sejam ideognicos, isto , determinados por idias. Nesse aspecto divergimos 
de Moebius, que em 1888 props definir como histricos todos os fenmenos patolgicos determinados por idias. Essa afirmao foi posteriormente elucidada no sentido 
de que apenas parte dos fenmenos patolgicos corresponde, em seu contedo, s idias que os provocam - a saber, os fenmenos que so produzidos por alo-sugesto 
ou auto-sugesto, como, por exemplo, quando a idia de no poder mover o brao provoca uma paralisia do mesmo, enquanto outra parte dos fenmenos, embora causados 
por idias, no corresponde a elas em seu contedo - como, por exemplo, quando em uma de nossas pacientes uma paralisia do brao foi provocada pela viso de objetos 
semelhantes a cobras |ver em [1]-[2]|.
         Ao dar essa definio, Moebius no est meramente propondo uma modificao na nomenclatura e sugerindo que, no futuro, s deveremos descrever como histricos 
os fenmenos patolgicos que forem ideognicos (determinados por idias); o que ele est supondo  que todos os sintomas histricos so ideognicos. "Visto que as 
idias so com muita freqncia a causa dos fenmenos histricos, creio que sempre o so." Ele denomina isso de inferncia por analogia. Prefiro denomin-lo de generalizao, 
cuja justificativa deve primeiro ser submetida  prova.
         Antes de qualquer discusso do assunto, devemos obviamente decidir o que entendemos por histeria. Considero que a histeria  um quadro clnico empiricamente 
descoberto e baseado na observao, da mesma maneira que a tuberculose pulmonar. Esses quadros clnicos empiricamente obtidos ganham mais preciso, profundidade 
e clareza com o progresso de nossos conhecimentos, mas no devem nem podem ser desmontados por eles. A pesquisa etiolgica revela que os vrios processos constitutivos 
da tsica pulmonar tm diversas causas: o tubrculo  devido ao bacillus Kochii, enquanto a degenerao do tecido, a formao de cavernas e a febre sptica se devem 
a outros micrbios. Apesar disso, a tuberculose permanece como uma unidade clnica e seria um erro desintegr-la, atribuindo-lhe apenas as modificaes "especificamente 
tuberculosas" do tecido, provocadas pelo bacilo de Koch, e desvinculando dela as outras modificaes. Da mesma forma, a histeria deve continuar a ser uma unidade 
clnica, mesmo se ficar demonstrado que suas manifestaes so determinadas por vrias causas e que algumas delas so acarretadas por um mecanismo psquico e outras, 
no.
         Estou convencido de que  isto o que de fato ocorre; apenas parte dos fenmenos da histeria  ideognica, e a definio formulada por Moebius rompe a unidade 
clnica da histeria, e, a rigor, tambm a unidade de um mesmo sintoma num mesmo paciente.
         Estaramos fazendo uma inferncia inteiramente anloga  "inferncia por analogia" de Moebius, se afirmssemos que, como as idias e percepes com muita 
freqncia provocam erees, devemos presumir que s elas  que o fazem e que os estmulos perifricos s poriam esse processo vasomotor em ao por vias indiretas 
atravs da psique. Sabemos que essa inferncia seria falsa e, no entanto, ela est baseada em pelo menos tantos fatos quanto os que fundamentam a assero de Moebius 
sobre a histeria. De conformidade com nossa experincia de um grande nmero de processos fisiolgicos, tais como a secreo de saliva ou de lgrimas, as modificaes 
no trabalho do corao, etc.,  possvel e plausvel presumir que o mesmssimo processo pode ser igualmente acionado por idias e por estmulos perifricos e outros 
estmulos no-psquicos. O contrrio teria de ser provado e estamos muito longe disso. Com efeito parece certo que muitos fenmenos descritos como histricos no 
so provocados apenas por idias.
         Consideremos um exemplo cotidiano. Uma mulher pode, sempre que surge um afeto, apresentar no pescoo, nos seios e no rosto um eritema, que aparece primeiro 
em manchas e depois se torna confluente. Isso  determinado por idias e, portanto, de acordo com Moebius,  uma manifestao histrica. Mas esse mesmo eritema surge, 
embora numa rea menos extensa, quando a pele fica irritada ou  tocada, etc. Isso no seria histrico. Assim, um fenmeno que  indubitavelmente uma unidade completa 
seria histrico numa ocasio e no-histrico em outra.  claro que se pode indagar se esse fenmeno - o eretismo vasomotor - deveria ser considerado como especificamente 
histrico ou se no seria mais apropriado encar-lo como simplesmente "nervoso". Do ponto de vista de Moebius, porm, o esfacelamento da unidade seria uma conseqncia 
necessria, de qualquer maneira, e s o eritema determinado pelo afeto deveria ser denominado histrico.
         Isso se aplica exatamente do mesmo modo s dores histricas, que so de to grande importncia prtica. Sem dvida, elas muitas vezes so determinadas diretamente 
por idias. So "alucinaes de dor". Se as examinarmos bem mais de perto, veremos que, ao que parece, o fato de uma idia ser muito ntida no  suficiente para 
produzi-las, mas que deve haver uma condio anormal especial nos aparelhos relativos  conduo e percepo da dor, do mesmo modo que no caso do eritema emocional 
deve estar presente uma excitabilidade anormal dos vasomotores. A expresso "alucinaes de dor" sem dvida proporciona a mais rica descrio da natureza dessas 
nevralgias, mas tambm nos obriga a transpor para elas os conceitos que formamos sobre as alucinaes em geral. No caberia aqui um exame pormenorizado desses conceitos. 
Endosso a opinio de que as "representaes", imagens mnmicas puras e simples, sem qualquer excitao do aparelho perceptivo, jamais, nem mesmo no pice de sua 
nitidez e intensidade, atingem o carter de existncia objetiva, que  a marca das alucinaes.
         Isso se aplica s alucinaes sensoriais e mais ainda s alucinaes de dor, pois no parece possvel que uma pessoa sadia seja capaz de dotar a lembrana 
de uma dor fsica sequer com o mesmo grau de nitidez ou sequer com uma aproximao distante da sensao real que pode, afinal de contas, ser alcanada pelas imagens 
mnmicas pticas e acsticas. Mesmo no estado alucinatrio normal das pessoas sadias, que ocorre durante o sono, nunca h, creio eu, sonhos de dor, a menos que uma 
sensao real de dor esteja presente. Essa excitao "retrogressiva", que emana do rgo da memria e atua sobre o aparelho perceptivo por meio das reprodues, 
, portanto, no curso normal das coisas, ainda mais difcil no caso da dor do que no das sensaes visuais ou auditivas. Uma vez que as alucinaes de dor surgem 
com tanta facilidade na histeria, devemos pressupor uma excitabilidade anormal do aparelho relacionado com as sensaes de dor.
         Essa excitabilidade surge no apenas sob o estmulo das idias, mas tambm sob estmulos perifricos, da mesma forma que o eretismo dos vasomotores que 
examinamos acima.
          uma observao cotidiana constatar que, nas pessoas com nervos normais, as dores perifricas so provocadas por processos patolgicos no dolorosos em 
si mesmos, localizados em outros rgos. Assim, surgem as dores de cabea decorrentes de alteraes relativamente insignificantes no nariz ou nas cavidades vizinhas, 
e nevralgias dos nervos intercostais e braquiais provenientes de patologias do corao, etc. Quando a excitabilidade anormal, que fomos obrigados a postular como 
uma condio necessria para as alucinaes de dor, acha-se presente num paciente, essa excitabilidade tambm fica  disposio, por assim dizer, das irradiaes 
que acabo de mencionar. As irradiaes que ocorrem tambm em pessoas no-neurticas so mais intensificadas e formam-se irradiaes de um tipo que, na verdade, s 
encontramos em pacientes neurticos, mas que se baseiam no mesmo mecanismo que as outras. Dessa forma, a nevralgia ovariana depende, creio eu, das condies do aparelho 
genital. Sua causalidade psquica teria que ser provada, e no se chega a essa comprovao pela demonstrao de que essa particular espcie de dor, como qualquer 
outra, pode ser produzida sob hipnose como uma alucinao, ou de que suas causas podem ser psquicas. Tal como o eritema ou qualquer das secrees normais, a nevralgia 
surge tanto de causas psquicas como de causas puramente somticas. Ser que devemos descrever apenas a primeira espcie como histrica - os casos que sabemos terem 
uma origem psquica? Se assim for, os casos comumente observados de nevralgia ovariana teriam de ser excludos da sndrome histrica, e isso mal seria uma soluo.
         Quando um ligeiro traumatismo numa articulao  gradativamente seguido de uma artralgia grave, o processo sem dvida envolve um elemento psquico, isto 
, uma concentrao da ateno na parte traumatizada, o que intensifica a excitabilidade dos filetes nervosos em questo. Poder-se-ia dificilmente expressar isso, 
no entanto, afirmando que a hiperalgesia foi causada por representaes.
         O mesmo se aplica  diminuio patolgica da sensao. No est de modo algum provado e  improvvel que a analgesia geral ou a analgesia de partes individuais 
do corpo, desacompanhada de anestesia, seja provocada por representaes. E mesmo que as descobertas de Binet e Janet fossem confirmadas por completo, no sentido 
de que a hemianestesia  determinada por uma condio psquica peculiar, por uma diviso da psique, o fenmeno seria psicognico, mas no ideognico, e portanto, 
de acordo com Moebius, no deve ser denominado histrico.
         Se existe, portanto, um grande nmero de fenmenos histricos caractersticos que no podemos supor que sejam ideognicos, pareceria acertado limitar a 
aplicao da tese de Moebius. No definiremos como histricos os fenmenos patolgicos que so causados por representaes, mas apenas asseveraremos que um grande 
nmero de fenmenos histricos, provavelmente mais do que suspeitamos hoje em dia, so ideognicos. Mas a alterao patolgica fundamental que se acha presente em 
cada caso e que permite s representaes, bem como aos estmulos no-psicolgicos, produzirem efeitos patolgicos, reside numa excitabilidade anormal do sistema 
nervoso. At que ponto essa excitabilidade  de origem psquica  uma outra questo.
         
         Contudo, mesmo que apenas alguns dos fenmenos da histeria sejam ideognicos, na verdade so eles que podem ser considerados especificamente histricos, 
e  a investigao deles, a descoberta de sua origem psquica, que constitui o avano recente mais importante na teoria desse distrbio. Surge ento uma outra pergunta: 
como se do esses fenmenos? Qual  seu "mecanismo psquico"?
         Essa pergunta exige uma resposta bem diferente no caso de cada um dos dois grupos em que Moebius divide os sintomas ideognicos | ver em [1]|. Os fenmenos 
patolgicos que correspondem em seu contedo  representao instigadora so relativamente compreensveis e claros. Quando a representao de uma voz ouvida no 
a faz apenas ecoar fracamente no "ouvido interior", como acontece nas pessoas sadias, mas a leva a ser percebida de maneira alucinatria como uma sensao acstica 
objetiva real, isso pode ser equiparado a fenmenos familiares da vida normal - aos sonhos - e  bem inteligvel com base na hiptese de excitabilidade anormal. 
Sabemos que a cada movimento voluntrio  a idia do resultado a ser alcanado que d incio  contrao muscular pertinente, e no  muito difcil ver que a idia 
de que essa contrao  impossvel impedir o movimento (como acontece na paralisia por sugesto).
         A situao  outra com os fenmenos que no tm nenhuma conexo lgica com a representao determinante. (Tambm aqui, a vida normal oferece paralelos como, 
por exemplo, o enrubescer de vergonha.) Como surgem eles? Por que uma representao num homem doente evoca um movimento ou uma alucinao especfica inteiramente 
irracional que de modo algum corresponde a ela?
         Em nossa "Comunicao Preliminar" sentimo-nos em condies de dizer algo sobre essa relao causal com base em nossas observaes. Em nossa exposio do 
assunto, entretanto, introduzimos e empregamos, sem o justificar, o conceito de "excitaes que fluem ou tm de ser ab-reagidas". Esse conceito, que  de fundamental 
importncia para nosso tema e para a teoria das neuroses em geral, parece exigir e merecer um exame mais detalhado. Antes de passar a efetu-lo, devo pedir desculpas 
por levar o leitor de volta aos problemas bsicos do sistema nervoso. Um sentimento de opresso est fadado a acompanhar qualquer descida desse tipo at as "Mes" 
[isto ,  explorao das profundezas|.
         Mas qualquer tentativa de chegar s razes de um fenmeno leva inevitavelmente, dessa forma, a problemas bsicos dos quais no se pode escapar. Espero, 
portanto, que a obscuridade do exame que se segue possa ser encarada com indulgncia.
         
         (2) AS EXCITAES TNICAS INTRACEREBRAIS - OS AFETOS
         
         (A)
         Conhecemos duas condies extremas do sistema nervoso central: um estado lcido de viglia e um sono desprovido de sonhos. Uma transio entre elas  proporcionada 
por uma srie de condies com todos os graus de decrescente lucidez. O que nos interessa aqui no  a questo da finalidade do sono e sua base fsica (seus determinantes 
qumicos ou vasomotores), mas a questo da distino essencial entre as duas condies.
         No podemos dar nenhuma informao direta sobre o sono mais profundo e sem sonhos, pela mesma razo de que todas as observaes e experincias so excludas 
pelo estado de total inconscincia. Mas no que tange  condio fronteiria do sono acompanhado de sonhos podem-se fazer as asseres que se seguem. Em primeiro 
lugar, quando, estando nessa condio, tencionamos fazer movimentos voluntrios - de andar, falar, etc. - isso no faz com que as contraes correspondentes dos 
msculos sejam voluntariamente iniciadas, como na vida de viglia. Em segundo lugar, os estmulos sensoriais talvez sejam percebidos (pois muitas vezes foram sua 
entrada nos sonhos), mas no so apercebidos, isto , no se tornam percepes conscientes. Alm disso, as representaes que emergem no ativam, como na vida de 
viglia, todas as representaes vinculadas a ela e que se encontram presentes na conscincia potencial; um grande nmero destas ltimas permanece no excitado. 
(Por exemplo, descobrimo-nos falando com uma pessoa morta sem nos lembrarmos de que est morta.) Outrossim, representaes incompatveis podem estar presentes ao 
mesmo tempo sem se inibirem mutuamente, como fazem na vida de viglia. Dessa forma, a associao  imperfeita e incompleta. Podemos presumir com segurana que, no 
sono mais profundo, essa ruptura das vinculaes entre os elementos psquicos  levada ainda mais alm e se torna total.
         Por outro lado, quando estamos inteiramente acordados, todo ato de vontade inicia o movimento correspondente; as impresses sensoriais transformam-se em 
percepes conscientes e as representaes se associam com todo contedo presente na conscincia potencial. Nesse estado o crebro funciona como uma unidade, com 
conexes internas completas.
         Talvez estejamos apenas descrevendo esses fatos com outras palavras, se dissermos que, no sono, as vias de conexo e conduo do crebro no so percorrveis 
pelas excitaes dos elementos psquicos (clulas corticais?), ao passo que na vida de viglia o so inteiramente.
         
         A existncia desses dois estados diferentes das vias de conduo, ao que parece, s pode tornar-se inteligvel se supormos que, na vida de viglia, essas 
vias se encontram num estado de excitao tnica (o que Exner |1894, 93| chama de "tetania intercelular") e que essa excitao intracerebral tnica  o que determina 
sua capacidade condutora, sendo que sua diminuio e desaparecimento  que estabelecem o estado de sono.
         No devemos pensar na via cerebral de conduo como semelhante a um fio telefnico que s  eletricamente excitado no momento em que tem de funcionar (isto 
, no contexto presente, quando tem que transmitir um sinal). Devemos assemelh-lo ao tipo de fio telefnico em que h sempre um fluxo constante de corrente galvnica 
e que deixa de ser excitvel quando tal corrente cessa. Ou melhor, imaginemos um sistema eltrico amplamente ramificado para transmisso de luz e fora; o que se 
espera desse sistema  que o simples estabelecimento de um contato seja capaz de pr qualquer lmpada ou mquina em funcionamento. Para possibilitar isso, de modo 
que tudo esteja pronto para funcionar, deve haver certa tenso presente em toda a rede de linhas de conduo, devendo o gerador despender uma dada quantidade de 
energia para esse fim. Da mesma forma, h certa quantidade de excitao presente nas vias condutoras do crebro quando este se encontra em repouso, mas desperto 
e preparado para trabalhar.
         
         Esse conceito  apoiado pelo fato de que estar meramente desperto, sem realizar qualquer trabalho, d lugar  fadiga e produz a necessidade de dormir. O 
estado de viglia em si provoca um consumo de energia.
         Imaginemos um homem num estado de intensa expectativa, que no est, contudo, dirigida para qualquer campo sensorial especfico. Temos ento diante de ns 
um crebro em repouso mas preparado para a ao. Podemos com razo supor que em tal crebro todas as vias de conduo se encontram no mximo de sua capacidade condutora 
- que se acham num estado de excitao tnica.  significativo que na linguagem comum nos refiramos a esse estado como sendo de tenso. A experincia nos ensina 
o quanto de desgaste esse estado representa e como pode ser fatigante, mesmo que nenhum trabalho motor ou psquico seja nele realizado.
         Esse  um estado excepcional que, precisamente por causa do grande consumo de energia em jogo, no pode ser tolerado por muito tempo. Mas mesmo o estado 
normal de estar bem desperto exige uma quantidade de excitao intracerebral que varia entre limites separados de forma no muito ampla. Cada grau decrescente de 
viglia, at a sonolncia e o verdadeiro sono, faz-se acompanhar por graus correspondentes menores de excitao.
         Quando o crebro est realmente trabalhando, exige-se sem dvida um consumo maior de energia do que quando est apenas preparado para executar trabalho. 
(Da mesma forma, o sistema eltrico descrito anteriormente  guisa de analogia deve fazer com que maior quantidade de energia eltrica flua para as linhas condutoras 
quando um grande nmero de lmpadas ou motores est ligado ao circuito.) Quando o funcionamento  normal, no se libera maior quantidade de energia do que a empregada 
de imediato na atividade. O crebro, contudo, comporta-se como um daqueles sistemas eltricos de capacidade restrita que so incapazes de produzir ao mesmo tempo 
uma quantidade superior de luz e de trabalho mecnico. Quando um deles est transmitindo fora, dispe-se apenas de uma pequena quantidade de energia para a iluminao, 
e vice-versa. Assim, constatamos que, se estivermos fazendo grandes esforos musculares, seremos incapazes de nos empenharmos num raciocnio contnuo, ou que, se 
concentrarmos nossa ateno num nico campo sensorial, a eficincia dos outros rgos cerebrais ficar reduzida - em outras palavras, verificamos que o crebro trabalha 
com uma quantidade de energia varivel, mas limitada.
         
         A distribuio no-uniforme de energia  sem dvida determinada pelo que Exner |1894, 165| denomina de "facilitao pela ateno" - por um aumento da capacidade 
condutora das vias em uso e um decrscimo da capacidade das outras, e assim, num crebro em funcionamento, a "excitao tnica intracerebral" tambm  distribuda 
de maneira no uniforme.
         Despertamos uma pessoa que est adormecida - ou seja, elevamos de repente a quantidade de sua excitao intracerebral tnica - fazendo que um vvido estmulo 
sensorial exera influncia sobre ela. Se as alteraes na circulao sangunea cerebral so aqui elos essenciais na corrente causal, e se os vasos sanguneos so 
diretamente dilatados pelo estmulo, ou se a dilatao  conseqncia da excitao dos elementos cerebrais - tudo isso  incerto. O certo  que o estado de excitao, 
penetrando por uma das portas dos sentidos, espalha-se pelo crebro a partir desse ponto, torna-se difuso e leva todas as vias de conduo a um estado de facilitao 
mais elevado.
         Ainda no est nada esclarecido,  natural, como ocorre o despertar espontneo - se  sempre a mesma parte do crebro que entra num estado de excitao 
de viglia, e se a excitao ento se difunde a partir dali, ou se ora um, ora outro grupo de elementos atua como o agente que desperta. No obstante, o despertar 
espontneo que, como sabemos, pode ocorrer na total quietude e escurido sem qualquer estmulo externo, prova que o desenvolvimento da energia se baseia no processo 
vital dos prprios elementos cerebrais. Um msculo pode permanecer no estimulado e quiescente por mais que tenha ficado em estado de repouso e mesmo que tenha acumulado 
um mximo de fora elstica. O mesmo no se aplica aos elementos cerebrais. Sem dvida, temos razo ao supor que durante o sono os elementos cerebrais recuperam 
sua condio anterior e acumulam energia potencial. Quando isso acontece at certo ponto - quando, por assim dizer, certo nvel  atingido - o excedente  descarregado 
nas vias de conduo, facilita-as e estabelece a excitao intracerebral do estado de viglia.
         Podemos encontrar um exemplo instrutivo da mesma coisa na vida de viglia. Quando o crebro em viglia ficou quiescente por um tempo considervel, sem transformar 
a fora elstica em energia ativa atravs de seu funcionamento, surgem uma necessidade e um impulso para a atividade. Aquiescncia motora prolongada gera necessidade 
de movimento (compare-se o correr sem objetivo, de um lado para outro, de um animal enjaulado), e quando essa necessidade no pode ser atendida instaura-se uma sensao 
aflitiva. A falta de estmulos sensoriais, a escurido e o silncio total tornam-se uma tortura; o repouso mental e a falta de percepes, idias e atividade associativa 
produzem o tormento de tdio. Essas sensaes de desprazer correspondem a uma "excitao", a um aumento da excitao intracerebral normal.
         Assim, os elementos cerebrais, depois de serem restaurados por completo, liberam certa quantidade de energia mesmo quando esto em repouso; e quando essa 
energia no  empregada funcionalmente, ela aumenta a excitao intracerebral normal. O resultado  uma sensao de desprazer. Tais sensaes so sempre geradas 
quando uma das necessidades do organismo deixa de encontrar satisfao. Visto que essas sensaes desaparecem quando a quantidade excedente de energia que foi liberada 
 empregada funcionalmente, podemos concluir que a eliminao dessa excitao excedente  uma necessidade do organismo. E aqui deparamos pela primeira vez com o 
fato de que existe no organismo uma "tendncia a manter constante a excitao intracerebral". (Freud.)
         Tal excedente de excitao  uma sobrecarga e um incmodo, e o impulso de consumi-lo surge como conseqncia disso. Quando no pode ser utilizado na atividade 
sensorial ou ideacional, o excedente se descarrega numa ao motora sem finalidade, no andar de um lado para outro e assim por diante - o que encontraremos mais 
 frente como o mtodo mais comum de descarregar as tenses excessivas.
         Estamos familiarizados com as grandes variaes individuais que se encontram a esse respeito: as grandes diferenas entre as pessoas vivazes e as inertes 
e letrgicas, entre as que "no conseguem ficar paradas" e as que tm o "dom inato de se espreguiarem nos sofs", e entre os espritos mentalmente geis e os embotados, 
que conseguem tolerar a inao intelectual por um perodo ilimitado de tempo. Essas diferenas, que constituem o "temperamento natural" de um homem, por certo se 
baseiam em profundas diferenas em seu sistema nervoso - no grau em que os elementos cerebrais funcionalmente quiescentes liberam energia.
         J nos referimos  tendncia, por parte do organismo, a manter constante a excitao cerebral tnica. Uma tendncia dessa natureza, porm, s se torna inteligvel 
quando conseguimos ver a que necessidade atende. Podemos compreender a tendncia nos animais de sangue quente de manter uma temperatura mdia constante porque nossa 
experincia nos ensinou que essa temperatura  a ideal para o funcionamento de seus rgos. E fazemos uma suposio similar quanto  constncia do teor de gua no 
sangue, e assim por diante. Creio podermos tambm presumir que existe um ponto timo para o nvel da excitao tnica intracerebral. Nesse nvel de excitao tnica 
o crebro  acessvel a todos os estmulos externos, os reflexos so facilitados, embora apenas na medida da atividade reflexa normal, e o acervo de representaes 
 passvel de ser despertado e aberto  associao, na relao mtua entre representaes individuais que corresponde a um estado mental de lucidez.  nesse estado 
que o organismo se acha mais bem preparado para funcionar.
         A situao j fica alterada pela elevao uniforme | ver em [1]| da excitao tnica que constitui a "expectativa". Isso torna o organismo hiperestsico 
aos estmulos sensoriais, que rapidamente se tornam aflitivos, e aumenta tambm sua excitabilidade reflexa acima do que  til (inclinao ao susto). Sem dvida 
esse estado  til para algumas situaes e finalidades, mas quando aparece espontaneamente e no por quaisquer dessas razes, no melhora nossa eficincia, mas 
a prejudica. Na vida cotidiana, chamamos a isso estar "nervoso". Na grande maioria das formas de aumento da excitao, contudo, a superexcitao no  uniforme, 
o que  sempre prejudicial  eficincia. Chamamos a isso "excitamento". Que o organismo tenda a manter o ponto timo de excitao e a retornar a esse ponto timo 
depois de hav-lo ultrapassado no  de se surpreender, mas est inteiramente de acordo com outros mecanismos reguladores do organismo.
         Permitir-me-ei mais uma vez recorrer  comparao com um sistema de iluminao eltrica. A tenso na rede de linhas de conduo possui tambm o seu ponto 
timo. Se este for ultrapassado, seu funcionamento pode ser prejudicado com facilidade; por exemplo, os filamentos da luz eltrica podem ser prontamente queimados. 
Falarei mais adiante sobre o dano causado ao prprio sistema se o isolamento falhar ou se ocorrer um "curto-circuito".
         
         (B)
         
         Nossa fala, resultado da experincia de muitas geraes, distingue com admirvel sutileza as formas e graus de elevao da excitao que ainda so teis 
 atividade mental |isto , apesar de se elevarem acima do ponto timo (ver penltimo pargrafo)|, por elevarem a energia livre de todas as funes cerebrais de 
maneira uniforme, das formas e graus que prejudicam essa atividade, por aumentarem parcialmente e inibirem parcialmente essas funes psquicas de uma maneira que 
no  uniforme. s primeiras se d o nome de "incitao" e s ltimas, de "excitamento". Uma conversa interessante ou uma xcara de ch ou caf tm um efeito "incitante" 
|estimulante|; uma altercao ou uma dose considervel de lcool tm um efeito "excitante". Enquanto a incitao desperta apenas a nsia de empregar funcionalmente 
o excesso de excitao, o excitamento procura descarregar-se de formas mais ou menos violentas, que so quase ou decididamente patolgicas. O excitamento constitui 
a base psicofsica dos efeitos, que sero examinados mais adiante. Mas devo em primeiro lugar abordar sucintamente algumas causas fisiolgicas e endgenas dos aumentos 
de excitao.
         Entre essas, em primeiro lugar, esto as principais necessidades e pulses fisiolgicas do organismo: a necessidade de oxignio, o anseio intenso de alimentos 
e a sede. Visto que o excitamento que eles disparam est vinculado a certas sensaes e idias intencionais, esse no  um exemplo to puro do aumento de excitao 
como o examinado anteriormente | ver em [1]-[2]|, que surgia apenas da aquiescncia dos elementos cerebrais. O primeiro sempre possui seu colorido especial. Mas 
 inconfundvel na agitao angustiante que acompanha a dispnia e na inquietao de um homem faminto.
         O aumento da excitao que provm dessas fontes  determinado pela alterao qumica dos prprios elementos cerebrais, que esto carentes de oxignio, de 
fora elstica ou de gua. Tal excitao flui por vias motoras pr-formadas que levam  satisfao da necessidade que a estimulou: a dispnia leva  respirao forada, 
e a fome e a sede,  busca e obteno de alimento e gua. O princpio da constncia da excitao quase no entra em ao no que tange a essa espcie de excitamento, 
pois os interesses que so atendidos pelo aumento da excitao nesses casos so de muito maior importncia para o organismo do que o restabelecimento das condies 
normais de funcionamento no crebro.  verdade que vemos os animais de um jardim zoolgico correndo excitadamente de um lado para outro antes da hora da alimentao, 
mas isso sem dvida pode ser considerado como um resduo da atividade motora pr-formada de procurar alimento, que agora se tornou intil pelo fato de estarem eles 
em cativeiro, e no como um meio de livrar o sistema nervoso do excitamento.
         Se a estrutura qumica do sistema nervoso tiver sido permanentemente alterada pela introduo sistemtica de substncias estranhas, ento a falta dessas 
substncias provocar estados de excitamento, tal como a falta de substncias nutritivas normais nas pessoas sadias. Vemos isso no excitamento que se verifica na 
abstinncia de narcticos.
         Uma transio entre esses aumentos endgenos da excitao e os afetos psquicos no sentido mais estrito  proporcionada pela excitao sexual e pelo afeto 
sexual. A sexualidade na puberdade surge, na primeira dessas formas, como uma elevao vaga, indeterminada e despropositada da excitao.  medida que o desenvolvimento 
se processa, tal elevao endgena da excitao, determinada pelo funcionamento das glndulas sexuais, torna-se firmemente vinculada (no curso normal das coisas) 
 percepo ou idia do outro sexo - e, a rigor,  idia de um indivduo em particular, quando ocorre o notvel fenmeno do apaixonar-se. Essa idia absorve toda 
a quantidade de excitao liberada pela pulso sexual. Torna-se uma "idia afetiva"; em outras palavras, quando est ativamente presente na conscincia, ela estimula 
o acrscimo de excitao que de fato se originou de outra fonte, a saber, as glndulas sexuais.
         A pulso sexual  sem dvida a fonte mais poderosa de acmulos sistemticos de excitao (e, por conseguinte, de neuroses). Esses aumentos distribuem-se 
de maneira muito desigual pelo sistema nervoso. Quando alcanam um grau considervel de intensidade, o encadeamento de idias fica perturbado e o valor relativo 
das idias se altera; e no orgasmo o pensamento  quase inteiramente extinto.
         Tambm a percepo - a interpretao psquica das impresses sensoriais -  prejudicada. Um animal normalmente tmido e cauteloso torna-se cego e surdo 
ao perigo. Por outro lado, pelo menos nos machos, h uma intensificao do instinto agressivo. Os animais pacficos ficam perigosos, at a sua excitao ser descarregada 
nas atividades motoras do ato sexual.
         
         (C)
         
         Tal perturbao do equilbrio dinmico do sistema nervoso - uma distribuio no uniforme do aumento da excitao -  o que compe a faceta psquica dos 
afetos.
         No se far aqui nenhuma tentativa de formular uma psicologia ou uma filosofia dos afetos. Examinarei apenas um nico ponto, que  de importncia para a 
patologia, e alm disso apenas para os afetos ideognicos - os que so provocados por percepes e representaes. (Lange, 1885 |[1] e segs.|), ressaltou com razo 
que os afetos podem ser causados por substncias txicas, ou, como a psiquiatria nos ensina, acima de tudo pelas alteraes patolgicas, quase da mesma forma que 
podem ser causadas pelas representaes.
         Pode-se considerar evidente por si mesmo que todas as perturbaes do equilbrio mental que denominamos de afetos agudos acompanham um aumento da excitao. 
(No caso dos afetos crnicos, tais como o pesar e a preocupao, isto , a angstia prolongada, o quadro se complica por um estado de grave fadiga, que, embora mantenha 
a distribuio no uniforme da excitao, reduz sua intensidade.) Mas esse aumento da excitao no pode ser empregado na atividade psquica. Todos os afetos intensos 
restringem a associao - o fluxo de representaes. As pessoas ficam "insensatas" com a raiva ou com o pavor. Somente o grupo de representaes que provocou o afeto 
persiste na conscincia e o faz com extrema intensidade. Assim, a atividade associativa no consegue aplacar o excitamento.
         Os afetos que so "ativos" ou "estnicos", entretanto, de fato aplacam a excitao aumentada atravs da descarga motora. Os gritos e os saltos de alegria, 
o maior tnus muscular da clera, as palavras raivosas e as aes retaliatrias - tudo isso permite que a excitao se escoe em movimentos. O sofrimento mental a 
descarrega na respirao difcil e em atividades secretoras: em soluos e lgrimas.  uma constatao cotidiana que tais reaes reduzem e aliviam o excitamento. 
Como j tivemos ocasio de observar | ver em [1]|, a linguagem comum expressa isso em frases como "debulhar-se em lgrimas", "desabar as mgoas", etc. Aquilo que 
se est expelindo nada mais  do que o aumento da excitao cerebral.
         Apenas algumas dessas reaes, como os atos e as palavras raivosas, servem a uma finalidade no sentido de promoverem alguma modificao no estado real de 
coisas. O resto no serve a qualquer finalidade, ou melhor, seu nico objetivo  aplainar o aumento da excitao e estabelecer o equilbrio psquico. Na medida em 
que o conseguem, servem  "tendncia a manter constante a excitao |intra-|cerebral" | ver em [1]|.
         Os afetos "astnicos" do medo e da angstia no promovem essa descarga reativa. O pavor paralisa por completo a capacidade de movimento, bem como a de associao, 
e o mesmo faz a angstia, quando a nica reao til - de fugir -  excluda pela causa do afeto de angstia ou pelas circunstncias. A excitao do pavor s desaparece 
atravs de um nivelamento gradual.
         A raiva dispe de reaes adequadas que correspondem a sua causa. Quando estas no so viveis ou esto inibidas, so trocadas por substitutos. At as palavras 
raivosas so substitutos dessa espcie. Mas outros atos, mesmo inteiramente destitudos de sentido, podem aparecer como substitutos. Quando Bismarck teve de reprimir 
seus sentimentos enraivecidos na presena do Rei, desabafou depois espatifando um valioso vaso no cho. Essa substituio deliberada de uma ao motora por outra 
corresponde exatamente  substituio dos reflexos naturais da dor por outras contraes musculares. Quando se extrai um dente; o reflexo pr-formado  o de empurrar 
o dentista e soltar um grito; se, em vez disso, contramos os msculos dos braos e fazemos presso nos braos da cadeira, estamos deslocando o quantum de excitao 
que foi gerado pela dor de um grupo de msculos para outro. |ver em [1].| No caso de uma violenta dor de dente espontnea, quando no h nenhum reflexo pr-formado 
afora o gemido, a excitao se escoa num despropositado andar de um lado para outro. Da mesma forma, transpomos a excitao da raiva da reao adequada para outra 
e nos sentimos aliviados, contanto que ela seja consumida por qualquer inervao motora vigorosa.
         Quando, porm, o afeto no consegue encontrar nenhuma descarga de excitao de qualquer natureza dentro desses moldes, a situao  a mesma, tanto com a 
raiva quanto com o pavor e a angstia. A excitao intracerebral  poderosamente aumentada, mas no  empregada nem em atividade associativa, nem motora. Nas pessoas 
normais a perturbao  eliminada de modo gradativo. Mas em algumas, aparecem reaes anormais. Forma-se uma "expresso anormal dos afetos", como afirma Oppenheim 
|1890|.
         
         (3) CONVERSO HISTRICA
         
         Dificilmente ho de suspeitar que identifico a excitao nervosa com a eletricidade por eu recorrer mais uma vez  comparao com um sistema eltrico. Quando 
a tenso em tal sistema torna-se excessivamente alta, h um risco de que ocorra uma interrupo nos pontos fracos do isolamento. Os fenmenos eltricos aparecem 
ento em pontos anormais, ou, quando dois fios esto muito prximos um do outro, d-se um curto-circuito. Visto que uma alterao permanente produz-se nesses pontos, 
a perturbao assim provocada pode repetir-se constantemente se a tenso for aumentada de modo suficiente. Passou a haver uma "facilitao" anormal.
          perfeitamente possvel afirmar que as condies que se aplicam ao sistema nervoso so, at certo ponto, semelhantes. Ele forma em toda a sua extenso 
um todo interligado, mas em muitos de seus pontos interpem-se grandes resistncias, embora no insuperveis, que impedem a distribuio geral uniforme da excitao. 
Assim, nas pessoas normais em estado de viglia, a excitao no rgo de representao no passa para os rgos da percepo: essas pessoas no tm alucinaes. 
|ver em [1].| A bem da segurana e da eficincia do organismo, os plexos nervosos dos complexos de rgos que so de importncia vital - os aparelhos circulatrio 
e digestivo - so separados por fortes resistncias dos rgos de representao. Sua independncia est assegurada e eles no so diretamente afetados pelas representaes. 
Mas as resistncias que impedem a passagem da excitao intracerebral para os aparelhos circulatrio e digestivo variam de intensidade de um indivduo para outro. 
Todos os graus de excitabilidade afetiva situam-se, por um lado, entre o ideal (que raramente se encontra hoje em dia) de um homem absolutamente livre de problemas 
dos "nervos" - um homem cuja ao cardaca permanece constante em todas as situaes e s  afetada pelo trabalho especfico que tem de realizar, um homem que tem 
bom apetite e boa digesto, qualquer que seja o perigo em que se ache - entre um homem desse tipo e, por outro lado, um homem "nervoso", que tem palpitaes e diarria 
 menor provocao.
         Como quer que seja, h resistncias nas pessoas normais contra a passagem da excitao cerebral para os rgos vegetativos. Essas resistncias correspondem 
ao isolamento nas linhas condutoras eltricas. Nos pontos onde esto anormalmente fracas, elas so invadidas quando a tenso da excitao cerebral se eleva, e esta 
- a excitao afetiva - passa para os rgos perifricos. Segue-se a isso uma "expresso do afeto anormal".
         Dos dois fatores que mencionamos como responsveis por esse resultado, um j foi examinado por ns com pormenores. Esse primeiro fator  um alto grau de 
excitao intracerebral que deixou de ser aplacada, fosse por atividades ideacionais, fosse pela descarga motora, ou que  grande demais para ser enfrentado dessa 
maneira.
         
         O segundo fator  uma fraqueza anormal das resistncias em algumas vias especficas de conduo. Isso pode ser determinado pela constituio inicial do 
indivduo (predisposio inata), ou pode ser determinado por estados de excitao de longa durao, que afrouxam, por assim dizer, toda a estrutura do sistema nervoso 
do indivduo e reduzem toda a sua resistncia (predisposio puberal); ou pode ser determinado por influncias debilitantes, como doena e subnutrio (predisposio 
devida aos estados de esgotamento). A resistncia de certas vias especficas de conduo pode estar reduzida por uma doena prvia do rgo em causa, que facilitou 
as vias que ascendem e descendem do crebro. Um corao doente  mais suscetvel  influncia de um afeto do que um corao sadio. "Tenho uma espcie de caixa de 
ressonncia no abdome", disse-me uma mulher que sofria de parametrite; "quando acontece alguma coisa, ela recomea minha antiga dor". (Disposio atravs de doena 
local.)
         As aes motoras em que a excitao dos afetos costuma ser descarregada so ordenadas e coordenadas, muito embora com freqncia sejam inteis. Mas uma 
excitao excessivamente forte pode contornar ou irromper atravs dos centros coordenadores e se escoar em movimentos primitivos. Nos bebs, alm do ato respiratrio 
de gritar, os afetos s produzem e encontram expresso em contraes musculares descoordenadas desse tipo primitivo - em arquear o corpo e espernear.  medida que 
o desenvolvimento se processa, a musculatura passa cada vez mais para o controle da coordenao e da vontade. Mas o opisttono, que representa o mximo de esforo 
motor da musculatura somtica total, bem como os movimentos clnicos do espernear e do debater-se, persistem pela vida afora como a forma de reao  excitao mxima 
do crebro -  excitao puramente fsica dos ataques epilpticos e  descarga dos afetos mximos sob a forma de convulses mais ou menos epileptides (por exemplo, 
a parte puramente motora dos ataques histricos).
         
          verdade que essas reaes afetivas anormais so caractersticas da histeria. Mas tambm ocorrem independentemente dessa doena. O que indicam  um grau 
mais ou menos elevado de distrbio nervoso, e no de histeria. Tais fenmenos no podem ser descritos como histricos, quando aparecem como conseqncias de um afeto 
que, embora de grande intensidade, possui uma base objetiva, mas s quando surgem com aparente espontaneidade, como manifestaes de uma molstia. Estas ltimas, 
como demonstraram muitas observaes, inclusive as nossas, baseiam-se em lembranas que revivem o afeto original - ou melhor, que o reviveriam se essas reaes de 
fato no ocorressem em seu lugar.
         Pode-se admitir como certo que um fluxo de representaes e lembranas corre pela conscincia de qualquer pessoa razoavelmente inteligente enquanto sua 
mente est em repouso. Essas representaes so to pouco ntidas que no deixam nenhum trao na memria e  impossvel dizer, posteriormente, como foi que as associaes 
ocorreram. Quando, porm, surge uma representao que originalmente esteve vinculada a um afeto intenso, esse afeto  revivido com maior ou menor intensidade. A 
representao assim "colorida" pelo afeto emerge na conscincia clara e nitidamente. A intensidade de afeto que pode ser liberada por uma lembrana  muito varivel, 
conforme o grau em que tenha ficado exposta ao "desgaste" por diferentes influncias e sobretudo o grau em que o afeto original tenha sido "ab-reagido". Ressaltamos 
em nossa "Comunicao Preliminar" | ver em [1]| em que extenso varivel o afeto de raiva diante de um insulto, por exemplo,  evocado por uma lembrana, conforme 
o insulto tenha sido revidado ou suportado em silncio. Se o reflexo psquico tiver sido plenamente realizado na ocasio original, a lembrana dele liberar uma 
quantidade muito menor de excitao. Em caso negativo, a lembrana ficar perpetuamente forando nos lbios do indivduo as palavras abusivas que foram originalmente 
reprimidas e que teriam sido o reflexo psquico do estmulo original.
         Nos casos em que o afeto original foi descarregado no atravs de um reflexo normal, mas por um reflexo "anormal", este ltimo  tambm liberado pela lembrana. 
A excitao decorrente da idia afetiva  "convertida" (Freud) num fenmeno somtico.
         Caso esse reflexo anormal se torne inteiramente facilitado pela repetio freqente, poder, ao que parece, exaurir a fora operativa das representaes 
liberadoras de forma to total que o prprio afeto no surgir, ou surgir com intensidade mnima. Em tal caso, a "converso histrica"  completa. Alm disso, a 
representao, que agora no produz mais quaisquer conseqncias psquicas, pode ser desprezada pelo indivduo, ou pode ser prontamente esquecida quando emergir, 
como qualquer outra representao desacompanhada de afeto.
         Talvez seja mais fcil aceitar a possibilidade de uma excitao cerebral que deveria ter dado origem a uma representao ser substituda por uma excitao 
de alguma via perifrica, se recordarmos o curso inverso dos acontecimentos que se verifica quando um reflexo pr-formado deixa de ocorrer. Escolherei um exemplo 
extremamente trivial - o reflexo do espirro. Quando um estmulo da membrana mucosa do nariz deixa, por qualquer motivo, de liberar esse reflexo pr-formado, surge 
uma sensao de excitao e de tenso, como todos sabemos. A excitao, que ficou impossibilitada de se escoar pelas vias motoras, agora, inibindo todas as outras 
atividades, dissemina-se pelo crebro. Esse exemplo cotidiano nos fornece o modelo do que acontece quando um reflexo psquico, mesmo o mais complicado, deixa de 
ocorrer. O excitamento que examinamos anteriormente | ver em [1]| como caracterstica da pulso de vingana , em essncia, o mesmo. E podemos seguir esse processo 
mesmo at as regies mais elevadas da realizao humana. Goethe no sentia haver elaborado uma experincia at t-la descarregado numa atividade artstica criadora. 
Esse era, no seu caso, o reflexo pr-formado concernente aos afetos, e enquanto no fosse levado a cabo, persistia no poeta o aumento aflitivo de excitao.
         A excitao intracerebral e o processo excitatrio nas vias perifricas so de magnitudes recprocas: a primeira aumenta se e enquanto nenhum reflexo  
liberado; diminui e desaparece depois de transformada em excitao nervosa perifrica. Assim, parece compreensvel que nenhum afeto observvel seja gerado quando 
a representao que deveria t-lo feito emergir libera imediatamente um reflexo anormal, no qual a excitao se escoa to logo  gerada. A "converso histrica" 
 ento completa. A excitao intracerebral original pertinente ao afeto  transformada em processo excitatrio nas vias perifricas. O que era originalmente uma 
representao afetiva deixa agora de provocar o afeto, suscitando apenas o reflexo anormal.
         Acabamos de dar um passo alm da "expresso anormal dos afetos". Os fenmenos histricos (reflexos anormais) no parecem ser ideognicos mesmo para os pacientes 
inteligentes que so bons observadores, porque a representao que lhes deu origem no  mais colorida pelo afeto, nem destacada de outras representaes e lembranas. 
Surgem como fenmenos puramente somticos, aparentemente sem razes psquicas.
         
         O que  que determina a descarga de afeto de tal forma que um especfico reflexo anormal  produzido em vez de algum outro? Nossas observaes respondem 
a essa pergunta, em muitos casos, revelando que novamente aqui a descarga segue o "princpio da menor resistncia" e ocorre ao longo das vias cujas resistncias 
j foram enfraquecidas por circunstncias coincidentes. Isso abrange o caso que j mencionamos | ver em [1]| de um reflexo particular ser facilitado pela doena 
somtica j existente. Se, por exemplo, algum sofre com freqncia de dores cardacas, estas tambm sero provocadas pelos afetos. Alternadamente, um reflexo pode 
ser facilitado pelo fato de a inervao muscular em causa ter sido deliberadamente pretendida no momento em que o afeto ocorreu originalmente.
         Assim, Anna O. (em nosso primeiro caso clnico) | ver em [1]| tentou, em seu medo, estender o brao direito, que ficara dormente por causa da presso contra 
o espadar da cadeira, a fim de afastar a cobra; e a partir dessa poca a tetania no brao direito passou a ser provocada pela viso de qualquer objeto semelhante 
a cobras. Ou ainda | ver em [1]|, em sua emoo, ela forou a vista para ler os ponteiros do relgio, e a partir de ento um estrabismo convergente se transformou 
num dos reflexos daquele afeto. E assim por diante.
         Isso se deve  ao da simultaneidade que de fato rege as nossas associaes normais. Toda percepo sensorial traz de volta  conscincia qualquer outra 
percepo sensorial que tenha originalmente ocorrido ao mesmo tempo. (Cf. o exemplo do livro-texto com a imagem visual de um carneiro e o som do seu balido, etc.) 
Se o afeto original se fez acompanhar de uma ntida impresso sensorial, esta ltima  evocada mais uma vez quando o afeto se repete; e j que  uma questo de descarga 
de uma excitao excessivamente grande, a impresso sensorial emerge no como uma lembrana, mas como uma alucinao. Quase todos os nossos casos clnicos proporcionam 
exemplos disso.  tambm o que aconteceu no caso de uma mulher que experimentou um afeto aflitivo numa poca em que estava sofrendo de violenta dor de dente por 
causa de uma periostite, e que a partir da passou a sofrer nevralgia infra-orbital sempre que o afeto se renovava ou sequer era relembrado | ver em [1]-[2]|.
         O que temos aqui  a facilitao de reflexos anormais de acordo com as leis gerais da associao. Mas algumas vezes (embora, deva-se admitir, s em graus 
mais elevados de histeria) h verdadeiras seqncias de representaes associadas entre o afeto e seu reflexo. Temos a a determinao atravs do simbolismo. O que 
une o afeto ao seu reflexo , muitas vezes, algum trocadilho ridculo ou associaes pelo som, mas isso s acontece em estados semelhantes ao sonho, quando os poderes 
crticos se acham reduzidos, e est fora do grupo de fenmenos com que estamos lidando aqui.
         Num grande nmero de casos o caminho seguido pela seqncia da determinao permanece ininteligvel para ns, pois com freqncia temos uma compreenso 
muito incompleta do estado mental do paciente e um conhecimento imperfeito das representaes que eram ativas por ocasio da origem do fenmeno histrico. Mas podemos 
presumir que o processo no  inteiramente dessemelhante do que podemos observar com clareza em casos mais favorveis.
         As experincias que liberaram o afeto original, cuja excitao foi ento convertida num fenmeno somtico, so por ns descritas como traumas psquicos, 
e a manifestao patolgica que surge desta forma, como sintomas histricos de origem traumtica. (A expresso "histeria traumtica" j foi aplicada a fenmenos 
que, por serem conseqncia de danos fsicos - traumas no sentido mais estrito do termo - fazem parte da classe das "neuroses traumticas".)
         A gnese dos fenmenos que so determinados por traumas encontra analogia na converso histrica da excitao psquica, que se origina no de estmulos 
externos nem da inibio dos reflexos psquicos normais, e sim da inibio do curso de associao. O exemplo e modelo mais simples disso  proporcionado pela excitao 
que surge quando no conseguimos recordar um nome ou no podemos solucionar um enigma, e assim por diante. Quando algum nos diz o nome ou nos d a resposta do enigma, 
a cadeia de associaes termina e a excitao desaparece, exatamente como faz no final de uma cadeia de reflexos. A intensidade da excitao causada pelo bloqueio 
de uma linha de associaes est na razo direta do interesse que temos nelas - isto , do grau em que elas acionam nossa vontade. Visto, porm, que a procura de 
uma soluo do problema, ou o que quer que seja, sempre envolve grande volume de trabalho, embora possa no ter nenhuma serventia, mesmo uma poderosa excitao encontra 
utilizao e no pressiona a descarga, e conseqentemente, jamais se torna patognica.
         Essa excitao, entretanto, se torna de fato patognica quando o curso de associaes  inibido graas s representaes irreconciliveis de igual importncia 
- quando, por exemplo, novas representaes entram em conflito com complexos representativos enraizados. Tais so os tormentos da dvida religiosa a que muitas pessoas 
sucumbem e muitas outras sucumbiram no passado. Mesmo nesses casos, contudo, a excitao e o sofrimento psquico acompanhante (a sensao de desprazer) s atingem 
um grau considervel quando entra em jogo algum interesse volitivo do sujeito - quando, por exemplo, algum cheio de dvidas se sente ameaado em sua felicidade 
ou salvao. Tal fator est sempre presente, no entanto, quando o conflito se d entre complexos firmemente enraizados de representaes morais em que o indivduo 
foi educado e a lembrana de aes ou simples pensamentos irreconciliveis com essas representaes; quando, em outras palavras, se sentem as dores da conscincia. 
O interesse volitivo em gostar da prpria personalidade e estar satisfeito com ela entra em ao nesse ponto e eleva ao mais alto grau a excitao atribuda  inibio 
das associaes.  uma constatao cotidiana que um conflito entre representaes irreconciliveis possui um efeito patognico. O que se acha em questo na maioria 
das vezes so representaes e processos ligados  vida sexual: a masturbao num adolescente com susceptibilidades morais; ou, numa mulher casada de moral rigorosa, 
a conscientizao de sentir-se atrada por um homem que no  o prprio marido. Com efeito, o primeiro aparecimento das sensaes e representaes sexuais, por si 
s,  muitas vezes suficiente para acarretar um intenso estado de excitao, por causa de seu conflito com a representao profundamente enraizada da pureza moral.
         Um estado de excitao dessa natureza costuma ser seguido por conseqncias psquicas, tais como a depresso patolgica e os estados de angstia (Freud 
|1895b|). s vezes, porm, algumas circunstncias coincidentes acarretam um fenmeno somtico anormal em que a excitao  descarregada. Assim, pode haver vmitos 
quando o sentimento de impureza produz uma sensao fsica de nusea; ou uma tussis nervosa, como em Anna O. (Caso Clnico n 1 | ver em [1]|), quando a angstia 
moral provoca um espasmo da glote, e assim por diante.
         H uma reao normal apropriada  excitao provocada por representaes muito ntidas e irreconciliveis - a saber, comunic-las pela fala. Um quadro divertidamente 
exagerado da nsia de fazer isso  fornecido na histria do barbeiro de Midas, que revelou em voz alta seu segredo aos canios. Encontramos o mesmo anseio como um 
dos fatores bsicos de uma grande instituio histrica - o confessionrio catlico romano. Dizer as coisas  um alvio; descarrega a tenso, mesmo quando a pessoa 
a quem elas so ditas no  um padre e mesmo quando no se procura qualquer absolvio. Quando se nega essa sada  excitao, ela s vezes se converte num fenmeno 
somtico, tal como acontece com a excitao pertinente aos afetos traumticos. Todo o grupo de fenmenos histricos que assim se origina pode ser descrito, com Freud, 
como fenmenos histricos de reteno.
         O relato que fizemos at aqui do mecanismo pelo qual se originam os fenmenos histricos est sujeito  crtica de ser esquemtico em demasia e de simplificar 
os fatos. Para que uma pessoa saudvel que no seja inicialmente neuropata possa desenvolver um sintoma histrico autntico, com sua aparente independncia da mente 
e com existncia somtica prpria, deve haver sempre grande nmero de circunstncias convergentes.
         O caso seguinte servir de exemplo da natureza complicada do processo. Um menino de doze anos de idade, que antes sofrera de pavor nocturnus e cujo pai 
era altamente neurtico, voltou certo dia da escola para casa sentindo-se mal. Queixava-se de dificuldade de engolir e de dor de cabea. O mdico da famlia presumiu 
que a causa fosse uma inflamao na garganta. Mas o estado no melhorou, mesmo aps vrios dias. O menino recusava os alimentos e vomitava quando estes lhe eram 
forados. Movia-se de um lado para o outro apaticamente, sem energia ou prazer; queria ficar deitado o tempo todo e estava fisicamente muito abatido. Quando o examinei 
cinco semanas depois, ele me deu a impresso de ser uma criana acanhada e introvertida e me convenci de que seu estado tinha uma base psquica. Ao ser inquirido 
detidamente, apresentou uma explicao trivial - uma reprimenda severa passada pelo pai - que claramente no fora a causa real de sua doena. Nada se pde saber 
tampouco em sua escola. Prometi que extrairia a informao mais tarde, sob hipnose. Mas isso foi desnecessrio. Reagindo a fortes apelos de sua me inteligente e 
enrgica, o menino debulhou-se em lgrimas e contou a seguinte histria. Quando voltava da escola para casa, ele fora a um mictrio e um homem lhe mostrara o pnis 
e pedira-lhe que ele o pusesse na boca. O garoto fugira apavorado e nada mais lhe tinha acontecido. Mas a partir daquele instante, adoeceu. To logo fez sua confisso, 
recuperou-se inteiramente. - Para produzir a anorexia, a dificuldade de engolir e os vmitos, vrios fatores se fizeram necessrios: a natureza neurtica inata do 
menino, seu intenso pavor, a irrupo da sexualidade em sua forma mais crua no seu temperamento infantil e, como fator especificamente determinante, a idia de repulsa. 
A doena deveu sua persistncia ao silncio do menino, que impediu a excitao de encontrar sua sada normal.
         Em todos os outros casos, como nesse,  preciso haver uma convergncia de vrios fatores para que um sintoma histrico possa ser gerado em qualquer um que 
at ento tenha sido normal. Tais sintomas so invariavelmente "sobredeterminados", para usar a expresso de Freud.
         Pode-se presumir que uma sobre determinao dessa natureza tambm se ache presente quando o mesmo afeto  evocado por uma srie de causas desencadeantes. 
O paciente e aqueles que o cercam atribuem o sintoma histrico apenas  ltima causa, embora essa causa, em geral, s tenha gerado algo que j fora quase realizado 
por outros traumas.
         
         Uma moa de dezessete anos teve seu primeiro ataque histrico (seguido de vrios outros) quando um gato pulou sobre seu ombro no escuro. O ataque parecia 
ser apenas o resultado do susto. Uma investigao mais detida revelou, contudo, que a moa, que era bonita e no muito vigiada, recentemente experimentara vrias 
investidas mais ou menos brutais e ficara sexualmente excitada com elas. (Temos aqui o fator da predisposio.) Alguns dias antes, um jovem a atacara na mesma escada 
escura e ela fugira dele com dificuldade. Esse fora o verdadeiro trauma psquico, que o gato nada mais fez do que tornar manifesto. Mas teme-se que em muitos outros 
casos dessa natureza o gato seja considerado a causa efficiens.
         Para que a repetio de um afeto promova uma converso dessa maneira, nem sempre  necessrio que haja grande nmero de causas externas desencadeantes; 
a renovao do afeto na memria  tambm muitas vezes suficiente, se a lembrana for repetida com rapidez e freqncia, logo aps o trauma e antes que seu afeto 
fique enfraquecido. Isso  o bastante caso o afeto tenha sido muito intenso. Tal  o caso da histeria traumtica, no sentido mais estrito do termo. Durante os dias 
que se seguem a um acidente ferrovirio, por exemplo, o sujeito volta a vivenciar suas experincias assustadoras, tanto dormindo como acordado, e sempre com o afeto 
renovado de pavor, at que afinal, depois desse perodo de "elaborao |laboration| psquica" (para usar a expresso de Charcot | ver em [1]| ou de "incubao", 
ocorre a converso num fenmeno somtico (embora haja outro fator em causa, que teremos de examinar mais tarde).
         Em geral, porm, uma representao afetiva  prontamente submetida a um "desgaste", isto , a todas as influncias mencionadas em nossa "Comunicao Preliminar" 
(ver em. [1]), que a privam pouco a pouco de sua carga de afeto. Sua revivescncia causa uma quantia sempre decrescente de excitao, e a lembrana perde assim a 
capacidade de contribuir para a produo de um fenmeno somtico. A facilitao do reflexo anormal desaparece e o status quo ante  ento restabelecido.
         As influncias do "desgaste", entretanto, so todas efeitos da associao, do pensamento e de correes por referncias a outras representaes. Esse processo 
de correo torna-se impossvel quando a representao afetiva retira-se do "contato associativo". Quando isso acontece, a representao retm toda a sua carga afetiva. 
Visto que a cada renovao toda a soma de excitao do afeto original volta a ser liberada, a facilitao do reflexo anormal que se iniciou na poca  finalmente 
estabelecida; ou ento, se a facilitao j estava completa, ela  mantida e estabilizada. O fenmeno da converso histrica assim se estabelece permanentemente.
         Nossas observaes mostram duas maneiras pelas quais as representaes afetivas podem ser excludas da associao.
         A primeira  a "defesa", a supresso deliberada de representaes aflitivas que parecem ameaar a felicidade ou a auto-estima do indivduo. Em seu |primeiro| 
artigo sobre "As Neuropsicoses de Defesa" (1894a) e em seus casos clnicos no presente volume, Freud examinou esse processo, que indubitavelmente possui altssima 
significao patolgica. No podemos,  verdade, compreender como uma representao pode ser deliberadamente recalcada da conscincia. Mas estamos perfeitamente 
familiarizados com o processo positivo correspondente, o de concentrar a ateno numa representao, e somos da mesma maneira incapazes de dizer como efetuamos isso. 
Assim, as representaes de que a conscincia se desvia, que no so objeto de pensamento, so tambm retiradas do processo de desgaste e retm sua carga afetiva 
sem diminuio.
         Verificamos ainda que existe outra espcie de representao que permanece isenta do desgaste pelo pensamento. Isso pode acontecer, no porque no se queira 
lembrar a representao, mas porque no se consegue lembr-la: porque ela emergiu originalmente e foi dotada de afeto em estados com relao aos quais existe uma 
amnsia na conscincia de viglia - isto , na hipnose ou estados semelhantes a ela. Estes ltimos parecem ser da mais alta importncia para a teoria da histeria 
e, por conseguinte, merecem um exame um pouco mais complexo.
         
         (4) ESTADOS HIPNIDES
         
         Quando, em nossa "Comunicao Preliminar" | ver em [1]|, apresentamos a tese de que a base e condio sine qua non da histeria  a existncia de estados 
hipnides, estvamos desprezando o fato de que Moebius j dissera exatamente a mesma coisa em 1890. "A condio necessria para a atuao (patognica) das idias 
, por um lado, uma predisposio inata - isto , uma disposio histrica - e, por outro, um peculiar estado mental. Podemos apenas formar uma idia imprecisa desse 
estado mental. Deve assemelhar-se a um estado de hipnose; deve corresponder a alguma espcie de vazio da conscincia em que uma idia emergente no depara com qualquer 
resistncia por parte de outra - no qual, por assim dizer, o campo est livre para a primeira idia que vier. Sabemos que esse tipo de estado pode ser acarretado 
no somente pelo hipnotismo, como tambm pelo choque emocional (susto, clera, etc.) e por fatores que esgotam as foras (privao do sono, fome, etc.)" |Moebius, 
1894, 17|.
         O problema para cuja soluo Moebius fazia aqui uma abordagem preliminar  o da gerao de manifestaes somticas pelas idias. Ele recorda nesse ponto 
a facilidade com que isso pode ocorrer sob hipnose e considera anloga  atuao dos afetos. Nosso conceito sobre a atuao dos afetos, um tanto diferente, foi plenamente 
explicado atrs | ver em [1] e segs.|. No preciso, portanto, penetrar ainda mais na dificuldade existente na suposio de Moebius de que, na raiva, h um "vazio 
da conscincia" (o que reconhecidamente existe no pavor e na angstia prolongada), ou na dificuldade mais geral de traar uma analogia entre o estado de excitao 
num afeto e o estado quiescente na hipnose. Recorreremos mais adiante | ver em [1]|, contudo, a essas observaes de Moebius, que em minha opinio contm uma verdade 
importante.
         A nosso ver, a importncia desses estados que se assemelham  hipnose - "os estados hipnides" - reside alm disso e principalmente na amnsia que os acompanha 
e em seu poder de provocarem a diviso da mente, que logo examinaremos e que  de fundamental significao para a "grande histeria". Ainda atribumos essa importncia 
aos estados hipnides. Mas devo acrescentar uma ressalva substancial  nossa tese. A converso - a produo ideognica de fenmenos somticos - tambm pode ocorrer 
independentemente dos estados hipnides. Freud encontrou na amnsia deliberada de defesa uma segunda fonte, independente dos estados hipnides, para a formao de 
complexos representativos que so excludos do contato associativo. Mas ao aceitar essa ressalva, ainda sou de opinio que os estados hipnides so a causa e a condio 
necessria de muitas, na realidade da maioria, das histerias grandes e complexas.
         Antes de mais nada,  claro, devem-se enumerar entre os estados hipnides as auto-hipnoses verdadeiras, que s se distinguem das hipnoses artificiais pelo 
fato de se originarem de modo espontneo. Encontramo-las em grande nmero de histerias plenamente desenvolvidas, ocorrendo com variada freqncia e durao, e muitas 
vezes alternando-se rapidamente com estados de viglia normais (cf. Casos Clnicos 1 e 2). Em virtude da natureza quase onrica de seu contedo, muitas vezes merecem 
o nome de "delirium histericum". O que acontece durante os estados auto-hipnticos est sujeito  amnsia mais ou menos total na vida de viglia (ao passo que  
completamente recordado na hipnose artificial). Os produtos psquicos desses estados e as associaes que se formaram neles so impedidos pela amnsia de qualquer 
correo durante o pensamento de viglia; e como na auto-hipnose a crtica e o controle provocados por outras idias se reduzem, e em geral desaparecem quase por 
completo, os mais loucos delrios podem emergir dela intactos por longos perodos. Assim, quase s nesses estados  que surge uma "relao simblica (um tanto irracional 
e complicada) entre a causa precipitante e o fenmeno patolgico" | ver em [1]-[2]|, que, na verdade, muitas vezes se baseia nas mais absurdas semelhanas fonticas 
e associaes verbais. A ausncia de crtica nos estados auto-hipnticos explica por que deles surgem auto-sugestes com tanta freqncia - como, por exemplo, quando 
uma paralisia fica como seqela aps um ataque histrico. Mas - e isso talvez apenas se deva ao acaso - quase nunca deparamos, em nossas anlises, com um exemplo 
de um fenmeno histrico que se tenha originado assim. Sempre a vimos acontecer, no menos na auto-hipnose do que fora dela, como resultado do mesmo processo - a 
saber, a converso de uma excitao afetiva.
         Seja como for, essa "converso histrica" verifica-se mais facilmente na auto-hipnose do que no estado de viglia, do mesmo modo que as representaes sugeridas 
se realizam fisicamente, como alucinaes e movimentos, com muito mais facilidade na hipnose artificial. No obstante, o processo de converso da excitao  em 
essncia idntico ao descrito acima. Uma vez que tenha ocorrido, o fenmeno somtico se repete se o afeto e a auto-hipnose ocorrerem simultaneamente. E nesse caso, 
 como se o estado hipntico fosse evocado pelo prprio afeto. Por conseguinte, desde que haja uma alternncia ntida entre a hipnose e a vida de viglia plena, 
o sintoma histrico permanece restrito ao estado hipntico e  nele fortalecido pela repetio; alm disso, a representao que lhe deu lugar fica isenta de correo 
pelos pensamentos de viglia e pela sua crtica, precisamente porque nunca emerge na vida lcida de viglia.
         Assim, com Anna O. (Caso Clnico 1), a contratura do brao direito, que se associava em sua auto-hipnose com o afeto de angstia e com a representao da 
cobra, permaneceu durante quatro meses restrita aos momentos durante os quais ela se encontrava num estado hipntico (ou, se considerarmos esse termo inapropriado 
para as absences de durao muito curta, um estado hipnide), embora se repetisse com freqncia. A mesma coisa aconteceu com outras converses que se verificaram 
em seu estado hipnide; e dessa forma, o grande complexo de fenmenos histricos organizou-se num estado de completa latncia e veio a revelar-se quando seu estado 
hipnide se tornou permanente. | ver em [1] |
         Os fenmenos assim surgidos s emergem na conscincia lcida quando a diviso da mente, que examinarei depois, j foi concluda, e quando a alternncia 
entre os estados de viglia e hipnose foi substituda por uma coexistncia entre os complexos representativos normais e os hipnides.
         Ser que existem estados hipnides dessa natureza antes de o paciente adoecer? Como aparecem eles? Muito pouco posso dizer a respeito disso, pois afora 
o caso de Anna O., no dispomos de qualquer observao que possa lanar luz sobre esse ponto. Parece certo que, no caso dela, a auto-hipnose teve seu terreno preparado 
por devaneios habituais e foi plenamente estabelecida por um afeto de angstia prolongado, o qual, por si s, teria sido a base de um estado hipnide. No nos parece 
improvvel que este processo seja vlido de um modo bastante geral.
         Uma grande variedade de estados conduz  "ausncia da mente", mas apenas alguns deles predispem  auto-hipnose ou logo passam para ela. Sem dvida, um 
investigador profundamente absorto num problema fica anestesiado at certo ponto, no formando qualquer percepo consciente de grandes grupos de suas sensaes; 
e o mesmo se aplica a qualquer um que esteja usando ativamente sua imaginao criadora (cf. "o teatro particular" de Anna O. | ver em [1]|). Mas em tais estados, 
um intenso trabalho mental  executado e a excitao liberada pelo sistema nervoso  consumida nesse trabalho. Nos estados de distrao e devaneio, por outro lado, 
a excitao intracerebral cai abaixo de seu nvel lcido de viglia. Esses estados bordejam a sonolncia e se convertem em sono. Se, durante tal estado de absoro 
e enquanto o fluxo de representaes  inibido, um grupo de representaes de tonalidade afetiva estiver em ao, criar um alto nvel de excitao intracerebral 
que no ser consumida pelo trabalho mental e ficar  disposio do funcionamento anormal, como a converso.
         Assim, nem a "ausncia da mente" durante o trabalho intenso, nem os estados crepusculares destitudos de emoo so patognicos; por outro lado, os devaneios 
carregados de emoo e os estados de fadiga decorrentes de afetos prolongados so patognicos. As ruminaes de um homem cheio de preocupaes, a angstia de uma 
pessoa que esteja velando  cabeceira de um doente que lhe  caro e os devaneios dos amantes so estados desta segunda natureza. A concentrao no grupo afetivo 
de representaes comea por produzir uma "ausncia da mente". O fluxo de representaes torna-se gradualmente mais lento e, por fim, quase pra; mas a representao 
afetiva e seu afeto permanecem ativas e, por conseguinte, tambm a grande quantidade de excitao que no est sendo consumida funcionalmente. A semelhana entre 
essa situao e os determinantes da hipnose parece inconfundvel. O indivduo que vai ser hipnotizado no precisa realmente adormecer, isto , sua excitao intracerebral 
no precisa mergulhar ao nvel do sono; mas seu fluxo de representaes deve ser inibido. Quando isso acontece, toda a massa de excitao fica  disposio da representao 
sugerida.
          dessa maneira que a auto-hipnose patognica parece surgir em algumas pessoas - atravs da introduo de afeto num devaneio habitual. Essa talvez seja 
uma das razes por que, na anamnese da histeria, deparamos to freqentemente com os dois grandes fatores patognicos de estar apaixonado e cuidar de doentes. No 
primeiro, os pensamentos saudosos do indivduo sobre a pessoa amada ausente criam nele um estado de esprito "arrebatado", fazem com que seu ambiente real se esmaea 
e ento levam seu pensamento a um estado de paralisao carregado de afeto; j no cuidar de doentes, a quietude pela qual o indivduo se v rodeado, sua concentrao 
num objeto, sua ateno fixada na respirao do paciente - tudo isso garante precisamente as condies exigidas por muitas tcnicas hipnticas e enche o estado crepuscular 
assim produzido com o afeto de angstia.  possvel que esses estados difiram apenas quantitativamente das auto-hipnoses verdadeiras e que se transformem nelas.
         Uma vez que isso tenha acontecido, o estado semelhante  hipnose se repete muitas vezes ao surgirem as mesmas circunstncias, e o indivduo, em vez dos 
dois estados normais da mente, possui trs: o estado de viglia, o de sono e o hipnide. Verificamos que a mesma coisa acontece quando a hipnose artificial profunda 
 com freqncia provocada.
         No sei dizer se os estados hipnticos espontneos podem tambm ser gerados sem que haja a interveno de um afeto dessa maneira, como resultado de uma 
predisposio inata, mas considero-o muito provvel. Quando vemos a diferena de suscetibilidade  hipnose artificial tanto entre pessoas sadias como entre doentes, 
e vemos quo facilmente  provocada em algumas delas, parece razovel supor que em tais pessoas ela tambm possa aparecer de modo espontneo. E talvez seja necessria 
uma predisposio para isso para que um devaneio possa transformar-se numa auto-hipnose. Estou, portanto, longe de atribuir a todos os pacientes histricos o mecanismo 
gerador que nos foi ensinado por Anna O.
         Refiro-me antes a estados hipnides do que  hipnose em si porque  muito difcil estabelecer uma demarcao clara desses estados, que desempenham um papel 
to importante na gnese da histeria. No sabemos se os devaneios, descritos acima como estgios preliminares da auto-hipnose, no podem eles prprios ser capazes 
de produzir o mesmo efeito patolgico que a auto-hipnose, e se os mesmos tambm no podem aplicar-se a um afeto prolongado de angstia. Por certo que isso se aplica 
ao medo. Visto que o medo inibe o fluxo de representaes ao mesmo tempo em que uma representao afetiva (de perigo) est muito ativa, ele oferece um paralelo completo 
a um devaneio carregado de afeto; e uma vez que a lembrana da representao afetiva que sempre se renova, continua a estabelecer esse estado mental, passa a existir 
um "medo hipnide" em que a converso  promovida ou estabilizada. Temos a o estgio de incubao da "histeria traumtica" no sentido estrito da expresso.
         Uma vez que h possibilidade de agrupar com a auto-hipnose estados mentais to diferentes, embora compatveis entre si nos aspectos mais importantes, parece 
desejvel adotar a expresso "hipnide", que d nfase a essa semelhana interna. Ela resume o conceito, apresentado por Moebius no trecho citado anteriormente | 
ver em [1]-[2]|. Acima de tudo, porm, essa expresso aponta para a prpria auto-hipnose, cuja importncia na gnese dos fenmenos histricos repousa no fato de 
que ela torna a converso mais fcil e protege (pela amnsia) as representaes convertidas de se desgastarem - proteo esta que acaba por levar a um aumento da 
diviso psquica.
         
         Quando um sintoma somtico causado por uma representao  repetidamente desencadeado por ela, poderamos esperar que os pacientes inteligentes e capazes 
de auto-observao ficassem conscientes da vinculao; eles saberiam por experincia que a manifestao somtica aparecia ao mesmo tempo que a lembrana de um fato 
especfico. O nexo causal subjacente, na verdade,  desconhecido deles; mas todos ns sempre sabemos qual  a representao que nos faz chorar, rir ou enrubescer, 
ainda que notenhamos a mais leve compreenso do mecanismo nervoso desses fenmenos ideognicos. Algumas vezes os pacientes realmente observam a conexo e esto 
cnscios dela. Por exemplo, uma mulher pode dizer que seu ataque histrico branco (tremores e palpitao, talvez) provm de alguma grande perturbao emocional e 
se repete quando, e somente quando, algum fato faz com que ela se lembre disso. Mas este no  o caso com muitos ou, na verdade, com a maioria dos sintomas histricos. 
Mesmo os pacientes inteligentes no esto cnscios de que seus sintomas surgem como resultado de uma representao e os consideram manifestaes fsicas independentes. 
Se fosse de outra forma, a teoria psquica da histeria j teria alcanado uma idade respeitvel.
         Seria plausvel acreditar que, embora os sintomas em questo fossem originalmente ideognicos, a repetio deles os tornou, para usar o termo de Romberg 
|1840, 192|, "gravados" no corpo, e agora no mais se baseariam num processo psquico, e sim em modificaes no sistema nervoso ocorridas nesse meio tempo: ter-se-iam 
tornado sintomas independentes e genuinamente somticos.
         Esse conceito no , em si mesmo, nem insustentvel nem improvvel. Mas creio que a nova luz que nossas observaes lanaram sobre a teoria da histeria 
reside precisamente em ter ela demonstrado que essa viso  insuficiente para sustentar os fatos, pelo menos em muitos casos. Vimos que sintomas histricos dos mais 
variados tipos, que datavam de muitos anos, "desapareciam imediata e permanentemente quando conseguamos evocar com clareza a lembrana do fato que os havia provocado 
e despertar seu afeto concomitante, e quando a paciente havia descrito tal evento com os maiores detalhes possveis e traduzira o afeto em palavras" | ver em [1]|. 
Os casos clnicos relatados nessas pginas fornecem algumas provas em apoio de tais asser-es. "Podemos inverter a mxima 'cessante causa cessat effectus' |'cessando 
a causa cessa o efeito'| e concluir dessas observaes que o processo determinante" (isto , a recordao dele) "continua a atuar durante anos - no indiretamente, 
atravs de uma cadeia de elos causais intermedirios, mas como uma causa diretamente liberadora - do mesmo modo que um sofrimento psquico que  recordado na conscincia 
de viglia ainda provoca uma secreo lacrimal muito depois do acontecimento. Os histricos sofrem principalmente de reminiscncias" |p. [1]|. Mas se esse for o 
caso - se a lembrana do trauma psquico tiver que ser considerada to atuante quanto um agente contemporneo, como um corpo estranho muito depois da sua entrada 
forada, e se, no obstante, o paciente no tiver nenhuma conscincia de tais lembranas ou do surgimento delas - ento deveremos admitir que as representaes inconscientes 
existem e so atuantes.
         Alm disso, quando chegamos a analisar os fenmenos histricos, no encontramos apenas essas representaes inconscientes em isolamento. Devemos reconhecer 
o fato de que na realidade, como foi demonstrado pelo valioso trabalho executado por pesquisadores franceses, grandes complexos de representaes e processos psquicos 
complicados e de importantes conseqncias permanecem inteiramente inconscientes num grande nmero de pacientes, e coexistem com a vida mental consciente: devemos 
reconhecer que h algo que se pode chamar de diviso da atividade psquica, e que isso  de valor fundamental para nossa compreenso das histerias complicadas.
         Talvez me seja permitido explorar bem mais amplamente essa regio difcil e obscura. A necessidade de estabelecer o significado da terminologia aqui empregada 
talvez justifique, at certo ponto, a discusso terica que se segue.
         
         
         (5) REPRESENTAES INCONSCIENTES E REPRESENTAES INADMISSVEIS  CONSCINCIA - DIVISO DA MENTE
         
         Chamamos representaes conscientes quelas de que temos conhecimento. Existe nos seres humanos o fato estranho da conscincia de si mesmo. Somos capazes 
de encarar e observar, como se fossem objetos, representaes que surgem em ns e se sucedem umas s outras. Isso nem sempre acontece, uma vez que so raras as oportunidades 
de auto-observao. Mas a capacidade para isso est presente em cada um, pois todos podem dizer: "pensei nisto ou naquilo". Descrevemos como conscientes as representaes 
que observamos como ativas em ns, ou que assim observaramos se prestssemos ateno a elas. Em qualquer momento especfico do tempo h pouqussimas delas; e se 
alm dessas houver tambm outras representaes presentes, teremos de cham-las de representaes inconscientes.
         No mais parece necessrio argumentar em favor da existncia de representaes correntes que so inconscientes ou subconscientes. Elas se acham entre os 
fatos mais comuns na vida cotidiana. Caso me esquea de fazer uma de minhas visitas mdicas, terei sentimentos de viva inquietao. Sei por experincia o que significa 
essa sensao de que me esqueci de algo.Vasculho minhas lembranas em vo; no consigo descobrir a causa at que, subitamente, talvez algumas horas depois, ela entra 
em minha conscincia. Mas estive inquieto o tempo todo. Por conseguinte, a representao da visita esteve todo o tempo atuante, isto , presente, mas no em minha 
conscincia. Ou ento um homem atarefado se aborrece com alguma coisa em certa manh. Fica inteiramente absorto em seu trabalho no escritrio; enquanto o executa, 
seus pensamentos conscientes esto inteiramente ocupados e ele no pensa em seu aborrecimento. Mas suas decises so influenciadas por ele e  bem possvel que o 
sujeito diga "no" onde de outra forma diria "sim". Portanto, apesar de tudo, essa lembrana  atuante, ou seja, est presente. Grande parte do que descrevemos como 
"estado de nimo" provm de fontes dessa natureza, de representaes que existem e esto atuantes abaixo do limiar da conscincia. De fato, toda a conduta da nossa 
vida  constantemente influenciada por representaes subconscientes. Podemos ver na vida cotidiana como, quando h degenerescncia mental, como por exemplo nos 
estgios iniciais da paralisia geral, as inibies que normalmente restringem certas aes se tornam mais fracas e desaparecem. Mas o paciente que agora faz piadas 
indecentes na presena de mulheres no era, em seus dias de sade, impedido de faz-lo por lembranas e reflexes consciente; evitava-o "instintiva" e "automaticamente" 
- isto , era refreado por representaes que eram evocadas pelo impulso de comportar-se dessa forma, mas que permaneciam abaixo do limiar da conscincia, embora, 
no obstante, inibissem o impulso. - Toda a atividade intuitiva  dirigida por representaes que em grande medida so inconscientes, pois apenas as representaes 
mais claras e mais intensas so percebidas pela conscincia de si mesmo, enquanto a grande massa de representaes correntes, porm mais fracas, permanece inconsciente.
         As objees que so levantadas contra a existncia e a atuao das "representaes inconscientes" parecem, na maior parte, ser um jogo de palavras. Sem 
dvida, "representao"  uma palavra que pertence  terminologia do pensamento consciente, e "representao inconsciente"  portanto uma expresso autocontraditria. 
Mas o processo fsico subjacente a uma representao  o mesmo no contedo e na forma (embora no em quantidade), quer a representao se eleve acima do limiar da 
conscincia, quer permanea abaixo dele. Bastaria construir uma expresso como "substrato representativo" para evitar a contradio e rebater a objeo.
         Assim, no parece haver nenhuma dificuldade terica em reconhecer tambm as representaes inconscientes como causas dos fenmenos patolgicos. Mas se entrarmos 
no assunto mais detidamente, encontraremos outras dificuldades. Em geral, quando a intensidade de uma representao inconsciente aumenta, ela penetra na conscincia 
ipso facto. S quando sua intensidade  leve  que ela permanece inconsciente. O que parece difcil de compreender  como uma representao pode ser suficientemente 
intensa para provocar um ato motor ativo, por exemplo, e ao mesmo tempo no ser intensa o bastante para tornar-se consciente.
         J mencionei |ver em. [1] | um conceito que talvez no deva ser descartado de imediato. De acordo com ele, a clareza de nossas representaes, e conseqentemente 
sua capacidade de serem observadas por nossa autoconscincia - isto , de serem conscientes -  determinada, entre outras coisas, pelas sensaes de prazer ou desprazer 
que desperta, por sua carga de afeto. Quando uma representao produz imediatamente ntidas conseqncias somticas, isso implica que a excitao engendrada por 
ela escoou-se pelas vias implicadas nessas conseqncias, em vez de difundir-se no crebro, e precisamente porque essa representao tem conseqncias fsicas, porque 
suas somas de estmulos psquicos so "convertidas" em estmulos somticos, ela perde a clareza que de outra forma a teria destacado na corrente de representaes. 
Em vez disso, perde-se entre as demais.
         Suponhamos, por exemplo, que algum tenha experimentado um afeto violento durante uma refeio e no o tenha "ab-reagido". Ao tentar comer, mais tarde, 
ele  dominado por engasgos e vmitos e estes lhe parecem sintomas puramente somticos. Seus vmitos histricos continuam por tempo considervel. Desaparecem depois 
que o afeto  revivido, descrito e tornado alvo de reao por parte do paciente sob hipnose. No h dvida de que cada tentativa de comer evocava a lembrana em 
causa. Essa lembrana deu origem aos vmitos, mas no surgiu claramente na conscincia, pois estava ento destituda do afeto, enquanto os vmitos absorviam a ateno 
inteiramente.
          concebvel que a razo que acaba de ser dada explique por que algumas idias que liberam fenmenos histricos no sejam reconhecidas como suas causas. 
Mas essa razo - o fato de as representaes que perderam seu afeto, por terem sido convertidas, passarem despercebidas - no tem possibilidade de explicar por que, 
em outros casos, complexos representativos que so tudo, menos desprovidos de afeto, no entram na conscincia. Numerosos exemplos disso so encontrados em nossos 
casos clnicos.
         Em tais pacientes verificamos que a norma era a perturbao emocional - apreenso, irritabilidade raivosa, tristeza - preceder o aparecimento do sintoma 
somtico ou segui-lo imediatamente, e aumentar at ser dissipada atravs de sua expresso em palavras, ou at que o afeto e a manifestao somtica tornassem a desaparecer 
gradativamente. Quando ocorria o primeiro caso, a qualidade do afeto sempre se tornava perfeitamente compreensvel, embora sua intensidade no pudesse deixar de 
parecer, aos olhos de uma pessoa normal (e do prprio paciente, depois de ter sido esclarecida), totalmente desproporcional. Essas eram, portanto, representaes 
intensas o bastante no apenas para causar fortes fenmenos somticos, como tambm para evocar o afeto apropriado e influenciar o curso da associao, dando destaque 
a representaes afins - mas que, apesar de tudo isso, permaneciam elas prprias fora da conscincia. Para traz-las  conscincia, a hipnose se fazia necessria 
(como nos Casos Clnicos 1 e 2), ou (como nos Casos 4 e 5) era preciso empreender uma busca trabalhosa com a ajuda esforada do mdico.
         Representaes tais como essas, que, embora presentes, so inconscientes, no por causa de seu grau relativamente pequeno de nitidez, mas apesar de sua 
grande intensidade, podem ser descritas como representaes que so "inadmissveis  conscincia".
         A existncia desse tipo de representaes inadmissveis  conscincia  patolgica. Nas pessoas normais, todas as representaes que podem tornar-se presentes 
tambm penetram na conscincia, desde que sejam suficientemente intensas. Em nossos pacientes encontramos um grande complexo de representaes admissveis  conscincia 
coexistindo com um complexo menor de representaes que no o so. Neles, portanto, o campo da atividade psquica representativa no coincide com a conscincia potencial. 
Esta ltima  mais restrita que a primeira. A atividade psquica representativa dessas pessoas divide-se numa parte consciente e noutra inconsciente, e suas representaes 
se dividem em algumas que so admissveis e algumas que so inadmissveis  conscincia. No podemos, portanto, falar numa diviso da conscincia, embora possamos 
mencionar uma diviso da mente.
         Inversamente, essas representaes subconscientes no podem ser influenciadas ou corrigidas pelo pensamento consciente. Com muita freqncia elas se referem 
a experincias que, entrementes, perderam seu significado - o pavor de fatos que no ocorreram, o susto que se transformou em riso ou alegria aps um salvamento. 
Tais desenvolvimentos subseqentes privam a memria de todo o seu afeto no que tange  conscincia, mas deixam inteiramente intacta a representao subconsciente 
que provoca fenmenos somticos.
         Talvez me seja permitido citar outro exemplo. Uma jovem mulher casada ficou, por algum tempo, muito preocupada com o futuro de sua irm mais moa. Como 
resultado disso, sua menstruao, normalmente regular, passou a durar duas semanas. Ela ficou com o hipogstrico esquerdo sensvel e por duas vezes se descobriu 
deitada no cho, rgida, voltando a si de um "desmaio". Seguiu-se uma nevralgia ovariana do lado esquerdo, com sinais de peritonite aguda. A ausncia de febre e 
uma contratura da perna esquerda (e das costas) indicaram que a molstia era uma pseudo-peritonite; e quando alguns anos depois a paciente faleceu, e se procedeu 
 autpsia, tudo o que se encontrou foi uma "degenerao microcstica" de ambos os ovrios, sem quaisquer vestgios de uma antiga peritonite. Os sintomas agudos 
foram desaparecendo aos poucos e deixaram atrs de si uma nevralgia ovariana, uma contratura dos msculos das costas, de modo que seu tronco ficara rijo como uma 
tbua, e uma contratura da perna esquerda. Esta ltima foi eliminada sob hipnose por sugesto direta. A contratura das costas no foi afetada por isso. Entrementes, 
as dificuldades da irm mais moa tinham sido inteiramente dissipadas e todos os seus temores baseados nelas desapareceram. Mas os fenmenos histricos, que s poderiam 
ter-se originado delas, permaneceram inalterados. Era tentador presumir que aquilo com que nos defrontvamos eram modificaes da inervao, que teriam assumido 
um status independente e no mais estariam vinculadas  representao que as havia causado. Mas depois de a paciente ter sido obrigada a narrar, sob hipnose, toda 
a histria at a poca em que adoecera de "peritonite" - o que fez muito a contragosto - ela logo sentou-se aprumada na cama, sem ajuda, e as contraturas das costas 
desapareceram para sempre. (A nevralgia ovariana, que sem dvida era de origem muito antiga, permaneceu inalterada.) Assim, vemos que sua representao patognica 
angustiada continuara a agir ativamente por meses a fio e fora totalmente inacessvel a qualquer correo pelos acontecimentos reais.
         
         Se formos obrigados a reconhecer a existncia de complexos representativos que jamais penetram na conscincia e no so influenciados pelo pensamento consciente, 
teremos admitido que, mesmo em casos to simples de histeria como o que acabo de descrever, h uma diviso da mente em duas partes relativamente independentes. No 
afirmo que tudo o que denominamos de histrico apresente tal diviso como sua base e condio necessria; mas de fato assevero que "a diviso da atividade psquica 
que  to marcante nos casos famosos sob a forma de 'double conscience' encontra-se presente, em grau rudimentar, em toda grande histeria", e que "a disposio e 
tendncia a essa dissociao constitui o fenmeno bsico dessa neurose".
         Mas antes de examinarmos este assunto, devo acrescentar um comentrio quanto s representaes inconscientes que produzem efeitos somticos. Muitos fenmenos 
histricos duram continuamente por muito tempo, como a contratura no caso antes descrito. Ser que devemos e podemos supor que, por todo esse tempo, a representao 
causativa est perpetuamente em ao e se acha presente na atualidade? Penso que sim.  verdade que nas pessoas sadias vemos a atividade psquica processar-se concomitantemente 
a uma rpida mudana de idias. Mas encontramos portadores de melancolia grave imersos, por longos perodos, numa mesma representao aflitiva, que est perpetuamente 
ativa e presente. Na verdade, podemos muito bem acreditar que mesmo quando uma pessoa sadia tem uma grande preocupao em sua mente, esta se faz presente o tempo 
todo, uma vez que tal preocupao domina a expresso facial mesmo quando a conscincia est repleta de outros pensamentos. Mas a parcela da atividade psquica que 
 isolada nas pessoas histricas, e na qual costumamos pensar como estando repleta de representaes inconscientes, encerra, em geral, uma dose to pequena destas 
e  to inacessvel ao intercmbio com as impresses externas que  fcil acreditar que uma representao nica possa estar permanentemente ativa na mente.
         Se nos parece, como ocorre com Binet e Janet, que o que se acha no centro da histeria  uma expulso de parte da atividade psquica, temos o dever de ser 
to claros quanto possvel sobre este assunto.  fcil demais cairmos num hbito de pensamento que pressupunha que todo substantivo tem por detrs uma substncia 
- um hbito que pouco a pouco passa a considerar a "conscincia" como representando uma coisa real; e quando nos acostumamos a fazer uso das relaes espaciais metaforicamente 
como no termo "subconsciente", verificamos,  medida que o tempo passa, que na verdade formamos uma representao que perdeu sua natureza metafrica e que podemos 
com facilidade manipular como se fosse real. Nossa mitologia torna-se ento completa.
         Todo o nosso pensamento tende a se fazer acompanhar e ajudar por representaes espaciais, e nos expressamos atravs de metforas espaciais. Assim, quando 
falamos de representaes que se encontram na regio da conscincia lcida e de representaes inconscientes que jamais penetram na plena luz da conscincia de si 
mesmo, quase inevitavelmente formamos quadros de uma rvore com o tronco  luz do dia e as razes na escurido, ou de um edifcio com seus escuros pores subterrneos. 
Se, contudo, tivermos sempre em mente que todas essas relaes espaciais so metafricas, e no nos deixarmos iludir pela suposio de que essas relaes se acham 
literalmente presentes no crebro, poderemos, no obstante, falar numa conscincia e num subconsciente. Mas s nessa condio.
         Estaremos livres do perigo de nos deixarmos enganar por nossas prprias figuras de linguagem se sempre nos lembrarmos de que, afinal de contas,  no mesmo 
crebro, e muito provavelmente no mesmo crtex cerebral, que as representaes conscientes e inconscientes tm sua origem. Como isso  possvel no sabemos dizer. 
Por outro lado, sabemos to pouco sobre a atividade psquica do crtex cerebral que mais uma complicao enigmtica quase no chega a aumentar nossa ignorncia sem 
limites. Devemos aceitar como um fato que, nos pacientes histricos, parte de sua atividade psquica  inacessvel  percepo pela autoconscincia do indivduo 
desperto e que a mente deles  assim dividida.
         Um exemplo universalmente conhecido de uma diviso de atividade psquica como essa pode ser visto nos ataques histricos, em algumas de suas formas e fases. 
No incio deles, o pensamento consciente muitas vezes se extingue, mas depois gradualmente desperta. Muitos pacientes inteligentes admitem que seu eu consciente 
estava bem lcido durante o ataque e contemplava com curiosidade e surpresa todas as coisas loucas que eles faziam e diziam. Esses pacientes tm, alm disso, a crena 
(errnea) de que, com um pouco de boa vontade, poderiam ter inibido o ataque, e mostram-se inclinados a culpar-se por isso. "No precisavam ter-se comportado assim." 
(Suas autocensuras por se sentirem culpados de simulao tambm se baseiam, em grande medida, nesse sentimento.) Mas quando sobrevm outro ataque, o eu consciente 
 to incapaz de control-lo como nos anteriores. - Temos aqui uma situao na qual o pensamento e a representao do eu consciente e desperto encontram-se lado 
a lado com representaes que normalmente residem nas trevas do inconsciente, mas que agora adquiriram controle sobre o aparelho muscular e sobre a fala e, na realidade, 
at mesmo sobre grande parte da prpria atividade representativa: a diviso da mente  manifesta.
         Talvez se possa observar que as descobertas de Binet e Janet merecem ser descritas como uma diviso no s da atividade psquica, mas da conscincia. Como 
sabemos, esses observadores conseguiram entrar em contato com o "subconsciente" de seus pacientes, com a parcela da atividade psquica da qual o eu consciente e 
desperto nada sabe, e puderam, em alguns de seus casos, demonstrar a presena de todas as funes psquicas, inclusive a autoconscincia, nessa parte da mente, uma 
vez que ela tem acesso  lembrana de fatos psquicos anteriores. Essa metade da mente , portanto, bastante completa e consciente em si mesma. Em nossos casos, 
a parte dividida da mente  "lanada nas trevas", como os Tits aprisionados na cratera do Etna, que podem abalar a terra, mais jamais emergirem  luz do dia. Nos 
casos de Janet, a diviso do domnio da mente foi total. No obstante, existe ainda uma desigualdade de status. Mas tambm esta desaparece quando as duas metades 
da conscincia se alternam, como fazem nos clebres casos de double conscience, e quando no diferem em sua capacidade funcional.
         Mas voltemos s representaes que indicamos em nossos pacientes como as causas de seus fenmenos histricos. Est longe de ser possvel para ns descrever 
todas elas com sendo "inconscientes" e "inadmissveis  conscincia". Elas formam uma escala quase ininterrupta, passando por todas as gradaes da indefinio e 
obscuridade, entre as representaes perfeitamente conscientes que liberam um reflexo inusitado e aquelas que jamais entram na conscincia na vida de viglia, a 
no ser na hipnose. Apesar disso, consideramos estabelecido que uma diviso da atividade psquica ocorre nos graus mais graves da histeria e que s ela parece tornar 
possvel uma teoria psquica da doena.
         Que, ento, pode ser asseverado ou suspeitado com probabilidade sobre as causas e a origem desse fenmeno?
         Janet, a quem a teoria da histeria tanto deve e com quem estamos em concordncia na maioria dos aspectos, externou uma opinio sobre esse ponto que no 
podemos aceitar.
         O conceito de Janet  o seguinte. Considera ele que a "diviso de uma personalidade" repousa numa insuficincia psicolgica inata ("insuffisance psychologique"). 
Toda atividade mental normal pressupe certa capacidade de "sntese", a capacidade de unir vrias representaes num complexo. A combinao das vrias percepes 
sensoriais num quadro do ambiente j  uma atividade sinttica dessa natureza. Verifica-se que essa funo mental est muito abaixo do normal nos pacientes histricos. 
Quando a ateno de uma pessoa normal  dirigida to plenamente quanto possvel para algum ponto, por exemplo, para uma percepo por um nico sentido,  verdade 
que ela perde temporariamente a capacidade de aperceber impresses provenientes dos outros sentidos - ou seja, de absorv-las em seu pensamento consciente. Mas nos 
indivduos histricos isso acontece sem qualquer concentrao especial da ateno. Logo que percebem qualquer coisa, eles se tornam inacessveis a outras percepes 
sensoriais. De fato, sequer esto em condies de receber em conjunto diversas impresses decorrentes de um nico sentido. Podem, por exemplo, aperceber-se apenas 
de sensaes tteis em um lado do corpo; as que so oriundas do outro lado alcanam o centro e so utilizadas para a coordenao do movimento, mas no so apercebidas. 
Uma pessoa assim  hemianestsica. Nas pessoas normais, uma representao atrai para a conscincia um grande nmero de outras, por associao; estas podem relacionar-se 
com a primeira, por exemplo, de maneira confirmatria ou inibitria, e apenas as representaes mais ntidas tm tamanho poder que suas associaes permanecem abaixo 
do limiar da conscincia. Nas pessoas histricas isso sempre acontece. Cada representao apodera-se de toda a sua limitada atividade mental, e isso explica sua 
afetividade excessiva. Essa caracterstica da mente delas  descrita por Janet como a "restrio do campo da conscincia", nos pacientes histricos, por analogia 
com a "restrio do campo da viso". Em sua maior parte, as impresses sensoriais que no so apercebidas e as representaes que so despertadas, mas no entram 
na conscincia, cessam sem produzir outras conseqncias. Contudo, elas s vezes se acumulam e formam complexos - camadas mentais retiradas da conscincia; formam 
uma subconscincia.
         A histeria, que se baseia essencialmente nessa diviso da mente,  uma"maladie par faiblesse" |"doena causada pela fraqueza"|, e eis por que se desenvolve 
mais depressa quando uma mente fraca por natureza  submetida a influncias que a enfraquecem ainda mais, ou se defronta com exigncias fortes em relao s quais 
sua debilidade se destaca ainda mais.
         As opinies de Janet, resumidas dessa forma, do de antemo sua resposta  importante questo sobre a predisposio para a histeria - sobre a natureza do 
typus hystericus (tomando a expresso no sentido pelo qual nos referimos a um typus phthisicus, pelo que compreendemos o trax estreito e longo, o corao pequeno, 
etc.). Janet considera que a predisposio  histeria  uma forma particular de debilidade mental congnita. Em resposta, gostaramos de formular em breves linhas 
nosso conceito, como se segue. No  uma questo de a diviso da conscincia ocorrer porque os pacientes tm a mente fraca; eles parecem ter a mente fraca porque 
sua atividade mental est dividida e apenas parte de sua capacidade se acha  disposio do seu pensamento consciente. No podemos considerar a fraqueza mental como 
o typus hystericus, como a essncia da predisposio  histeria.
         Um exemplo esclarece o que se pretende dizer com a primeira dessas duas frases. Pudemos observar muitas vezes a seguinte evoluo dos acontecimentos com 
uma de nossas pacientes (Sra. Caecilie M.). Quando ela se sentia relativamente bem, surgia um sintoma histrico - uma alucinao torturante e obsessiva, uma nevralgia 
ou coisa semelhante - que, durante algum tempo, aumentava de intensidade. Simultaneamente, a capacidade mental da paciente decrescia de forma contnua e, aps alguns 
dias, qualquer observador no-iniciado seria levado a dizer que a mente dela era fraca. Em seguida, ela era aliviada da representao inconsciente (a lembrana de 
um trauma psquico, muitas vezes pertencente ao passado remoto), quer pelo mdico, sob hipnose, quer pelo fato de ela descrever de sbito o evento, num estado de 
agitao e com o acompanhamento de ativa emoo. Depois que isso acontecia, ela no s ficava tranqila, alegre e livre do sintoma torturante, como era sempre espantoso 
observar a amplitude e a lucidez de seu intelecto, bem como a agudeza de sua compreenso e julgamento. O xadrez, que ela jogava muito bem, era uma de suas ocupaes 
favoritas, e ela gostava de jogar duas partidas de cada vez, o que se poderia dificilmente considerar indicativo de falta de sntese mental. Era impossvel fugir 
 impresso de que, durante uma evoluo de acontecimentos como o que acabamos de descrever, a representao inconsciente atraa para si prpria uma parcela sempre 
crescente da atividade psquica da paciente e que, quanto mais isso acontecia, menor se tornava o papel desempenhado pelo pensamento consciente, at ficar reduzido 
 imbecilidade total; mas que, para empregarmos a expresso vienense notavelmente adequada, quando ela estava "beisammen" |literalmente, "reunida", significando 
"eu seu juzo perfeito"|, possua poderes mentais bem marcantes.
         Como um estado comparvel nas pessoas normais poderamos mencionar no a concentrao da ateno, mas a preocupao. Quando algum est "preocupado" com 
alguma ntida representao, como um aborrecimento, sua capacidade mental fica similarmente reduzida.
         Todo observador  basicamente influenciado por seus objetos de observao, e estamos inclinados a crer que os conceitos de Janet formaram-se principalmente 
na evoluo de um estudo detalhado dos pacientes histricos oligofrnicos que costumam ser encontrados nos hospitais e instituies, por no terem conseguido levar 
sua prpria vida em virtude de sua doena e da fraqueza mental por ela provocada. Nossas prprias observaes, levadas a efeito em pacientes histricos instrudos, 
foraram-nos a adotar uma viso essencialmente diferente de suas mentes. Em nossa opinio, "entre os histricos podem-se encontrar pessoas da mais lcida inteligncia, 
da maior fora de vontade, do melhor carter e da mais elevada capacidade crtica" | ver em [1]|. Nenhuma parcela de uma dotao mental slida e autntica  excluda 
pela histeria, embora as realizaes efetivas com freqncia se tornem impossveis por causa da doena. Afinal, a padroeira da histeria, Santa Teresa, era uma mulher 
de gnio com grande capacidade prtica.
         Mas por outro lado, nenhum grau de sandice, incompetncia e fraqueza de vontade constitui proteo contra a histeria. Mesmo que desprezemos o que  meramente 
um resultado da doena, devemos reconhecer o tipo de histrico oligofrnico como um tipo comum. Mesmo assim, entretanto, o que encontramos a no  a estupidez embotada 
e fleumtica, mas um grau excessivo de mobilidade mental que leva  ineficincia. Examinarei posteriormente a questo da predisposio inata. Aqui, proponho apenas 
demonstrar que a opinio de Janet de que a fraqueza mental est de algum modo na raiz da histeria e de que a diviso da mente  insustentvel.
         Em total oposio aos conceitos de Janet, creio que, num grande nmero de casos, o que est subjacente  dissociao  um excesso de eficincia, a coexistncia 
habitual de duas seqncias de representaes heterogneas. Tem-se ressaltado com freqncia que, muitas vezes, no estamos apenas "mecanicamente" ativos enquanto 
nosso pensamento consciente se acha ocupado com cadeias de representaes que nada tm em comum com nossa atividade, mas que somos tambm capazes do que , sem dvida, 
um funcionamento psquico, enquanto nossos pensamentos esto "ocupados em outro lugar" como, por exemplo, quando lemos em voz alta corretamente e com entonao adequada, 
mas depois no temos a menor idia do que estivemos lendo.
         H sem dvida inmeras atividades, desde as mecnicas, como tricotar ou tocar escalas, at algumas que exigem no mnimo um pequeno grau de funcionamento 
mental, que so todas realizadas por muitas pessoas com apenas parte da mente concentrada nelas. Isso se aplica especialmente s pessoas dotadas de disposio muito 
ativa, para as quais uma ocupao montona, simples e desinteressante constitui uma tortura, e que na realidade comeam deliberadamente a se divertir pensando em 
algo diferente (cf. o "teatro particular" de Anna O. | ver em [1]|. Outra situao semelhante, ocorre quando um grupo interessante de representaes, oriundo por 
exemplo de livros ou peas, impe-se  ateno do sujeito e se intromete em seus pensamentos. Essa intromisso  ainda mais vigorosa quando o grupo estranho de representaes 
tem uma intensa tonalidade afetiva (por exemplo, a aflio ou a saudade da pessoa amada). Temos ento o estado de preocupao a que aludi acima, o qual, no obstante, 
no impede muitas pessoas de executarem aes bastante complicadas. As situaes sociais muitas vezes exigem uma duplicao dessa espcie, mesmo quando os pensamentos 
em jogo so de natureza dominadora - como, por exemplo, quando uma mulher que lutando com uma extrema preocupao ou uma excitao inflamada desempenha seus deveres 
sociais e as funes de afvel anfitri. Todos ns conseguimos apenas realizaes desse tipo no decurso de nosso trabalho, e a auto-observao parece sempre demonstrar 
que o grupo de representaes afetivas no  meramente despertado de quando em vez pela associao, mas est presente todo o tempo na mente e penetra na conscincia, 
a menos que esta esteja tomada por alguma impresso externa ou ato de vontade.
         Mesmo nas pessoas que tm o costume de no permitirem que sua mente seja perpassada por devaneios paralelos a sua atividade habitual, certas situaes do 
margem, durante considerveis perodos de tempo, a essa existncia simultnea de impresses e reaes mutveis da vida externa, por um lado, e de um grupo de representaes 
coloridas de afeto, por outro. Post equitem sedet atra cura |"atrs do cavaleiro senta-se a negra preocupao"|. Entre essas situaes, as mais marcantes so a de 
cuidar de algum que nos  caro e a de estar apaixonado. A experincia mostra que o cuidar de doentese os afetos sexuais tambm desempenham o papel principal na 
maioria dos casos de pacientes histricos analisados mais detidamente.
         Suspeito que a duplicao do funcionamento psquico, quer seja habitual, quer provocada por situaes emocionais da vida, atue como uma predisposio aprecivel 
para uma diviso patolgica autntica da mente. Essa duplicao passa para o segundo estado quando o contedo dos dois grupos de representaes coexistentes deixa 
de ser da mesma espcie, quando um deles encerra representaes que so inadmissveis  conscincia - ou seja, que foram repelidas ou surgiram de estados hipnides. 
Quando isto ocorre,  impossvel para as duas correntes temporariamente divididas voltarem a se reunir, como acontece com freqncia nas pessoas sadias, e uma regio 
da atividade psquica inconsciente  dividida de forma permanente. Essa ciso histrica da mente est para o "duplo eu" assim como o estado hipnide est para um 
devaneio normal. Neste segundo contraste, o que determina a qualidade patolgica  a amnsia, e no primeiro, o que a determina  a inadmissibilidade das representaes 
 conscincia.
         Nosso primeiro caso clnico, o de Anna O., a que sou obrigado a estar sempre recorrendo, proporciona uma compreenso ntida do que acontece. Essa moa tinha 
o hbito, enquanto gozava de perfeita sade, de permitir que seqncias de representaes imaginativas lhe passassem pela mente durante suas ocupaes corriqueiras. 
Enquanto se encontrava numa situao que favorecia a auto-hipnose, o afeto de angstia penetrou em seu devaneio e criou um estado hipnide em relao ao qual ela 
teve amnsia. Isso se repetiu em diversas ocasies e seu contedo representativo foi-se tornando cada vez mais rico, mas continuou a se alternar com estados de pensamento 
de viglia inteiramente normais. Aps quatro meses, o estado hipnide assumiu pleno controle da paciente. Os ataques isolados esbarraram uns nos outros e assim surgiu 
um tat de mal, uma histeria aguda do tipo mais grave. Este durou vrios meses sob diversas formas (o perodo de sonambulismo); foi ento interrompido  fora | 
ver em [1]| e, a partir da, voltou a se alternar com o comportamento psquico normal. Mesmo durante seu comportamento normal, porm, havia uma persistncia de fenmenos 
somticos e psquicos (contraturas, hemianestesia e alteraes da fala) a respeito dos quais, neste caso, sabemos com certeza que se baseavam em representaes pertinentes 
ao estado hipnide. Isso prova que, mesmo durante seu comportamento normal, o complexo representativo pertencente ao estado hipnide, a "subconscincia", estava 
atuante, e que a diviso em sua mente persistia.
         No disponho de um segundo exemplo a oferecer de um curso evolutivo semelhante. Penso, contudo, que o caso lana alguma luz tambm sobre o desenvolvimento 
das neuroses traumticas. Durante os primeiros dias aps o fato traumtico, o estado de pavor hipnide repete-se a cada vez que o fato  relembrado. Enquanto esse 
estado se repete com freqncia cada vez maior, sua intensidade vai diminuindo tanto que ele no mais se alterna com o pensamento de viglia, mas apenas coexiste 
com ele. Torna-se ento contnuo, e os sintomas somticos, que antes s se faziam presentes durante o ataque de pavor, adquirem existncia permanente. Todavia, posso 
apenas suspeitar de que seja isso o que acontece, j que nunca analisei um caso dessa natureza.
         As observaes e as anlises de Freud revelam que a diviso da mente tambm pode ser causada pela "defesa", pelo desvio deliberado da conscincia das representaes 
aflitivas: mas s em algumas pessoas, s quais, portanto, devemos atribuir uma idiossincrasia mental. Nas pessoas normais, tais representaes ou so suprimidas 
com xito, e nesse caso desaparecem por completo, ou no o so, e nesse caso continuam a surgir na conscincia. No sei dizer qual  a natureza dessa idiossincrasia. 
Arrisco-me apenas a sugerir que o auxlio do estado hipnide  necessrio para que a defesa resulte no meramente na transformao de representaes convertidas 
isoladas em representaes inconscientes, mas numa autntica diviso da mente. A auto-hipnose, por assim dizer, ter criado o espao ou regio da atividade psquica 
inconsciente para o qual so dirigidas as representaes rechaadas. Seja como for, porm, a realidade da significncia patognica da "defesa"  um fato que devemos 
reconhecer.
         No penso, entretanto, que a gnese da diviso da mente sequer seja abarcada pelos processos incompletamente compreendidos que vimos discutindo. Assim, 
em suas fases iniciais, as histerias de grau severo costumam exibir por algum tempo uma sndrome que pode ser descrita como de histeria aguda. (Na anamnese dos casos 
masculinos de histeria em geral nos defrontamos com uma representao dessa forma de doena como "encefalite"; nos casos femininos, a nevralgia ovariana leva a um 
diagnstico de "peritonite".) Nesse estgio agudo da histeria, os traos psicticos so muito distintos, tais como estados de excitao manacos e colricos, fenmenos 
histricos que se transformam rapidamente, alucinaes e assim por diante. Em tais estados, a diviso da mente talvez ocorra de maneira diferente da que tentamos 
descrever acima. Talvez todo esse estgio deva ser encarado como um longo estado hipnide cujos resduos fornecem o ncleo do complexo representativo inconsciente, 
enquanto o pensamento de viglia  amnsico quanto a ele. Visto que na maioria das vezes ignoramos as causas que levam a uma histeria aguda dessa natureza (no me 
arrisco a considerar o curso dos acontecimentos observados em Anna O. como tendo aplicao geral), parece haver outra espcie de diviso psquica que, em contraste 
com as examinadas acima, poderia ser denominada de irracional. E sem dvida ainda existem outras formas desse processo, que ainda se acham ocultas de nossa jovem 
cincia psicolgica, pois  certo que demos apenas os primeiros passos nesse setor do conhecimento e nossos conceitos atuais sero substancialmente alterados por 
outras observaes.
         Perguntemo-nos agora qual o resultado que o conhecimento da diviso da mente alcanado nos ltimos anos trouxe para a compreenso da histeria. Parece ter 
sido grande em quantidade e importncia.
         Tais descobertas possibilitaram, em primeiro lugar, que o que parece serem sintomas puramente somticos fosse relacionado com representaes, as quais, 
contudo, no podem ser descobertas na conscincia dos pacientes. ( desnecessrio abordar isso novamente.) Em segundo lugar, ensinaram-nos a compreender os ataques 
histricos, pelo menos em parte, como sendo produtos de um complexo representativo inconsciente. (Cf. Charcot.) Mas, alm disso, explicaram tambm algumas das caractersticas 
psquicas da histeria, e este ponto talvez merea um exame mais pormenorizado.
          verdade que as "representaes inconscientes" jamais, ou s raramente e com dificuldade, penetram no pensamento de viglia; mas elas o influenciam. Fazem-no, 
em primeiro lugar, atravs de suas conseqncias - quando, por exemplo, um paciente  atormentado por uma alucinao que  totalmente ininteligvel e absurda, mas 
cujo significado e motivao tornam-se claros sob hipnose. Alm disso, influenciam a associao, tornando certas representaes mais ntidas do que teriam sido caso 
no fossem assim reforadas a partir do inconsciente. Dessa maneira, alguns grupos especficos de representaes impem-se constantemente ao paciente com certo grau 
de compulso e ele  obrigado a pensar neles. (O caso  semelhante aos dos pacientes semi-anestsicos de Janet. Quando sua mo anestsica  repetidamente tocada, 
eles no sentem nada, mas quando lhes mandam indicar um nmero qualquer a seu gosto, eles sempre escolhem o que corresponde ao nmero de vezes que foram tocados.) 
Por outro lado, as representaes inconscientes regem o tnus emocional do paciente, seu estado de esprito. Quando, no curso do desenrolar de suas lembranas, Anna 
O. abordava umfato que em sua origem estivera ligado a um afeto ntido o sentimento correspondente surgia com vrios dias de antecedncia e antes que a lembrana 
aparecesse claramente, mesmo em sua conscincia hipntica.
         Isso torna inteligveis os "estados de nimo" dos pacientes - suas alteraes inexplicveis e desarrazoadas de humor, que parecem ao pensamento de viglia 
ocorrer sem motivo. Com efeito, a impressionabilidade dos pacientes histricos  determinada, em grande parte, simplesmente por sua excitabilidade inata; mas os 
afetos ntidos em que eles so lanados por causas relativamente triviais ficam mais inteligveis ao considerarmos que a "parte dividida da mente" reage como uma 
caixa de ressonncia  nota de um diapaso. Qualquer acontecimento que provoque lembranas inconscientes libera toda a fora afetiva dessas representaes que no 
sofreram desgaste, e o afeto evocado fica ento inteiramente desproporcional a qualquer um que surgisse apenas na mente consciente.
         Referi-me antes (ver em [1]) a uma paciente cujo funcionamento psquico estava sempre na razo inversa da nitidez de suas representaes inconscientes. 
A diminuio de seu pensamento consciente baseava-se, em parte, mas apenas em parte, numa espcie peculiar de abstrao. Aps cada uma de suas "absences" momentneas 
- e estas sempre ocorriam - ela no sabia em que havia pensado no curso dela. Oscilava entre suas "conditions primes" e "secondes", entre os complexos representativos 
conscientes e inconscientes. Mas no era apenas por isso que seu funcionamento psquico se via reduzido, nem por causa do afeto que a dominava a partir do inconsciente. 
Enquanto se encontrava nesse estado, seu pensamento de viglia ficava sem energia, seu julgamento era infantil e ela parecia, como j tive ocasio de dizer, positivamente 
imbecil. Creio que isso se devia ao fato de que o pensamento de viglia dispe de menos energia quando uma grande quantidade de excitao psquica  apropriada pelo 
inconsciente.
         Quando este estado de coisas no  apenas temporrio, quando a parte dividida da mente est num constante estado de excitao, como ocorria com os pacientes 
hemianestsicos de Janet - nos quais, alm disso, todas as sensaes em nada menos da metade do corpo s eram percebidas pela mente inconsciente - quando este  
o caso, resta to pouco funcionamento cerebral para o pensamento de viglia que a debilidade mental que Janet descreve e considera inata fica plenamente explicada. 
So pouqussimas as pessoas de quem se pode dizer, como do Bertrand de Born, de Uhland, que nunca precisam de mais da metade de sua mente.1 Tal reduo da energia 
psquica realmente transforma a maioria das pessoas em dbeis mentais.
         Essa debilidade mental, causada por uma diviso da psique, tambm parece ser a base de uma notvel caracterstica de alguns pacientes histricos - sua sugestionabilidade. 
(Digo "alguns" por ser certo que entre os pacientes histricos tambm se encontram pessoas do julgamento mais sensato e mais crtico.)
         Por sugestionabilidade entendemos, em primeiro lugar, apenas uma incapacidade de criticar as representaes e complexos de representaes (julgamentos) 
que emergem na prpria conscincia do sujeito, ou so nela introduzidos de fora atravs da palavra falada ou da leitura. Qualquer crtica dessas representaes recm-chegadas 
na conscincia baseia-se no fato de elas despertarem outras representaes por associao, e entre estas algumas que so irreconciliveis com as novas. A resistncia 
a estas ltimas fica assim na dependncia do acervo de representaes antagnicas na conscincia potencial, e a intensidade da resistncia corresponde  proporo 
entre a nitidez das novas representaes e a das despertadas na memria. Mesmo nos intelectos normais essa proporo  muito variada. O que descrevemos como um temperamento 
intelectual depende dela em larga medida. Um homem "sangneo" sempre se delicia com novas pessoas e coisas, e isso sem dvida ocorre porque a intensidade de suas 
imagens mnmicas  menor em comparao com a das novas impresses num homem mais tranqilo e "fleumtico". Nos estados patolgicos a preponderncia de novas representaes 
e a falta de resistncia a elas aumentam em proporo  escassez das imagens mnmicas despertadas - isto , proporcionalmente  pobreza e  debilidade de seus poderes 
associativos. Isso j  o que acontece no sono e nos sonhos, na hipnose e sempre que h uma reduo da energia mental, desde que esta no reduza tambm a nitidez 
das novas representaes.
         A parte inconsciente expelida pela mente na histeria  sobretudo sugestionvel, em virtude da pobreza e incompletude de seu contedo representativo. Mas 
em alguns pacientes histricos tambm a sugestionabilidade da mente consciente parece basear-se nisso. Eles so excitveis por causa de sua predisposio inata; 
neles, as representaes novas so muito ntidas. Em contraste com isso, sua atividade intelectual propriamente dita, sua funo associativa,  reduzida, porque 
apenas parte de sua energia psquica se acha  disposio de seu pensamento de viglia, em virtude da ciso de um "inconsciente". Como resultado disso, seu poder 
de resistncia tanto s auto-sugestes como s alo-sugestes se v reduzido e por vezes abolido. A sugestionabilidade de sua vontade tambm parece dever-se apenas 
a isso. Por outro lado, a sugestionabilidade alucinatria, que transforma prontamente qualquer representao de uma percepo sensorial numa percepo real, exige, 
como todas as alucinaes, um grau anormal de excitabilidade do rgo perceptivo e no pode ser atribuda apenas a uma diviso da mente.
         
         (6) PREDISPOSIO INATA - DESENVOLVIMENTO DA HISTERIA
         
         Em quase todas as etapas destas consideraes fui obrigado a reconhecer que a maioria dos fenmenos que nos vimos esforando por compreender pode basear-se, 
entre outras coisas, numa idiossincrasia inata. Isso desafia qualquer explicao que procure ir alm de uma simples enunciao dos fatos. Mas a capacidade de adquirir 
a histeria tambm se acha indubitavelmente ligada a uma idiossincrasia da pessoa em questo, e a tentativa de defini-la com maior exatido talvez no seja inteiramente 
infrutfera.
         Expliquei acima por que no posso aceitar a opinio de Janet de que a predisposio para a histeria se baseia numa fraqueza psquica inata. O clnico que, 
na qualidade de mdico da famlia, observa os membros de famlias histricas em todas as idades, por certo ficar inclinado a achar que essa predisposio reside 
antes num excesso do que numa falta. Os adolescentes que depois se tornaro histricos so, em sua maioria, bem vivazes, dotados e repletos de interesses intelectuais 
antes de adoecerem. Muitas vezes, sua fora de vontade  notvel. Incluem-se entre eles moas que levantam da cama  noite, em segredo, para fazer algum estudo que 
seus pais lhes probem temendo que se esforcem demais. A capacidade de formar opinies slidas por certo no  maior neles do que nas outras pessoas; mas  raro 
encontrar neles simples inrcia intelectual e estupidez. A produtividade exuberante de suas mentes levou um de meus amigos a afirmar que os histricos so a flor 
da humanidade - to estreis, sem dvida, mas to belos quanto as flores.
         Sua vivacidade e inquietude, sua nsia de sensaes e atividade mental, sua intolerncia  monotonia e ao tdio podem ser assim formuladas: eles se situam 
entre aquelas pessoas cujo sistema nervoso, enquanto em repouso, libera um excesso de excitao que exige ser utilizado (ver em [1]). Durante o desenvolvimento na 
puberdade e em conseqncia dele, esse excesso original  complementado pelo poderoso aumento da excitao que decorre do despertar da sexualidade, das glndulas 
sexuais. A partir da h uma quantidade excedente de energia nervosa livre disponvel para a produo de fenmenos patolgicos.
         Mas, para que esses fenmenos surjam sob a forma de sintomas histricos, evidentemente precisa haver tambm uma outra idiossincrasia especfica no indivduo 
em questo, pois, afinal, a grande maioria das pessoas ativas e excitveis no se torna histrica. Um pouco mais atrs | ver em [1]|, s pude definir essa idiossincrasia 
com uma expresso vaga e no esclarecedora: "excitabilidade anormal do sistema nervoso". Mas talvez seja possvel ir mais alm e dizer que essa anormalidade reside 
no fato de que em tais pessoas a excitao do rgo central pode fluir para os aparelhos nervosos sensoriais que normalmente s so acessveis aos estmulos perifricos, 
bem como para os aparelhos nervosos dos rgos vegetativos, que so isolados do sistema nervoso central por poderosas resistncias.  possvel que essa idia de 
haver um excedente de excitao constantemente presente, com acesso aos aparelhos sensorial, vasomotor e visceral, j explique certos fenmenos patolgicos.
         Nas pessoas desse tipo, to logo sua ateno se concentra forosamente em alguma parte do corpo, aquilo a que Exner |1894, 165 e segs.| chama de "facilitao 
pela ateno" na via sensorial de conduo em questo excede a quantidade normal. A excitao livre e flutuante , por assim dizer, desviada para essa via, produzindo-se 
uma hiperalgesia local. Como resultado, qualquer dor, como quer que seja causada, alcana intensidade mxima, e qualquer mal-estar  "horrvel" e "insuportvel". 
Alm disso, enquanto nas pessoas normais uma quantidade de excitao, depois de catexizar uma via sensitiva, sempre a abandona, isto no ocorre nestes casos. Aquela 
quantidade, ademais, no s permanece ali como  constantemente aumentada pelo influxo de novas excitaes. Um leve dano a uma articulao leva assim  artralgia, 
e as sensaes dolorosas devidas ao intumescimento ovariano conduzem  nevralgia ovariana crnica; e visto que os aparelhos nervosos da circulao so mais acessveis 
 influncia cerebral do que nas pessoas normais, deparamos com palpitaes nervosas do corao, tendncia a desmaios, propenso ao enrubescimento e empalidecimento 
excessivos, e assim por diante.
         Todavia, no  apenas quando s influncias centrais que os aparelhos nervosos perifricos so mais facilmente excitveis. Eles tambm reagem de maneira 
excessiva e imprpria a estmulos funcionais adequados. Surgem palpitaes tanto a partir de esforos moderados quanto da excitao emocional, e os nervos vasomotores 
fazem com que as artrias se contraiam ("dedos mortos") independentemente de qualquer influncia psquica. E, da mesma forma que um ligeiro dano deixa uma artralgia 
atrs de si, um curto acesso de bronquite  seguido de asma nervosa, e a indigesto, de freqentes dores cardacas. Por conseguinte, devemos admitir que a acessibilidade 
a somas de excitao de origem central nada mais  do que um caso especial de uma excitabilidade anormal genrica, muito embora ela seja a mais importante do ponto 
de vista de nosso tpico atual.
         
         Parece-me, portanto, que a antiga "teoria reflexa" desses sintomas, que talvez fossem mais bem definidos simplesmente como "nervosos", mas que fazem parte 
do quadro clnico emprico da histeria, no deve ser inteiramente rejeitada. Os vmitos, que naturalmente acompanham a dilatao do tero na gravidez, podem muito 
bem, quando existe uma excitabilidade anormal, ser desencadeados de maneira reflexa por estmulos uterinos banais, ou talvez at mesmo pelas alteraes peridicas 
do tamanho dos ovrios. Estamos familiarizados com tantos efeitos remotos decorrentes de alteraes orgnicas, tantos casos estranhos de "dor transferida", que no 
podemos rejeitar a possibilidade de que um imenso grupo de sintomas nervosos por vezes determinados psiquicamente possam, em outros casos, ser efeitos distantes 
da ao reflexa. De fato, arrisco-me a formular a heresia bastante conservadora de que at mesmo a debilidade motora numa perna pode, algumas vezes, ser determinada 
por uma afeco genital, no psiquicamente, mas por ao reflexa direta. Penso que faremos bem em no insistir demais na exclusividade de nossas novas descobertas 
ou procurar aplic-las a todos os casos.
         Outras formas de excitabilidade sensorial anormal ainda escapam inteiramente  nossa compreenso: a analgesia geral, por exemplo, as reas anestsicas, 
a restrio real do campo da viso, e assim por diante.  possvel, e talvez provvel, que outras observaes venham comprovar a origem psquica de um ou outro desses 
estigmas e assim expliquem o sintoma; s que isso ainda no aconteceu (pois no me arrisco a generalizar os resultados apresentados por nosso primeiro relato de 
caso), e no acho justificvel presumir que essa seja a origem deles enquanto ela no tiver sido satisfatoriamente investigada.
         Por outro lado, a idiossincrasia do sistema nervoso e da mente que vimos examinando parece explicar uma ou duas propriedades muito familiares de diversos 
pacientes histricos. O excedente de excitao liberado pelo sistema nervoso dessas pessoas quando em estado de repouso determina sua incapacidade de tolerarem uma 
vida montona e o tdio - a nsia de sensaes que os impele, aps incio de sua doena, a interromper a monotonia de sua vida sem validade por toda sorte de "incidentes", 
dos quais os mais destacados so, a julgar pela natureza das coisas, fenmenos patolgicos. Muitas vezes, essas pessoas so ajudadas nisso pela auto-sugesto. So 
impelidas a cada vez mais penetrar nesse caminho por sua necessidade de ficarem doentes - um trao notvel que  to patognomnico para a histeria quanto  o medo 
de adoecer para a hipocondria. Conheo uma mulher histrica que infligia a si mesma danos freqentemente muito graves, apenas para seu prprio consumo e sem que 
aqueles que a cercavam, ou seu mdico, tomassem conhecimento disso. Que mais no fosse, ela costumava fazer toda sorte de brincadeiras enquanto estava sozinha em 
seu quarto, simplesmente para provar a si mesma que no era normal. E o fazia, por ter, de fato, uma ntida sensao de no estar bem e de no poder desempenhar 
seus deveres de maneira satisfatria, tentando justificar-se a seus prprios olhos atravs de aes como essas. Outra paciente, uma mulher muito doente que sofria 
de uma conscienciosidade patolgica e era cheia de dvidas a respeito de si mesma, vivenciava todos os fenmenos histricos como algo culposo, pois, segundo dizia, 
no precisava t-los se realmente no os quisesse ter. Quando uma paresia em suas pernas foi erroneamente diagnosticada como uma doena da espinha, ela vivenciou 
isso como um imenso alvio e, quando lhe disseram que era "apenas nervosa" e que passaria, isso foi o bastante para acarretar graves dores de conscincia. A necessidade 
de adoecer decorre do desejo da paciente de convencer a si mesma e s outras pessoas da realidade de sua doena. Quando essa necessidade se associa ainda  aflio 
causada pela monotonia de um quarto de enfermo, a inclinao a produzir cada vez mais sintomas novos desenvolve-se ao mximo.
         Quando, no entanto, isso se transforma em fingimento e verdadeira simulao (e penso que agora pecamos tanto por excesso ao negar a simulao quanto pecvamos 
ao aceit-la), isso se baseia, no na predisposio histrica, mas, como disse Moebius to apropriadamente, em ser ela complicada por outras formas de degenerescncia 
- por uma inferioridade moral inata. Da mesma forma, o "histrico rancoroso" surge quando algum que  inatamente excitvel, mas deficiente de emoo, cai tambm 
vtima do embrutecimento egosta do carter que  to facilmente produzido pela m sade crnica. Alis, o "histrico rancoroso" mal chega a ser mais comum do que 
o paciente rancoroso nos estgios mais avanados da tabes.
         O excedente da excitao tambm d margem a fenmenos patolgicos na esfera motora. As crianas com essa caracterstica desenvolvem com muita facilidade 
movimentos semelhantes a tiques. Estes podem comear, num primeiro caso, por alguma sensao nos olhos ou no rosto, ou por alguma pea desconfortvel do vesturio, 
mas se tornam permanentes a menos que sejam prontamente contidos. As vias reflexas so muito fceis e rapidamente marcadas a fundo.
         Tambm no se pode afastar a possibilidade de haver ataques convulsivos puramente motores, independentes de qualquer fator psquico, e nos quais tudo o 
que acontece  que a massa de excitao acumulada por soma  descarregada, do mesmo modo que a massa de estmulos causada por modificaes anatmicas  descarregada 
num ataque epilptico. Nesse caso, teramos a convulso histrica no-ideognica.
          to freqente vermos adolescentes anteriormente sadios, embora excitveis, adoecerem de histeria durante a puberdade, que devemos perguntar a ns mesmos 
se esse processo no poderia criar uma predisposio para a histeria quando ela no est inatamente presente. E de qualquer modo, devemos atribuir a ela mais do 
que uma simples elevao da quantidade de excitao. O amadurecimento sexual incide sobre todo o sistema nervoso, aumentando a excitabilidade e reduzindo as resistncias 
por toda parte. Isso nos  ensinado pela observao de adolescentes que no so histricos, e temos assim justificativas para crer que o amadurecimento sexual tambm 
estabelece a predisposio histrica, na medida em que consiste precisamente nessa caracterstica do sistema nervoso. Ao afirmarmos isso, j estamos reconhecendo 
a sexualidade como um dos principais componentes da histeria. Veremos que o papel que desempenha nela  ainda muito maior e que contribui das mais diversas maneiras 
para a constituio da doena.
         
         Se os estigmas brotam diretamente desse campo de cultura inato da histeria e no so de origem ideognica,  tambm impossvel dar  ideognese uma posio 
to central na histeria quanto s vezes se d hoje em dia. O que poderia ser mais autenticamente histrico do que os estigmas? Eles so os achados patognomnicos 
que estabelecem o diagnstico, e no entanto, precisamente, eles no parecem ser ideognicos. Mas se a base da histeria  uma idiossincrasia de todo o sistema nervoso, 
o complexo de sintomas ideognicos psiquicamente determinados ergue-se sobre ela tal como um prdio sobre seus alicerces. E  um prdio de vrios andares. Do mesmo 
modo que s  possvel compreender a estrutura de tal prdio se distinguirmos os planos dos diferentes pisos,  necessrio, penso eu, para entendermos a histeria, 
prestar ateno s vrias espcies de complicao na causao dos sintomas. Se as desprezarmos e tentarmos levar adiante uma explicao da histeria empregando um 
nexo causal nico, sempre encontraremos um resduo muito grande de fenmenos que permanecem inexplicados.  como se tentssemos inserir os diferentes cmodos de 
uma casa de muitos pavimentos na planta de um nico andar.
         Tal como os estigmas, diversos outros sintomas nervosos - certas dores e fenmenos vasomotores, e talvez os ataques convulsivos puramente motores - so, 
como vimos, no causados por idias, mas resultados diretos da anormalidade fundamental do sistema nervoso.
         
         Os mais prximos deles so os fenmenos ideognicos que consistem simplesmente em converses da excitao afetiva (ver em [1]). Surgem como conseqncias 
de afetos em pessoas com uma predisposio histrica e, a princpio, so apenas uma "expresso anormal das emoes" (Oppenheim |1890|). Esta se transforma, pela 
repetio, num sintoma histrico autntico e, na aparncia, puramente somtico, enquanto a idia que deu lugar a ele se torna imperceptvel (ver em [1]) ou  rechaada 
e, portanto, repelida da conscincia. As mais numerosas e importantes das representaes que so rechaadas e convertidas possuem um contexto sexual. Elas se acham 
na base de grande parte dos casos de histeria da puberdade. As moas que se aproximam da maturidade - e  principalmente delas que se trata - comportam-se de maneiras 
muito diferentes em relao s representaes e sentimentos sexuais que se avolumam nelas. Certas moas defrontam-se com eles com total desembarao, havendo entre 
elas algumas que ignoram e fecham os olhos a todo o assunto. Outras aceitam-nos como os meninos, sendo esta sem dvida a norma entre as moas das classes camponesa 
e trabalhadora. Outras ainda, com uma curiosidade mais ou menos obstinada, correm atrs de qualquer coisa sexual que possam encontrar em conversas ou livros. E, 
finalmente, h naturezas de organizao requintada que, embora seja grande sua excitabilidade sexual, possuem uma pureza moral igualmente grande e sentem que qualquer 
coisa sexual  algo incompatvel com seus padres ticos, algo de conspurcante e degradante. Elas recalcam a sexualidade afastando-a da conscincia, e as representaes 
afetivas de contedo sexual que provocaram os fenmenos somticos so rechaadas e assim se tornam inconscientes.
         A tendncia a rechaar o que  sexual  ainda mais intensificada pelo fato de que, nas moas solteiras, a excitao sensual tem uma mescla de angstia, 
de medo do que est por vir, do que  desconhecido e apenas suspeitado, ao passo que, nos rapazes normais e saudveis, ela  uma pulso agressiva sem mesclas. A 
moa sente em Eros o terrvel poder que rege e decide seu destino, e se assusta com isso. Tanto maior, portanto,  sua inclinao para desviar os olhos e recalcar 
para fora da conscincia a coisa que a assusta.
         
         O casamento acarreta novos traumas sexuais.  surpreendente que a noite de npcias no tenha efeitos patognicos com maior freqncia, visto que, infelizmente, 
o que ela implica , muitas vezes, no uma seduo ertica, mas uma violao. A rigor, porm, no  raro encontrar em jovens casadas histerias que podem ser relacionadas 
a isso e que desaparecem quando, no correr do tempo, o prazer sexual emerge e apaga o trauma. Os traumas sexuais tambm ocorrem no curso ulterior de muitos casamentos. 
Os relatos de caso de cuja publicao fomos obrigados a nos abster incluem um grande nmero deles - exigncias caprichosas feitas pelo marido, prticas antinaturais, 
etc. No penso estar exagerando ao afirmar que a grande maioria das neuroses graves nas mulheres tem sua origem no leito conjugal.
         Certos fatores sexuais nocivos, que consistem essencialmente em satisfao insuficiente (coitus interruptus, ejaculatio praecox, etc.) resultam, de acordo 
com a descoberta de Freud (1895b), no na histeria, mas numa neurose de angstia. Sou da opinio, entretanto, de que mesmo nesses casos a excitao do afeto sexual 
muitas vezes se converte em fenmenos histricos somticos.
          evidente por si s, e suficientemente comprovado por nossas observaes, que os afetos no sexuais do susto, da angstia e da raiva levam ao desenvolvimento 
de fenmenos histricos. Mas talvez valha a pena insistir repetidamente em que o fator sexual  de longe o mais importante e o que mais produz resultados patolgicos. 
As observaes pouco sofisticadas de nossos antecessores, cujo resduo  preservado no termo "histeria" |originado da palavra grega designativa de "tero"|, aproximaram-se 
mais da verdade do que a concepo mais recente, que situa a sexualidade quase em ltimo lugar, a fim de poupar os pacientes de recriminaes morais. As necessidades 
sexuais dos pacientes histricos so, sem dvida, to variveis em grau de indivduo para indivduo quanto nas pessoas sadias, e no so mais fortes do que nelas; 
mas os primeiros adoecem por causa delas e, na maioria das vezes, precisamente pela luta que travam contra elas, em virtude de sua defesa contra a sexualidade.
         Juntamente com a histeria sexual, devemos recordar nesta altura a histeria devida ao susto - a histeria traumtica propriamente dita -, que constitui uma 
das formas de histeria mais conhecidas e reconhecidas.
         
         No que se pode denominar de camada idntica  dos fenmenos que resultam da converso da excitao afetiva, encontram-se aqueles que devem sua origem  
sugesto (na maioria das vezes,  auto-sugesto) em indivduos inatamente sugestionveis. O grau elevado de sugestionabilidade - isto , a preponderncia irrestrita 
das representaes que foram despertadas recentemente - no se encontra entre os traos essenciais da histeria. Contudo, pode estar presente como uma complicao 
em pessoas com predisposio histrica, nas quais essa mesma idiossincrasia do sistema nervoso possibilita a realizao somtica de representaes supervalentes. 
Alm disso, na maioria dos casos, so apenas representaes afetivas que se realizam em fenmenos somticos por sugesto e, conseqentemente, o processo pode muitas 
vezes ser considerado uma converso do afeto concomitante de medo ou de angstia.
         Esses processos - a converso do afeto e a sugesto - permanecem idnticos mesmo nas formas complicadas de histeria que devemos agora considerar. Eles simplesmente 
encontram condies mais favorveis em tais casos:  sempre atravs de um desses dois processos que surgem os fenmenos histricos psiquicamente determinados.
         
         O terceiro componente da predisposio histrica, que aparece em alguns casos alm dos que j foram analisados,  o estado hipnide, a tendncia  auto-hipnose 
(ver em [1]). Esse estado favorece e facilita em grau mximo tanto a converso como a sugesto, e dessa forma erige, por assim dizer, no topo das pequenas histerias, 
o pavimento mais alto da grande histeria. A tendncia  auto-hipnose  um estado que, no comeo,  apenas temporrio e se alterna com o estado normal. Podemos atribuir-lhe 
o mesmo aumento de influncia mental sobre o corpo que observamos na hipnose artificial. Essa influncia  muito mais intensa e profunda aqui, na medida em que atua 
sobre um sistema nervoso que mesmo fora da hipnose  anormalmente excitvel. No sabemos dizer at que ponto e em que casos a tendncia  auto-hipnose constitui 
uma propriedade inata do organismo.Externei antes (ver em [1]-[2]) a opinio de que ela se desenvolve a partir de devaneios carregados de afeto. Mas no h nenhuma 
dvida de que a predisposio inata tambm desempenha um papel nisso. Se esse ponto de vista for correto, mais uma vez ficar claro aqui o quanto  enorme a influncia 
atribuvel  sexualidade no desenvolvimento da histeria, pois, salvo pelo cuidar de doentes, nenhum fator psquico  to bem destinado a produzir devaneios carregados 
de afeto quanto os anseios de uma pessoa apaixonada. E acima de tudo isso, o prprio orgasmo sexual, com sua riqueza de afeto e sua restrio da conscincia,  intimamente 
afim dos estados hipnides.
         O elemento hipnide manifesta-se mais claramente nos ataques histricos e nos estados que podem ser classificados de histeria aguda e que, segundo parece, 
desempenham um papel to relevante no desenvolvimento da histeria (ver em [1]). Estes so, obviamente, estados psicticos que persis-tem por muito tempo, muitas 
vezes durante vrios meses, e que com freqncia  necessrio classificar de confuso alucinatria. Mesmo quando a perturbao no vai to longe assim, surge nela 
uma grande variedade de fenmenos histricos, alguns dos quais, na realidade, persistem depois de ela terminar. O contedo psquico desses estados consiste, em parte, 
precisamente nas representaes que foram rechaadas na vida de viglia e recalcadas, sendo eliminadas da conscincia. (Cf. os "delrios histricos dos santos e 
das freiras, das mulheres que guardam a castidade e das crianas bem-educadas" | ver em [1]|.)
         Visto que esses estados so, com muita freqncia, nada menos do que psicoses, apesar de derivados imediata e exclusivamente da histeria, no posso concordar 
com a opinio de Moebius de que, "com exceo dos delrios ligados aos ataques,  impossvel falar numa insanidade histrica real" (1895, 18). Em muitos casos, esses 
estados constituem uma insanidade dessa natureza; e psicoses como estas tambm se repetem no curso ulterior de uma histeria.  verdade que, em essncia, elas nada 
mais so do que a fase psictica de um ataque, mas, considerando-se que duram meses, seria difcil denomin-las de ataques.
         Como surge uma dessas histerias agudas? No caso mais conhecido (Caso 1), surgiu de uma acumulao de ataques hipnides; em outro caso (quando j estava 
presente uma histeria complicada), surgiu associada a uma suspenso da morfina. O processo, em sua maior parte,  inteiramente obscuro e aguarda elucidao a partir 
de observaes adicionais.
         
         Assim sendo, podemos aplicar s histerias aqui analisadas o pronunciamento de Moebius (ibid., 16): "A modificao essencial que ocorre na histeria  que 
o estado mental do paciente histrico torna-se temporria ou permanentemente semelhante ao de um indivduo hipnotizado."
         No estado normal, a persistncia dos sintomas que surgem durante o estado hipnide corresponde inteiramente a nossas experincias com a sugesto ps-hipntica. 
Mas isso j implica que complexos de representaes inadmissveis  conscincia coexistem com as seqncias de representaes que seguem um curso consciente, que 
ocorreu uma diviso da mente (ver em [1]). Parece certo que isso pode acontecer at mesmo sem um estado hipnide, a partir da profuso de pensamentos que foram rechaados 
e recalcados da conscincia, mas no suprimidos. De um modo ou de outro, passa a existir uma regio da vida mental - ora precria de representaes e rudimentar, 
ora mais ou menos em igualdade de condies com o pensamento de viglia - cujo conhecimento devemos, acima de tudo, a Binet e Janet. A diviso da mente  a consumao 
da histeria. Mostrei anteriormente (na Seo 5) de que modo ele explica as principais caractersticas desse distrbio. Uma parte da mente do paciente fica em estado 
hipnide permanentemente, mas com um grau varivel de nitidez em suas representaes, estando sempre preparada, todas as vezes que h um lapso no pensamento de viglia, 
para assumir o controle da pessoa inteira (por exemplo, num ataque ou num delrio). Isso ocorre to logo um afeto poderoso interrompe o curso normal das representaes, 
nos estados crepusculares e nos estados de exausto. A partir desse estado hipnide persistente, representaes no motivadas e estranhas  associao normal foram 
sua entrada na conscincia, introduzem-se alucinaes no sistema perceptivo e inervam-se atos motores independentemente da vontade consciente. Essa mente hipnide 
 suscetvel, no mais alto grau,  converso de afetos e  sugesto, e assim aparecem com facilidade novos fenmenos histricos, que, sem a diviso da mente, s 
surgiriam com grande dificuldade e sob a presso de afetos repetidos. A parte expelida da mente  o demnio pelo qual a observao ingnua dos supersticiosos dos 
tempos primitivos acreditava que esses pacientes se achavam possudos.  verdade que um esprito estranho  conscincia de viglia do paciente exerce domnio sobre 
ele, porm o esprito no  de fato um estranho, mas parte dele mesmo.
         
         A tentativa aqui empreendida de fazer uma interpretao sinttica da histeria partindo do que dela sabemos hoje est sujeita  recriminao de ecletismo, 
se  que tal recriminao  justificvel. Houve inmeras formulaes da histeria, desde a antiga "teoria reflexa" at a "dissociao da personalidade", que tiveram 
de encontrar um lugar nela. Mas dificilmente poderia ser de outra forma, j que numerosos observadores excelentes e espritos agudos se interessaram pela histeria. 
 improvvel que qualquer de suas formulaes estivesse destituda de uma parcela de verdade. Uma futura exposio do verdadeiro estado de coisas por certo as abranger 
a todas e simplesmente combinar todas as vises unilaterais do assunto numa realidade coletiva. O ecletismo, portanto, no me parece nada de que se deva envergonhar.
         Mas quo longe ainda estamos hoje da possibilidade de qualquer compreenso completa da histeria! Com que traos incertos seus contornos foram esboados 
nestas pginas, com que hipteses toscas as imensas lacunas foram escondidas, e no preenchidas! Apenas uma considerao  at certo ponto consoladora: a de que 
essa falha se prende, e deve prender-se, a todas as exposies fisiolgicas de processos psquicos complexos. Devemos sempre dizer delas o que Teseu, no Sonho de 
uma Noite de Vero, diz da tragdia: "As melhores dentre estas no passam de sombras." E mesmo a mais fraca no ser destituda de valor se, honesta e modestamente, 
tentar apegar-se aos contornos das sombras que os objetos reais desconhecidos lanam sobre a parede, pois assim, apesar de tudo, sempre se justificar a esperana 
de que possa haver algum grau de correspondncia e semelhana entre os processos reais e a idia que fazemos deles.
         
         
       IV - A PSICOTERAPIA DA HISTERIA
         (FREUD)
         
         
         Em nossa "Comunicao Preliminar" relatamos como, no curso de nossa pesquisa sobre a etiologia dos sintomas histricos, deparamo-nos tambm com um mtodo 
teraputico que nos pareceu de importncia prtica. Pois "verificamos, a princpio para nossa grande surpresa, que cada sintoma histrico individual desaparecia, 
de forma imediata e permanente, quando conseguamos trazer  luz com clareza a lembrana do fato que o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhava, e quando 
o paciente havia descrito esse acontecimento com o maior nmero de detalhes possvel e traduzido o afeto em palavras." (ver em [1].)
         Esforamo-nos ainda por explicar o modo como funciona nosso mtodo psicoteraputico: "Ele pe termo  fora atuante da representao que no fora ab-reagida 
no primeiro momento, ao permitir que seu fato estrangulado encontre uma sada atravs da fala; e submete essa representao  correo associativa ao introduzi-la 
na conscincia normal (sob hipnose leve), ou elimin-la por sugesto do mdico, como se faz no sonambulismo acompanhado de amnsia." (ver em [1].)
         Tentarei agora fazer um relato coerente de at onde este mtodo nos leva, dos aspectos em que ele consegue mais do que outros mtodos, da tcnica pela qual 
funciona e das dificuldades com que se defronta. Grande parte da substncia disso j se acha no relato dos casos que constam da parte anterior deste livro, e no 
conseguirei evitar repetir-me no relato que se segue.
         
         
         (1)
         
         De minha parte, tambm posso afirmar que ainda me mantenho fiel ao que est contido na "Comunicao Preliminar". No obstante, devo confessar que, durante 
os anos decorridos desde ento - nos quais estive incessantemente voltado para os problemas ali abordados -, novos pontos de vista se impuseram a minha mente. Estes 
levaram ao que , ao menos em parte, um agrupamento e uma interpretao diferentes do material fatual por mim conhecido naquela poca. Seria injusto tentar atribuir 
uma responsabilidade grande demais por essa transformao a meu estimado amigo Dr. Josef Breuer. Por este motivo, as consideraes que se seguem so formuladas principalmente 
em meu prprio nome.
         Quando tentei aplicar a um nmero relativamente grande de pacientes o mtodo de Breuer, de tratamento de sintomas histricos pela investigao e ab-reao 
destes sob hipnose, defrontei-me com duas dificuldades e, ao lidar com elas, fui levado a fazer uma alterao tanto na minha tcnica quanto na minha viso dos fatos. 
(1) Verifiquei que nem todas as pessoas que exibiam sintomas histricos indiscutveis e que, muito provavelmente, eram regidas pelo mesmo mecanismo psquico podiam 
ser hipnotizadas. (2) Vi-me forado a tomar uma posio quanto  questo do que, afinal, caracteriza essencialmente a histeria e do que a distingue de outras neuroses.
         
         Deixarei para depois meu relato de como superei a primeira dessas duas dificuldades e o que dela aprendi e comearei por descrever a atitude que adotei 
em minha prtica diria em relao ao segundo problema.  muito difcil obter uma viso clara de um caso de neurose antes de t-lo submetido a uma anlise minuciosa 
- uma anlise que, na verdade, s pode ser efetuada pelo uso do mtodo de Breuer; mas a deciso sobre o diagnstico e a forma de terapia a ser adotada tem de ser 
tomada antes de se chegar a qualquer conhecimento assim minucioso do caso. O nico caminho aberto a mim, portanto, era selecionar para tratamento catrtico os casos 
que pudessem ser provisoriamente diagnosticados como histeria, que exibissem um ou mais dos estigmas ou sintomas caractersticos da histeria. Ocorreu ento algumas 
vezes que, apesar do diagnstico de histeria, os resultados teraputicos se revelaram muito escassos e nem mesmo a anlise trazia  luz nada de significativo. Em 
outras ocasies ainda, tentei aplicar o mtodo de tratamento de Breuer a casos de neurose que ningum poderia confundir com histeria, e assim verifiquei que eles 
podiam ser influenciados e, na verdade, esclarecidos. Tive essa experincia, por exemplo, com as idias obsessivas - idias obsessivas autnticas, do tipo de Westphal 
- em casos sem um nico trao que lembrasse a histeria. Conseqentemente, o mecanismo psquico revelado pela "Comunicao Preliminar" no poderia ser patogmnico 
da histeria, nem tampouco consegui decidir-me, apenas para preservar aquele mecanismo como critrio, a englobar todas essas neuroses na histeria. Acabei encontrando 
uma sada para todas essas dvidas atravs do plano de tratar todas as outras neuroses em questo da mesma forma que a histeria. Determinei-me a investigar sua etiologia 
e a natureza de seu mecanismo psquico em cada caso e a deixar na dependncia do resultado dessa investigao a deciso quanto a se o diagnstico de histeria se 
justificava.
         Assim, partindo do mtodo de Breuer, vi-me envolvido em consideraes sobre a etiologia e o mecanismo das neuroses em geral. Tive sorte o bastante para 
chegar a alguns resultados teis num prazo relativamente curto. Em primeiro lugar, fui obrigado a reconhecer que, na medida em que se possa falar em causas determinantes 
que levam  aquisio de neuroses, sua etiologia deve ser buscada em fatores sexuais. Seguiu-se a descoberta de que diferentes fatores sexuais, no sentido mais geral, 
produzem diferentes quadros de distrbios neurticos. Tornou-se ento possvel, na medida em que essa relao era confirmada, correr o risco de utilizar a etiologia 
com o objetivo de caracterizar as neuroses e de fazer uma distino ntida entre os quadros clnicos das vrias neuroses. Quando as caractersticas etiolgicas coincidiam 
sistematicamente com as clnicas, isso era naturalmente justificvel.
         Dessa maneira, verifiquei que a neurastenia apresentava um quadro clnico montono no qual, como demonstram minhas anlises, nenhum papel era desempenhado 
por um "mecanismo psquico". Havia uma ntida distino entre a neurastenia e a "neurose obsessiva", a neurose das idias obsessivas propriamente ditas. Nesta ltima 
pude reconhecer um complexo mecanismo psquico, uma etiologia semelhante  da histeria e uma ampla possibilidade de reduzi-la pela psicoterapia. Por outro lado, 
pareceu-me absolutamente necessrio destacar da neurastenia um complexo de sintomas neurticos que dependem de uma etiologia inteiramente diferente e, na verdade, 
no fundo, contrria. Os sintomas que formam esse complexo esto unidos por uma caracterstica que j foi reconhecida por Hecker (1893), pois so sintomas ou equivalentes 
e rudimentos de manifestaes de angstia; e por essa razo dei a tal complexo, a ser destacado da neurastenia, o nome de neurose de angstia. Sustentei (Freud, 
1895b) que ele decorre de um acmulo de tenso fsica, que , em si mesma, tambm de origem sexual. Essa neurose tambm no possui nenhum mecanismo psquico, mas 
invariavelmente influencia a vida mental, de modo que a "expectativa ansiosa", as fobias, e hiperestesia s dores, etc. encontram-se entre suas manifestaes regulares. 
Essa neurose de angstia, no sentido que dou  expresso, sem dvida coincide em parte com as neuroses que, sob o nome de "hipocondria", encontra lugar em muitas 
descries ao lado da histeria e da neurastenia. Mas no posso considerar correta a delimitao da hipocondria em nenhum dos trabalhos em questo, e a aplicabilidade 
de seu nome me parece ser prejudicada pela ligao fixa do termo com o sintoma de "medo de doena".
         Depois de ter fixado assim os quadros simples de neurastenia, neurose de angstia e idias obsessivas, passei a considerar os casos de neurose comumente 
includos no diagnstico de histeria. Refleti que no era certo rotular de histrica uma neurose, em sua totalidade, s porque alguns sintomas histricos ocupavam 
um lugar de destaque em seu complexo de sintomas. Era-me fcil compreender essa prtica, visto que, afinal de contas, a histeria  a mais antiga, a mais conhecida 
e a mais marcante das neuroses em considerao; mas isso era um abuso, pois lanava por conta da histeria muitos traos de perverso e degenerescncia. Sempre que 
um sintoma histrico, como uma anestesia ou um ataque caracterstico, era observado num caso complicado de degenerao psquica, todo esse estado era descrito como 
de "histeria", de modo que no surpreende que as piores e mais contraditrias coisas fossem reunidas sob esse rtulo. Mas, assim como era certo que esse diagnstico 
estava errado, era igualmente certo que tambm deveramos separar as vrias neuroses; e j que estvamos familiarizados com a neurastenia, a neurose de angstia, 
etc., em sua forma pura, no havia mais necessidade de desprez-las no quadro conjunto.
         O ponto de vista que se segue, portanto, parecia ser o mais provvel. As neuroses que comumente ocorrem devem ser classificadas, em sua maior parte, de 
"mistas". A neurastenia e as neuroses de angstia so facilmente encontradas tambm em formas puras, especialmente em pessoas jovens. As formas puras de histeria 
e neurose obsessiva so raras; em geral, essas duas neuroses combinam-se com a neurose de angstia. A razo por que as neuroses mistas ocorrem com tanta freqncia 
 que seus fatores etiolgicos se acham muitas vezes entremeados, s vezes apenas por acaso, outras vezes como resultado de relaes causais entre os processos de 
que derivam os fatores etiolgicos das neuroses. No h nenhuma dificuldade em descobrir isso e demonstr-lo com detalhes. Quanto  histeria, porm, sucede que esse 
distrbio dificilmente poderia ser segregado, para fins de estudo, do eixo de ligao das neuroses sexuais; que, em geral, ele representa apenas um lado isolado, 
apenas um aspecto de um caso complicado de neuroses; e que  somente em casos marginais que ele pode ser encontrado e tratado isoladamente. Talvez possamos dizer 
em algumas ocasies: a potiori fit denominatio |isto , recebeu seu nome pela sua caracterstica mais importante|.
         Examinarei agora os casos clnicos aqui relatados a fim de verificar se eles depem em favor da minha opinio de que a histeria no  uma entidade clnica 
independente.
         A paciente de Breuer, Anna O., parece contradizer minha opinio e ser um exemplo de distrbio histrico puro. Esse caso, porm, que foi to til para nosso 
conhecimento da histeria, no foi de modo algum considerado por seu observador do ponto de vista de uma neurose sexual, sendo agora inteiramente intil para esse 
propsito. Quando comecei a analisar a segunda paciente, a Sra. Emmy von N., a expectativa de que a base da histeria fosse uma neurose sexual estava muito longe 
de minha mente. Eu acabara de sair da escola de Charcot e encarava a ligao da histeria com o tema da sexualidade como uma espcie de insulto - exatamente como 
fazem as prprias pacientes. Quando examino minhas notas sobre esse caso hoje em dia, parece-me no haver nenhuma dvida de que ele deve ser visto como um caso grave 
de neurose de angstia acompanhada de expectativa ansiosa e fobias - uma neurose de angstia que se originara da abstinncia sexual e se combinara com a histeria. 
O caso 3, de Miss Lucy R., talvez possa ser definido de maneira mais conveniente como um caso marginal de histeria pura. Foi uma histeria breve que seguiu um curso 
episdico e tinha uma inconfundvel etiologia sexual do tipo que corresponderia a uma neurose de angstia. A paciente era uma moa plenamente madura, que precisava 
ser amada e cujos afetos tinham sido despertados, muito apressadamente, por um mal-entendido. A neurose de angstia, contudo, no se tornou visvel ou me escapou. 
O caso 4, de Katharina, nada mais era do que um modelo do que classifiquei de "angstia virginal". Era uma combinao de neurose de angstia e histeria. A primeira 
criava os sintomas, enquanto a segunda os repetia e se valia deles para atuar. A propsito, era um caso tpico de um grande nmero de neuroses de pessoas jovens 
que so classificadas de "histeria". O caso 5, da Srta. Elisabeth von R., tambm no foi investigado como neurose sexual. Pude apenas expressar, sem confirm-la, 
a suspeita de que uma neurastenia espinhal talvez tivesse constitudo sua base | ver em [1]|.
         Devo acrescentar, todavia, que nesse meio tempo as histerias puras se tornaram ainda mais raras em minha experincia. Se pude reunir esses quatro casos 
como de histeria e se, ao relat-los, pude desprezar os pontos de vista que eram de importncia quanto s neuroses sexuais, a razo foi que essas histrias remontam 
a um tempo algo distante e que, naquela poca, eu ainda no submetia tais casos a uma investigao deliberada e minuciosa de sua base sexual neurtica. E se, em 
vez desses quatro, no relatei doze casos cuja anlise proporciona uma confirmao do mecanismo psquico dos fenmenos histricos proposto por ns, essa relutncia 
foi exigida pelo prprio fato de que a anlise revelou esses casos como sendo, simultaneamente, neuroses sexuais, embora por certo nenhum diagnosticador lhes recusasse 
o nome de histeria. Mas a elucidao dessas neuroses sexuais ultrapassaria os limites da presente publicao conjunta.
         Eu no gostaria que se pensasse, erroneamente, que no desejo admitir que a histeria  uma afeco neurtica independente, que a considero meramente uma 
manifestao psquica da neurose de angstia e que lhe atribuo apenas os sintomas "ideognicos", transferindo os sintomas somticos (por exemplo, pontos histerognicos 
e anestesias) para a neurose de angstia. Nada disso. Em minha opinio,  possvel lidar com a histeria, liberada de qualquer mistura, como algo independente, e 
faz-lo em todos os aspectos, salvo na teraputica, pois nesta estamos voltados para uma finalidade prtica - livrarmo-nos do estado patolgico como um todo. E se 
em geral a histeria aparece como componente de uma neurose mista, essa situao se assemelha quela em que h uma infeco mista e em que a preservao da vida cria 
um problema que no coincide com o de combater a ao de um agente patognico especfico.
          muito importante para mim distinguir o papel desempenhado pela histeria, no quadro das neuroses mistas, do papel desempenhado pela neurastenia, pela neurose 
de angstia e assim por diante, pois, uma vez feita essa distino, poderei expressar de maneira concisa o valor teraputico do mtodo catrtico. E isso porque me 
inclino a arriscar a afirmao de que esse mtodo , em termos tericos, perfeitamente capaz de eliminar qualquer sintoma histrico, ao passo que, como ser fcil 
compreender, ele  inteiramente impotente contra os fenmenos da neurastenia e s raramente e por vias indiretas,  capaz de influenciar os efeitos psquicos da 
neurose de angstia. Sua eficcia teraputica em qualquer caso especfico depender, por conseguinte de os componentes histricos do quadro clnico assumirem ou 
no uma posio de importncia prtica em comparao com os outros componentes neurticos.
         Existe ainda outro obstculo  eficcia do mtodo catrtico, que j indicamos na "Comunicao Preliminar" | ver em [1]|. Ele no consegue afetar as causas 
subjacentes da histeria: assim, no consegue impedir que novos sintomas tomem o lugar daqueles que foram eliminados. Grosso modo, portanto, cabe-me reivindicar um 
lugar de destaque para nosso mtodo teraputico quando empregado dentro do contexto de uma terapia das neuroses, mas eu gostaria de advertir contra a apreciao 
de seu valor ou sua aplicao fora desse contexto. Entretanto, uma vez que no posso, nestas pginas, oferecer uma "terapia das neuroses" do tipo de que os clnicos 
precisam, o que acabo de dizer equivale a adiar minha viso do assunto para uma possvel publicao ulterior. Penso, no entanto, poder acrescentar as seguintes observaes 
 guisa de ampliao e elucidao.
         (1) No sustento ter de fato eliminado todos os sintomas histricos que me dispus a influenciar pelo mtodo catrtico. Mas sou da opinio de que os obstculos 
residiram nas circunstncias pessoais das pacientes e no se deveram a qualquer questo de teoria. Sinto-me justificado a desconsiderar esses casos malsucedidos 
ao formar um juzo sobre o assunto, da mesma forma que um cirurgio despreza os casos de morte ocorridos sob anestesia, devido a hemorragia ps-operatria, sepsia 
acidental, etc., ao tomar uma deciso sobre uma nova tcnica. Quando vier a abordar as dificuldades e os defeitos do processo, mais adiante, voltarei a uma considerao 
das falhas oriundas dessa fonte. | ver em [1].|
         (2) O mtodo catrtico no deve ser considerado sem valor pelo fato de ser sintomtico, e no causal, pois a rigor a terapia causal , via de regra, uma 
terapia profiltica; ela faz com que cessem quaisquer efeitos adicionais do agente nocivo, mas no elimina, necessariamente, os resultados que esse agente j causou. 
Em geral, uma segunda fase de tratamento  necessria para realizar esta segunda tarefa, e nos casos de histeria o mtodo catrtico  de valor inestimvel para esse 
fim.
         (3) Depois que um perodo de produo histrica, um paroxismo histrico agudo,  superado e tudo o que resta so sintomas histricos sob a forma de fenmenos 
residuais, o mtodo catrtico  suficiente para todas as indicaes e promove xitos completos e permanentes. Tal quadro teraputico favorvel no raro  encontrado 
precisamente na esfera da vida sexual, graas s amplas oscilaes da intensidade das necessidades sexuais e s complicaes das condies necessrias para provocar 
um trauma sexual. Aqui o mtodo catrtico faz tudo o que se pode esperar dele, pois um mdico no pode atribuir-se a tarefa de alterar uma constituio como a histrica. 
Deve contentar-se em eliminar os problemas a que tal constituio est inclinada e que podem decorrer dela em conjunto com as circunstncias externas. Deve sentir-se 
satisfeito se o paciente recuperar sua capacidade de trabalho. Alm disso, no precisa ficar desanimado quanto ao futuro, ao considerar a possibilidade de uma recada. 
Ele est ciente do aspecto principal da etiologia das neuroses - que sua gnese , em geral, sobredeterminada, que vrios fatores precisam reunir-se para produzir 
esse resultado; e poder ter esperana de que essa convergncia no se repita de uma s vez, mesmo que alguns fatores etiolgicos individuais permaneam atuantes.
         Talvez se possa objetar que, em casos de histeria como esse, em que a doena j completou seu curso, os sintomas residuais, de qualquer modo, desaparecem 
espontaneamente. Pode-se replicar, porm, que uma cura espontnea desse tipo muitas vezes no  rpida nem completa o bastante, e que pode ser ajudada num grau extraordinrio 
por nossa interveno teraputica. Podemos deixar em aberto, por enquanto, a questo de se por meio da terapia catrtica curamos apenas o que  passvel de cura 
espontnea ou, algumas vezes, tambm o que no se teria dissipado espontaneamente.
         (4) Quando nos defrontamos com uma histeria aguda, um caso que esteja atravessando o perodo da produo mais ativa de sintomas histricos, no qual o ego 
seja constantemente subjugado pelos produtos da doena (isto , durante uma psicose histrica), at mesmo o mtodo catrtico far poucas alteraes no aparecimento 
e na evoluo do distrbio. Nessas circunstncias, vemo-nos, no que diz respeito  neurose, na mesma posio de um mdico que se defronta com uma doena infecciosa 
aguda. Os fatores etiolgicos realizaram suficientemente seu trabalho numa poca que j passou e que est fora do alcance de qualquer influncia; e agora, passado 
o perodo de incubao, eles se tornaram manifestos. A doena no pode ser interrompida de sbito. Temos de esperar que siga seu curso e, enquanto isso, tornar a 
situao do paciente to favorvel quanto possvel. Quando, durante um perodo agudo como esse, eliminamos os produtos da doena, os sintomas histricos recm-gerados, 
devemos tambm estar preparados para descobrir que aqueles que foram eliminados sero prontamente substitudos por outros. No ser poupado ao mdico o sentimento 
deprimente de estar s voltas com uma tarefa de Ssifo. O imenso dispndio de trabalho e a insatisfao da famlia do paciente, para quem a extenso inevitvel de 
uma neurose aguda no tende a ser to familiar quanto  o caso anlogo de uma molstia infecciosa aguda - em geral, estas e outras dificuldades provavelmente tornaro 
impossvel, de qualquer modo, uma aplicao sistemtica do mtodo catrtico. No obstante, continua sendo um assunto para sria reflexo a questo de se  ou no 
verdade que, mesmo numa histeria aguda, a elucidao regular dos produtos da doena exerce uma influncia curativa, ao apoiar o ego normal do paciente, que se acha 
ocupado no trabalho de defesa, e ao impedi-lo de ser subjugado e cair numa psicose, e talvez at num estado permanente de confuso.
         O que o mtodo catrtico  capaz de realizar, mesmo na histeria aguda, e como pode at mesmo restringir a nova produo de sintomas patolgicos, de uma 
forma que tem importncia prtica,  revelado de maneira bem clara pelo caso clnico de Anna O., em que Breuer aprendeu originalmente a empregar tal processo psicoteraputico.
         (5) Quando se trata de histerias que seguem um curso crnico, acompanhadas de uma produo moderada, mas constante, de sintomas histricos, encontramos 
a mais forte razo para lamentar nossa falta de uma terapia que tenha eficcia causal, mas temos tambm os maiores motivos para apreciar o valor do processo catrtico 
como terapia sintomtica. Em tais casos temos que lidar com o dano produzido por uma etiologia que persiste de maneira crnica. Tudo depende de reforar a capacidade 
de resistir do sistema nervoso do paciente, e devemos lembrar que a existncia de um sintoma histrico significa uma diminuio da resistncia do sistema nervoso 
e representa um fator que predispe  histeria. Como se pode ver pelo mecanismo da histeria monossintomtica, a maneira mais fcil de se formar um novo sintoma histrico 
 em relao e em analogia com outro que j esteja presente. O ponto no qual um sintoma j irrompeu uma vez (ver em [1]) constitui um ponto fraco onde ele irromper 
novamente da vez seguinte. Um grupo psquico que j tenha sido expelido uma vez desempenha o papel de cristal "provocador" a partir do qual se inicia, com a maior 
facilidade, uma cristalizao que de outra forma no teria ocorrido | ver em [1]|. Eliminar os sintomas j presentes e desfazer as alteraes psquicas subjacentes 
a eles  devolver aos pacientes toda a sua capacidade de resistncia, de modo que possam suportar com xito os efeitos do agente prejudicial. Muito se pode fazer 
por esses pacientes atravs de uma superviso prolongada e de uma "limpeza de chamin" ocasional (ver em [1]).
         (6) Resta-me citar a aparente contradio entre admitir que nem todos os sintomas histricos so psicognicos e afirmar que todos eles podem ser eliminados 
por um processo psicoteraputico. A soluo est no fato de que alguns desses sintomas no-psicognicos (os estigmas, por exemplo), so,  verdade, sinais de doena, 
mas no podem ser classificados de molstias e conseqentemente no tem importncia prtica que eles persistam aps o tratamento bem-sucedido da doena. Quanto a 
outros sintomas desses, parece que, de alguma forma indireta, eles so eliminados juntamente com os sintomas psicognicos, do mesmo modo que, afinal, de alguma forma 
indireta dependem de uma causao psquica.
         
         Devo agora considerar as dificuldades e desvantagens de nosso processo teraputico, na medida em que elas no se tornem bvias para todos a partir dos casos 
clnicos relatados antes ou das observaes sobre a tcnica do mtodo que se seguem mais adiante. Irei sobretudo enumerar e indicar essas dificuldades, e no entrar 
em pormenores sobre elas.
         O processo  laborioso e exige muito tempo do mdico. Pressupe grande interesse pelos acontecimentos psicolgicos, mas tambm um interesse pessoal pelos 
pacientes. No consigo me imaginar sondando o mecanismo psquico de uma histeria de algum que me causasse a impresso de ser vulgar e repelente e que, num conhecimento 
mais ntimo, no fosse capaz de despertar solidariedade humana, ao passo que consigo manter o tratamento de um paciente tabtico ou reumtico, independentemente 
de uma aprovao pessoal desse tipo. As exigncias feitas ao paciente no so menores. O processo no  de modo algum aplicvel abaixo de certo nvel de inteligncia, 
sendo extremamente dificultado por qualquer vestgio de debilidade mental. A concordncia e a ateno integrais dos pacientes so necessrias, mas, acima de tudo, 
 preciso contar com sua confiana, visto que a anlise invariavelmente leva  revelao dos eventos psquicos mais ntimos e secretos. Grande nmero dos pacientes 
que se adequariam a essa forma de tratamento abandonam o mdico to logo comeam a suspeitar da direo para a qual a investigao est conduzindo. Para tais pacientes, 
o mdico continua a ser um estranho. Com outros, que resolvem colocar-se em suas mos e depositar sua confiana nele - um passo que em outras situaes dessa natureza 
s  dado voluntariamente, e nunca a pedido do mdico -, com esses pacientes, repito,  quase inevitvel que sua relao pessoal com ele assuma indevidamente, pelo 
menos por algum tempo, o primeiro plano.Na verdade, parece que tal influncia por parte do mdico  uma condio sine qua non para a soluo do problema. No penso 
que faa qualquer diferena essencial, nesse sentido, se a hipnose poder ser utilizada ou se ter que ser contornada e substituda por outra coisa. Mas a razo 
exige que ressaltemos o fato de que esses obstculos, embora inseparveis de nosso mtodo, no podem ser atribudos unicamente a ele. Pelo contrrio, est bastante 
claro que eles se baseiam nas condies predeterminantes das neuroses a serem curadas e que tm de estar ligados a qualquer atividade mdica que envolva uma intensa 
preocupao com o paciente e conduza a uma modificao psquica nele. No pude atribuir nenhum efeito deletrio ou qualquer perigo ao emprego da hipnose, embora 
a tenha usado abundantemente em alguns de meus casos. Nas situaes em que causei algum dano, as razes foram outras e mais profundas. Ao examinar meus esforos 
teraputicos desses ltimos anos, desde que as comunicaes feitas por meu estimado mestre e amigo Josef Breuer me mostraram a utilidade do mtodo catrtico, creio 
que, apesar de tudo, fiz muito mais, e com maior freqncia, o bem do que o mal, e consegui algumas coisas que nenhum outro processo teraputico poderia ter alcanado. 
De modo geral, como disse a "Comunicao Preliminar", ele trouxe "considerveis vantagens teraputicas" | ver em [1]|.
         H uma outra vantagem no uso desse processo que devo ressaltar. No conheo melhor forma de comear a compreender um caso grave de neurose complicada, com 
maior ou menor mistura de histeria, do que submetendo-o a uma anlise pelo mtodo de Breuer. A primeira coisa que acontece  o desaparecimento de qualquer coisa 
que exiba um mecanismo histrico. Entrementes, aprendi, no curso das anlises, a interpretar os fenmenos residuais e a traar-lhes a etiologia, e assim assegurei 
uma base firme para decidir qual das armas do arsenal teraputico contra as neuroses  indicada no caso em questo. Ao refletir sobre a diferena que costumo encontrar 
entre meu julgamento sobre um caso de neurose antes e depois de uma anlise, sinto-me quase inclinado a considerar a anlise essencial  compreenso de uma doena 
neurtica. Alm disso, adotei o hbito de combinar a psicoterapia catrtica com uma cura de repouso, que pode, se necessrio, estender-se a um tratamento completo 
de dieta alimentar nos moldes de Weir Mitchell. Isso me d a vantagem de poder, por um lado, evitar a introduo muito perturbadora de novas impresses psquicas 
durante a psicoterapia, e, por outro, eliminar o tdio de uma cura de repouso, na qual os pacientes no raro caemno hbito de entregar-se a devaneios prejudiciais. 
Poder-se-ia esperar que o trabalho psquico, freqentemente muito intenso, imposto aos pacientes durante um tratamento catrtico, bem como as excitaes resultantes 
da reproduo de experincias traumticas, fossem de encontro s intenes do mtodo da cura de repouso de Weir Mitchell e prejudicassem os xitos que estamos acostumados 
a v-lo trazer. Mas  o oposto que de fato se verifica. Uma combinao dos mtodos de Breuer e de Weir Mitchell produz todas as melhoras fsicas que esperamos deste 
ltimo, alm de ter uma influncia psquica de grande amplitude, que jamais resulta de uma cura de repouso sem psicoterapia.
         
         
         (2)
         
         Voltarei agora a minha observao anterior | ver em [1]| de que, em minhas tentativas de aplicar mais amplamente o mtodo de Breuer, deparei com a dificuldade 
de que muitos pacientes no eram hipnotizveis, embora seu diagnstico fosse de histeria e parecesse provvel que o mecanismo psquico por ns descrito atuasse neles. 
Eu precisava da hipnose para ampliar-lhes a memria, a fim de descobrir as lembranas patognicas que no estavam presentes em seu estado comum de conscincia. Assim, 
eu era obrigado a desistir da idia de tratar tais pacientes, ou a me esforar por promover essa ampliao de alguma outra forma.
         Eu era to incapaz quanto qualquer outra pessoa de explicar por que uma pessoa pode ser hipnotizada e outra no, e assim no podia adotar um mtodo causal 
para enfrentar essa dificuldade. Notei, contudo, que em alguns pacientes o obstculo era ainda mais arraigado: eles recusavam at mesmo qualquer tentativa de hipnose. 
Ocorreu-me ento, um dia, a idia de que os dois casos poderiam ser idnticos e de que ambos poderiam significar uma indisposio: que as pessoas no hipnotizveis 
eram as que faziam uma objeo psquica  hipnose, quer sua objeo se expressasse como m vontade ou no. No est claro para mim se posso manter este ponto de 
vista.
         O problema, porm, estava em como contornar a hipnose e, ainda assim, obter as lembranas patognicas. Consegui fazer isso da maneira que relato a seguir.
         Quando, em nossa primeira entrevista, eu perguntava a meus pacientes se se recordavam do que tinha originariamente ocasionado o sintoma em questo, em alguns 
casos eles diziam no saber nada a esse respeito,enquanto, em outros, traziam  baila algo que descreviam como uma lembrana obscura e no conseguiam prosseguir. 
Quando, seguindo o exemplo de Bernheim ao provocar em seus pacientes impresses provenientes do estado sonamblico que tinham aparentemente sido esquecidas (ver 
em [1] e seg.), eu me tornava insistente - quando lhes assegurava que eles efetivamente sabiam, que aquilo lhes viria  mente - ento, nos primeiros casos, algo 
de fato lhes ocorria, e nos outros a lembrana avanava mais um pouco. Depois disso, eu ficava ainda mais insistente: dizia aos pacientes que se deitassem e fechassem 
deliberadamente os olhos a fim de se "concentrarem" - o que tinha pelo menos alguma semelhana com a hipnose. Verifiquei ento que, sem nenhuma hipnose, surgiam 
novas lembranas que recuavam ainda mais no passado e que provavelmente se relacionavam com nosso tema. Experincias como essas fizeram-me pensar que seria de fato 
possvel trazer  luz, por mera insistncia, os grupos patognicos de representaes que, afinal de contas, por certo estavam presentes. E visto que essa insistncia 
exigia esforos de minha parte, e assim sugeria a idia de que eu tinha de superar uma resistncia, a situao conduziu-me de imediato  teoria de que, por meio 
de meu trabalho psquico, eu tinha de superar uma fora psquica nos pacientes que se opunha a que as representaes patognicas se tornassem conscientes (fossem 
lembradas). Uma nova compreenso pareceu abrir-se ante meus olhos quando me ocorreu que esta sem dvida deveria ser a mesma fora psquica que desempenhara um papel 
na gerao do sintoma histrico e que, na poca, impedira que a representao patognica se tornasse consciente. Que espcie de fora poder-se-ia supor que estivesse 
em ao ali, e que motivo poderia t-la posto em ao? Pude formar com facilidade uma opinio sobre isso, pois j dispunha de algumas anlises concludas em que 
viera a conhecer exemplos de representaes que eram patognicas e que tinham sido esquecidas e expulsas da conscincia. A partir desses exemplos, reconheci uma 
caracterstica universal de tais representaes: eram todas de natureza aflitiva, capazes de despertar afetos de vergonha, de autocensura e de dor psquica, alm 
do sentimento de estar sendo prejudicado; eram todas de uma espcie que a pessoa preferiria no ter experimentado, que preferiria esquecer. De tudo isso emergiu, 
como que de forma automtica, a idia de defesa. Com efeito, em geral os psiclogos tm admitido que a aceitao de uma nova representao (aceitao no sentido 
de crer ou de reconhecer como real) depende da natureza e tendncia das representaes j reunidas no ego, e inventaram nomes tcnicos especiais para esse processo 
de censura a que a nova representao deve submeter-se. O ego do paciente teria sido abordado por uma representao que se mostrara incompatvel, o que provocara, 
por parte do ego, uma fora de repulso cuja finalidade seria defender-se da representao incompatvel. Essa defesa seria de fato bem-sucedida. A representao 
em questo fora forada para fora da conscincia e da memria. Seu trao psquico foi aparentemente perdido de vista. No obstante, esse trao deveria estar ali. 
Quando eu me esforava por dirigir a ateno do paciente para ele, apercebia-me, sob a forma de resistncia, da mesma fora que se mostrara sob a forma de repulso 
quando o sintoma fora gerado. Ora, se eu pudesse fazer com que parecesse provvel que a representao se tornara patognica precisamente em conseqncia de sua expulso 
e de seu recalcamento, a cadeia pareceria completa. Em vrias discusses sobre nossos casos clnicos e num breve artigo sobre "As Neuropsicoses de Defesa" (1894a), 
tentei esboar as hipteses psicolgicas com cuja ajuda essa ligao causal - o fato da converso - pode ser demonstrada.
         Assim, uma fora psquica, uma averso por parte do ego, teria originariamente impelido a representao patognica para fora da associao e agora se oporia 
a seu retorno  memria. O "no saber" do paciente histrico seria, de fato, um "no querer saber" - um no querer que poderia, em maior ou menor medida, ser consciente. 
A tarefa do terapeuta, portanto, est em superar, atravs de seu trabalho psquico, essa resistncia  associao. Ele o faz, em primeiro lugar, "insistindo", usando 
a compulso psquica para dirigir a ateno dos pacientes para os traos representativos que est buscando. Seus esforos, contudo, no se esgotam a, mas, como 
demonstrarei, assumem outras formas no decorrer da anlise e recorrem a outras foras psquicas para assistir-lhes.
         Devo repisar um pouco mais a questo da insistncia. As simples afirmaes do tipo " claro que voc sabe", "diga-me assim mesmo" ou "voc logo se lembrar" 
no nos levam muito longe. Mesmo com pacientes num estado de "concentrao", o fio da meada se quebra aps algumas frases. No se deve esquecer, entretanto, que 
se trata sempre aqui de uma comparao quantitativa, de uma luta entre foras motivacionais de diferentes graus de vigor ou intensidade. A insistncia por parte 
de um mdico estranho, no familiarizado com o que est acontecendo, no  poderosa o bastante para lidar com a resistncia  associao nos casos graves de histeria. 
Devemos pensar em meios mais vigorosos.
         Nessas circunstncias, valho-me em primeiro lugar de um pequeno artifcio tcnico. Informo ao paciente que, um momento depois, farei presso sobre sua testa, 
e lhe asseguro que, enquanto a presso durar, ele ver diante de si uma recordao sob a forma de um quadro, ou a ter em seus pensamentos sob a forma de uma idia 
que lhe ocorra; e lhe peo encarecidamente que me comunique esse quadro ou idia, quaisquer que sejam. No deve guard-los para si se acaso achar que no  o que 
se quer, ou no so a coisa certa, nem por ser-lhe desagradvel demais cont-lo. No deve haver nenhuma crtica, nenhuma reticncia, quer por motivos emocionais, 
quer porque os julgue sem importncia. S assim podemos encontrar aquilo que estamos procurando, mas assim o encontraremos infalivelmente. Depois de dizer isso, 
pressiono por alguns segundos a testa do paciente deitado diante de mim; em seguida, relaxo a presso e pergunto calmamente, como se no houvesse nenhuma hiptese 
de decepo: "que voc viu?", ou "que lhe ocorreu?"
         Esse mtodo muito me ensinou e tambm nunca deixou de alcanar sua finalidade. Hoje, no posso mais passar sem ele. Naturalmente, estou ciente de que a 
presso na testa poderia ser substituda por qualquer outro sinal, ou por algum outro exerccio de influncia fsica sobre o paciente, mas, j que o paciente est 
deitado diante de mim, pressionar sua testa ou tomar-lhe a cabea entre minhas mos parece ser o modo mais conveniente de empregar a sugesto para a finalidade que 
tenho em vista. Ser-me-ia possvel dizer, para explicar a eficcia desse artifcio, que ele corresponde a uma "hipnose momentaneamente intensificada", mas o mecanismo 
da hipnose me  to enigmtico que eu preferiria no utiliz-lo como explicao. Sou, antes, de opinio que a vantagem do processo reside no fato de que, por meio 
dele, desvio a ateno do paciente de sua busca e reflexo conscientes - de tudo, em suma, em que ele possa empregar sua vontade - do mesmo modo que isso  feito 
quando se olha fixamente para uma bola de cristal, e assim por diante. A concluso que tiro do fato de que o que estou procurando sempre aparece sob a presso de 
minha mo  a seguinte: a representao patognica aparentemente esquecida est sempre " mo" e pode ser alcanada por associaes facilmente acessveis.  uma 
simples questo de retirar algum obstculo do caminho. Este obstculo parece, mais uma vez, ser a vontade do sujeito, e diferentes pessoas podem aprender, com diferentes 
graus de facilidade, a se liberar de seu pensamento intencional e a adotar uma atitude de observao inteiramente objetiva dos processos psquicos que nelas se verificam.
         O que emerge sob a presso de minha mo nem sempre  uma lembrana "esquecida"; apenas nos casos mais raros  que as lembranas patognicas reais acham-se 
to facilmente  mo na superfcie.  muito mais freqente o surgimento de uma representao que  um elo intermedirio na cadeia de associaes entre a representao 
da qual partimos e a representao patognica que procuramos; ou pode ser uma representao que constitui o ponto de partida de uma nova srie de pensamentos e lembranas, 
ao fim da qual a representao patognica ser encontrada.  verdade que, quando isso acontece, minha presso no revela a representao patognica - que, de qualquer 
modo, seria incompreensvel, arrancada de seu contexto e sem que se fosse levado at ela - mas aponta o caminho para ela e indica o sentido em que se devem fazer 
maiores pesquisas. A representao provocada em primeiro lugar pela presso nesses casos pode ser uma lembrana familiar que nunca foi recalcada. Quando em nosso 
caminho para a representao patognica o fio se interrompe mais uma vez,  necessria apenas uma repetio do processo, da presso, para nos dar novas orientaes 
e um novo ponto de partida.
         Ainda em outras ocasies a presso da mo provoca uma lembrana que  em si mesma familiar ao paciente, mas cujo surgimento o surpreende por ele ter-se 
esquecido de sua relao com a representao de que partimos. Essa relao  ento confirmada no desenvolvimento subseqente da anlise. Todas essas conseqncias 
da presso do-nos uma impresso ilusria de haver uma inteligncia superior fora da conscincia do paciente, que mantm um grande volume de material psquico organizado 
para fins especficos e fixou uma ordem planejada para seu retorno  conscincia. Suspeito, porm, de que essa segunda inteligncia inconsciente nada mais seja do 
que uma aparncia.
         Em toda anlise mais ou menos complicada, o trabalho  efetuado pelo uso repetido, na verdade contnuo, desse mtodo de presso sobre a testa. Algumas vezes, 
partindo de onde a retrospectiva de viglia do paciente se interrompe, esse procedimento aponta o outro caminho a seguir atravs das lembranas das quais o paciente 
permaneceu consciente; por vezes, chama a ateno para ligaes que foram esquecidas; noutras, evoca e organiza lembranas que foram retiradas das associaes por 
muitos anos, mas que ainda podem ser reconhecidas como lembranas; e s vezes, por fim, como auge de sua realizao em termos do pensamento reprodutivo, ele faz 
com que emerjam pensamentos que o paciente jamais reconhece como seus, dos quais nunca se recorda, embora admita que o contexto os exige inexoravelmente e se convena 
de que so precisamente essas idias que levam  concluso da anlise e  eliminao de seus sintomas.
         
         Tentarei enumerar alguns exemplos dos excelentes resultados obtidos com esse procedimento tcnico.
         Tratei de uma moa que sofria de intolervel tussis nervosa que se arrastava por seis anos. Sua tosse obviamente se alimentava de qualquer catarro comum, 
mas, no obstante, devia ter fortes motivaes psquicas. Todos os outros tipos de terapia h muito se haviam mostrado impotentes contra ela. Portanto, tentei eliminar 
o sintoma por meio da anlise psquica. Tudo o que a jovem sabia era que sua tosse nervosa comeara quando, na idade de quatorze anos, ela estava morando com uma 
tia. Ela sustentava no saber de quaisquer agitaes mentais naquela poca, e no acreditava que houvesse nenhum motivo para sua queixa. Sob a presso de minha mo, 
ela se lembrou, em primeiro lugar, de um grande cachorro. Em seguida, reconheceu o quadro em sua memria: era um co de sua tia que ficara afeioado  paciente, 
acompanhava-a por toda parte, e assim por diante. E ento lhe ocorreu, sem maior instigao, que esse co havia morrido, que as crianas o enterraram com solenidade 
e que a tosse havia comeado na volta do enterro. Perguntei-lhe por que, mas tive mais uma vez que recorrer  ajuda da presso. Veio-lhe ento o seguinte pensamento: 
"Agora estou inteiramente s no mundo. Ningum aqui me ama. Esse animal era meu nico amigo, e agora eu o perdi." Prosseguiu com sua histria: "A tosse desapareceu 
quando deixei a casa de minha tia, mas voltou dezoito meses depois." "Por qu?" "No sei." Usei novamente a presso. Ela se lembrou da notcia da morte do tio, quando 
a tosse comeara de novo, e tambm se lembrou de ter tido uma cadeia de pensamentos semelhante. O tio parece ter sido o nico membro da famlia que mostrara qualquer 
afeio por ela, que a havia amado. Ali estava, portanto, a representao patognica. Ningum a amava, preferiam qualquer outro a ela, ela no merecia ser amada, 
e assim por diante. Mas havia alguma coisa vinculada  representao de "amor" que ela mostrava forte resistncia em me contar. A anlise foi interrompida antes 
que isso fosse esclarecido.
         H algum tempo pediram-me que aliviasse uma senhora idosa de seus ataques de angstia, embora, a julgar por seus traos de carter, ela dificilmente se 
prestasse a um tratamento dessa espcie. Desde a menopausa ela ficara excessivamente devota, e em cada visita costumava receber-me armada de um pequeno crucifixo 
de marfim oculto em sua mo, como se eu fosse o Demnio. Seus ataques de angstia, que eram de natureza histrica, remontavam aos primeiros anos da juventude e, 
de acordo com a paciente, haviam-se originado do uso de um preparado de iodo destinado a reduzir um discreto crescimento de sua tireide. Naturalmente, rejeitei 
essa origem e tentei encontrar outra que se harmonizasse melhor com meus pontos de vista sobre a etiologia das neuroses. Pedi-lhe primeiro que me desse alguma impresso 
de sua juventude que tivesse uma relao causal com seus ataques de angstia e, sob a presso de minha mo, surgiu a lembrana de ela ter lido o que  chamado de 
livro "edificante", no qual se fazia uma meno, em tom suficientemente respeitoso, aos processos sexuais. O trecho em questo causara na moa uma impresso inteiramente 
oposta  inteno do autor: ela irrompera em lgrimas e arremessara o livro para longe. Isso foi antes de seu primeiro ataque de angstia. Uma segunda presso sobre 
a testa da paciente evocou outra reminiscncia - a lembrana de um tutor de seus irmos que havia manifestado grande admirao por ela, e por quem ela prpria nutrira 
sentimentos um tanto calorosos. Essa lembrana culminou com a reconstituio de uma noite na casa de seus pais, quando todos se haviam sentado em torno da mesa com 
o rapaz e se haviam divertido imensamente numa animada conversa. Na madrugada seguinte a essa noite, ela foi despertada por seu primeiro ataque de angstia, que, 
pode-se afirmar com segurana, teve mais a ver com o repdio de um impulso sensual do que com quaisquer doses concomitantes de iodo. - Que perspectiva teria eu tido, 
com qualquer outro mtodo, de revelar tal ligao, contra suas prprias opinies e asseres, nessa paciente recalcitrante que tinha tantos preconceitos contra mim 
e contra qualquer forma de terapia comum?
         Outro exemplo diz respeito a uma mulher jovem e bem-casada. Ainda nos primeiros anos de sua adolescncia, ela costumava por algum tempo ser encontrada todas 
as manhs num estado de estupor, com os membros rgidos, a boca aberta e a lngua para fora; e agora, mais uma vez, estava sofrendo, ao despertar, de acessos que 
eram semelhantes, embora no to graves. Como a hipnose profunda se revelou inobtenvel, comecei a investigar enquanto ela estava num estado de concentrao.  primeira 
presso, assegurei-lhe que ela veria algo que estava diretamente relacionado com as causas de seu estado na infncia. Ela era tranqila e cooperativa. Viu mais uma 
vez a casa em que passara os primeiros anos de sua juventude, seu prprio quarto, a posio de sua cama, a av, que morava com eles naquela poca, e uma de suas 
governantas, de quem gostava muito. Algumas pequenas cenas, todas sem importncia, ocorridas nesses aposentos e em meio a essas pessoas, sucederam-se umas s outras; 
terminaram com a partida da governanta, que fora embora para se casar. No pude depreender absolutamente nada dessas reminiscncias; no consegui estabelecer nenhuma 
relao entre elas e a etiologia dos ataques. Vrias circunstncias mostravam, contudo, que elas pertenciam ao mesmo perodo em que os ataques haviam surgido. Mas 
antes que eu pudesse prosseguir na anlise, tive oportunidade de conversar com um colega que, anos antes, fora o mdico da famlia dos pais de minha paciente. Ele 
me deu a seguinte informao: na poca em que tratara da menina por causa de seus primeiros ataques, ela se aproximava da maturidade e j era muito desenvolvida 
fisicamente, e ele ficara surpreso com a excessiva afetuosidade que havia na relao entre ela e a governanta que estava na casa na ocasio. Ficara desconfiado e 
induziu a av a manter vigilncia sobre aquele relacionamento. Aps um curto perodo, a senhora pde inform-lo de que a governanta tinha o hbito de visitar a menina 
na cama  noite e que, aps essas noites, a criana era invariavelmente encontrada na manh seguinte presa de um ataque. Depois disso, no hesitaram em providenciar 
o discreto afastamento dessa corruptora de jovens. As crianas e at mesmo a me foram levadas a crer que a governanta partira a fim de se casar. - Minha terapia, 
que teve sucesso imediato, consistiu em transmitir  jovem senhora as informaes que eu recebera.
         s vezes, as revelaes que se obtm atravs do mtodo da presso aparecem de forma muito marcante e em circunstncias que tornam ainda mais tentadora a 
suposio de haver uma inteligncia inconsciente. Assim, lembro-me de uma senhora que sofrera durante muitos anos de obsesses e fobias e que me indicou a infncia 
como gnese de sua molstia, mas que era tambm totalmente incapaz de dizer a que se poderia atribuir a culpa por esta ltima. Ela era franca e inteligente e opunha 
apenas uma resistncia consciente notavelmente pequena. (Posso observar entre parnteses que o mecanismo psquico das obsesses tem uma afinidade interna muito grande 
com os sintomas histricos, e que a tcnica de anlise  a mesma para ambos.) Quando perguntei a essa senhora se vira alguma coisa ou recordara algo sob a presso 
de minha mo, ela respondeu: "Nem uma coisa nem outra, mas de repente uma palavra me ocorreu." "Uma nica palavra?" "Sim, mas parece tola demais." "De qualquer maneira, 
diga-a." "Porteiro." "Nada mais?" "No." Pressionei uma segunda vez e de novo uma palavra isolada lhe atravessou a mente: "Camisola." Vi ento que essa era uma nova 
espcie de mtodo de resposta e, pressionando repetidas vezes, trouxe  tona o que parecia ser uma srie de palavras sem sentido: "Porteiro" ... "camisola" ... "cama" 
... "carroa". "O que significa tudo isso?", perguntei. Ela refletiu um momento e a seguinte idia lhe ocorreu: "Deve ser a histria que acaba de me vir  mente. 
Quando eu tinha dez anos, e minha irm mais velha, doze, certa noite ela enlouqueceu e teve que ser amarrada e levada para a cidade numa carroa. Lembro perfeitamente 
que foi o porteiro que a dominou e depois tambm foi com ela ao hospcio." Seguimos esse mtodo de investigao e nosso orculo produziu outra srie de palavras 
que, embora no fssemos capazes de interpretar todas, tornaram possvel continuar essa histria e passar para outra. Alm disso, o significado dessa reminiscncia 
ficou logo claro. A doena da irm causara nela essa impresso to profunda porque as duas partilhavam um segredo; dormiam no mesmo quarto e, uma noite, ambas sofreram 
as investidas sexuais de certo homem. A meno desse trauma sexual na infncia da paciente revelou no apenas a origem de suas primeiras obsesses como tambm o 
trauma que em seguida produziu os efeitos patognicos.
         A peculiaridade desse caso estava apenas na emergncia de palavras-chave isoladas, que tivemos de elaborar em frases, pois a aparente incoerncia e impropriedade 
que caracterizavam as palavras enunciadas dessa forma oracular aplicam-se tanto s representaes quanto s cenas completas que so normalmente produzidas sob minha 
presso. Quando estas so acompanhadas, nunca se deixa de constatar que as reminiscncias aparentemente desconexas se acham ligadas de modo estreito no pensamento 
e conduzem de forma bastante direta ao fator patognico que estamos buscando. Por essa razo, apraz-me recordar um caso de anlise no qual minha confiana nos produtos 
da presso foi, de incio, submetida a um rigoroso teste, mas depois brilhantemente justificada.
         Uma jovem mulher casada, muito inteligente e aparentemente feliz, consultara-me sobre uma dor persistente no abdome, que resistia ao tratamento. Vi que 
a dor estava situada na parede abdominal e devia relacionar-se com induraes musculares palpveis, e prescrevi um tratamento local. Alguns meses depois, tornei 
a examinar a paciente, e ela me disse: "A dor que eu sentia desapareceu aps o tratamento que o senhor recomendou, e permaneceu assim por muito tempo. Mas agora 
ela voltou sob uma forma nervosa. Sei que  nervosa porque no  mais como eu costumava senti-la, ao fazer certos movimentos, mas s em certas ocasies - por exemplo, 
quando acordo de manh e quando fico agitada de certas maneiras." O diagnstico dessa jovem senhora estava certo. Tratava-se agora de descobrir a causa da dor, e 
ela no conseguiu ajudar-me nisso enquanto se achava num estado de conscincia no influenciado. Quando lhe perguntei, em concentrao e sob a presso de minha mo, 
se algo lhe ocorria ou se via alguma coisa, ela me disse estar vendo e comeou a descrever suas imagens visuais. Viu algo como um sol cheio de raios, que naturalmente 
tomei como um fosfeno produzido pela presso nos olhos. Eu esperava que algo mais til se seguisse. Mas ela prosseguiu: "Estrelas de uma curiosa luz azul-plido, 
como o luar" e assim por diante, que julguei no serem mais do que cintilaes, clares e pontos brilhantes diante dos seus olhos. J estava preparado para considerar 
a experincia como um fracasso e imaginava como poderia fazer uma retirada discreta do caso, quando minha ateno foi atrada por um dos fenmenos que ela descreveu. 
Viu uma grande cruz negra, inclinada, que tinha em volta de seus contornos o mesmo brilho luminoso com que todos os seus outros quadros haviam brilhado, e em cuja 
viga transversal bruxuleava uma pequena chama. Era claro que no podia mais tratar-se de um fosfeno. Passei ento a escutar com ateno. Inmeros quadros apareceram 
banhados na mesma luz, sinais curiosos que se pareciam muito com o snscrito; figuras como tringulos, entre elas um grande tringulo; de novo a cruz... Dessa vez, 
suspeitei de um significado alegrico e perguntei o que poderia ser a cruz. "Provavelmente significa sofrimento", respondeu. Objetei que por "cruz" em geral se quer 
dizer responsabilidade moral. Que estaria oculto por trs do sofrimento? Ela no soube dizer e prosseguiu com suas vises: um sol com raios dourados. E a isso tambm 
pde interpretar: " Deus, a fora primeva." Surgiu ento um lagarto gigantesco que a contemplava de maneira inquisidora, mas no alarmante. A seguir, um grande 
nmero de cobras. Depois, mais uma vez, um sol, mas de raios suaves e prateados, e  sua frente, entre ela e essa fonte de luz, uma grade que escondia dela o centro 
do sol. Eu j sabia h algum tempo que estava lidando com alegorias e de imediato perguntei qual o sentido dessa ltima imagem. Ela respondeu sem hesitar: "O sol 
 a perfeio, o ideal, e a grade representa minhas fraquezas e falhas, que se interpem entre mim e o ideal." "A senhora est ento se recriminando? Est insatisfeita 
consigo mesma?" "Na verdade, estou." "Desde quando?" "Desde que passei a ser membro da Sociedade Teosfica e tenho lido suas publicaes. Sempre me tive em baixa 
conta." "O que lhe causou a mais forte impresso recentemente?" "Uma traduo do snscrito que agora mesmo est saindo em fascculos." Um momento depois eu era introduzido 
em suas lutas mentais e suas auto-recriminaes e ouvia o relato de um episdio insignificante que dera margem  autocensura - uma ocasio na qual o que antes fora 
uma dor orgnica surgiu pela primeira vez como conseqncia da converso de uma excitao. Os quadros que eu a princpio tomara por fosfenos eram smbolos de seqncias 
de representaes influenciadas pelas cincias ocultas e, na verdade, talvez fossem emblemas provenientes das pginas de frontispcio de livros de ocultismo.
         
         At aqui, tenho sido to entusiasmado em meus louvores aos resultados da presso como mtodo auxiliar, e durante todo o tempo tenho negligenciado de tal 
maneira o aspecto da defesa ou resistncia que, sem dvida, deve ter dado a impresso de que esse pequeno artifcio nos deixou em condies de dominar os obstculos 
psquicos a um tratamento catrtico. Mas acreditar nisso seria cometer um grave erro. xitos dessa espcie, pelo que sei, no devem ser procurados no tratamento. 
Aqui, com em tudo o mais, uma grande mudana exige um grande volume de trabalho. A tcnica da presso nada mais  do que um truque para apanhar temporariamente desprevenido 
um ego ansioso por defender-se. Em todos os casos mais ou menos graves o ego torna a relembrar seus objetivos e oferece resistncia.
         Preciso mencionar as diferentes formas em que surge essa resistncia. Uma delas  que, em geral, a tcnica da presso falha na primeira ou segunda ocasio. 
O paciente ento declara, com grande desapontamento: "Esperava que alguma coisa me ocorresse, mas tudo em que pensei foi no grau de tenso com que estava esperando 
por isso. No surgiu nada." O fato de o paciente pr-se assim em guarda ainda no chega a constituir um obstculo. Podemos dizer em resposta: " precisamente porque 
voc estava curioso demais: da prxima vez dar resultado." E de fato d.  notvel a freqncia com que os pacientes, mesmo os mais dceis e inteligentes, conseguem 
esquecer-se por completo de seu compromisso, embora tenham concordado com ele de antemo. Uns prometem dizer o que quer que lhes ocorra sob a presso de minha mo, 
independentemente de lhes parecer pertinente ou no e de lhes ser ou no agradvel diz-lo - isto , prometem diz-lo sem selecionar e sem serem influenciados pela 
crtica ou pelo afeto. Mas no cumprem essa promessa; evidentemente, faz-lo est alm de suas foras. O trabalho torna a ser paralisado, e eles continuam a dizer 
que dessa vez nada lhes ocorreu. No devemos crer no que dizem; devemos sempre presumir, e dizer-lhes tambm, que eles retiveram algo porque o julgaram sem importncia 
ou o acharam aflitivo. Devemos insistir nisso, devemos repetir a presso e representar o papel de infalveis, at que afinal nos contem alguma coisa. O paciente 
ento acrescenta: "Eu poderia ter-lhe dito isso desde a primeira vez." "Por que no disse?" "No consegui acreditar que pudesse ser isso. Foi s quando continuou 
voltando todas as vezes que resolvi diz-lo." Ou ento: "Esperava que no fosse logo isso. Eu poderia muito bem passar sem diz-lo.Foi s quando isso se recusou 
a ser repelido que vi que no devia desprez-lo." Assim, a posteriori, o paciente trai os motivos de uma resistncia que, de incio, se recusava a admitir.  evidente 
que ele  incapaz de fazer outra coisa seno opor resistncia.
         Essa resistncia muitas vezes se oculta por trs de notveis desculpas. "Minha cabea hoje est distrada; o relgio (ou o piano da sala ao lado) est me 
perturbando." Aprendi a responder a tais observaes: "De modo algum. Neste momento voc esbarrou em alguma coisa que preferiria no dizer. Isso no lhe far nenhum 
bem. Continue a pensar nela." Quanto mais longa a pausa entre a presso de minha mo e o momento em que o paciente comea a falar, mais desconfiado fico e mais se 
deve temer que o paciente esteja reorganizando o que lhe surgiu e o esteja mutilando em sua reproduo. Uma informao importantssima  muitas vezes anunciada como 
sendo um acessrio redundante, como um prncipe de pera disfarado de mendigo. "Agora me ocorreu uma coisa, mas no tem nada a ver com o assunto. S estou lhe dizendo 
porque o senhor quer saber de tudo." Palavras como essas em geral introduzem a soluo h muito procurada. Sempre aguo os ouvidos quando ouo um paciente falar 
de forma to depreciativa de algo que lhe ocorreu, pois  sinal de que a defesa foi bem-sucedida se as representaes patognicas parecem ter to pouca importncia 
ao reemergiram. Disso podemos inferir em que consistiu o processo de defesa: consistiu em transformar uma representao forte numa representao fraca, em roub-la 
de seu afeto.
         Portanto, uma lembrana patognica  reconhecvel, entre outras coisas, pelo fato de o paciente a descrever como sem importncia e, no obstante, s enunci-la 
sob resistncia. Tambm existem casos em que o paciente tenta reneg-la mesmo aps seu retorno. "Agora me ocorreu uma coisa, mas  bvio que foi o senhor que a ps 
em minha cabea." Ou ento: "Sei o que o senhor espera que eu responda.  claro que acredita que pensei nisto ou naquilo." Um mtodo particularmente hbil de recusa 
est em dizer: "Agora me ocorreu uma coisa,  verdade, mas  como se eu a tivesse provocado de propsito. No parece de modo algum ser um pensamento reproduzido." 
Em todos esses casos, permaneo inabalavelmente firme. Evito entrar em qualquer uma dessas distines, mas explico ao paciente que elas so apenas formas de sua 
resistncia e pretextos por ela levantados contra a reproduo dessa lembrana em particular, que devemos reconhecer apesar de tudo isso.
         Quando as lembranas retornam sob a forma de imagens, nossa tarefa costuma ser mais fcil do que quando voltam como pensamentos. Os pacientes histricos, 
que em geral so do tipo "visual", no oferecem tantas dificuldades ao analista quanto aqueles que tm obsesses.
         
         Uma vez surgida uma imagem na memria do paciente, podemos ouvi-lo dizer que ela vai se tornando fragmentada e obscura  medida que ele continua a descrev-la. 
O paciente est, por assim dizer, livrando-se dela ao transform-la em palavras. Passamos a examinar a prpria imagem lembrada para descobrir a direo em que nosso 
trabalho deve prosseguir. "Olhe para a imagem mais uma vez. Ela desapareceu?" "A maior parte, sim, mas ainda vejo um detalhe." "Ento esse resduo ainda deve significar 
alguma coisa. Ou voc ver alguma coisa nova alm dele, ou algo lhe ocorrer em ligao com ele." Realizado esse trabalho, o campo de viso do paciente volta a ficar 
limpo e podemos evocar outro quadro. Em outras ocasies, porm, uma dessas imagens permanece obstinadamente diante da viso interior do paciente, apesar de ele a 
ter descrito; para mim, isso  um indcio de que ele ainda tem algo importante a me dizer sobre o tema da imagem. To logo isso  feito, a imagem desaparece, como 
um fantasma que fosse exorcizado.
         Naturalmente,  de grande importncia para o progresso da anlise que o analista sempre mostre ter razo diante do paciente, caso contrrio ficar sempre 
na dependncia do que este resolver contar. Assim,  reconfortante saber que a tcnica da presso na verdade nunca falha, afora um nico caso, que terei de examinar 
depois | ver em [1] e segs.|, mas do qual posso dizer desde logo que corresponde a um motivo particular para a resistncia. Pode acontecer,  claro, que se faa 
uso do mtodo em circunstncias em que ele nada tenha a revelar. Por exemplo, podemos procurar a etiologia adicional de um sintoma quando j o temos por completo 
diante de ns, ou podemos investigar a genealogia psquica de um sintoma, como uma dor, que de fato seja somtico. Nesses casos, o paciente tambm afirmar que nada 
lhe ocorreu, e dessa vez ter razo. Podemos evitar cometer injustias contra o paciente se nos habituarmos, como norma geral durante toda a anlise, a observar-lhe 
a expresso facial quando ele estiver deitado em silncio diante de ns. Assim poderemos aprender a distinguir sem dificuldade o sereno estado de nimo que acompanha 
a verdadeira ausncia de lembranas, da tenso e dos sinais de emoo com que ele tenta recusar a lembrana emergente, em obedincia  defesa. Alm disso, experincias 
como essa tambm possibilitam o uso da tcnica da presso para fins de diagnstico diferencial.
         Assim, mesmo com a assistncia da tcnica da presso, de maneira alguma o trabalho  fcil. A vantagem que obtemos  descobrir, pelos resultados desse mtodo, 
a direo em que temos de conduzir nossas indagaes e as coisas em que temos de insistir junto ao paciente. Em alguns casos isso basta. O ponto principal  que 
devo adivinhar o segredo e diz-lo diretamente ao paciente, sendo ele, em geral, obrigado a no mais rejeit-lo.Em outros casos, mais alguma coisa  necessria. 
A persistente resistncia do paciente  indicada pelo fato de que as ligaes se interrompem, as solues no aparecem e as imagens so recordadas de forma indistinta 
e incompleta. Voltando a olhar de um perodo posterior para um perodo anterior da anlise, muitas vezes ficamos atnitos diante da maneira mutilada com que surgiram 
todas as idias e cenas que extramos do paciente pelo mtodo da presso. Precisamente os elementos essenciais do quadro estavam faltando - a relao do quadro com 
o prprio paciente ou com os principais contedos de seus pensamentos - e eis por que ele permanecia ininteligvel.
         Darei um ou dois exemplos da forma pela qual uma censura dessa espcie atua quando surgem pela primeira vez as lembranas patognicas. Por exemplo, o paciente 
v a parte superior de um corpo de mulher com o vestido mal fechado - por descuido, parece. S muito depois  que ele coloca uma cabea nesse tronco e assim revela 
uma determinada pessoa e sua relao com ela. Ou ele evoca de sua infncia uma reminiscncia sobre dois meninos. A aparncia deles lhe  inteiramente obscura, mas 
ele diz que so culpados de algum malfeito. S muitos meses depois, aps a anlise ter feito grandes progressos,  que ele rev essa reminiscncia e se reconhece 
numa das crianas, e seu irmo na outra.
         De que meios dispomos para superar essa resistncia contnua? Poucos, mas abrangem quase todos pelos quais um homem pode comumente exercer uma influncia 
psquica sobre outro. Em primeiro lugar, devemos refletir que a resistncia psquica, em especial uma que esteja em vigor h muito tempo, s pode ser dissipada com 
lentido, passo a passo, e devemos esperar com pacincia. Em segundo lugar, podemos contar com o interesse intelectual que o paciente comea a sentir aps trabalhar 
por um curto espao de tempo. Explicando-lhe as coisas, dando-lhe informaes sobre o mundo maravilhoso dos processos psquicos que ns mesmos s comeamos a discernir 
atravs dessas anlises, ns o transformamos num colaborador, induzimo-lo a encarar a si mesmo com o interesse objetivo de um pesquisador e assim afastamos sua resistncia, 
que repousa, de fato, numa base afetiva. Mas por ltimo - e essa continua a ser a alavanca mais poderosa - devemos nos esforar, depois de descobrirmos os motivos 
de sua defesa, por despoj-los de seu valor ou mesmo substitu-los por outros mais poderosos.  aqui, sem dvida, que deixa de ser possvel enunciar a atividade 
psicoteraputica em frmulas. Trabalha-se com o melhor da prpria capacidade, como elucidador (ali onde a ignorncia deu origem ao medo), como professor, como representante 
de um viso mais livre ou superior do mundo, como um padre confessor que ministra a absolvio, por assim dizer, pela permanncia de sua compreenso e de seu respeito 
depois de feita a confisso. Tenta-se dar ao paciente assistncia humana, at o ponto em que isso  permitido pela capacidade da prpria personalidade de cada um 
e pela dose de compreenso que se possa sentir por cada caso especfico.  uma precondio essencial para tal atividade psquica que tenhamos mais ou menos adivinhando 
a natureza do caso e os motivos da defesa que nele atuam, e felizmente a tcnica da insistncia e da presso nos leva at esse ponto. Quanto mais tenhamos solucionado 
tais enigmas, mais fcil achamos decifrar um novo enigma e mais cedo podemos iniciar o trabalho psquico verdadeiramente curativo. Pois  bom reconhecer uma coisa 
com clareza: o paciente s se livra do sintoma histrico ao reproduzir as impresses patognicas que o causaram e ao verbaliz-las com uma expresso de afeto; e 
assim a tarefa teraputica consiste unicamente em induzi-lo a agir dessa maneira; uma vez realizada essa tarefa, nada resta ao mdico para corrigir ou eliminar. 
O que quer que se faa necessrio para esse fim em termos de contra-sugestes j ter sido despendido durante a luta contra a resistncia. A situao pode ser comparada 
ao destrancamento de uma porta trancada, depois de sua abertura girando a maaneta, no oferece nenhuma outra dificuldade.
         Alm das motivaes intelectuais que mobilizamos para superar a resistncia, h um fator afetivo, a influncia pessoal do mdico, que raramente podemos 
dispensar, e em diversos casos s este ltimo fator est em condies de eliminar a resistncia. A situao aqui no  diferente da que se pode encontrar em qualquer 
setor da medicina, no havendo processo teraputico sobre o qual possamos dizer que dispensa por completo a cooperao desse fator pessoal.
         
         
         (3)
         
         Em vista do que disse na seo precedente sobre as dificuldades de minha tcnica, que expus extensamente (reuni-as, alis, a partir dos casos mais graves; 
as coisas muitas vezes se passam de maneira muito mais conveniente) - em vista de tudo isso, portanto, sem dvida, todos ho de sentir-se inclinados a perguntar 
se no seria mais vantajoso, em vez de enfrentar todas essas complicaes, fazer uso mais enrgico da hipnose ou restringir o emprego do mtodo catrtico a pacientes 
que possam ser colocados em hipnose profunda. Quanto  segunda proposta, eu teria de responder que, nesse caso, o nmero de pacientes apropriados, at onde vai minha 
habilidade, seria por demais reduzido; e quanto ao primeiro conselho,desconfio de que a imposio forada da hipnose no nos pouparia de muita resistncia. Minhas 
experincias nesse aspecto, curiosamente, no tm sido numerosas, e no posso, portanto, ir alm de uma suspeita. Mas nas situaes em que apliquei um tratamento 
catrtico sob hipnose, em vez de concentrao, no achei que isso diminusse o trabalho que eu tinha a executar. No faz muito tempo, conclu um tratamento dessa 
espcie, e em seu decorrer fiz com que uma paralisia histrica das pernas desaparecesse. A paciente passava para um estado muito diferente, psiquicamente, do de 
viglia, e que no aspecto fsico se caracterizava pelo fato de que lhe era impossvel abrir os olhos ou levantar-se at que eu lhe dissesse em voz alta: "Agora, 
acorde!" No obstante, jamais me defrontei com maior resistncia do que nesse caso. Eu no atribua nenhuma importncia a esses sinais fsicos e, ao aproximar-se 
o final do tratamento, que durou dez meses, eles haviam deixado de ser dignos de nota. Mas, apesar disso, o estado da paciente enquanto trabalhvamos no perdeu 
nenhuma de suas caractersticas psquicas - a capacidade que possua de lembrar-se de material inconsciente e sua relao toda especial com a figura do mdico. Por 
outro lado, dei um exemplo, no relato do caso da Sra. Emmy von N., de um tratamento catrtico no mais profundo sonambulismo, no qual a resistncia mal chegou a desempenhar 
qualquer papel. Mas tambm  verdade que nada ouvi dessa senhora cujo relato pudesse ter exigido qualquer superao especial de objees, nada que ela no me pudesse 
ter dito mesmo em estado de viglia, supondo-se que nos conhecssemos h algum tempo e que ela me tivesse razoavelmente em boa conta. Nunca cheguei s verdadeiras 
causas de sua doena, que sem dvida foram idnticas s causas de sua recada aps meu tratamento (pois essa foi minha primeira tentativa com esse mtodo); e na 
nica ocasio em que me aconteceu pedir-lhe uma reminiscncia que envolvesse um elemento ertico | ver em [1]|, achei-a to relutante e indigna de confiana no que 
me dizia quanto o foram, mais tarde, quaisquer de meus pacientes no sonamblicos. J me referi, no relato do caso dessa senhora,  resistncia que ela opunha, mesmo 
durante o sonambulismo, a outras solicitaes e sugestes minhas. Tornei-me inteiramente ctico quanto ao valor da hipnose na facilitao dos tratamentos catrticos, 
visto ter vivenciado situaes em que, durante o sonambulismo profundo, houve absoluta recalcitrncia teraputica, ao passo que em outros aspectos o paciente era 
perfeitamente obediente. Relatei casos, de modo resumido, em [1] e poderia acrescentar outros. Posso tambm admitir que essa experincia correspondeu bastante bem 
ao requisito em que insisto, no sentido de que deve haver uma relao quantitativa entre causa e efeito tambm no campo psquico |assim como no fsico|.
         
         No que afirmei at agora, a idia de resistncia se imps no primeiro plano. Demonstrei como, no curso de nosso trabalho teraputico, fomos levados  viso 
de que a histeria se origina por meio do recalcamento de uma idia incompatvel, de uma motivao de defesa. Segundo esse ponto de vista, a idia recalcada persistiria 
como um trao mnmico fraco (de pouca intensidade), enquanto o afeto dela arrancado seria utilizado para uma inervao somtica. (Em outras palavras, a excitao 
 "convertida".) Ao que parece, portanto,  precisamente por meio de seu recalcamento que a idia se transforma na causa de sintomas mrbidos - ou seja, torna-se 
patognica. Pode-se dar a designao de "histeria de defesa"  histeria que exiba esse mecanismo psquico.
         Ora, tanto eu como Breuer temo-nos referido muitas vezes a duas outras espcies de histeria, para as quais introduzimos as expresses "histeria hipnide" 
e "histeria de reteno". Foi a histeria hipnide a primeira de todas a entrar em nosso campo de estudo. Eu no poderia, de fato, encontrar melhor exemplo dessa 
histeria do que no primeiro caso de Breuer, que encabea a exposio de nossos casos clnicos. Breuer props para esses casos de histeria hipnide um mecanismo psquico 
substancialmente diferente do de defesa por converso. Segundo a viso de Breuer, o que acontece na histeria hipnide  que uma idia se torna patognica por ter 
sido recebida durante um estado psquico especial e permanecido desde o incio fora do ego. Portanto, no foi necessria nenhuma fora psquica para mant-la fora 
do ego, e nenhuma resistncia precisa ser despertada quando a induzimos no ego com a ajuda da atividade mental durante o sonambulismo. E o caso de Anna O. de fato 
no mostra nenhum sinal de uma resistncia dessa natureza.
         Considero de tal importncia essa distino que, com base nela, alio-me de bom grado a essa hiptese da existncia de uma histeria hipnide. Estranhamente, 
em minha prpria experincia, nunca deparei com uma histeria hipnide autntica. Todas as que aceitei para tratamento transformaram-se em histerias de defesa. A 
rigor, no  que eu jamais tenha tido de lidar com sintomas que comprovadamente emergiram durante estados dissociados de conscincia, sendo obrigados, por esse motivo, 
a ficar excludos do ego. Isso tambm aconteceu algumas vezes em meus casos, mas pude demonstrar, mais tarde, que o chamado estado hipnide devia sua separao ao 
fato de nele haver entrado em vigor um grupo psquico que antes fora dividido pela defesa. Em suma, -me impossvel reprimir a suspeita de que em algum ponto as 
razes da histeria hipnide e da histeria de defesa se renem, e que seu fator primrio  a defesa. Mas nada posso dizer a esse respeito.
         Meu julgamento , no momento, igualmente incerto quanto  "histeria de reteno", na qual se supe que o trabalho teraputico tambm se processe sem resistncia. 
Tive um caso que encarei como uma tpica histeria de reteno e exultei com a perspectiva de um xito fcil e certo. Mas esse xito no ocorreu, embora o trabalho 
fosse efetivamente fcil. Suspeito, portanto, embora mais uma vez com todas as ressalvas prprias da ignorncia, de que tambm na base da histeria de reteno tambm 
haja um elemento de defesa que tenha forado todo o processo na direo da histeria.  de se esperar que novas observaes logo venham decidir se estou correndo 
o risco de incidir em parcialidade e erro ao favorecer assim a extenso do conceito de defesa para toda a histeria.
         
         Tratei at agora das dificuldades e da tcnica do mtodo catrtico e gostaria de acrescentar algumas indicaes quanto  forma assumida pela anlise quando 
essa tcnica  adotada. Para mim, isto  um assunto altamente interessante, mas no posso esperar que desperte interesse semelhante em outros, que ainda no efetuaram 
uma anlise dessa espcie. Estarei,  verdade, referindo-me mais uma vez  tcnica, mas desta vez falarei das dificuldades inerentes pelas quais no podemos responsabilizar 
os pacientes e que, em parte, devem ser as mesmas tanto numa histeria hipnide ou de reteno quanto nas histerias de defesa que tenho diante dos olhos como modelo. 
Abordo esta ltima parte de minha exposio na expectativa de que as caractersticas psquicas a serem nela reveladas possam um dia adquirir certo valor como matria-prima 
para a dinmica da representao.
         A primeira e mais poderosa impresso causada numa dessas anlises  com certeza a de que o material psquico patognico aparentemente esquecido, que no 
se acha  disposio do ego e no desempenha nenhum papel na associao e na memria, no obstante est de algum modo  mo, e em ordem correta e adequada. Trata-se 
apenas de remover as resistncias que barram o caminho para o material. Em outros sentidos esse material  conhecido, da mesma forma como somos capazes de conhecer 
qualquer coisa; as ligaes corretas entre as representaes separadas e entre elas e as no-patognicas, que so lembradas com freqncia, existem, foram completadas 
em alguma poca e esto armazenadas na memria. O material psquico patognico parece constituir o patrimnio de uma inteligncia no necessariamente inferior  
de um ego normal. A aparncia de uma segunda personalidade  muitas vezes apresentada da maneira mais enganosa.
         Se essa impresso  justificada, ou se, ao pensar nela, estamos atribuindo ao perodo da doena um arranjo do material psquico que na verdade foi feito 
aps a recuperao - essas so perguntas que eu preferiria no discutir ainda, e no nestas pginas. De qualquer modo, as observaes feitas durante tais anlises 
sero descritas de modo mais claro e convincente se as considerarmos a partir da posio que nos  possvel assumir aps a recuperao, com a finalidade de examinar 
o caso como um todo.
         Em geral, de fato, a situao no  to simples como a representamos nos casos especficos - por exemplo, quando existe apenas um sintoma surgido de um 
trauma principal. No costumamos encontrar um sintoma histrico nico, mas muitos deles, em parte independentes uns dos outros e em parte ligados. No devemos esperar 
encontrar uma lembrana traumtica nica e uma idia patognica nica como seu ncleo; devemos estar preparados para sucesses de traumas parciais e concatenaes 
de cadeias patognicas de idias. A histeria traumtica monossintomtica , por assim dizer, um organismo elementar, uma criatura unicelular, em comparao com a 
estrutura complexa de tais neuroses relativamente graves com que costumamos deparar.
         O material psquico nesses casos de histeria apresenta-se como uma estrutura em vrias dimenses, estratificada de pelo menos trs maneiras diferentes. 
(Espero logo poder justificar essa forma pictrica de expresso.) Para comear, h um ncleo que consiste em lembranas de eventos ou seqncias de idias em que 
o fator traumtico culminou, ou onde a idia patognica encontrou sua manifestao mais pura. Em torno desse ncleo encontramos o que  muitas vezes uma quantidade 
incrivelmente grande de outro material mnmico que tem de ser elaborado na anlise e que est, como dissemos, arranjado numa ordem trplice.
         Em primeiro lugar, h uma inconfundvel ordem cronolgica linear que vigora em cada tema isolado. Como exemplo disso, apenas citarei o arranjo do material 
na anlise de Anna O. por Breuer. Tomemos o tema do ensurdecimento, do no ouvir. Este se diferenciou de acordo com sete conjuntos de determinantes, e em cada um 
desses sete tpicos foram coletadas em seqncia cronolgica dez a mais de cem lembranas individuais (ver em [1]-[2]). Foi como se estivssemos examinando um arquivo 
que fosse mantido em perfeita ordem. A anlise de minha paciente Emmy von N. continha arquivos semelhantes de lembranas, embora no fossem enumerados e descritos 
de forma to completa. Esses arquivos so um trao bastante geral de cada anlise, e seu contedo sempre emerge numa ordem cronolgica to infalivelmente fidedigna 
quanto a sucesso dos dias da semana ou dos meses numa pessoa mentalmente normal. Eles dificultam o trabalho da anlise pela peculiaridade de que, ao reproduzirem 
as lembranas, invertem a ordem em que estas se originaram. A experincia mais recente e mais nova do arquivo aparece em primeiro lugar, como uma capa externa, e 
por ltimo vem a experincia com a qual a seqncia de fatos realmente comeou.
         Descrevi esses agrupamentos de lembranas semelhantes, em colees dispostas em seqncias lineares (como um arquivo de documentos, um mao de papis, etc.) 
como constituindo "temas". Esses temas exibem um segundo tipo de arranjo. Cada um deles est - no sei express-lo de outra forma - concentricamente estratificado 
em torno do ncleo patognico. No  difcil dizer o que produz essa estratificao, qual a magnitude decrescente ou crescente que  a base desse arranjo. O contedo 
de cada camada caracteriza-se por um grau igual de resistncia, e esse grau aumenta na proporo em que as camadas se acham mais perto do ncleo. Assim, h zonas 
dentro das quais existe um grau idntico de modificao da conscincia, e os diferentes temas estendem-se atravs dessas zonas. As camadas mais perifricas contm 
as lembranas (ou arquivos), as quais, pertencendo a temas diferentes, so recordados com facilidade e sempre estiveram claramente conscientes. Quanto mais nos aprofundamos, 
mais difcil se torna o reconhecimento das lembranas emergentes, at que, perto do ncleo, esbarramos em lembranas que o paciente renega at mesmo ao reproduzi-las.
          essa peculiaridade da estratificao concntrica do material psquico patognico que, como veremos, confere ao decorrer dessas anlises seus traos caractersticos. 
 preciso mencionar ainda uma terceira espcie de arranjo - a mais importante, porm aquela sobre a qual  menos fcil fazer qualquer afirmao genrica. O que tenho 
em mente  um arranjo de acordo com o contedo do pensamento, a ligao feita por um fio lgico que chega at o ncleo e tende a seguir um caminho irregular e sinuoso, 
diferente emcada caso. Esse arranjo possui um carter dinmico, em contraste com o carter morfolgico das duas estratificaes mencionadas acima. Enquanto estas 
seriam representadas num diagrama espacial por uma linha contnua, curva ou reta, o curso da cadeia lgica teria de ser indicado por uma linha interrompida, que 
passaria pelos caminhos mais indiretos, indo e vindo da superfcie at as camadas mais profundas, e contudo, de modo geral, avanaria da periferia para o ncleo 
central, tocando em cada ponto de parada intermedirio - uma linha semelhante  linha em ziguezague na soluo de um problema do lance do cavalo, que atravessa os 
quadrados do diagrama no tabuleiro de xadrez.
         Devo demorar-me um pouco mais neste ltimo smile para enfatizar um ponto em que ele no faz justia s caractersticas do objeto da comparao. A cadeia 
lgica corresponde no apenas a uma linha retorcida, em ziguezague, mas antes a um sistema de linhas em ramificao e, mais particulamente, a um sistema convergente. 
Ele contm pontos nodais em que dois ou mais fios se juntam e, a partir da, continuam como um s; e em geral diversos fios que se estendem de forma independente, 
ou no, ligados em vrios pontos por vias laterais, desembocam no ncleo. Em outras palavras,  notvel a freqncia com que um sintoma  determinado de vrios modos, 
 "sobredeterminado".
         Minha tentativa de demonstrar a organizao do material psquico patognico ficar completa quando eu tiver introduzido mais uma complexidade. Pois  possvel 
que haja mais de um nico ncleo no material patognico - quando, por exemplo, temos de analisar uma segunda irrupo da histeria que possui uma etiologia prpria, 
mas, apesar disso, est ligada a uma primeira irrupo de histeria aguda superada anos antes.  fcil imaginar, quando  esse o caso, quantos acrscimos deve haver 
nas camadas e linhas de pensamento para estabelecer uma ligao entre os dois ncleos patognicos.
         Farei agora um ou dois comentrios adicionais sobre o quadro da organizao do material patognico a que acabamos de chegar. Dissemos que esse material 
se comporta como um corpo estranho, e que tambm o tratamento atua como a remoo de um corpo estranho do tecido vivo. Estamos agora em condies de ver onde essa 
comparao fracassa. Um corpo estranho no entra em qualquer relao com as camadas de tecido que o circundam, embora as modifique e exija delas uma inflamao reativa. 
Nosso grupo psquico patognico, por outro lado, no admite ser radicalmente extirpado do ego. Suas camadas externas passam em todas as direes para partes do ego 
normal; e, na realidade, pertencem tanto a este quanto a organizao patognica. Na anlise, a fronteira entre os dois  fixada de maneira puramente convencional, 
ora num ponto, ora em outro, sendo que em alguns lugares no pode em absoluto ser estabelecida. As camadas internas da organizao patognica so cada vez mais estranhas 
ao ego, porm mais uma vez sem que haja nenhuma fronteira visvel em que se inicie o material patognico. De fato, o organizao patognica no se comporta como 
um corpo estranho, porm muito mais como um infiltrado. Nesse smile, a resistncia deve ser considerada como aquilo que se infiltra. E o tratamento tambm no consiste 
em extirpar algo - a psicoterapia at agora no  capaz de fazer isso - mas em fazer com que a resistncia se dissolva e assim permitir que a circulao prossiga 
para uma regio que at ento esteve isolada.
         (Estou usando aqui diversos smiles, dos quais todos apresentam apenas uma semelhana muito limitada com meu assunto e, alm disso, so incompatveis entre 
si. Estou ciente disso e no corro o perigo de superestimar seu valor. Mas meu propsito ao utiliz-los  lanar luz de diferentes direes sobre um tpico altamente 
complexo, que nunca foi representado at hoje. Arriscar-me-ei, portanto, nas pginas seguintes, a introduzir outros smiles da mesma maneira, embora saiba que isso 
no est livre de objees.)
         Se fosse possvel, depois de um caso ter sido completamente elucidado, mostrar o material patognico a outra pessoa naquilo que agora sabemos ser organizao 
complexa e multidimensional de tal caso, com razo nos seria perguntado como foi que um camelo como esse passou pelo buraco da agulha. Pois h certa justificativa 
em falarmos num "desfiladeiro" da conscincia. O termo ganha sentido e vida para um mdico que conclua uma anlise como essa. Apenas uma nica lembrana de cada 
vez consegue entrar na conscincia do ego. O paciente que esteja ocupado em elaborar tal lembrana nada v daquilo que a est empurrando e se esquece do que j conseguiu 
entrar. Quando h dificuldades em dominar essa lembrana patognica isolada - como, por exemplo, quando o paciente no relaxa sua resistncia contra ela, quando 
tenha recalc-la ou mutil-la - ento o desfiladeiro fica, por assim dizer, bloqueado. O trabalho fica paralisado, nada mais consegue aparecer, e a lembrana isolada 
que est no processo de atravessar permanece diante do paciente at que ele a tenha absorvido na amplitude de seu ego. Toda a massa especialmente ampliada de material 
psicognico  assim impelida atravs de uma fenda estreita e chega  conscincia, por assim dizer, retalhada em pedaos ou tiras. Cabe ao psicoterapeuta voltar a 
reunir estes ltimos na organizao que ele presuma ter existido. Qualquer um que sinta atrao por novas analogias poder pensar, a essa altura, num quebra-cabeas 
chins.
         Se tivermos que iniciar uma anlise assim, em que tenhamos razes para esperar uma organizao do material patognico como essa, seremos ajudados pelo que 
nos ensinou a experincia, ou seja, que  inteiramente intil tentar penetrar direto no ncleo da organizao patognica. Ainda que ns mesmos pudssemos adivinh-lo, 
o paciente no saberia o que fazer com a explicao a ele oferecida e no seria psicologicamente modificado por ela.
         No h nada a fazer seno manter-se, a princpio, na periferia da estrutura psquica. Comeamos por fazer com que o paciente nos diga aquilo que sabe e 
lembra, enquanto, ao mesmo tempo, j vamos direcionando sua ateno e superando suas resistncias mais leves pelo uso da tcnica da presso. Sempre que tivermos 
aberto um novo caminho pressionando-lhe a testa, podemos esperar que ele avance mais um pouco sem nova resistncia.
         Depois de trabalharmos assim por algum tempo, em geral, o paciente comea a cooperar conosco. Muitas reminiscncias passam ento a lhe ocorrer sem que tenhamos 
de fazer-lhe perguntas ou fixar-lhe tarefas. O que fizemos foi abrir caminho para uma camada interna dentro da qual o paciente agora dispe espontaneamente de um 
material ligado a um grau idntico de resistncia. O melhor  permitir-lhe, por algum tempo, reproduzir esse material sem ser influenciado.  verdade que ele prprio 
no est em condies de desvendar ligaes importantes, mas se pode deixar que elucide o material que est dentro da mesma camada. As coisas que ele traz  tona 
dessa maneira parecem muitas vezes desconexas, mas fornecem um material que ganhar sentido quando mais tarde se descobrir uma ligao.
         Nesse ponto, em geral temos de nos prevenir contra duas coisas. Se interferirmos com o paciente em sua reproduo das idias que nele esto jorrando, poderemos 
"enterrar" coisas que depois tero de ser liberadas com grande dificuldade. Por outro lado, no devemos superestimar a "inteligncia" inconsciente do paciente e 
deixar a cargo dela a direo de todo o trabalho. Se eu quisesse fornecer um quadro diagramtico de nosso modo de operao, diria talvez que ns mesmos empreendemos 
a abertura das camadas internas, avanando radialmente, enquanto o paciente cuida da extenso perifrica do trabalho.
         Os progressos so conseguidos, como sabemos, pela superao da resistncia, na forma j assinalada. Mas antes disso temos, em geral, outra tarefa a executar. 
Precisamos apoderar-nos de um pedao do fio lgico, pois  apenas atravs de sua orientao que podemos ter esperana de penetrar no interior. No podemos esperar 
que as comunicaes livres feitas pelo paciente, o material proveniente das camadas mais superficiais, facilitem ao analista reconhecer em que pontos o caminho conduz 
s profundezas ou onde ele ir encontrar os pontos de partida das ligaes de idias que est procurando. Pelo contrrio.  precisamente isso que  ocultado com 
cuidado; o relato feito pelo paciente soa como se fosse completo e auto-suficiente. De incio,  como se estivssemos diante de um muro que obstrui toda a perspectiva 
e nos impede de ter qualquer idia de haver ou no algo atrs dele e, em caso afirmativo, o qu.
         Mas se examinarmos com viso crtica o relato que o paciente nos fez sem muito esforo ou resistncia, nele descobriremos infalivelmente lacunas e imperfeies. 
Em determinado ponto, a seqncia de idias ser visivelmente interrompida e remendada da melhor forma possvel pelo paciente, com um recurso de linguagem ou uma 
explicao inadequada; noutro ponto depararemos com uma motivao que teria de ser descrita como dbil numa pessoa normal. O paciente no reconhece essas deficincias 
quando sua ateno  chamada para elas. Mas o mdico ter razo em procurar atrs dos pontos fracos uma abordagem para o material das camadas mais profundas e em 
esperar descobrir precisamente ali os fios de ligao que est buscando por meio da tcnica da presso. Por conseguinte, dizemos ao paciente: "Voc est enganado; 
o que voc est formulando no pode ter nada a ver com o assunto atual. Devemos esperar encontrar a alguma outra coisa, e isso lhe ocorrer sob a presso de minha 
mo."
         Pois podemos fazer a um paciente histrico as mesmas exigncias de ligao lgica e motivao suficiente na cadeia de idias, mesmo que se estenda at o 
inconsciente, que faramos a um individuo normal. No est dentro das possibilidades de uma neurose relaxar essas relaes. Se nos pacientes neurticos, e particularmente 
nos histricos, as cadeias de idias produzem uma impresso diferente, se neles a relativa intensidade das diferentes idias se afigura inexplicvel apenas por determinantes 
psicolgicos,j descobrimos a razo disso e podemos atribu-la  existncia de motivos inconscientes ocultos. Podemos assim suspeitar da presena de tais motivos 
secretos sempre que esse tipo de interrupo numa cadeia de idias se torna evidente, ou quando a fora atribuda pelo paciente a seus motivos vai muito alm do 
normal.
         Ao executarmos esse trabalho,  claro, devemos manter-nos isentos do preconceito terico de estarmos lidando com os crebros anormais de "dgnrs" e "dsquilibrs", 
que esto livres, graas a um estigma, para lanar por terra as leis psicolgicas comuns que regem a ligao das idias, e nos quais uma nica idia fortuita pode 
tornar-se exageradamente intensa sem nenhum motivo, enquanto outra pode permanecer indestrutvel sem nenhuma razo psicolgica. A experincia demonstra que o contrrio 
se aplica  histeria. Uma vez que descubramos os motivos ocultos, que muitas vezes permaneceram inconscientes, e os levemos em conta, nada de enigmtico ou contrrio 
s normas persiste nas ligaes de pensamento histricos, no mais do que nas normais.
         Dessa forma, portanto, detectando lacunas na primeira descrio do paciente, lacunas muitas vezes encobertas por "falsas ligaes" |ver mais adiante, ver 
em [1]-[2]|, apoderamo-nos de um pedao do fio lgico na periferia e, a partir desse ponto, desobstrumos mais um caminho pela tcnica da presso.
         Ao faz-lo,  muito raro conseguirmos abrir caminho diretamente para o interior atravs de um nico fio. Em geral, ele se rompe a meio caminho: a presso 
falha e no produz nenhum resultado, ou ento produz um resultado que no pode ser esclarecido ou levado adiante, apesar de todos os esforos. Logo aprendemos, quando 
isso acontece, a evitar os erros em que poderamos incorrer. A expresso facial do paciente dever determinar se chegamos mesmo ao fim, ou se se trata de uma situao 
que no exige nenhuma elucidao psquica, ou se o que levou o trabalho a uma paralisao  uma resistncia excessiva. Neste ltimo caso, se no pudermos superar 
de imediato a resistncia, poderemos presumir que seguimos o fio at uma camada que, por enquanto, ainda  impenetrvel. Abandonamo-lo e tomamos outro fio, que talvez 
possamos seguir at a mesma distncia. Quando tivermos atingido essa camada percorrendo todos os fios e tivermos descoberto os emaranhados em virtude dos quais os 
fios separados no puderam ser isoladamente seguidos at mais longe, poderemos pensar em atacar de novo a resistncia diante de ns.
          fcil imaginar at que ponto um trabalho dessa natureza pode tornar-se complexo. Foramos nossa entrada nas camadas internas, superando resistncias todo 
o tempo; travamos conhecimento com os temas acumulados numa dessas camadas e com os fios que a atravessam, e experimentamos at que ponto podemos avanar com nossos 
meios atuais e os conhecimentos que adquirimos; obtemos informaes preliminares sobre o contedo das camadas seguintes por meio da tcnica da presso; abandonamos 
fios e os retomamos;seguimo-los at os pontos nodais; constantemente voltamos atrs; e toda vez que perseguimos um acervo de lembranas, somos conduzidos a algum 
desvio que, no obstante, termina por confluir para o fio inicial. Por esse mtodo, chegamos afinal a um ponto em que podemos parar de trabalhar em camadas e podemos 
penetrar, por uma trilha principal, diretamente no ncleo da organizao patognica. Com isso a luta est vencida, embora ainda no esteja terminada. Devemos retroceder 
e retomar outros fios e esgotar o material. Mas agora o paciente nos ajuda vigorosamente. A maior parte de sua resistncia foi quebrada.
         Nessas etapas finais do trabalho convm que possamos adivinhar o modo como as coisas se interligam e diz-lo ao paciente antes que o desvendemos. Se tivermos 
adivinhado certo, o curso da anlise ser acelerado; mas at mesmo uma hiptese errada nos ajuda a prosseguir, compelindo o paciente a tomar partido e induzindo-o 
a negativas enrgicas que traem seu indubitvel conhecimento.
         Disso aprendemos com admirao que no estamos em condies de impor nada ao paciente sobre as coisas que ele aparentemente ignora, nem de influenciar os 
produtos da anlise pela provocao de expectativas. Nem uma s vez consegui, ao prever algo, alterar ou falsificar a reproduo das lembranas ou a ligao dos 
acontecimentos, pois se o tivesse feito, isso inevitavelmente teria sido trado no final por alguma contradio no material. Quando algo mostrava ser tal como eu 
o previra, nunca se deixava de comprovar por um grande nmero de reminiscncias indiscutveis que eu no fizera nada alm de adivinhar certo. No precisamos ter 
medo, portanto, de dizer ao paciente qual pensamos que ser sua prxima associao de idias; isso no causar nenhum dano.
         Outra observao, constantemente repetida, relaciona-se com as reprodues espontneas do paciente. Pode-se afirmar que toda reminiscncia isolada que emerge 
durante uma dessas anlises tem importncia. A rigor, a intromisso de imagens mnmicas irrelevantes (que estejam associadas por acaso, de uma forma ou de outra, 
s imagens importantes) jamais ocorre. Uma exceo que no contradiz essa regra pode ser postulada quanto s lembranas que, apesar de destitudas de importncia 
em si mesmas, so indispensveis como pontes, no sentido de que a associao entre duas lembranas importantes s pode ser feita atravs delas.
         O prazo durante o qual uma lembrana permanece no estreito desfiladeiro diante da conscincia do paciente est, como j foi explicado | ver em [1]|, em 
proporo direta com sua importncia. Uma imagem que se recusa a desaparecer  uma imagem que ainda exige considerao, um pensamento que no pode ser afastado  
um pensamento que precisa ser mais explorado. Alm disso, uma lembrana nunca retorna uma segunda vez depois de ter sido trabalhada; a imagem que foi "eliminada 
pela fala" no volta a ser vista. Quando, no obstante, isso de fato acontece, podemos presumir com segurana que, na segunda vez, a imagem ser acompanhada de um 
novo grupo de pensamentos, ou a idia ter novas implicaes. Em outras palavras, estes no foram trabalhados por completo. Alm disso,  freqente uma imagem ou 
um pensamento reaparecerem com diferentes graus de intensidade, primeiro como um indcio e depois com total clareza. Isso, entretanto, no contradiz o que acabo 
de afirmar.
         Entre as tarefas apresentadas pela anlise encontra-se a de eliminar os sintomas passveis de aumentar de intensidade ou retornar: dores, sintomas (como 
vmitos) causados por estmulos, sensaes ou contraturas. Enquanto trabalhamos num desses sintomas defrontamo-nos com o fenmeno interessante e no indesejvel 
da "participao na conversa". O sintoma problemtico reaparece, ou aparece com maior intensidade, to logo alcanamos a regio da organizao patognica que contm 
a etiologia do sintoma, e da por diante ele acompanha o trabalho com oscilaes caractersticas, que so instrutivas para o mdico. A intensidade do sintoma (tomemos 
como exemplo o desejo de vomitar) aumenta quanto mais profundamente penetramos numa das lembranas patognicas pertinentes; atinge seu clmax pouco antes de o paciente 
enunciar essa lembrana; e, depois que ele termina de faz-lo, diminui de sbito ou at desaparece por completo durante algum tempo. Quando, graas  resistncia, 
o paciente demora muito tempo para dizer algo, a tenso da sensao - do desejo de vomitar - torna-se insuportvel e, se no conseguirmos for-lo a falar, ele comear 
mesmo a vomitar. Assim obtemos uma impresso plstica do fato de que o "vomitar" toma o lugar de um ato psquico (nesse exemplo, o ato de proferir), exatamente como 
sustenta a teoria conversiva da histeria.
         Essa oscilao de intensidade do sintoma histrico  repetida toda vez que nos aproximamos de uma nova lembrana que  patognica em relao a ele. O sintoma, 
poderamos dizer, est nos planos o tempo todo. Quando somos obrigados a abandonar temporariamente o fio a que est ligado, tambm esse sintoma recua para a obscuridade, 
para tornar a emergir num perodo posterior da anlise. Isso continua at que a elaborao do material patognico tenha eliminado o sintoma de uma vez por todas.
         
         Em tudo isso, a rigor, o sintoma histrico de modo algum se comporta de modo diferente da imagem mnmica ou da idia reproduzida que invocamos sob a presso 
da mo. Em ambos os casos encontramos a mesma recorrncia obsessivamente pertinaz na lembrana do paciente, que tem de ser eliminada. A diferena est apenas no 
surgimento aparentemente espontneo dos sintomas histricos, ao passo que, como nos recordamos muito bem, ns mesmos provocamos as cenas e idias. De fato, contudo, 
h uma seqncia ininterrupta que se estende desde os resduos mnmicos no modificados das experincias e atos de pensamento afetivos at os sintomas histricos, 
que so smbolos mnmicos dessas experincias e pensamentos.
         O fenmeno dos sintomas histricos que participam da conversa durante a anlise envolve um inconveniente de ordem prtica, com o qual devemos poder reconciliar 
o paciente.  inteiramente impossvel efetuar a anlise de um sintoma de uma s vez, ou distribuir os intervalos de nosso trabalho de modo a se ajustarem com preciso 
s pausas no processo de lidar com o sintoma. Ao contrrio, algumas interrupes que so prescritas de forma imperativa por circunstncias incidentais no tratamento, 
tais como o adiantado da hora, muitas vezes ocorrem nos pontos mais inconvenientes, exatamente quando nos podemos estar aproximando de uma deciso ou quando surge 
um novo tpico. Qualquer leitor de jornal tem a mesma desvantagem ao ler o captulo dirio de sua histria seriada, quando, logo aps a fala decisiva da herona, 
ou depois de o tiro haver ecoado, ele se defronta com as palavras: "Continua no prximo nmero." Em nosso prprio caso, o tpico que foi levantado, mas no abordado, 
o sintoma que temporariamente se intensificou e ainda no foi explicado, persiste na mente do paciente e talvez possa perturb-lo mais do que fazia at ento. Ele 
ter apenas que lidar com isso da melhor forma possvel, pois no existe outra maneira de organizar as coisas. H pacientes que, no curso de uma anlise, simplesmente 
no conseguem livrar-se de um tpico que tenha sido levantado e ficam obcecados por ele no intervalo entre duas sesses; visto que, por si mesmos, no podem tomar 
nenhuma providncia no sentido de se livrarem dele, sofrem mais, a princpio, do que antes do tratamento. Mas mesmo tais pacientes acabam aprendendo a esperar pelo 
mdico e a deslocar todo o interesse que sentem por se livrarem do material patognico para os horrios das sesses, aps as quais comeam a se sentir mais livres 
nos intervalos.
         
         O estado geral dos pacientes durante essas anlises tambm merece ateno. Por algum tempo ele no  influenciado pelo tratamento e continua a ser uma expresso 
dos fatores que atuavam antes. Mas depois surge um momento em que o tratamento se apodera do paciente, capta seu interesse. Da por diante, seu estado geral se torna 
cada vez mais dependente do desenvolvimento do trabalho. Sempre que uma coisa nova  elucidada ou se atinge um estgio importante do processo da anlise, tambm 
o paciente se sente aliviado e desfruta de um antegozo, por assim dizer, da sua libertao iminente. Todas as vezes que o trabalho se paralisa e h uma ameaa de 
confuso, aumenta o fardo psquico que oprime o paciente, e seu sentimento de infelicidade e sua incapacidade para o trabalho se tornam mais intensos. Mas nenhuma 
dessas coisas dura mais do que um curto perodo, pois a anlise continua, sem se vangloriar pelo fato de num dado momento o paciente sentir-se bem, e prosseguindo 
independentemente dos perodos de tristeza do paciente. Ficamos satisfeitos, em geral, quando substitumos as oscilaes espontneas de seu estado por oscilaes 
que ns mesmos provocamos e que compreendemos, da mesma forma que ficamos satisfeitos ao ver a sucesso espontnea dos sintomas substituda por uma ordem do dia 
que corresponde ao estado da anlise.
         De incio, o trabalho torna-se mais obscuro e difcil, em geral, quanto mais profundamente penetramos na estrutura psquica estratificada que descrevi atrs. 
Porm, uma vez que tenhamos, pelo trabalho, chegado at o ncleo, a luz aparece, e no precisamos temer que o estado geral do paciente fique sujeito a nenhum perodo 
grave de depresso. Entretanto, a recompensa de nossos esforos - a cessao dos sintomas - s pode ser esperada depois de termos efetuado a anlise completa de 
cada sintoma individual; e a rigor, j que os sintomas individuais so interligados em numerosos pontos nodais, nem sequer devemos ser estimulados durante o trabalho 
pelos xitos parciais. Graas s abundantes ligaes causais, toda representao patognica que ainda no tenha sido eliminada atua como uma motivao para a totalidade 
dos produtos da neurose, e  apenas com a ltima palavra da anlise que todo o quadro clnico desaparece, tal como ocorre com as lembranas reproduzidas de forma 
individual.
         Quando uma lembrana patognica ou uma ligao patognica antes retirada da conscincia do ego  revelada pelo trabalho da anlise e introduzida no ego, 
verificamos que a personalidade psquica assim enriquecida tem vrias maneiras de expressar-se quanto ao que adquiriu.  particularmente freqente, depois de havermos 
imposto com esforo algum conhecimento ao paciente, ouvi-lo declarar: "Eu sempre soube disso, poderia ter-lhe dito antes." Os que so dotados de certo grau de discernimento 
reconhecem, mais tarde, que essa  uma forma de enganarem a si mesmos e se culpam por serem ingratos. Afora isso, a atitude adotada pelo ego quanto a sua nova aquisio 
costuma depender da camada de anlise da qual se origina essa aquisio. As coisas que pertencem s camadas externas so reconhecidas sem dificuldades; haviam, de 
fato, permanecido sempre em poder do ego, e a nica novidade para o ego  a ligao delas com as camadas mais profundas do material patolgico. As coisas que so 
trazidas  luz dessas camadas mais profundas tambm so reconhecidas e admitidas, porm muitas vezes s depois de considerveis hesitaes e dvidas. As imagens 
mnmicas visuais so, naturalmente, mais difceis de ser renegadas do que os traos mnmicos de simples cadeias de pensamentos. No  raro o paciente comear por 
dizer: " possvel que eu tenha pensado nisso, mas no consigo me lembrar." E no  seno depois de ter-se familiarizado com a hiptese h algum tempo que ele vem 
a reconhec-la tambm; ele se recorda - e confirma tambm esse fato por vnculos secundrios - de que realmente, certa vez, a idia lhe ocorreu. Durante a anlise, 
porm, adoto como norma reservar minha avaliao da reminiscncia que surge independente do reconhecimento da mesma pelo paciente. Jamais me cansei de repetir que 
somos forados a aceitar tudo o que nossa tcnica traz  luz. Se houver algo nela que no seja autntico ou correto, mas tarde o contexto nos dir para rejeit-lo. 
Mas, posso dizer de passagem que raramente tive ocasio de renegar, mais tarde, uma reminiscncia aceita de modo provisrio. Tudo o que emergiu, a despeito da mais 
enganosa aparncia de ser contradio gritante, acabou por revelar-se correto.
         As representaes que se originam das camadas mais profundas e que formam o ncleo da organizao patognica so tambm aquelas que so reconhecidas com 
extrema dificuldade como lembranas pelo paciente. Mesmo quando tudo termina e os pacientes so dominados pela fora da lgica e convencidos pelo efeito teraputico 
que acompanha o surgimento precisamente dessas representaes - quando, digo eu, os prprios pacientes aceitam o fato de terem pensado isso ou aquilo, muitas vezes 
acrescentam: "Mas eu no consigo me lembrar de ter pensado isso."  fcil chegar a um acordo com eles dizendo-lhes que os pensamentos estavam inconscientes. Mas 
como enquadrar esse estado de coisas em nossas prprias concepes psicolgicas? Devemos desprezar essa negao de reconhecimento por parte dos pacientes, quando, 
agora que o trabalho terminou, no existe mais nenhum motivo para que eles ajam dessa forma? Ou devemos supor que estamos de fato lidando com pensamentos que nunca 
ocorreram, que meramente tiveram uma possibilidade de existir, de modo que o tratamento consistiria na realizao de um ato psquico que no se verificou na poca? 
 claro que  impossvel dizer qualquer coisa a esse respeito - isto , sobre o estado em que se encontrava o material patognico antes da anlise - at que tenhamos 
chegado a uma elucidao completa de nossas concepes psicolgicas bsicas, em especial quanto  natureza da conscincia. Resta, penso eu, como elemento digno de 
sria considerao, o fato de que em nossas anlises podemos seguir uma cadeia de pensamentos desde o consciente at o inconsciente (isto , at algo que de modo 
algum  reconhecido como uma lembrana), de que podemos mais uma vez acompanh-la por certa distncia atravs da conscincia, e de que podemos v-la terminar de 
novo no inconsciente, sem que essa alternncia de "revelao psquica" cause qualquer modificao na prpria cadeia de pensamentos, em sua coerncia lgica e na 
interligao entre suas vrias partes. Uma vez que essa cadeia de pensamentos se colocasse diante de mim como um todo, eu no seria capaz de adivinhar qual de suas 
partes seria reconhecida pelo paciente como lembrana e qual no o seria. Vejo apenas, por assim dizer, os cumes da cadeia de pensamentos mergulhando no inconsciente 
- o inverso do que foi afirmado quanto a nossos processos psquicos normais.
         
         Por fim, tenho de examinar mais outro tpico, que desempenha um papel indesejavelmente grande na conduo de anlises catrticas como essas. J admiti | 
ver em [1]| a possibilidade de a tcnica de presso falhar, de no suscitar nenhuma reminiscncia, apesar de toda a garantia e insistncia. Quando isso acontece, 
disse eu, h duas possibilidades: ou, no ponto que estamos investigando, no h mesmo nada mais a ser encontrado - e isso  algo que podemos reconhecer pela completa 
serenidade da expresso facial do paciente -, ou esbarramos numa resistncia que s poder ser superada mais tarde, estamos diante de uma nova camada em que ainda 
no podemos penetrar - e isso, mais uma vez,  algo que podemos inferir da expresso facial do paciente, que se acha tensa e d mostras de esforo mental | ver em 
[1]|. Mas existe ainda uma terceira possibilidade que da mesma forma testemunha a presena de obstculo, porm um obstculo externo, e no inerente ao material. 
Isso acontece quando a relao entre o paciente e o mdico  perturbada e constitui o pior obstculo com que podemos deparar. No entanto, podemos esperar encontr-lo 
em qualquer anlise relativamente sria.
         J indiquei | ver em [1]-[2]| o importante papel desempenhado pela figurado mdico na criao de motivos para derrotar a fora psquica da resistncia. 
No so poucos os casos, especialmente com as mulheres e quando se trata de elucidar cadeias de pensamento erticas, em que a cooperao do paciente se torna um 
sacrifcio pessoal, que deve ser compensado por algum substituto do amor. O empenho do mdico e sua cordialidade tm que bastar na condio desse substituto. Ora, 
quando essa relao entre a paciente e o mdico  perturbada, a cooperao da primeira tambm falha; quando o mdico tenta investigar a representao patognica 
seguinte, o paciente  retido pela interposio da conscincia das queixas que nele se acumulam contra o mdico. Em minha experincia, esse obstculo surge em trs 
casos principais.
         (1) Quando h uma desavena pessoal - quando, por exemplo, a paciente acha que foi negligenciada, muito pouco apreciada ou insultada, ou quando ouve comentrios 
desfavorveis sobre o mdico ou sobre o mtodo de tratamento. Esse  o caso menos grave. O obstculo pode ser superado com facilidade por meio da discusso e da 
explicao, muito embora a sensibilidade e a desconfiana dos pacientes histricos possam s vezes atingir dimenses surpreendentes.
         (2) Quando a paciente  tomada pelo pavor de ficar por demais acostumada com o mdico em termos pessoais, de perder sua independncia em relao a ele, 
e at, quem sabe, de tornar-se sexualmente dependente dele. Esse  um caso mais importante, pois seus determinantes so menos individuais. A causa desse obstculo 
reside na especial solicitude que  inerente ao tratamento. A paciente tem ento um novo motivo para a resistncia, que se manifesta no s em relao a alguma reminiscncia 
especfica, mas a qualquer tentativa de tratamento.  muito comum a paciente se queixar de dor de cabea ao iniciarmos a tcnica da presso, pois em geral seu novo 
motivo para a resistncia permanece inconsciente, expressando-se por meio de um novo sintoma histrico. A dor de cabea indica que ela no gosta de se deixar influenciar.
         (3) Quando a paciente se assusta ao verificar que est transferindo para a figura do mdico as representaes aflitivas que emergem do contedo da anlise. 
Essa  uma ocorrncia freqente e, a rigor, usual em algumas anlises. A transferncia para o mdico se d por meio de uma falsa ligao. Preciso fornecer um exemplo 
disso. Numa de minhas pacientes, a origem de um sintoma histrico especfico estava num desejo, que ela tivera muitos anos antes e relegara de imediato ao inconsciente, 
de que o homem com quem conversava na ocasio ousasse tomar a iniciativa de lhe dar um beijo. Numa ocasio, ao fim de uma sesso, surgiu nela um desejo semelhante 
a meu respeito. Ela ficou horrorizada com isso, passou uma noite insone e, na sesso seguinte, embora no se recusasse a ser tratada, ficou inteiramente inutilizada 
para o trabalho. Depois de eu haver descoberto e removido o obstculo, o trabalho prosseguiu e, vejam s!, o desejo que tanto havia assustado a paciente surgiu como 
sua prxima lembrana patognica, aquela que era exigida pelo contexto lgico imediato. O que aconteceu, portanto, foi isto: o contedo do desejo apareceu, antes 
de mais nada, na conscincia da paciente, sem nenhuma lembrana das circunstncias contingentes que o teriam atribudo a uma poca passada. O desejo assim presente 
foi ento, graas  compulso a associar que era dominante na conscincia da paciente, ligado a minha pessoa, na qual a paciente estava legitimamente interessada; 
e como resultado dessa msalliance - que descrevo como uma "falsa ligao" - provocou-se o mesmo afeto que forara a paciente, muito tempo antes, a repudiar esse 
desejo proibido. Desde que descobri isso, tenho podido, todas as vezes que sou pessoalmente envolvido de modo semelhante, presumir que uma transferncia e uma falsa 
ligao tornaram a ocorrer. Curiosamente, a paciente volta a ser enganada todas as vezes que isso se repete.
          impossvel concluir qualquer anlise a menos que saibamos como enfrentar a resistncia que surge por essas trs maneiras. Mas podemos encontrar um meio 
de faz-lo se resolvermos que esse novo sintoma, produzido com base no modelo antigo, deve ser tratado da mesma forma que os sintomas antigos. Nossa primeira tarefa 
 tornar o "obstculo" consciente para o paciente. Numa de minhas pacientes, por exemplo, de repente a tcnica da presso falhou. Eu tinha razes para supor que 
havia uma representao inconsciente do tipo antes mencionado no item (2), e tentei primeiro lidar com essa representao pegando a paciente de surpresa. Disse-lhe 
que deveria ter surgido algum obstculo  continuao do tratamento, mas que a tcnica da presso tinha pelo menos o poder de mostrar-lhe qual era esse obstculo; 
pressionei sua cabea e ela disse, admirada: "Estou vendo o senhor sentado aqui na cadeira, mas isso  absurdo. Que pode significar?" Pude ento dar-lhe os esclarecimentos. 
Numa outra paciente, o "obstculo" costumava no aparecer diretamente como resultado de minha presso, mas eu sempre conseguia descobri-lo levando a paciente de 
volta ao momento em que ele se havia originado. A tcnica da presso jamais deixou de nos trazer de volta esse momento. Quando o obstculo era descoberto e demonstrado, 
a primeira dificuldade era removida do caminho. Mas persistia outra maior, que estava em induzir a paciente a produzir informaes que dissessem respeito a relaes 
aparentemente pessoais e onde a terceira pessoa coincidisse com a figura do mdico.
         A princpio, fiquei muito aborrecido com esse aumento de meu trabalho psicolgico, at que percebi que o processo inteiro obedecia a uma lei; e ento notei 
tambm que esse tipo de transferncia no trazia nenhum aumento significativo para o que eu tinha de fazer. Para a paciente, o trabalho continuava a ser o mesmo: 
ela precisava superar o afeto aflitivo despertado por ter sido capaz de alimentar aquele desejo sequer por um momento; e parecia no fazer nenhuma diferena para 
o xito do tratamento que ela fizesse desse repdio psquico o tema de seu trabalho no contexto histrico, ou na recente situao relacionada comigo. Aos poucos, 
tambm os pacientes aprenderam a compreender que nessas transferncias para a figura do mdico tratava-se de uma compulso e de uma iluso que se dissipavam com 
a concluso da anlise. Creio, porm, que se lhes tivesse deixado de esclarecer a natureza do "obstculo", eu simplesmente lhes teria dado um novo sintoma histrico 
- embora,  verdade, mais brando - em troca de outro que fora espontaneamente gerado.
         
         J forneci indicaes suficientes, penso eu, da maneira pela qual essas anlises foram efetuadas e das observaes que fiz no decorrer das mesmas. O que 
disse talvez faa com que algumas coisas paream mais complicadas do que so. Muitos problemas se solucionam quando nos descobrimos empenhados nesse trabalho. No 
enumerei as dificuldades do trabalho para criar a impresso de que, em vista das exigncias que a anlise catrtica impe tanto ao mdico como ao paciente, s vale 
a pena empreend-la em casos extremamente raros. Permito que minhas atividades mdicas sejam regidas pela suposio contrria, embora eu no possa,  verdade, formular 
as indicaes mais definidas para a aplicao do mtodo teraputico descrito nestas pginas sem entrar num exame do ponto mais importante e abrangente do tratamento 
das neuroses em geral. Em minha prpria mente, tenho muitas vezes comparado a psicoterapia catrtica com a interveno cirrgica. Tenho descrito meus tratamentos 
como operaes psicoteraputicas e tenho exposto sua analogia com a abertura de uma cavidade cheia de pus, a raspagem de um regio cariada, etc. Uma analogia como 
essa justifica-se menos pela remoo do que  patolgico do que pela criao de condies que tenham maior probabilidade de conduzir o avano do processo no sentido 
de recuperao.
         Quando prometo a meus pacientes ajuda ou melhora por meio de um tratamento catrtico, muitas vezes me defronto com a seguinte objeo: "Ora, o senhor mesmo 
me diz que minha doena provavelmente est relacionada com as circunstncias e os acontecimentos de minha vida. O senhor, de qualquer maneira, no pode alter-los. 
Como se prope ajudar-me, ento?" E tem-me sido possvel dar esta resposta: "Sem dvida o destino acharia mais fcil do que eu alivi-lo de sua doena. Mas voc 
poder convencer-se de que haver muito a ganhar se conseguirmos transformar seu sofrimento histrico numa infelicidade comum. Com uma vida mental restituda  sade, 
voc estar mais bem armado contra essa infelicidade."
         
       
       
       
       
       APNDICE A:  A CRONOLOGIA DO CASO DA SRA. EMMY VON N.
         
         
         Existem srias incoerncias nas datas do caso clnico da Sra. Emmy von N. apresentadas em todas as edies alems da obra e reproduzidas na presente traduo. 
O incio do primeiro perodo de tratamento da Sra. Emmy por Freud  atribudo duplamente a maio de 1889 em [1]. Esse perodo durou cerca de sete semanas (ver em 
[1]). Seu segundo perodo de tratamento comeou exatamente um ano aps o primeiro, isto , em maio de 1890. Tal perodo durou umas oito semanas (ver em [1]). Freud 
visitou a Sra. Emmy em sua propriedade do Bltico na primavera do ano seguinte (ver em [1]), isto , 1891. A primeira contradio dessa cronologia aparece em [1], 
onde a data dessa visita  indicada como maio de 1890. Esse novo sistema de datao  mantido em pontos posteriores. Em [1] Freud atribui um sintoma surgido no segundo 
perodo de tratamento ao ano de 1899, e por duas vezes atribui sintomas que surgiram no primeiro perodo de tratamento ao ano de 1888. No entanto, recorre a seu 
sistema original em [1], onde indica a data de sua visita  propriedade do Bltico como 1891.
         H uma evidncia em favor da primeira cronologia - isto , a que atribui o primeiro tratamento da Sra. Emmy por Freud ao ano de 1888. Em [1] ele observa 
que foi enquanto estudava as abulias dessa paciente que comeou pela primeira vez a ter srias dvidas sobre a validade da assero de Bernheim de que "a sugesto 
 tudo". Externou essas mesmas dvidas energicamente em seu prefcio a sua traduo do livro de Bernheim sobre a sugesto (Freud, 1888-9), e somos informados, numa 
carta a Fliess de 29 de agosto de 1888 (1950a, Carta 5), de que ele j terminara o prefcio naquela data. Tambm nessa carta escreve ele: "No partilho das opinies 
de Bernheim, que me parecem unilaterais." Se as dvidas de Freud foram indicadas pela primeira vez pelo tratamento da Sra. Emmy, esse tratamento deve ter tido incio, 
portanto, em maio de 1888, e no de 1889.
         A propsito, essa correo esclareceria uma incoerncia no relato aceito de algumas das atividades de Freud aps seu retorno a Paris, na primavera de 1886. 
Em seu Estudo Autobiogrfico (1925d, Captulo II) ele observa que, ao utilizar o hipnotismo, empregou-o "desde o comeo" no s para dar sugestes teraputicas, 
mas tambm com a finalidade de rastrear a histria do sintoma at suas origens - desde o comeo, em outras palavras, ele usouo mtodo catrtico de Breuer. Sabemos 
por uma carta a Fliess, de 28 de dezembro de 1887 (1950a, Carta 2), que foi em fins daquele ano que ele comeou a dedicar-se ao hipnotismo; j em [1] e [2] do presente 
volume, ele nos diz que o caso da Sra. Emmy foi o primeiro em que tentou manejar o procedimento tcnico de Breuer. Se, portanto, esse caso data de maio de 1889, 
houve um intervalo de no mnimo dezesseis meses entre os dois fatos, e, como observa o Dr. Ernest Jones (no Vol. I de sua biografia, 1953, pg. 63, edio inglesa), 
a memria de Freud era pouco precisa quando ele empregava a expresso "desde o comeo". No entanto, se a data do tratamento da Sra. Emmy fosse antecipada para maio 
de 1888, essa lacuna ficaria reduzida a apenas uns quatro ou cinco meses.
         A questo se encerraria caso fosse possvel demonstrar que Freud esteve fora de Viena por um perodo longo o bastante para cobrir uma visita  Livnia (ou 
qualquer pas que este possa ter representado) durante o ms de maio de 1890 ou de 1891. Mas, infelizmente, as cartas que ainda existem daquele perodo no oferecem 
qualquer prova de tal ausncia.
         A questo torna-se ainda mais obscura em virtude de outra incoerncia. Num nota de rodap em [1], Freud comenta sobre a enorme eficcia de algumas de suas 
sugestes feitas durante o primeiro perodo de tratamento (a rigor, em 11 de maio de 1888 ou 1889). A amnsia ento produzida por ele, em suas palavras, ainda estava 
atuante "dezoito meses depois". Isso por certo se refere  poca de sua visita  propriedade campestre da Sra. Emmy, pois, em seu relato dessa visita, ele volta 
a mencionar tal episdio. Ali, contudo, fala das sugestes originais como se fossem feitas "dois anos antes". Se a visita  propriedade se deu em maio de 1890 ou 
de 1891, os "dois anos" devem estar certos e os "dezoito meses" devem ter sido um lapso.
         Mas essas contradies repetidas sugerem outra possibilidade. H motivos para crer que Freud alterou o local da residncia da Sra. Emmy. No ter ele, como 
uma precauo extra para no trair a identidade de sua paciente, alterado tambm a poca do tratamento, mas falhado em manter essas alteraes coerentemente at 
o fim? Toda essa questo permanece em aberto.
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       APNDICE B: LISTA DE OBRAS DE FREUD QUE TRATAM PRINCIPALMENTE DA HISTERIA DE CONVERSO
         
         
         |Na lista que se segue, a data no incio de cada ttulo  a do ano em que a obra em questo provavelmente foi escrita. A data no final  a da publicao; 
a consulta a essa data na Bibliografia e ndice Remissivo de Autores fornecer maiores detalhes sobre a obra em questo. Os ttulos entre colchetes foram publicados 
postumamente.|
         
         |1886        "Observao de um Caso Grave de Hemianestesia num Homem Histrico." (1886d)|
         1888        "Histeria", em Handwoerterbuch, de Villaret. (1888b)
         1892        "Carta a Josef Breuer." (1941a)
         |1892        "Sobre a Teoria dos Ataques Histricos." (Com Breuer.)        (1940d)|
         |1892        "Rascunho III". (1941b)|
         1892        "Um Caso de Cura pelo Hipnotismo." (1892-93)
         1892        "Sobre o Mecanismo Psquico dos Fenmenos         Histricos: Comunicao Preliminar." (Com Breuer.) (1893a)
         1893        "Sobre o Mecanismo Psquico dos Fenmenos         Histricos: Uma Conferncia." (1893h)
         1893        "Consideraes para um Estudo Comparativo das Paralisias Motoras Histricas e Orgnicas." (1893c)
         1894        "As Neuropsicoses de Defesa", Seo I. (1894a)
         1895        Estudos sobre a Histeria. (Com Breuer.) (1895d).
         |1895        "Projeto para uma Psicologia Cientfica", Parte II. (1950a)|
         |1896        "Rascunho K", ltima Seo, (1950a)|
         1896        "Observaes Adicionais sobre as Neuropsicoses de                          Defesa". (1896b)
         1896        "A Etiologia da Histeria." (1896c)
         1901-5         "Fragmento da Anlise de um Caso de Histeria." (1905e)
         1908        "As Fantasias Histricas e sua Relao com a          Bissexualidade." (1908a)
         1909        "Algumas Observaes Gerais sobre os Ataques Histricos." (1909a)
         1909        Cinco Lies de Psicanlise, Lies I e II. (1910a)
         1910        "A Concepo Psicanaltica do Distrbio Psicognico da  Viso." (1910i)
         



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  Estudos sobre a histeria - Josef Breuer & Sigmund Freud
